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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 021 – setembro 1959

 

Positivismo, Doutrina e Origem

Filosofia e Religião

C. A. R. F. (Rio de Janeiro):Quisera saber algo sobre a origem e a doutrina do Positivismo”.

 

O Positivismo representa uma atitude filosófica que teve sua fase áurea no século passado («Positivismo clássico»), impregnando notoriamente a mentalidade contemporânea. Ainda hoje, através de novos surtos ou «reprises», influencia o pensamento de não poucos intelectuais.


Em nossa resposta, consideraremos brevemente a personalidade do fundador do sistema — Augusto Comte — e suas principais doutrinas, a fim de podermos proferir um juízo ponderado sobre o assunto.

 

1. Esboço biográfico e personalidade de Comte

 

O pai e fundador do Positivismo, sob qualquer de suas modalidades, é Augusto Comte.

Nasceu em Montpellier (França) aos 19 de janeiro de 1798, de família católica e monarquista. Aos 14 anos perdeu a fé e tornou-se republicano (liberal) convicto. Dotado de inteligência precoce, entrou em 1814 para a Escola Politécnica; no segundo ano de estudos, porém, foi demitido por motivo de insubordinação. Sem recursos financeiros, conheceu o reformador socialista Saint-Simon, de quem se tornou secretário e entusiasta colaborador durante sete anos, ao cabo dos quais rompeu clamorosamente com o mestre (cf. «P. R.» 15/1959, qu. 3).


Em 1825 esposou civilmente Carolina Massin, pessoa de costumes pouco regrados. Aos 2 de abril de 1826 abriu no seu próprio apartamento um curso de Filosofia, que, após a quarta aula, Comte teve de interromper, pois preocupações domésticas e extraordinária tensão de espírito lhe acarretaram crise de nervos. Após oito meses em casa de saúde, Comte ainda tentou suicidar-se no rio Sena, mas aos poucos foi melhorando, a ponto de poder recomeçar seu curso em janeiro de 1829. No ano seguinte, fundou com alguns amigos a «Association Polytechnique», que visava ministrar instrução gratuita ao povo. A sua principal ocupação ficou sendo a de professor, adido à Escola Politécnica, que em suas horas livres ia redigindo grossos volumes de Filosofia: o «Curso de Filosofia Positiva», por exemplo, apareceu em seis tomos, de 1830 a 1842.


Contudo dificuldades de temperamento o levaram a deixar suas funções; viu-se então obrigado a viver de auxílios financeiros, que lhe forneciam admiradores ingleses e amigos da França.

 

Tendo-se separado da esposa em 1842, veio a conhecer em outubro de 1844 Clotilde de Vaux, dama que vivia separada do marido, pela qual Comte se apaixonou, considerando a notável inteligência; assim como o ânimo delicado, sofredor e romântico dessa criatura; todavia dois anos mais tarde, em abril de 1846, Clotilde falecia, não sem ter profundamente marcado a vida de Augusto Comte.


Com efeito, este pôde falar do «angélico impulso» que lhe dera Clotilde, acrescentando a seguinte observação:

«Desde 1845 tinha eu plenamente apreciado, sob a sua influência, o conjunto de minha carreira, cuja segunda parte devia transformar a filosofia em religião, como havia a primeira transformado a ciência em filosofia» (Système de philosophie positive IV 1854, 529s).


Comte, que até conhecer Clotilde, fora um intelectual estritamente orientado pelas normas do que ele julgava ser ciência, após o encontro com essa dama, manifestou uma personalidade muito sensível aos afetos humanos, dada mesmo a certa mística (embora se diga que Clotilde não correspondeu, no mesmo grau, ao amor de Comte, nem compartilhou integralmente as idéias do filósofo).


Comte prestou à figura de Clotilde falecida honras quase divinas e pôs-se a conceber aos poucos nova forma de afetividade, ou seja, a religião do Grande Ser ou da Humanidade, cujo Sumo Sacerdote seria o próprio Comte!

 

Em 1848 fundou a sua espécie de «Igreja», e em 1852 publicou a obra intitulada «Catéchisme positiviste ou Sommaire Exposition de la Religion universelle en onze entretiens systématiques entre une femme et un prêtre de L'humanité».

 

Nem todos os discípulos e amigos de Comte quiseram seguir o pensador nesta segunda fase — afetiva e religiosa — de sua vida; abandonado até mesmo pelo principal discípulo (Littré), Comte observava:


«Muitas personalidades se sentiram chocadas com o advento direto do sacerdócio positivo, que deve fazer universalmente prevalecer na conduta pública, e mesmo particular, regras tanto mais inflexíveis quanto serão sempre demonstráveis» (Système IV, Appendice généralis).


Na base de sua nova orientação, Comte distinguia entre positivistas intelectuais e positivistas completos, isto é, religiosos. Viveu os últimos anos de sua vida mais ou menos isolado, entregue à missão de pensador e arauto de nova filosofia religiosa. Consciente de ser Sumo Sacerdote, proibia discussão e críticas em torno de si; mostrava-se inflexível em seus postulados, afastando quem quisesse desconhecer o caráter sagrado de que se investira. Lera bastante em sua juventude e gozava de estupenda memória, de modo que quase não lia, nem mesmo jornais, nos anos de sua maturidade e velhice; proclamava não conhecer senão indiretamente os escritos de Kant, Hegel, Vico e Herder; embora percebesse inconvenientes nesse método, justificava-o dizendo que «a leitura prejudica muito a meditação, pois altera a originalidade e homogeneidade» (Cours V, pref. pág. XXXVEE). Utilizava as notícias guardadas na memória, elaborando mentalmente os seus livros, com suas divisões, subdivisões e pormenores; depois de haver completado a redação mental de alguma obra, Comte a consignava por escrito, sem, porém, reler o texto; é o que explica a prolixidade de seu estilo, que emprega frases sobrecarregadas de repetições. O esforço de memória despendido por Comte terá ocasionado os frequentes esgotamentos intelectuais a que nosso filósofo estava sujeito.

 

No testamento dispôs que seu apartamento (Rue Monsieur-Le-Prince) se tornaria sede da nova religião. Finalmente faleceu aos 5 de setembro de 1857 junto à poltrona de Clotilde. A antiga residência transformou-se de fato no primeiro templo da Humanidade, em que passaram a se reunir os imediatos discípulos do filósofo.


A personalidade de Comte é caracterizada por notáveis dotes de inteligência, assim como por acentuada tendência mística, à qual se associam os traços de um temperamento nervoso ou, como dizem os biógrafos do filósofo em geral, psicótico. Alguns historiadores, inspirando-se em dizeres de Littré, explicam a evolução do pensamento de Comte em função do seu estado neurótico: o mestre terá sofrido as consequências do excesso de trabalho intelectual e da sua afetividade muito sensível para com Clotilde.


«Nos últimos anos de sua vida, Comte tornou-se presa de uma espécie de mania produzida não só pelo trabalho intelectual, mas também pelas dolorosas vicissitudes da vida; e em sua mente conturbada o sistema do positivismo se transformou numa religião, com seus mártires, seus santos, seu calendário» (G. dei Vecchio, Lezioni di Filosofia dei Diritto. 1932, 133).


Os fiéis discípulos de Comte julgam que a tendência neurótica do mestre não era empecilho para que se tornasse porta-voz da verdade: todo gênio, dizem, é anormal. Reconhecem em Comte a consciência de uma missão a cumprir, assim como extraordinária confiança em si mesmo, confiança que caracteriza e anima todos os reformadores. — Interpretação demasiado benigna, à qual deverão abaixo ser feitas algumas observações.

Para se poder avaliar mais exatamente a figura do filósofo, torna-se mister esboçar as linhas-mestras de seu pensamento.

 

2. As principais teses do Positivismo

 

Augusto Comte é o iniciador de uma atitude de espírito ainda hoje assaz difundida (o espírito positivo ou positivista) mais do que o chefe de uma escola de Filosofia sistemática. No fim do século passado, Lévy-Bruhl podia dizer que «o espírito positivo estava tão intimamente mesclado ao pensamento da época que ninguém o notava mais, como ninguém nota o ar que respira» (Le centenaire d'Auguste Comte, em «Revue des Deux-Mondes», 15 janv. 1898, 398).

Quais seriam, pois, as grandes características da mentalidade positivista ?

 

2.1 O principio básico do pensamento de Comte é a renúncia a toda Metafísica, ou seja, a todo conhecimento que não possa ser imediatamente controlado pelos sentidos.


«A filosofia positiva se distingue principalmente da antiga filosofia teológica ou metafísica por sua constante tendência a remover como necessariamente vã toda procura de causas propriamente ditas, sejam primeiras, sejam finais; ela se limita a estudar as relações imutáveis que constituem as leis... Na verdade, não somos capazes de conhecer senão os fatos perceptíveis pelos nossos sentidos; jamais podemos obter alguma noção sobre a natureza íntima de um ser qualquer nem sobre o modo essencial como se produza algum fenômeno» (Cours de philosophie positive VI 701).

 

Por conseguinte, o positivismo só admite como objeto de ciência os fenômenos e suas leis. As causas e as substâncias (ou entidades) situadas por detrás dos fenômenos parecem-lhe pertencer a região inacessível ao conhecimento. Existem causas que motivem determinado fenômeno ? O positivista não se ocupa com isto; não afirma nem nega coisa alguma a respeito.


Neste quadro de idéias, portanto, positivo vem a ser sinônimo de real e útil, certo e preciso, em oposição às especulações da filosofia anterior, que admitia a existência do transcendente ou de uma realidade invisível.


Tal atitude de espírito é, segundo Comte, o produto de lenta evolução por que passou o gênero humano, lenta evolução expressa pela «lei dos três estados». Com efeito, ensinava o filósofo, a humanidade atravessou primeiramente o estado teológico ou fictício, em que o homem tendia a explicar o mundo pelo recurso a seres sobrenaturais, principalmente a Deus, negligenciando a invariabilidade das leis naturais. Sucedeu-se nos séculos XVII/XVIII d. C. o estado metafísico ou abstrato, em que não tanto Deus, mas alguns termos abstratos, como princípio vital, alma, éter, entravam na especulação filosófica. Emancipando-se destes produtos da imaginação, a humanidade teria iniciado em 1842 o estado positivo ou científico, sob a égide de Augusto Comte, que só levava em conta a observação empírica.

 

Na base destes princípios, o pensador francês estabelecia a hierarquia das ciências, dispostas a partir das mais simples e gerais até as mais complexas e precisas; 1) Matemática, 2) Astronomia, 3) Física, 4) Química, 5) Biologia, 6) Sociologia ou Física social. A Moral seria ou um ramo da Sociologia ou talvez a sétima ciência. O método a ser aplicado a todas as pesquisas científicas seria o da Matemática, que mede ou determina grandezas desconhecidas por meio de grandezas conhecidas; o que quer dizer que a verdade no positivismo é sempre considerada como algo que pertence ao plano da quantidade e do número, da figura e do movimento. — A ciência para a qual tendem todas as demais é a Sociologia, pois o Ser Supremo para Comte é a coletividade humana ou a Grande Humanidade: «Tanto do ponto de vista estático, como do ponto de vista dinâmico, o homem pròpriamente dito (isto é, o indivíduo humano) não é, em última análise, senão pura abstração: só existe, como entidade real, a Humanidade, principalmente no plano intelectual e moral» (Cours VI 692).

 

Tal é a estrutura geral do pensamento positivista. Importa considerar de mais perto como repercute no setor da Religião.

 

2.2 Interessando-se apenas pelas leis que regem os fenômenos, sem se preocupar com causas invisíveis, Comte pretendia ignorar o problema de Deus; não negava a existência do Criador, como o ateu, mas também estava longe de a afirmar; professava simplesmente o agnosticismo a respeito. Para a ciência positivista, seria tão absurdo querer provar a não-existência de Deus quanto absurdo seria procurar provar a sua existência, pois em ambos os casos o pensador estaria cedendo à tendência metafísica, ou seja, de certo modo dando atenção ao que transcende a observação dos sentidos. No positivismo, portanto, a questão da existência de Deus carece de sentido; assemelha-se a uma pergunta que os velhos budistas tinham classicamente na conta de vã, a saber: será possível definir se o pelo da tartaruga é longo ou curto? (pergunta vã, porque erradamente supõe que a tartaruga tenha pelo). Em consequência, escrevia Comte :

 

«Ninguém jamais demonstrou pela lógica a não-existência de Apolo, de Minerva, etc., nem a das fadas orientais, nem a das diversas criações dos poetas. Isto, porém, não impediu o espírito humano de abandonar inevitàvelmente os dogmas antigos, quando eles deixaram de convir às circunstâncias da vida humana» (Discours sur 1'esprit positií 52).

 

“À medida que nossa atividade mental encontra melhor alimento, essas questões inacessíveis são gradualmente abandonadas e finalmente consideradas vazias de sentido para nós” (Cours VI 701s).


Assim Comte, sem negar a existência de Deus, pretendeu ir mais longe que o ateísmo; julgando que este ainda não está garantido contra futuros assaltos da crença em Deus, Comte uma vez por todas encastelou-se no agnosticismo, recusando qualquer argumentação a respeito de Deus. Eis um dos textos mais significativos do filósofo:


«Mesmo do ponto de vista intelectual, o ateísmo não constitui senão uma emancipação insuficiente, pois tende a prolongar indefinidamente o estado metafísico; procura, sim, incessantemente novas soluções para problemas teóricos em vez de afastar, como sendo radicalmente vãs, todas as pesquisas em torno dos mesmos. O verdadeiro espírito positivo consiste principalmente em substituir sempre o estudo das leis invariáveis dos fenômenos às leis das causas propriamente ditas, sejam causas primeiras, sejam causas finais; em uma palavra, consiste em substituir a determinação do como à determinação do porque. O espírito positivo, por conseguinte, é incompatível com os sonhos soberbos de um ateísmo tenebroso referentes à formação do universo, à origem dos animais, etc. Enquanto os homens insistirem em resolver as questões que concernem os nossos primórdios, não terão justificativa para rejeitar as categorias simplórias da imaginação, únicas categorias, aliás, que se podem aplicar a tais questões... Os ateus renitentes, por conseguinte, podem ser considerados como os mais incoerentes dos teólogos, pois se aplicam às mesmas questões que os teólogos, apenas rejeitando o único método adequado a tais questões» (Système de politique positive I 66).


Nesta passagem, Comte entende por «imaginação» a Metafísica e a Teologia. Não querendo reconhecer a legitimidade destas disciplinas, o filósofo se vê obrigado a renunciar ao estudo das origens do mundo e do homem, pois tem consciência de que, se quisesse entrar em tais assuntos, haveria que recorrer a Deus. Justamente a fim de não apelar para Este, ele tem que fechar os olhos às questões básicas de toda a filosofia: donde vimos? E para onde vamos? — Destarte Comte com razão julga ser mais lógico do que o ateu, pois este, embora negue a Deus, insiste em explicar a origem e o sentido do homem apelando unicamente para os predicados da matéria.

 

2.3. Embora tenha sido mais coerente com seus princípios do que os ateus, Comte não evitou toda incoerência... Movido pela inelutável consciência do misterioso e do transcendente, não se pôde furtar a fundar uma religião — religião, porém, sem Deus. Pretendia cultuar a Humanidade ou o Grande Ser, que se compõe não somente das gerações presentes, mas também das passadas e futuras, pois «os mortos governam os vivos», conforme o positivismo. A doutrina moral dessa ideologia se resume na fórmula : «O amor como princípio. A ordem como base. O progresso como finalidade» ; ou, mais brevemente : «Viver para outrem».

 

O culto prestado à Humanidade não tem que ver com adoração religiosa: o positivista serve ao Grande Ser e o aperfeiçoa na medida em que aperfeiçoa seus próprios afetos.

 

Comte não negligenciou o ritual da nova religião: descreveu os futuros templos positivistas, construídos nos bosques e cercados de túmulos de mortos eminentes; estipulou o respectivo calendário, com seus treze meses, cada qual dedicado a um vulto eminente da história: Homero, Aristóteles, Arquimedes, César, Moisés, São Paulo... ; cada mês compreenderia 28 dias, dos quais cada um teria seu padroeiro. Clotilde de Vaux seria «a sacerdotisa da Humanidade» ou «a Medianeira entre o Grande Ser e seu Sumo Sacerdote (Comte)».


O filósofo previa que o mundo inteiro se passaria à nova religião antes do fim do século XIX: sete anos bastariam para a conversão dos monoteístas, treze para a dos politeístas e treze para a dos fetichistas. As três raças, branca, amarela e negra, representando respectivamente a inteligência, a ação e o sentimento, e contribuindo para integrar o Grande Ser, colocar-se-iam assim sob o estandarte positivista!


Após a revolução francesa de 1848, o fundador do positivismo julgou chegada a hora de realizar seu programa de regeneração: para Isto pretendia aproveitar-se de elementos do Cristianismo, entre os quais os jesuítas, que Comte chamava «inacianos», para evitar qualquer reminiscência ambígua. Chegou a enviar uma mensagem ao Pe. Becks, Geral da Companhia de Jesus...

 

3. Apreciação final

 

3.1. O Positivismo, recusando o estudo das causas, implica em atrofia da Filosofia e da cultura humana em geral. Gratuitamente nega à razão a capacidade de apreender causas invisíveis: a Lógica espontaneamente ensina que todo efeito tem uma causa real, causa que a inteligência tende por si a sondar. Ora julgar que esta tendência é vã ou frustrada equivale a asseverar que o homem é vítima das contradições da própria natureza;... equivale a crer que a origem do mundo se deve a um mistério absurdo e cruel. Admitir isto, porém, é mais difícil à inteligência do que afirmar a existência de causas invisíveis, principalmente da Suprema Causa, que com especial evidência se impõe à razão humana (cf. «P. R.» 6/1957, qu. 1).


Fechando-se em sua posição, o positivista é obrigado, como observávamos atrás, a recalcar as questões mais espontâneas da filosofia, isto é, as que dizem respeito às origens e aos fins do universo e do homem, questões imprescindíveis para se definir o comportamento do indivíduo nesta vida.


Note-se, porém, que, cometendo tal erro, o positivismo é coerente com seus princípios. «A grande revolução ocidental» de que Comte foi o arauto, não caiu na armadilha do ateísmo. Ultrapassou-a, afirmando um único princípio absoluto : «Tudo é relativo». Este princípio remove todos os problemas e explica como é que eles outrora puderam surgir (os homens procuravam então um Absoluto...). A consciência do ateu que ainda considera as questões das origens e dos fins, vive, segundo Comte, sobressaltada por não ter trancado todas as portas para a volta de Deus. Na escola positivista, porém, (acrescentaria o filósofo francês) o gênero humano atinge a idade adulta, desvencilhando-se de qualquer crença no Invisível e no Absoluto. Destarte fica definitivamente eliminada a Teologia; a ideia de Deus é removida sem que lhe reste margem para voltar. Comte se comprazia em repetir a expressão : «o irrevogável desmoronamento do reino de Deus» (Système de politique positiviste IV 531).

Lévy-Bruhl parafraseava o pensamento positivista nos seguintes termos :

 

«Ser ateu ainda é uma modalidade de ser teólogo. É, portanto, pouco exato dizer que Comte não quis deixar questões abertas. Ao contrário, todas as questões teológicas e metafísicas, conforme ele, ficarão eternamente abertas. Somente acontecerá que ninguém mais as abordará» (Le centenaire d'Auguste Comte, em «Revue des Deux- -Mondes» 15 janv. 1898, 404).

 

O caráter artificial e insustentável da posição de Comte se manifesta bem na restauração da Religião, que este pensador promoveu, depois de haver rejeitado o culto de Deus; consolava-se ilusòriamente, julgando ter conseguido uma religião sem Deus. Cf. «P. R.» 15/1959, qu. 3.

 

3.2. À Moral positivista pode-se fazer a seguinte observação, a qual, de resto, se aplica a todo tipo de Ética meramente leiga.


O Positivismo apregoa deveres e direitos, renúncia ao egoísmo, vida altruísta... O sentido, porém, destas palavras, dentro da ideologia positivista, torna-se forçosamente mais ou menos vazio. Com efeito, sem Deus, sem um Ser Pessoal regulador da conduta humana, poderá haver, sim, necessidades para o indivíduo: a necessidade biológica de regrar os instintos, a necessidade social de viver para outrem, a de coibir os interesses pessoais em vista dos interesses comuns, etc. Serão, porém, necessidades físicas, não obrigações morais; se não existe Deus, Ser Pessoal, Alfa e Omega das criaturas, quem poderá eficazmente mover o homem a fazer violência à natureza e a sacrificar-se em favor do próximo? Outro homem terá autoridade para tanto? A obrigação de coibir os próprios apetites torna-se vã.


Toda Moral sem Deus vem a ser utópica, pois carece de fundamento estável; as suas pretensas leis ficarão sempre sujeitas ao capricho do indivíduo, que tenderá a aprová-las ou condená-las de acordo com as conveniências do momento. Só observa a Moral sem Deus o cidadão que inconscientemente conserva reminiscências de tradições cristãs. Por isto J.-P. Sartre, o príncipe do existencialismo francês, podia dizer que deduzia as últimas consequências do agnosticismo religioso, quando na sua peça «Le Diable et le Bon Dieu» apresentava Goetz a agregar-se a um bando de assassinos, com a seguinte exclamação nos lábios:


«Voilà le règne de l'homme qui commence. Beau début! Allons, Nasty, je serai bourreau et boucher. — Eis que começa o reinado do homem. Belo início! Vamos, Nasty; serei carrasco e açougueiro!».


A posição de Sartre é mais lógica do que a dos filósofos que professam ignorar a Deus, mas ainda querem impor aos seus ouvintes um código de Moral. As expressões fortes do existencialista têm ao menos a vantagem de chamar a atenção do observador moderno para as conseqüências da mentalidade leiga ou positivista que, independentemente dos templos e do culto da Humanidade, se implantou em nosso mundo contemporâneo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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