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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 009 – setembro 1958

Teilhard de Chardin e Evolução

CIÊNCIA E RELIGIÃO

ZAQUEU (Rio do Janeiro): “Como conciliar a doutrina da Bíblia sobre a origem do mundo e do homem com a teoria do Pe. Teilhard de Chardin S. J.? Como é que a Igreja vê esse autor e suas obras ?”

Em primeiro lugar, exporemos as principais idéias do Pe. Teilhard de Chardin, a fim de poder proferir um juízo sereno sobre as mesmas.

1. Vida e doutrina de Teilhard de Chardin

1.1. Pedro Teilhard de Chardin nasceu em 1881 em Orcine (França). Entrou na Companhia de Jesus, onde foi ordenado sacerdote. Manifestando sempre grande pendão para as ciências naturais, dedicou-se à Mineralogia, à Geologia e ao estudo dos fósseis, em vista do que viajou pelo Egito e a Inglaterra entre 1901 e 1912. De 1912 a 1923 entregou-se em Paris a pesquisas de Zoologia e Paleontologia. A maior parte dos seus trinta anos subsequentes, o Pe. Teilhard a passou no Extremo-Oriente, principalmente na China, tendo sido de 1929 a 1937 o diretor das buscas que levaram à descoberta do famoso fóssil Sinantropo em Choukoutien, perto de Pequim; foi este o mais vultuoso título de glória na carreira de Teilhard de Chardin,

Dotado de reconhecida competência, o sábio sacerdote foi sucessivamente nomeado Presidente da Seção de Geologia do Instituto Católico de Paris, Conselheiro do Serviço Nacional de Geologia da China, Diretor do Laboratório de Geologia aplicada ao homem e da Escola prática «des Hautes-Études» de Paris, diretor do Instituto de Pesquisa Nacional Científica e membro do Instituto de França a título de acadêmico cientista. Terminou repentinamente sua carreira terrestre em Nova Iorque aos 10 de abril de 1955.

O Pe. Teilhard de Chardin foi Religioso fiel à sua vocação; teve uma alma profundamente sacerdotal, como atestam as suas notas íntimas. Contudo o seu nome de cientista e pensador é controvertido, dada a índole muito pessoal de seu espírito, que, fazendo uso de particular dom de perspicácia, sempre procurou visões grandiosas e horizontes largos; neste afã chegou por vezes a perder o contato com ensinamentos comprovados, arvorando teorias de certo modo inovadoras. Tal trabalho valeu ao sábio Religioso a admiração de muitos, a quem Teilhard de Chardin aparece como autêntico elo entre a Ciência e a Fé, ao passo que outros o têm na conta de suspeito. Fato digno de nota, nessa controvérsia, é que Chardin nunca mandou imprimir seus escritos, mas apenas os distribuiu mimeografados — o que é possível indício da consciência que terá tido, de ainda não haver chegado (mesmo nos seus últimos dias) à plena maturidade de suas reflexões.

O livro mais famoso do cientista foi publicado por uma dupla comissão de seus amigos da Europa e da América, após a morte de Teilhard de Chardin, com o titulo «Le Phénomène Humain», Paris, Ed. du Seuil 1955, A mor parte da obra foi escrita em Pequim de 1928 a 1940; as últimas páginas, porém, trazem a data de 28 de outubro de 1948 em Roma. Pergunta-se se o Rev, Padre teria publicado o livro tal como hoje se acha. Há quem diga que não e que Chardin, guardando-o inédito durante oito anos, se aprestava a completá-lo mitigando, algumas de suas afirmações mais avançadas. O fato é que a obra fez sucesso extraordinário, atingindo em poucos meses a venda de vinte mil exemplares. O seu estilo se desdobra por vezes belo e grandioso, dilatando a visão do leitor; tem algo de poético ou de «profético»; a leitura, porém, não é sempre fácil, pois o autor emprega vocabulário muito pessoal, criando seus neologismos (“cerebralização, cefalização, hominização, grãos de consciência ou de pensamento”.

1.2. Qual seria, pois, a ideologia de Teilhard dc Chardin?

O escritor parte de um princípio básico: a evolução é um fato universal, ao qual nenhum ser criado escapa; ela tem início na matéria corpuscular, atinge o homem e passa além...

Aqui seria importante observar que a doutrina católica não se opõe ao evolucionismo, contanto que este admita duas ações de Deus criadoras: a primeira, para produzir a matéria inicial, em estado talvez caótico, dotada, porém, das leis de sua evolução futura; a segunda se terá dado quando a matéria, desenvolvendo-se paulatinamente, atingiu o grau de complexidade de um corpo humano; terá sido então que o Criador tirou do nada e infundiu à matéria a alma humana, espiritual; esta não se origina por evolução, mas por direta criação de Deus. Feitas estas duas ressalvas, a fé cristã nada tem que objetar ao evolucionismo (cf. «Pergunte e Responderemos» 4/1957, qu, 1; 7/1958, qu. 1).

Ora o Pe. de Chardin, pressupondo dois elementos fundamentais (a matéria corpuscular e a energia), foi acompanhando a ascensão dos mesmos na escala dos seres, ascensão que, conforme Chardin, se faz mediante a tomada de estruturas cada vez mais complexas. O autor dá a essa evolução os nomes de “cefalização” e “cerebralização”, pois, na verdade, quanto mais complexos são o sistema nervoso e o cérebro de um ser vivo, tanto mais perfeito e elevado ele é na escala dos viventes. Tal terminologia pressupõe que não há hiato entre os seres inanimados e os animados, mas que a matéria anorgânica já contém em gérmen a vida (Chardin diria mesmo: contém a consciência), a qual, para se manifestar, só espera que seu sujeito adquira estrutura mais rica e complexa: «Na superfície há fibras e gânglios; na profundidade há a consciência» (Phénomène, pág. 159). É, pois, o agrupamento de elementos cada vez mais numerosos e organizados que produz a passagem do átomo ao estado de molécula inanimada, de célula viva, de cérebro do irracional e de cérebro humano. Surgem assim sucessivamente a Geosfera, a Biosfera e a Antroposfera, grau de evolução, este último, em que ora nos achamos, Eis, porém, que neste ponto o Fe. Teilhard ousa propor uma visão profética do futuro: a evolução continuará, pois também os cérebros humanos tendem a se coordenar entre si «numa coletividade harmonizada de consciências equivalente a uma espécie de Super-consciência. A Terra não sòmente se recobrirá de miríades de grãos de pensamento, mas também se envolverá num só grande envoltório pensante, até não formar funcionalmente senão um só vasto Grão de Pensamento, na escala sideral. A pluralidade das reflexões individuais se agrupará e se reforçará no ato de uma só Reflexão unânime» (Phénomène, pág. 179). Chegaremos destarte à Noosfera ou esfera do Espírito.

Por conseguinte, o universo procede de um ponto de partida único, o qual se ramifica em diversos raios de seres; estes, porém, à semelhança dos meridianos de uma esfera, tendem para um ponto supremo de convergência, que Chardin chama «o ponto ômega, o Polo do Universo»; nesse ponto se encontra Deus, centro universal de unificação, no qual cada espírito repousa. Este Centro Supremo é, e conserva-se, distinto dos indivíduos humanos que para ele confluem, não lhes absorvendo a personalidade. Ao contrário, quanto mais cada consciência individual se coaduna com as demais no ponto Omega, tanto mais também encontra a si mesma com a sua face própria, passando por uma espécie de super-personalização. Com esta observação, quer o autor diferenciar-se de qualquer tipo de pensamento panteísta, que afirme o culto de um Grande Todo no qual os indivíduos se perderão como uma gota de água no oceano. — Não seria fácil dizer o que exatamente entendia o Pe. Teilhard de Chardin nessa sua visão profética.

Eis como a comenta J. Piveteau, Professor da Sorbona de Paris:

«Na noosfera o imenso esforço de cerebralização, que começou quando a terra era juvenil, vai consumar-se em demanda da organização coletiva ou socialização. Não há dúvida, nesta última parte de sua obra o Pe. Teilhard de Chardin parece cumprir a tarefa de um filósofo mais que a de um homem de ciência; muitos dos que admiraram o paleontologista na sua interpretação do mundo dos viventes, terão dificuldade para seguir o autor nas suas descrições do porvir» (Prefácio à obra de Teilhard de Chardin, Le groupe zoologique humain).

Para concluir a sua síntese, o autor menciona também a Encarnação do Verbo no movimento geral da evolução: para atrair a humanidade à divinização, Deus se imergiu parcialmente nas coisas deste mundo, tomando a chefia da evolução humana. É em função de Cristo, o Verbo Encarnado, que tudo e todos se desenvolvem; é em Cristo que a evolução encontra acabamento perfeito, de modo que o fenômeno humano é também o fenômeno cristão (título este dado ao epílogo do livro «Le Phénomène humain»). Todavia à intervenção de Cristo no mundo, conforme Chardin, parece tocar apenas o papel de animar com novo impulso a ascensão das consciências; o autor não fala da missão de Redentor, Restaurador, que coube a Jesus pelo derramamento de seu sangue (embora não a tenha negado em absoluto).

Eis, compendiosamente exposta, a concepção evolucionista do Pe. Teilhard de Chardin. Procuremos agora formular

 

2. Um juízo sobre o assunto

Não se pode negar que a teoria acima seja apta a empolgar pela visão grandiosa do mundo e do homem que ela apresenta. Constitui ampla tentativa de reunir os mais diversos dados da ciência e da filosofia num panorama único. O sábio francês comunicou ao seu evolucionismo um cunho estritamente finalista, fazendo da teoria tão explorada por (Haeckel e outros materialistas um veículo que conduza ao espírito e a Deus. É este, sem dúvida, um dos motivos por que a obra do Pe. Teilhard tanto tem despertado atenção e simpatia; estabelecido sobre abundantes dados científicos, o evolucionismo de Chardin a uns parece ser uma solução, a outros uma apologia de Deus e de Cristo...

Contudo não se poderiam silenciar críticas a tal teoria. Ei-las resumidas em quatro pontos:

1) O erudito francês professa continuidade tal entre matéria inanimada, matéria animada e vida intelectiva ou pensamento que sua terminologia, tomada ao pé da letra, leva ao pan-psiquismo, isto é, a admitir a existência de alma e consciência no átomo, na molécula, na célula, assim como no conjunto do gênero humano; parece extinguir a diferença de natureza entre a matéria e o espírito, contradizendo assim tanto à sã filosofia como à fé.

Na verdade, não é necessário estabelecer-se um hiato intransponível entre a matéria inanimada e a matéria animada por vida vegetativa e sensitiva; o princípio vital das plantas e o dos animais irracionais são meramente materiais; por isto pode-se admitir, à luz tanto da razão como da Revelação sobrenatural, que a matéria inanimada tenha evoluído, sem intervenção extraordinária do Criador, até o grau da vida sensitiva.

O hiato intransponível, porém, se coloca entre a vida sensitiva e a vida intelectiva ou racional, tipicamente humana (com a qual está associada a consciência propriamente dita); com efeito, a vida intelectiva depende de um princípio vital espiritual, que não pode ser mero produto da matéria em evolução, mas necessariamente se origina por um ato criador de Deus (cf. «Pergunte e Responderemos» 7/1958, qu, 1).

Verdade é que o Pe. de Chardin não quer negar em absoluto ter sido a alma humana diretamente criada por Deus — o que pressupõe nitidamente a distinção entre matéria e espírito (cf, Phénomène, pág. 186 n. 1). Todavia concatena as suas idéias de modo que se diria ser dispensável ou inútil tal intervenção criadora de Deus no curso da evolução.

2) A visão do Pe. Teilhard parece não contar com o «mistério da iniquidade» ou com o pecado, e em absoluto silencia as noções de salvação e redenção do gênero humano. Apenas no fim do volume «Le Phénomène humain», em apêndice redigido em 1948, o autor tenta justificar esse silêncio, declarando que intencionou descrever unicamente o aspecto positivo do processo de «hominização», sem «chamar a atenção para as sombras da paisagem» (cf. pág. 345). Chardin reconhece a existência do mal no mundo, enumerando, por exemplo, o mal da desordem, do insucesso da evolução, o mal da decomposição, o mal da solidão e da angústia... Trata-se, porém, do mal físico, inerente ao processo da evolução; em parte alguma da obra é focalizado o mal moral, violação de um preceito divino, ofensa do homem a Deus. O pecado original é mencionado rápida e hipoteticamente, como «efeito extraordinário de alguma catástrofe ou desvio primordial» (pág. 347).

Ora a existência do pecado é elemento capital para uma autêntica concepção do mundo e do homem; o mesmo se diga da obra da Redenção; a libertação e a grandeza do gênero humano não são meros produtos do processo natural de evolução, como pode dar a entender a síntese proposta. Esta é tal que a Moral, com suas categorias de virtude e vício, livre arbítrio do homem que obedece ou desobedece a Deus, pode ser simplesmente silenciada.

3) Na explanação do Pe, Teilhard de Chardin, tem-se a impressão de que o gênero humano é oriundo de uma única população ou um único tronco (monofiletismo), mas de muitos casais a constituir esse único tronco. O autor justifica essa insinuação, lembrando que deseja apenas fazer o papel de cientista e que ao cientista escapam os primeiros inícios das espécies; ele só apreende a estas após certo grau de evolução (Chardin deixa, portanto, a porta aberta para que o teólogo, focalizando a primeira hora da história humana, introduza o monogenismo na sua síntese). O leitor, porem, que não conheça a distinção entre cientista e teólogo sobre a qual se apoia o Pe. Teilhard, é facilmente induzido a concluir que de fato muitos casais simultaneamente deram origem ao gênero humano. Isto é contrário ii doutrina cristã ou à verdade, que, entre as suas proposições mais importantes, enumera o monogenismo (origem do gênero humano a partir de um só casal: Adão e Eva). Aliás, monogenismo e pecado original são dois pontos intimamente associados entre si na concepção cristã do mundo.

4) O Pe. Teilhard refere explicitamente (embora em termos estranhos) a Deus e a Cristo no ponto ômega ou no final da evolução. Não menciona, porém, um Criador no ponto Alfa ou inicial da história. Eis outro capítulo de importância primacial, que em uma visão completa do mundo não se pode deixar de elucidar sob pena de acarretar mal-entendidos perniciosos. A matéria não é eterna, nem se origina por emanação a partir de uma substância superior, mas do nada é criada por Deus, único Ser Eterno.

As quatro lacunas acima apontadas não deixam de ser graves. Não equivalem a negações, pois o Pe. Teilhard deu provas de que jamais intencionou abandonar a concepção genuinamente cristã do universo. Ele mesmo dizia no seu prólogo a «Le Phénomène Humain»— e seus amigos o sublinham bem — que apenas queria descrever o «fenômeno», sem entrar em considerações metafísicas e teológicas; desejava manter-se unicamente no domínio das aparências sensíveis. O fato, porém, é que toda visão de síntese das aparências sensíveis, como a de Chardin, exige interpretação de dados, não podendo deixar de recorrer a certas categorias filosóficas. Apesar do seu propósito, Teilhard não se pôde furtar ao dever de filosofar. Em consequência, é de lamentar que tenha feito abstração de dados capitais da Revelação cristã — dados que não constituem mero complemento, mas, sim, linhas estruturais de uma genuína concepção do mundo e do homem.

É bem possível que o Pe. Teilhard lenha sido levado a tais omissões por uma intenção apologética (em si mesma louvável), isto ê, pelo desejo de fazer chegar os cientistas a Deus e a Cristo seguindo cinicamente o roteiro do evolucionismo, roteiro tão profanado pelos negadores de Deus; dai as reticências acerca de tudo aquilo que ao autor não parecia decorrer necessàriamente da tese da evolução universal. Será mister, porém, reconhecer que o Pe, Teilhard, em suas explanações, ultrapassou os limites tanto da Apologética como da ciência pura, para de certo modo se entregar à poesia... poesia genial talvez, mas muito pessoal e muito sujeita a ser mal interpretada...

Ponderando tudo aquilo que há em abono e em desabono do «teilhardismo», as autoridades da Igreja não condenaram formalmente a obra do Pe. de Chardin. Será preciso, porém, que os continuadores de Teilhard tomem o cuidado de não ser infiéis ao seu próprio mestre, o qual não quis ser infiel doutrina cristã ou à Revelação sobrenatural. O pensamento do sábio sacerdote não parece ter chegado ao seu ponto de cristalização definitivo; é de crer que, se tivesse vivido na terra além dos seus 74 anos de idade, o autor ainda teria burilado algumas de suas afirmações, consoante o que vinha continuamente fazendo no decorrer de sua carreira de cientista.

Não se poderia deixar de mencionar aqui o significativo fato de que a Santa Sé mandou retirar as obras do Pe. Teilhard das bibliotecas de uso dos Seminaristas.

Faz-se mister acrescentar que, aos 30 de junho do 1962, a Sta. Sé publicou nova admoestação contra os erros e perigos dos escritos de Teilhard de Chardin.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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