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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 523/Janeiro 2006

Ciência e Fé

 

GENOMA HUMANO E GENOMA DO CHIMPANZÉ

 

Em síntese: Recente pesquisa averiguou que o genoma do ho­mem e o do chimpanzé diferem entre si na porcentagem de 4% apenas. Isto não implica que o homem seja um macaco aperfeiçoado, pois o que define um vivente não é a sua estrutura corpórea, mas o seu princípio vital. Este no homem é espiritual, transcende a matéria e não tem origem por evolução.

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Via internet a Redação de PR recebeu a seguinte notícia, que cau­sou surpresa. Eis por que será comentada nas páginas subseqüentes.

O PRIMO DAS SELVAS

Análise do genoma do chimpanzé mostra com precisão onde está seu parentesco com o homem.

Patrocinada com uma verba de 25 milhões de dólares do governo americano, uma equipe de 67 pesquisadores de várias nacionalidades dedicou os últimos anos a uma tarefa complexa: analisar e decifrar o código genético do chimpanzé, o parente mais próximo do ser humano na árvore evolucionária, O resultado, divulgado na semana passada[1], representa um importante passo para responder a uma das questões cruciais da biologia: o que nos faz humanos? Depois de mapeado, o DNA do chimpanzé foi comparado, gene por gene, com o genoma humano. A conclusão foi que as duas espécies compartilham 96% de seu código genético. Como boa parcela dos 4% restantes se encontra em partes do genoma aparentemente sem função, os cientistas acreditam que a dife­rença se concentra em apenas 1% do material genético - uma diferença dez vezes maior que a existente entre dois seres humanos.

Algumas conclusões da comparação dos genomas:

-A semelhança entre os genomas confirma que o homem e o chim­panzé tiveram um ancestral comum que viveu há 6 milhões de anos.

- Homens e chimpanzés acumulam maior quantidade de mutações genéticas potencialmente perigosas para o organismo, se comparados aos ratos e camundongos.

-   As diferenças no genoma podem dar pistas para o tratamento de doenças graves, como Alzheimer, Aids, malária e hepatite, às quais o chimpanzé é imune,

-   Alguns trechos da seqüência genética humana, que se sabe te­rem relação com o desenvolvimento do sistema nervoso e da linguagem, sofreram transformações profundas nos últimos 250.000 anos.

Em conseqüência pergunta-se: o homem não seria um macaco aperfeiçoado? - É o que passamos a examinar.

 

QUE DIZER?

Distinguiremos três aspectos da questão: 1) a identidade do ser hu­mano; 2) corpo humano e evolução; 3) espiritualidade da alma humana.

 

1. Identidade do ser humano

Os genes são responsáveis pela estrutura corpórea do ser huma­no. Este, porém, não é apenas corpo; é corpo e alma (princípio vital). É a alma ou o princípio vital que especifica a corporeidade, definindo a sua identidade. Ora a alma humana difere radicalmente do princípio vital do chimpanzé; este tem um princípio vital material sensitivo e vegetativo, não intelectivo, ao passo que a alma humana é também intelectiva e, conseqüentemente, espiritual, como se dirá mais explicitamente sob o título 3 deste artigo.

Sendo espiritual, a alma humana não pode provir da matéria em evolução, mas é criada diretamente por Deus para cada ser humano. O corpo humano, porém, sendo material, pode ter tido origem por evolução da matéria; esta terá recebido do Criador as potencialidades para chegar ao grau de desenvolvimento e complexidade que caracteriza o corpo humano; como passamos a ver.

2.  Corpo humano e evolução

Como dito atrás, a pesquisa científica leva a admitir que "o homem e o chimpanzé tiveram um ancestral comum, que viveu há seis milhões de anos". Esta afirmação é válida não no tocante ao homem como tal, mas com referência ao corpo humano. Este pode-se ter originado de um ancestral primitivo dito "primata", que terá evoluído no sentido do gorila, do orangotango e do chimpanzé... como também na direção do corpo humano. Esta hipótese é aceita pela fé católica, como já notava o Papa Pio XII em sua encíclica Humani generis datada de 12/8/50:

"Por isso, o Magistério da Igreja não proíbe que a teoria da 'evolu­ção' ['evolutionismi' doctrina], enquanto indaga da origem do corpo huma­no a partir de uma matéria já existente e viva, seja objeto, no estado atual das ciências e da sagrada teologia, de pesquisas e discussões entre es­pecialistas de um e de outro lado (porque, quanto à alma, a Fé católica nos manda crer que as almas são criadas imediatamente por Deus -animas enim a Deo immediate creari catholica fides nos retinere iubet). Entretanto, é preciso que os argumentos [rationes] das duas partes, os favoráveis e os contrários, sejam examinados e julgados com a devida seriedade, moderação e temperança, e que todos estejam dispostos a se submeterem ao juízo da Igreja, que de Cristo recebeu o mandato de inter­pretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de guardar os dogmas da Fé" (A Fé Católica 3034),

A hipótese é plausível, dadas as semelhanças existentes entre o corpo do chimpanzé e o do homem. O corpo humano pertence ao reino da matéria, de tal modo que se pode admitir a evolução da mesma até o nível da matéria humana. Isto não quer dizer que o homem descende do macaco, pois o homem não é um ser monolítico; ele tem uma alma espi­ritual, que não pode ter origem na evolução da matéria.

 

3. A espiritualidade da alma humana

Toca-nos agora procurar as razões que levam a admitir a espiritualidade da alma humana.

Para averiguar se a alma humana é espiritual ou não, devemos levar em conta o seguinte princípio: o ser e o agir de determinada realida­de devem ser correlativos entre si. Conseqüentemente, se vejo que de­terminada substância tem por efeito "salgar" alimentos, digo obviamente que o seu ser consta de cloro e sódio (NaCI); se outra substância é corro­siva, suporei que seja um ácido, como o ácido sulfúrico (H2S04). Se, pois, desejo saber se a alma humana é espiritual ou se é material, devo examinar o seu agir ou as atividades que exerce; se estas são de ordem material, sem ultrapassar as capacidades da matéria, direi que a alma humana é material; se, ao contrário, as atividades da alma humana ultra­passam as virtualidades da matéria, concluirei que o próprio ser da alma humana é imaterial ou espiritual.

Analisemos, pois, as atividades da alma humana:

 

3.1. Percepção do universal

É certo que o ser humano, além de conhecer os objetos concretos, singulares e materiais que lhe ocorrem, é também capaz de conceber noções abstratas, universais, percebendo o essencial; é apto a reconhe­cer proporções, relações de dependência, de causalidade e de finalidade.

Com efeito, depois de ver um homem, uma mulher, uma criança, um ancião, um gordo, um magro..., a inteligência humana se emancipa das diferenças motivadas por cor, tamanho, sexo, idade... e define todos esses indivíduos como participantes da mesma essência ou natureza; são todos seres humanos, iguais entre si peia natureza (que a inteligên­cia apreende), embora diferentes uns dos outros pelos aspectos que os olhos percebem.

Paralelamente, depois de ver diversos objetos belos (uma flor, uma paisagem, um animal, uma escultura...), a inteligência humana se eman­cipa dos elementos extrínsecos e concretos que apreende, e formula a definição de beleza. A partir da percepção de situações justas e injustas, formula as noções universais de justiça e injustiça.

A Psicologia Experimental, por sua vez, corrobora estas afirma­ções mediante a seguinte experiência:

Disponha-se uma série de vasilhas fechadas, na primeira das quais se coloca o alimento de um macaco. O animal, posto diante de tal série, não sabe onde encontrar a sua ração; o operador então abre a primeira vasilha e lhe mostra o seu alimento.

Repita-se a experiência, encerrando na segunda vasilha o alimen­to, e não na primeira. O animal, recolocado diante da série, é guiado pela memória sensitiva e, recordando-se do ocorrido no dia anterior, vai à pri­meira vasilha. O operador então o coloca diante do segundo recipiente, do qual o animal se serve.

Num terceiro ensaio, coloque-se o alimento fechado no terceiro recipiente: guiado pelas impressões sensíveis do ensaio anterior, o ma­caco se dirige para o segundo vaso... Caso se multipliquem as experiên­cias, verifica-se que o animal procura de cada vez o recipiente em que no ensaio anterior encontrou o que lhe interessava. Nunca chega a abstrair dessas diversas experiências a lei da progressão que as rege. Nunca se desvencilha das notas concretas da vasilha em que, por último, encon­trou a sua ração, deduzindo que não é o fato de ser a segunda, a terceira ou a quarta vasilha que interessa, mas o fato de ser a vasilha n + 1 (fór­mula em que n designa o número da experiência anterior). Ora uma cri­ança sujeita a tal teste, depois de quatro ou cinco experiências, conse­gue abstrair a lei n + 1 do fenômeno.

Destes ensaios se conclui que o animal, por mais semelhante que seja ao homem, jamais se desembaraça da percepção do concreto, mate­rial; ele percebe o primeiro, o segundo, o terceiro objetos... postos à sua frente, mas é incapaz de perceber a proporção que há entre esses objetos:


x = n + 1

 

Na coluna da esquerda temos a lista dos termos concretos, parti­culares, ao passo que na coluna da direita temos a fórmula universal e a indicação de proporção. Ora passar da coluna da esquerda para a da direita, percebendo a constante n + 1 por debaixo das variações 2, 3, 4, 5... é algo que só a inteligência faz, porque só esta abstrai do concreto. O animal irracional não se eleva ao abstrato, universal. Por conseguinte, o irracional não tem princípio de conhecimento abstrativo ou princípio vital imaterial ou espiritual; a alma do macaco ou do animal irracional é mate­rial. Ao contrário, o homem, que é capaz de abstrair do concreto singular, possui um princípio vital ou uma alma imaterial ou espiritual.

Observe-se também: não há transição entre o material e o imaterial (ou espiritual). O espiritual não é a matéria rarefeita ou gasosa energética, pois mesmo a matéria rarefeita e a energia elétrica são dimensionáveis mediante números ou estão sujeitas à quantidade, ao passo que o espí­rito não é quantitativo nem comensurável.

3.2.  A consciência de si mesmo

Verifica-se que os animais têm conhecimento de objetos que os cercam, ameaçando-os ou favorecendo-os. O ser humano, além deste tipo de conhecimento, possui o conhecimento de si mesmo ou a autoconsciência; o homem não somente sente dor, mas sabe que sente dor ou que está lesado fisicamente; este fator aumenta enormemente a sua dor, pois o sujeito humano percebe que a sua moléstia o impede de trabalhar devidamente, o que pode prejudicar a sua família, a sua carrei­ra, o seu ideal... Possuindo o conhecimento dos objetos e de si mesmo, o homem concebe o plano de ordenar o mundo e a si mesmo, dominan­do fatores estranhos ao seu ideal, superando paixões desregradas, culti­vando boas tendências, etc. Isto tudo escapa às possibilidades de um animal irracional, pois este conhece o seu objeto concreto, singular, e é incapaz de se emancipar das notas concretas deste e de se voltar para si mesmo de maneira sistemática a fim de se conhecer. O ser humano, ao contrário, realiza esta introspecção, porque o seu princípio de conheci­mento (intelecto) é capaz de ultrapassar o seu objeto concreto, material para atingir o próprio sujeito...

3.3.  A cultura e o progresso

Verifica-se que o homem intervém no ambiente natural que o cer­ca, modificando-o de acordo com as suas intenções e os seus planos; cria assim a cultura, que se sobrepõe à natureza, adaptando-a ao ho­mem; assim é que surgem casas, estradas, cidades, fábricas, artefa­tos... Essa atividade científica e técnica, social e ética, artística e religiosa não é o produto de processos fisiológicos apenas ou de fatores materiais e econômicos tão somente, mas se deve à ação intelectiva e planejadora da inteligência e à liberdade de arbítrio do ser humano. Com efeito, ao conhecer a natureza que o cerca, o homem apreende as relações entre meios e fins ou as proporções entre diversos termos e concebe projetos para melhorar o seu ambiente (o seu habitat natural, a sua alimentação, o seu vestuário, as expressões de sua arte, de seus sentimentos religiosos...); vai assim construindo civilizações sucessi­vas... Ora o animal é incapaz de progredir em suas expressões, porque é guiado por instintos; assim o animal, embora certeiro e apurado em seus movimentos instintivos, é incapaz de dar contas a si mesmo do que faz e dos porquês da sua atividade; é, por isto, incapaz de se corri­gir ou de se ultrapassar. Em última análise, a raiz da diferença entre o comportamento do homem e o do animal reside no fato de que o ho­mem tem um princípio vital ou um princípio de atividades imaterial ou espiritual, ao passo que o animal tem uma alma material ou confinada pelas potencialidades da matéria.

3.4. O falar

- A linguagem é a capacidade que temos de formular conceitos universais e exprimi-los mediante sons concretos, que variam de idio­ma para idioma. Assim os conceitos de pai e mãe, por exemplo, são conceitos universais, que todo ser humano concebe espontaneamente, mas que cada povo ou cada grupo lingüístico exprime de modo diferen­te. O homem é capaz de emancipar-se de determinado som associado a determinado conceito universal para propor exatamente o mesmo conceito mediante outra expressão fonética; é o que se dá com os tradutores, que procuram guardar exatamente as mesmas mensagens intelectuais através de diversas sonorizações: pai, père, padre, father, Vater, pater, 'ab...

Quem olha para a cavidade bucal de um homem e a de um maca­co, é propenso a dizer: se o homem fala, o macaco também fala, pois organicamente este dispõe de tudo o que o homem possui para falar. Não obstante, o macaco não fala. Isto só se pode explicar pelo fato de que no homem há algo mais do que no macaco; esse algo mais é a espiritualidade do seu princípio vital. Com efeito; o homem só pode falar porque é capaz de perceber que diversos sons não significam sempre diversos conceitos ou porque é capaz de distinguir entre o som concreto e o conceito universal, imaterial. Isto denota no homem a presença de uma alma imaterial ou espiritual.

Ver  continuação deste assunto no artigo Ciência e Fé: Homem e Macaco

 



[1] Em setembro de 2005 (N.d.R.)

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