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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 018 – junho 1959

 

Os Malefícios, Força e Eficácia

Filosofia e Religião

Preocupado de S. Paulo:

“Que são malefícios ? Quais os meios de que dispomos para evitá-los e combatê-los ?”

 

Tendo em vista as duas partes da questão, trataremos abaixo da natureza e das práticas do chamado «malefício»; a seguir, procuraremos avaliar a eficácia do mesmo, acrescentando, por fim, uma palavra sobre a mentalidade que o malefício pressupõe.


1. Que são malefícios ?


1) Os malefícios constituem uma arte que pretende obter, de maneira mais ou menos irresistível, a colaboração de forças invisíveis (espíritos) a fim de acarretar algum dano ao próximo.

Na verdade, a arte dos malefícios não é senão um setor da técnica mais ampla chamada magia.


2) Que seria então a magia ?


A magia é o conjunto de práticas que visam de certo modo dominar a Divindade ou os espíritos superiores, captando-os para servirem aos interesses dos homens. Em geral, a magia, onde ela é exercida, fica reservada a pequeno grupo de peritos que vivem em sociedades secretas, dizem ter recebido especiais revelações do Alto e se submetem a uma aprendizagem, teórica e prática, própria; jejuns, provações dolorosas, isolamento entram por vezes no programa de formação do mago. Certas realizações da magia são frequentemente patrimônio exclusivo de tal ou tal família, pois, em grande parte, o sucesso do mago está baseado em determinada constituição fisiológica e temperamental hereditária (isto já insinua que as práticas mágicas nada têm de sobrenatural, mas são fenômenos não raro derivados de reações subconscientes e, muitas vezes, doentias do indivíduo).

 

O vocábulo “Magia” se deriva de “Magos”, nome de uma das seis tribos integrantes do povo dos medos. Essa tribo tinha significado religioso próprio, pois os seus membros, pertencentes talvez à casta sacerdotal se opuseram a Zoroastro na sua obra de reforma da antiga religião do Irã (séc. VII/VI a.C.). Quando os persas, sob o governo de Ciro, se apoderaram da Média (550 a.C.) e da Babilônia (539 a.C.), os magos entraram em contato com a Pérsia, a Mesopotâmia e, a seguir, com a vasta rede territorial conquistada por Alexandre Magno da Macedônia (+313 a.C.). A Babilônia tornou-se então o cadinho de fusão da antiga civilização oriental com a civilização grega. É o que explica a nova acepção que o título de «mago» foi tomando no mundo greco-romano: tal nome, guardando o seu significado religioso, passou a designar os sacerdotes da religião babilônica, homens hábeis em práticas de astrologia e adivinhação (cf. P. R. 16/1959, qu. 2); por isto o nome «mago» veio a ser tido como sinônimo de «astrólogo, taumaturgo e feiticeiro». A magia é hoje praticada nas mais diversas regiões do globo, com modalidades e ritos muito variados, mas sempre inspirada pelo mesmo afã de captar as forças superiores para servirem aos planos dos homens. Ela é, em larga escala, explorada em nossos dias e no Brasil pela sociedade dita de «Umbanda», onde os malefícios tomam o nome de «despachos».


3. Sejam aqui citadas algumas das práticas mais características da magia.


A «morte à distância», dizem os magos, pode ser provocada do seguinte modo: faz-se uma estatueta da pessoa de quem se deseja o extermínio, utilizando-se de preferência os excrementos dessa pessoa ou (não sendo isto possível) um pouco de barro, no qual o mago procura enxertar pedaços de unha, fios de cabelo, uma parte da esteira de dormir pertencentes à vítima visada ou simplesmente um retalho de pano que haja tocado a pele desta. A seguir, o mago (também chamado «médium» em algumas escolas) evoca forças maléficas, pedindo a sua intervenção; concentra seus pensamentos nas tribulações e dores que deseja afetem o indivíduo odiado e inflige à estátua os ferimentos que ele intenciona causar à vitima: caso queira atacar o coração e matar sem demora, finca um osso pontiagudo no suposto lugar do coração da estátua; caso deseje apenas fazer enlouquecer, é na cabeça da estátua que o mago mete a ponta de osso; se quer, antes, tornar o indivíduo cego, visa os olhos; a fim de o tornar paralítico, mutila uma ou mais extremidades da estátua; para fazer morrer aos poucos, faz a estátua consumir-se lentamente em fogo...


Semelhantes «receitas» podem ser utilizadas em vista de finalidades menos sinistras, ou seja, para obter o amor ou conquistar a simpatia de alguém. No primeiro caso, esfrega-se a estatueta do homem ou da mulher que se deseja, com pimentão, banhando-se a mesma depois em óleo de palmeira; no segundo caso, a efígie é encerrada entre as duas metades de um galo branco recém-morto. Virgílio, na sua Écloga VIII, narra o processo aplicado a uma estátua que representava Dafnes; feita de gesso e cera, a imagem foi colocada no fogo, a fim de que, em consequência, o coração do jovem Dafnes fosse amolecido como cera em relação à donzela que praticava o rito, e endurecido como gesso frente a todas as demais mulheres...


Para obter um sucesso na caça, os caçadores primitivos não raro executavam, e executam, prèviamente uma dança que pretende imitar as diversas fases da caçada; durante tal rito, um deles permanece revestido da pele do animal que visam capturar. O código da magia ensina que este cerimonial garante a queda da presa nas mãos dos caçadores que lhe forem ao encalço.


Outras receitas têm por objeto o nome da pessoa visada. O nome segundo a mentalidade dos primitivos, faz parte integrante do respectivo indivíduo, pois está em estreita relação com a essência deste. Em consequência, quem conhece o nome de determinada pessoa, pode influir sobre os sentimentos íntimos e a conduta da mesma; aplicando estes princípios, os magos, desejosos de prejudicar ou exterminar um adversário, repetem o nome deste, mutilando ou suprimindo progressivamente letras e sílabas; a destruição do apelativo assim efetuada deve acarretar a ruína da personalidade nomeada... Para defender-se de tal ação mágica, muitos dos homens primitivos guardavam e guardam rigoroso sigilo com relação ao seu nome pessoal ou ao de famílias e entidades caras.


Entre as aplicações maléficas da magia, goza de grande celebridade popular o «mau olhado». Os temores em relação a este se baseiam na crença de que dos olhos de certos indivíduos emana um fluido ou uma corrente qualquer capaz de prejudicar pessoas e coisas. Os latinos davam à arte do mau olhado o nome de invidia (donde «inveja» em português), derivado do verbo in-videre («olhar contra»); famosa ficou sendo a inscrição gravada no pavimento da taverna dos peixeiros em Óstia (Itália), inscrição dirigida contra os maliciosos nos termos seguintes : «Invejoso (tu, que lanças mau olhado), eis que te torno cego!» (Reg. IV, ilha 5a.). Os gregos designavam a mesma arte pelo apelativo de báskanon, de etimologia incerta, do qual se derivou o termo latino fascinum (fascinação). Não raro o mau olhado era acompanhado de uma fórmula mágica cantada; em consequência, essa técnica tomou também o nome de «encantamento». É interessante notar que a famosa Lei romana das Doze Tábuas proibia explicitamente aos agricultores tentassem, por meio de mau olhado e encantamento, fazer passar para o seu próprio campo os frutos do campo do vizinho (Tab. VIII 1,8, Bruns); Virgílio alude ao mau olhado que fascina os cordeirinhos (Écl. VIII 99). —A título de curiosidade, seja notado que os romanos se procuravam defender dos efeitos nocivos de louvores exagerados (tidos como invejosos), trazendo consigo certa erva denominada baccar ou asarum; por vezes junto a essa planta colocavam mesmo a inscrição : «Prae fiscisne», isto é: «Sem fascinação ! De tal louvor não provenha mal!» (cf. Sérvio Ad Ecl. VII 27). Em geral, minerais e vegetais qualificados (o ouro, os corais, o âmbar, a arruda, a sanguinária...) eram utilizados pelos romanos como elementos aptos para afugentar as consequências do mau olhado.


Entende-se. porém, que esses pretensos meios profiláticos não libertavam o homem pagão do medo dos malefícios. Haveria então alguma saída satisfatória?


2. A eficácia dos malefícios


O fato de que os malefícios conseguiram tanta voga no mundo antigo e moderno deve-se inegàvelmente à obtenção de resultados que a muitos homens parecem comprovar a eficácia das artes mágicas. Não se poderá negar que fenômenos surpreendentes se verificam em consequência dos ditos encantamentos.


Os povos pagãos, reconhecendo isso, afirmavam e afirmam que tais portentos se devem realmente à intervenção dos espíritos superiores evocados pelos magos.


Os cristãos, até o século XVII, rejeitando qualquer vestígio de politeísmo, atribuíam os malefícios à cooperação direta do demônio ou dos anjos maus. Em consequência, era comum, na Idade Média, falar-se, por exemplo, de bruxas, ou seja, de mulheres possuídas e atormentadas pelo Maligno; julgava-se que, em reuniões noturnas (sabás) celebradas nos bosques, os espíritos malvados se associavam orgiástica e impudicamente a tais criaturas, dançando, comendo e deitando-se com elas. As trágicas calamidades desencadeadas pela fome, as guerras e as epidemias no período medieval concorriam para alimentar a crença na ação direta do demônio em meio aos homens. Verdade é que os bispos e concílios da época mais de uma vez procuraram combater a credulidade excessiva e simplória de que dava provas o povo cristão nesse setor: assim o concilio de Braga em 563 repreendeu os fiéis que atribuíam ao demônio poder sobre os fenômenos atmosféricos; S. Agobardo, arcebispo de Lião em cerca de 840, combateu essa mesma concepção na sua obra «Contra insulsam opinionem de grandine et de tonitruis». O Papa S. Gregório VII tomou semelhante atitude em carta dirigida ao rei Haroldo da Dinamarca (19 de abril de 1080). A lei dos francos chamada «Canon episcopi», datada de fins do séc. IX negava a realidade dos fenômenos atribuídos aos sabás das bruxas, dizendo tratar-se de invenções da fantasia de mulheres depravadas.


Nos últimos séculos os cronistas cristãos se mostraram menos propensos a admitir intervenções diabólicas e preternaturais para elucidar os efeitos extraordinários dos malefícios e da magia. Hoje em dia, os teólogos, utilizando novos conhecimentos fornecidos pelas pesquisas modernas de psicologia, parapsicologia e ciências naturais, já consideram toda essa fenomenologia de modo diverso e mais profundo. Eis como se exprimem a respeito:


Os efeitos reais (exclua-se, portanto, o número não exíguo dos prodígios meramente imaginários ou inventados por mistificadores) produzidos pelos ditos malefícios se podem explicar por duas vias:

a) ou são devidos à ação direta do demônio (Satanás e a coorte de espíritos maus). Julga-se, porém, que esta ação direta é rara ; está cada vez mais comprovado que os portentos da magia geralmente não são preternaturais, isto é, não exigem a intervenção de causa superior ao homem, mas, ao contrário, se explicam muito bem pelas virtualidades da própria alma humana. Donde a hipótese abaixo:

b) ou são devidos a fatores parapsicológicos, isto é, a elementos naturais contidos no subconsciente do indivíduo. Trata-se em tal caso (e, note-se bem, o caso é frequente) de fenômenos paranormais (isto é, não normais, não habituais, mas não necessàriamente anormais), os quais podem ser desencadeados no indivíduo por ação de um choque ou traumatismo psíquico que impressione o íntimo da personalidade. Sabe-se que apenas uma oitava parte dos conhecimentos possuídos pela alma humana aflora habitualmente à consciência, ficando sete oitavas partes no subconsciente; dado, porém, que, em virtude de um fator extraordinário, estas noções latentes se manifestem, a personalidade do indivíduo pode tomar aspectos muito variados e imprevistos.

 

Têm sido mais e mais explorados os efeitos da radiestesia, do magnetismo, da letargia, do hipnotismo, assim como os fenômenos intitulados «psi-gama» (gama é a primeira letra da palavra grega gnósis, conhecimento; trata-se do conhecimento à distância ou por via extrassensorial) e «psi-kapa» (kapa é a primeira letra do termo grego kínesis, movimento; trata-se da movimentação de corpos sem aparente contato direto do movente com o movido). Os mesmos fenômenos que magos, curandeiros e médiuns provocam dentro de um ritual religioso, têm sido obtidos sem evocação de espírito algum, por tramite racional e científico — o que bem demonstra não se tratar de fenômenos essencialmente preternaturais ou religiosos.


Não há dúvida de que o demônio pode exercer — e, de fato, não raro exerce — ação indireta na provocação dos fenômenos parapsicológicos, procurando corroborar nos magos e médiuns a crença de que tais efeitos se devem a espíritos superiores ; com isto Satanás alimenta os erros religiosos que os autores de encantamentos professam. Em particular com relação a certas doenças, é notório que o Maligno as pode provocar no homem (é o que atesta o S. Evangelho, por exemplo, em
Mt 9,32s; 12,22; 17,14-20; Lc 13,10-13). Tendo-as provocado, o demônio pode fazer que resistam à ação de qualquer tratamento médico, mas cedam finalmente à aplicação de algum encantamento ou despacho mágico. Assim procedendo, o espírito mau vai fomentando a adesão às idéias errôneas dos magos e médiuns...


Assim elucidados os efeitos maléficos da magia, pergunta-se: tais artes e encantamentos terão realmente a ação mais ou menos infalível que lhes atribuem seus adeptos, de modo a dever assustar as pessoas visadas ?


Em resposta, observe-se que os espíritos malignos evocados pelos autores de malefícios são seres reais, sem dúvida, dotados de inteligência e capacidade de ação muito mais elevadas que as do homem. Contudo eles não podem exercer influência alguma sobre as demais criaturas sem que Deus o permita explicitamente; a ação do demônio neste mundo fica estritamente subordinada aos desígnios do Altíssimo.


E Deus permitirá que os espíritos maus ajam sobre o homem ?

Sim. O Senhor o permite. E permite-o segundo dias modalidades principais:

 

a) Aos justos Satanás pode atacar a fim de que se comprovem a fé e o amor de tais homens a Deus; é, sim, pela luta que o cristão se configura a Cristo. Esses ataques podem tomar proporções de grande vulto (como no caso de uma doença ou de um desastre) ; mas — saibamo-lo bem — só são permitidos em vista de um efeito bom a ser obtido no homem tentado. E, para que este consiga realmente beneficiar-se do combate contra Satanás, Deus lhe dá a graça correspondente, nunca permitindo que o homem seja tentado acima de suas forcas. Caso, portanto, alguém se considere vítima de um malefício ou de um «despacho», não julgue que o rito mágico foi por si eficaz para tanto (longe disto !), mas conclua que Deus, por ocasião da ação do mago ou médium, houve por bem permitir tal efeito, outorgando simultaneamente a graça para que o indivíduo atribulado usufruísse de todo o proveito espiritual resultante da sua situação.

b) Sobre os pecadores Deus pode permitir que o demônio tenha influência mais intensa, pois que tais homens habitualmente vivem em afinidade com Satanás e em revolta contra Deus. Principalmente quando alguém declara explicitamente travar um pacto com o Maligno ou «vender sua alma ao demônio», o Senhor pode conceder a Satanás que responda tomando posse dessa alma, seja de maneira visível e veemente, seja de maneira invisível; está claro então que os malefícios e encantamentos dirigidos contra tal pecador podem ter certa eficácia, pois Deus poderá permitir que o Maligno trabalhe mais livremente num indivíduo que deseja sofrer a ação do demônio; note-se, porém, que mesmo neste caso a permissão de Deus ainda visa a cura espiritual (ou seja, um benefício real) para o pecador.


Diante destas considerações o cristão concluirá que ele não tem motivo algum para temer os encantamentos da magia ou os malefícios. Quem procura viver com Deus, como fiel católico, sabe que nada poderá prevalecer contra os seus verdadeiros interesses: “Se Deus está por nós, quem será contra nós?”, pergunta vitoriosamente São Paulo (Rom 8,31). Verdade é que o Senhor não prometeu eximir das dores e da cruz os seus filhos devotos; muito ao contrário... (cf. «P. R.»
15/1959, qu. 6). O cristão conta mesmo com provações que mais e mais o purifiquem das tendências desregradas da natureza, mas pouco lhe importa saber se tais provações provêm de artes maléficas ou não; em todo e qualquer caso, o filho de Deus tem certeza de que é o Pai do céu quem rege os acontecimentos da sua vida, e não o demônio; sabe que ele depende de Deus, e não de Satanás, de modo que, se não abandona espontaneamente o seu Salvador, pode estar seguro de que o Salvador não o abandonará: «Para quem ama a Deus, Deus tudo faz cooperar para o bem», ensina de novo o Apóstolo (Rom 8,28). Retomando uma comparação de S. Agostinho, aliás muito conhecida, diremos que Satanás é como um cão acorrentado que pode ladrar muito, sim, mas a ninguém consegue fazer mal a não ser que alguém espontaneamente se coloque sob a sua influência.


Procurem, pois, os homens viver na graça de Deus; fujam do pecado e dos vícios. E, fazendo isto, não duvidem de que nada, nada absolutamente, os impedirá de chegar à posse consumada do Bem Infinito!


3. A mentalidade do mago


Por último, parece oportuna breve reflexão sobre a atitude «religiosa» que caracteriza a magia. Esta, embora conserve as aparências de religião, significa decadência ou aberração do espírito religioso.


Com efeito, a genuína religião leva o homem a implorar a Deus e se submeter a Ele num gesto de abandono humilde; o orante conserva a consciência de que depende sempre do Altíssimo, O Qual lhe outorga gratuitamente seus dons; é, aliás, nessa entrega total a Deus que o homem religioso vê a realização de si mesmo e de seu ideal. — Ora o oposto se verifica na magia: o mago se separa da coletividade dos demais homens, julgando possuir ciência oculta muito profunda; exalta-se mesmo acima da Divindade, pois, mediante essa ciência, presume forçar o consentimento da própria Divindade; a obediência e a submissão de que ele dê provas nas fases de iniciação, para ele não são senão a condição ou talvez a artimanha necessária para que possa adquirir a maravilhosa ciência de dominar os poderes supremos.


A magia, portanto, vem a ser uma afirmação da cobiça do homem, que tende a se endeusar dentro de um ambiente primitivo e ignorante, ambiente em que qualquer verniz de ciência é suficiente para assegurar a carreira dos cobiçosos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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