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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 020 – agosto 1959

 

A Bíblia em Quadrinhos

DISCÍPULA (Rio de Janeiro): V. C. pergunta se é ou não permitido o ensino da S. Escritura por meio da "Bíblia em quadrinhos".

 

Em resposta, vai aqui a notícia de um fato recém-divulgado por "Notícias Católicas": a Cúria Arquidiocesana de Milão retirou o Imprimatur" (licença de publicação) que dera a uma versão "gráfica da Sta. Bíblia realizada em quadrinhos. Motivo: os livros do tipo da "Bíblia em quadrinhos" têm sido muito criticados e podem dar lugar a escândalos. Tal notícia é corroborada pela seguinte: os círculos católicos da Itália criticaram a sensacionalista apresentação, em Veneza, de um filme tcheco de desenhos intitulado "A criação do mundo". Esta película foi confeccionada com a colaboração do caricaturista francês Jean Effel, o qual publicou outrossim um livro de quadrinhos-caricaturas sobre os dois primeiros capítulos do Gênesis. Os desenhos de Effel propõem o Senhor Deus como um ancião calvo, dotado de barbas longas e revestido de camisola branca, a pairar nos ares e admirar satisfeito o mundo por Ele criado — o céu, o sol, Adão e Eva... O demônio aí aparece em seu tipo zombeteiro, com chifres e cabeleira, procurando com embustes renovados perturbar a obra de Deus. O "Osservatore Romano", diário oficial da Cidade do Vaticano, publicou a propósito o seguinte comentário: "O filme .(exibido em Veneza) tem por consequência prática tornar grotescos objetos do ridículo a Sagrada Escritura e, indiretamente, o próprio Deus". O jornal "Avanti" de Roma, por sua vez, observava amargamente que a película servia para ridicularizar a Religião.


Esses episódios são altamente significativos. Não nos permitiriam concluir que a autoridade da Igreja condene o uso de .imagens ilustrativas no ensino da Escritura Sagrada, mas acautelam os fiéis contra o emprego desse tipo de gráficos que são os quadrinhos. E isto, por dois motivos:

1- Os quadrinhos concorrem para equiparar a história sagrada às modalidades de história fantasista ou sensacionalista que costumam ser reproduzidas por tal gênero de publicidade ; o aspecto "caricatura" tende ai a suplantar os demais, provocando fàcilmente deturpação e escândalo, mesmo que o desenhista procure ser sóbrio.


2- Agora o que talvez seja mais importante: em vez de formar, os quadrinhos deformam a mentalidade dos observadores. Sim ; incutem apenas a face externa, antropomórfica, dos episódios bíblicos (e a incutem com traços marcantes, às vezes exagerados), deixando de lado a mensagem religiosa da página sagrada e dando a entender de certo modo que o ensinamento da Bíblia é simplesmente o que se encontra, na sua roupagem externa. Ora justamente a doutrina religiosa visada por esse aparato externo é que deveria ser, em primeiro lugar e acima de tudo, acentuada no ensino da história sagrada ; cf. "P. R."
18/1959, qu. 4 e 5. — O significado profundo das cenas bíblicas deverá ser expresso não por desenhos com tendências realistas e teatrais, mas antes por gráficos e esquemas, nos quais o caráter típico (teológico) dos episódios e as etapas do desígnio salvífico de Deus podem ser devidamente representados (possibilidade esta que os quadrinhos, reproduzindo apenas a letra ou a face humana do texto sagrado, não oferecem). Recomenda-se em geral, na iconografia sagrada, o uso de imagens sobriamente estilizadas que representem a "transparência" ou o caráter alusivo (que às vezes é muito rico) dos episódios bíblicos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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