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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 009 – setembro 1958

Logosofia

W e B  de Belo Horizonte: Que é a Logosofia? Quais as suas principais linhas doutrinárias?

A Logosofia (em grego, Sabedoria da Inteligência) é por seus adeptos apresentada como o sistema mais moderno e eficaz para promover o aperfeiçoamento ético do indivíduo e da sociedade.

1. Como nasceu?

«Sua origem é genuinamente argentina, porém sua grande caudal humanitária tem um só destino: a humanidade» (Pecotche. O Mecanismo da vida consciente, trad., port. Rio de Janeiro 1957,127),

O fundador da escola é Carlos Bernardo González Pecotche (Raumsol), nascido em Buenos Aires no dia 11 de agosto de 1901. Desde cedo enveredou por estudos de Psicologia e Ética, julgando em dado momento haver chegado a conclusões novas nesses setores. Fundou então a «Escola de Logosofia» no ano de 1930, com sede em Córdoba, Transferiu-se em breve para Rosário, onde permaneceu sete anos, indo finalmente estabelecer-se em Buenos Aires no ano de 1939. Da Argentina, a Logosofia passou recentemente para o Brasil, onde conta quatro sedes, com o nome oficial de «Fundação Logosófica».

2. Pecotche anuncia ensinamentos que ele julga muito aptos a transformar o gênero humano em «nova fraternidade universal».

O seu ponto de partida é o monismo ou panteísmo. O que quer dizer: professa haver uma só substância chamada «a Mente Universal» ou «a Vontade Cósmica», «da qual a mente humana é um fragmento» (ob, cit. pág., 40). Essa única substância total — que também tem o nome de «Deus» — está em continua evolução no mundo, pois Evolução, Movimento, Transformação, Adaptação são «Leis Universais que regulam e regem tanto a vida humana como a cósmica» (ib 42). Daí se segue que é a Divindade que vai tomando consciência de si mesma, até atingir a sua consumação, em cada indivíduo humano que se procure aperfeiçoar eticamente. O logósofo, que tem conhecimento disto, concentra consequentemente toda a sua atenção no seu mundo interior; procura ser cada vez mais consciente de si, pois é assim que ele há de conseguir identificar-se cada vez mais com Deus.

Em uma palavra: a Logosofia ó um apelo à reflexão do homem sobre si mesmo, mediante a qual a Divindade (grosseiramente identificada com a substância do mundo e com o próprio homem) aflora à consciência do cada indivíduo.

À luz destas idéias, continua o ensinamento logosófico, -se que é o próprio homem quem forja o seu destino e se redime de suas falhas. Não espera que um Deus pessoal e transcendente lhe venha em auxílio, conferindo-lhe a graça sobrenatural; este dom não lhe é necessário, pois o indivíduo mesmo se pode salvar, «reformando a sua vida e encaminhando-se definitivamente pela senda da evolução consciente, que não admite descuidos reiterados e que reflete, em todos os atos, a positiva decisão de cumprir o supremo mandato do aperfeiçoamento» (cf. ib. pág. 123).

3. Estes traços já caracterizam suficientemente a Logosofia, evidenciando sua discrepância radical em relação ao Cristianismo. Enquanto este ensina a salvação do homem por dom benévolo de Deus, a nova escola inculca que o homem basta a si e nada tem que esperar de um Ser sobrenatural. Tal posição doutrinária é evidentemente errônea; faz do indivíduo humano, em última análise, o seu próprio criador e legislador autônomo, pois o nome de Deus dentro dessa ideologia se torna palavra vã. Querer identificar Deus, o Absoluto e Eterno por definição, com uma parcela, pequena que seja, do mundo e do homem contingentes e volúveis, vem a ser o mesmo que negar a Deus. Consequentemente as conclusões psicológicas e éticas da Logosofia não podem deixar de se ressentir do erro inicial dessa escola.

A Logosofia, como qualquer forma de panteísmo, pode seduzir a muitos pelo seu aspecto de sistema místico; na verdade, porém, ela desvirtua toda a mística, fazendo do indivíduo humano o centro ou o Alfa e Omega da concepção da vida. Reconheceremos a Pecotche o mérito de haver chamado a atenção do homem para as riquezas da vida interior; a sua escola (que, em matéria de novidade, só pode talvez apresentar o nome de «Logosofia», pois é afim à Teosofia e à Antroposofia, outras tantas modalidades do panteísmo moderno) constitui mais uma afirmação pujante da alma religiosa do homem contemporâneo. Este procura inelutàvelmente a Deus; procura-O, porém, mal orientado pelo racionalismo e o egocentrismo que envenenam o pensamento filosófico a partir do séc. XVI.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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