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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 017 – maio 1959

 

Longevidade dos Patriarcas Bíblicos

SAGRADA ESCRITURA ESPECTADOR (Juiz de Fora):

O primeiro homem terá sido criado 4 ou 5 milênios apenas antes de Cristo?

Como se explica que Adão e seus primeiros descendentes tenham vivido centenas de anos, como insinua o Gênesis?

Nestes pontos não estaria a Escritura em conflito com evidentes dados da ciência?

 

A «cronologia» dos primeiros capítulos do Gênesis tem suscitado dúvidas e perplexidade. Abordaremos a questão, voltando primeiramente nossa atenção para os dados precisos da mesma; a seguir, procuraremos abrir algumas vias para a respectiva solução.

 

1. Os dados do problema


Chama-se «pré-história bíblica» o bloco Gênesis 1-11, pois nestes capítulos o autor sagrado visa apenas preparar a entrada de Abraão no cenário da história (cerca de 1.800 a.C.). De Abraão (Gên 12) em diante, os acontecimentos e a sucessão dos tempos em Israel (povo de Abraão) interessam diretamente ao escritor sagrado, pois constituem a história da nação messiânica.

E quais as grandes etapas que o hagiógrafo menciona em preparação à história de Abraão?

São:

1) a criação e o pecado dos primeiros pais no paraíso (Gên 1-3). Quadro básico que, de um lado, explica a entrada da corrupção e do sofrimento no mundo e, de outro lado, justifica a necessidade de Redenção ou de extraordinária intervenção de Deus para impedir que o gênero humano seja totalmente vitima da desgraça moral e material;

2) o crime de Caim, que mata Abel logo na primeira geração (Gên 4,3-8). Bem mostra como o pecado vai dominando os homens;

3) o episódio do dilúvio (Gên 6-9). Tem, em proporções mais amplas, a mesma finalidade que o anterior;

4) a cena da torre de Babel (Gên 11,1-10). Ê, nesta série, a ultima afirmação da continua apostasia dos homens.

Sobre este fundo, o leitor, ao chegar em Gên 12, já compreende bem que Deus, tendo em vista a restauração do gênero humano, haja chamado de uma terra pagã um homem denominado Abraão, mandando-lhe fosse iniciar na região de Canaã uma linhagem nova, portadora da verdadeira fé, que o Senhor aos poucos iria revelando ao Patriarca e à sua descendência; do povo de Abraão deveria sair o Messias.


Pergunta-se agora: será que, ao configurar este quadro da religião e da moralidade antigas, o autor sagrado tinha em vista enunciar também dados da cronologia ou proferir alguma tese sobre a idade do gênero humano?


É, ao menos, o que comumente se deduz do fato de que, entre Adão e Noé (o dilúvio), o hagiógrafo enumera dez gerações, atribuindo a cada uma séculos de vida (Gên 5, 1-32: a linhagem dita de Sete ou dos Setitas), e, entre o dilúvio e Abraão, mais dez gerações, também extraordinàriamente longevas (Gên 11,10-26): linhagem dita de Sem ou dos Semitas).

 

As cifras assinaladas nesses trechos não são exatamente as mesmas nas três recensões mais antigas do Gênesis, isto é, no texto massorético ou TM (o texto hebraico hoje existente), no chamado «Pentateuco dos Samaritanos» ou Sam (texto como era lido no séc. V a. C. na Samaria) e no texto dos LXX (texto grego traduzido do hebraico nos séc. III/I a.C.). Somando-se os números de cada uma dessas recensões, obtêm-se os seguintes resultados:

 

 

 

TM

Sam

LXX

De Adão ao dilúvio decorreram :

anos

1656

1307

2262

Do dilúvio ao nascimento de Abraão

 

 

 

 

decorreram :

anos

290

940

1070

 

 

1946

2247

3332

 

Das três formas do texto, a mais fidedigna é a do TM. Como quer que seja, adicionando-se a essas cifras os 2.000 anos que aproximadamente medearam entre Abraão e Cristo, tem-se concluído que, conforme a Bíblia, o gênero humano existia havia 4 ou 5 mil anos apenas, quando veio o Redentor; hoje ele não ultrapassaria os seus 7.000 anos de existência! — Ora, feita esta suposição, torna-se evidente o conflito com as ciências naturais, que atribuem à nossa estirpe uma duração oscilante entre 120.000 anos (na mais sóbria das hipóteses) e um milhão de anos (o planeta Terra, neste caso, já teria 3.350.000.000 de anos).


O problema parece tornar-se mais agudo ainda, se se observa a surpreendente «longevidade» dos Patriarcas bíblicos: Adão teria vivido 930 anos; Matusalém, 969 anos; Noé, 950 anos, etc. Contudo a Paleontologia afirma que os primeiros homens não viviam mais do que nós: os fósseis insinuam breve duração da vida do homem antigo, assim como mortalidade infantil em altas proporções, pois que faltavam às gerações de outrora os recursos cirúrgicos e medicinais necessários para deter as doenças.

Eis os termos do problema que se impõe à consideração do estudioso.

 

2. Luz no enigma


1. Até o século passado, nenhum exegeta hesitava em adicionar uns aos outros os números apontados pelo Gênesis, tomando-os como indicações cronológicas. Nem a Paleontologia apresentava dificuldades contra tal proceder, nem os conhecimentos de filologia (precários como eram) sugeriam outra interpretação.

 

No séc. XIX, porém, tornou-se evidente que o gênero humano tem muito mais de 5.000 anos sobre a terra. Além disto, documentos descobertos nos arquivos do Oriente antigo projetaram novas luzes sobre a mentalidade e o expressionismo de que dependem os primeiros capítulos do Gênesis. Em consequência, os estudiosos puderam apreender melhor o sentido das cifras assinaladas aos Patriarcas bíblicos.

Na base, pois, dos novos estudos, qual seria o significado desses números?


Os exegetas não hesitam em afirmar que não indicam cronologia nem assinalam intervalos de tempo, mas são artifícios de um gênero literário próprio.

E qual seria esse gênero literário?


Descobriram-se nos arquivos da antiguidade listas de dez, oito ou sete varões que teriam vivido nos primórdios da humanidade, dotados cada qual de extraordinária longevidade.


Na Babilônia, por exemplo, o sacerdote Berosso confeccionou o seguinte catálogo de dez reis anteriores ao dilúvio babilônico, sendo o décimo, Xisutro, o herói do dilúvio no poema babilônico de Gil-gamesh:

 

1.

Aloro reinou

36.000 anos ou 10 saros (1 saro=3600 anos)

2.

Aláparo

10.800

3

3.

Almelon

46.800

13

4.

Amenon

43.200

12

5.

Amegálaro

64.800

18

6.

Dáono

36.000

10

7.

Edoranco

64.800

18

S.

Amenfsino

36.000

10

9.

Otiartes

24.800

8

10.

Xisutro

64.800

18

 

Ao lado desta lista, conhece-se outra, também babilônica (W. B. 444), em que oito reis são enunciados desde os tempo pré-diluvianos até a data de confecção da tabela (cerca de 2.400 a. C.). Ei-la:

 

1.      Alulim, de Eridu reinou                       28.800 anos ou                 8 saros

2.      Alagar, de Eridu                                      36.000 anos                       10 saros

3.      En-me-en-lu-an-na, de Badtibira    43.200                                  12

4.      En-me-en-gal-an-na, de Badtibira  28.800                                  8

5.      Dumu-zy, o pastor de Badtibira       36.000                                  10

6.      En-sib-zi-an-na, de Larak                    28.000                                  8

7.      En-me-en-dur-an-na, de Sippar      21.000                                  5 saros e 5 ner (1ner = 600 anos)

8.      Ubara-du-du, de Suruppak               18.000 anos                        5 saros e 1 ner

 

Existe ainda outra tabela da antiga Babilônia (W. B. 62), na qual dez .reis antediluvianos vêm mencionados com semelhante longevidade. Verifica-se que os nomes ocorrentes nessas diversas listas são, exceção feita de alguns legendários fundadores de dinastias, nomes de personagens históricos. As tabelas, porém, divergem entre si na indicação tanto dos nomes como dos números — o que é indicio de que nem estes nem aqueles eram visados em si, ou seja, com o fim de reconstituir a realidade histórica, mas, antes, vinham escolhidos e enunciados conforme outros critérios que não os da historiografia. Pode-se mesmo dizer que nem o número de gerações ou reis nem a longevidade de cada indivíduo interessavam diretamente aos autores de tais tabelas; por isto é que os mencionavam mediante esquemas feitos (10 nomes, 8 saros, 10 saros, 12 saros...), esquemas que, no plano da história, parecem fabulosos, mas, à luz da mística ou do simbolismo antigo dos números, eram altamente eloquentes.


Fora da Babilônia encontraram-se blocos literários semelhantes aos da Mesopotâmia; no Egito, por exemplo, achou-se a lista de dez reis que governaram o povo nos seus primórdios. Os Persas conheciam seus dez Patriarcas; os Hindus enumeravam nove descendentes de Brama, com os quais Brama completava uma série de dez gerações antediluvianas.


Estes dados são suficientes para se concluir que tabelas esquemáticas de dez (oito ou sete) gerações extraordinariamente longevas constituíam um gênero literário bastante familiar aos antigos, quando estes queriam referir algo dos seus tempos primordiais. Tais tabelas elaboravam dados históricos, ampliando-os, ou mutilando-os conforme as leis de estilo próprio, de sorte a fazerem de personagens e objetos a expressão muito viva de doutrinas filosóficas, religiosas ou do patriotismo nacional; os números, em tal caso, vinham a ter significado estritamente simbólico, designando qualidades ou valores morais, não, porém, quantidades ou duração de vida.


Pois bem. Considerando-se as tabelas genealógicas de Gên 5,1-32 (os Setitas) e 11,10-26 (os Semitas), verifica-se que pertencem ao gênero literário que acabamos de mencionar: dez nomes ocorrem em cada uma, cercados de números que, embora pareçam atribuir aos Patriarcas extraordinária longevidade, deverão ser entendidos como expressões de predicados morais dos respectivos sujeitos.


2. Surge então a pergunta: qual seria o simbolismo incutido por tais números?

Para facilitar o entendimento das interpretações a ser dadas, vão aqui propostas as cifras de ambas as listas

 

ADAMITAS (SETITAS): Gên 5,1-32

1             2             3             4             5                             6             7                             8                             9                             10

Adão     Sete      Enos      Cainã     Malalael              Jarede  Henoque            Matusalém        Lameque            Noé

Idade em que gerou o 1º filho:

130         104         90           70           65                           162         65                           187                        182                        500

Restante tempo de vida:

800         807         815         840         830                        800         300                        782                        595                        450

Total:

930         912         905         910         895                        962         365                        969                        777                        950


 

SEMITAS: Gên 11,10-26

1             2                             3             4             5             6             7             8             9             10

Sem        Arfaxode               Cainã(1) Sale        Hebor    Falegue  Reu         Sarugue Nacor     Terá

Idade em que gerou o 1º filho:

100         35                           130         30           34           30           32           30           29           70

Restante tempo de vida:

500         403                        330         403         430         209         207         200         119         135

 

[1] O nome de Cainã não figura no texto hebraico massorético, mas encontra-se no dos LXX. assim como em Lc 3,36 (cf. Jubileus 8,8). Caso tal nome não seja considerado autêntico, a lista dos semitas chega a compreender, não obstante, dez membros pela inclusão de Abraão, que a consuma e coroa.

 

Na interpretação dos números, muitos pormenores escapam simplesmente ao entendimento do exegeta moderno, visto não estarmos familiarizados com a antiga mística das cifras. Em todo caso podem-se estabelecer as seguintes proposições:

1) Sendo dez o símbolo da totalidade (pois esgota a série das unidades), o número de dez gerações em ambas as tabelas significa totalidade, isto é, todas as n gerações que houve entre a criação (Adão) e o dilúvio (Noé, novo pai do gênero humano após «nova criação»),... entre o dilúvio e Abraão (novo inicio da história religiosa, desta vez limitada ao povo de Abraão). Quantas foram essas gerações, o autor mesmo não o sabia nem Deus lho quis revelar especialmente, pois isto não era necessário para se atingir a finalidade religiosa do texto bíblico. Em consequência, o hagiógrafo recorreu aos nomes de dez personagens reais para significar simplesmente uma etapa consumada na história sagrada, etapa cujos pormenores não interessavam ao escritor sagrado.

2) Passando agora à interpretação dos números que acompanham cada um dos nomes das duas listas, dever-se-á observar o seguinte:


De maneira geral, o número indica ordem, harmonia ou conformidade com o plano de Deus (cf. Sab 11,20: o Senhor tudo dispõe «conforme medida, número e peso»). Por isto é que na lista dos Cainitas (
Gên 4,17-24), reputados como pecadores, não é mencionado número algum; tais homens estão fora da harmonia e fora do livro da vida.


Elevado número de anos de vida, dentro dessa perspectiva, significa não a duração da vida ou a longevidade do respectivo Patriarca, mas a sua venerabilidade. Uma longa vida sobre a terra sendo o objeto das aspirações de todo homem, os israelitas ligavam consequentemente os conceitos de bênção divina e venerabilidade com o ideal da longevidade.


«Aquilo que um pintor, ao representar um Patriarca, exprime mediante uma estatura elevada e pujante, uma barba ondulada, uma cabeleira branca como a neve, o mesmo o hagiógrafo o exprimiu mediante as elevadas cifras. Era preciso, sim, que se servisse de altos números caso quisesse dar aos seus contemporâneos uma impressão autêntica do que eram aqueles antepassados veneráveis; os Babilônios, do seu lado, atribuíam a cada um dos dez reis ante- diluvianos períodos de governo que vacilavam entre 18.000 e 72.000 anos!» (J. Schildenberger, Vom Geheimnis des Gotteswortes. Hei- delberg 1950, 275).


Note-se, porém, que o texto da Escritura faz diminuir aos poucos a «longevidade» dos Patriarcas: ao passo que a dos Setitas varia entre 1000 e 750 anos, a dos Semitas já oscila entre 600 e 150 anos, a dos filhos de Abraão se reduz a uma média entre 200 e 100 anos (cf. Gên 25,7; 50,26; Dt 34,7), para cair no normal de 70/80 anos em textos posteriores (cf.
Sl 89,10). Esse decréscimo significa que, quanto mais o curso das gerações se distanciava do estado paradisíaco, tanto mais se alastrava a iniquidade sobre a terra e, por conseguinte, cada vez mais forte sobre o homem era o poder das misérias acarretadas pelo pecado (entre as quais, a morte).

 

3) Não se poderia, hoje em dia, indicar a razão de. ser de todo e qualquer dos números atribuídos a cada um dos Patriarcas em particular. Algumas cifras, porém, têm sentido claro:


Henoque, por exemplo, viveu 365 anos e, a seguir, sem passar pela morte, foi arrebatado por Deus (
Gên 5,21-24). Embora a sua vida seja a mais breve da respectiva lista, o número que a acompanha diz que foi vida consumada; sendo 365 o número característico do ano solar, Henoque, que caminhou 365 anos com Deus, é apresentado como um sol que consumou sua trajetória sobre a terra, difundindo luz e calor; no número (elevado ou exíguo..., isso não importava muito ao autor sagrado) de anos que passou sobre a terra, cumpriu sua missão. Por isto também é o sétimo Patriarca da lista setita (pormenor que por sua vez significa perfeição e que é explicitamente realçado por S. Judas Tadeu na sua epístola, v. 14).


Lameque representa, depois de Henoque, a vida menos longa da linhagem setita: 777 anos. Mas também esta vida, pelo número 7 que a caracteriza, é insinuada perfeita ou consumada. Ademais, ao gerar Noé (5,28s), Lameque professa esperar deste filho alivio ou repouso, isto é, uma espécie de sábado (sétimo dia!): «Este (Noé) nos consolará de nossos trabalhos e da fadiga de nossas mãos, causados pelo solo que o Senhor amaldiçoou» (5,29).


Noé, cujo nome significa «repouso», também tem a sua vida marcada pelo número 7 (cifra do dia de repouso); conforme Gên 8,13s, o dilúvio terminou, cedendo à bonança no ano 601, ou seja, no início do sétimo século da vida de Noé. Após o dilúvio, este Patriarca ainda viveu 350 anos (cf. Gên 9,28), isto é, sete períodos jubilares ( = 7 [7 x 7 +1]). Sua vida, pois, após a catástrofe, foi realmente uma espécie de sábado ou era de repouso para o mundo, conforme a profecia de seu pai Lameque.


Abraão foi chamado por Deus para deixar sua terra, aos 75 anos de idade (cf. Gên 32,4); gerou Isaque aos 100 anos (cf. 21,5) e morreu aos 175 anos (cf. 25,7). Já à primeira vista, não se pode negar certo ritmo ou artifício nestes números, artifício que talvez seja o seguinte: o hagiógrafo, dividindo a vida de Abraão em sete períodos de 25 anos, atribuiu três à permanência na Mesopotâmia e quatro (100 anos) à estada na Terra Prometida. Ora 100 anos, conforme a mentalidade que domina a história de Abraão (cf. Gên 15,13 e 16), representam a duração de uma geração; com esta cifra, portanto, o autor sagrado queria dizer que Abraão levou vida suficientemente longa (a vida de uma geração!) na Terra Prometida a fim de santificá-la, coisa que não fizera no seu torrão natal, donde Deus o tirara após 3 x 25 anos.


De resto, certos episódios da vida de Abraão desmentem a interpretação cronológica dos números atribuídos a este varão e exigem para o Patriarca e sua esposa idade muito mais jovem do que insinuam as cifras.


Assim, quando lhes foi anunciado que gerariam um filho, Abraão e Sara, que contavam respectivamente 100 e 90 anos de idade, não o creram, por se julgarem demasiado idosos; cf. Gên 17,17; 18,12.. Sabe-se, porém, que Abraão chegou à idade do 175 anos;- o que quer dizer que, aos 100 anos tinha atingido apenas 4/7 da sua existência na terra; dado que, num casal moderno, os cônjuges cheguem a viver 90 anos, o marido teria correspondentemente 55 e a esposa 45 anos, idades em que a velhice ainda não torna o sujeito incapaz de gerar; ademais Sara, depois do parto, ainda viveu 37 anos. — É de notar também o seguinte; quando Abraão desceu ao Egito, conforme Gên 12,10-20, receou que sua esposa, por ser bela e atraente, lhe fosse raptada, o que, de fato, se deu; ora Abraão devia ter entre 76 e 80 anos (pois saíra de sua terra pouco antes), e Sara, cujo aspecto era fresco e agradável, devia contar entre 66 e 70 anos; o episódio, porém, por si mesmo já diz que as cifras não quadram com a realidade: de um lado, Sara aos 66/70 anos ainda podia excitar a cobiça dos maus; de outro lado, aos 90 já era estéril e incapaz de gerar! Eis indícios de que, em particular na vida de Abraão, as cifras não pertencem ao gênero histórico.


Estendendo-nos ainda até Moisés, verificamos que chegou à idade de 120 (=3x40) anos de idade (cf. Dt 34,7). Quando enviado em missão ao Faraó, tinha 80 (=2 x 40) anos (cf. Êx 7,7). Ora uma tradição rabínica, referida por S. Estêvão em At 7,23.30, acrescentava que Moisés tinha 40 (= 1 x 40) anos, quando foi visitar seu povo e fugiu do Egito. Esta tradição oral parece ser o melhor intérprete das indicações do Êxodo e do Deuteronômio; os judeus terão enquadrado a vida do maior profeta de Israel (cf. Dt 34. 10-12) dentro do esquema de três períodos de 40 anos, para significar que tal vida foi bem ritmada e dirigida por Deus (pois 3 e 40 são os números sagrados e perfeitos, na S. Escritura).


Eis a interpretação de algumas das cifras mais evidentes das listas dos Patriarcas bíblicos. Se os exegetas não estão habilitados a indicar o sentido de todos os demais números aí ocorrentes, julga-se com razão que deverão ser interpretados segundo a mesma tendência simbolista. Por conseguinte, vão seria querer atribuir a tais cifras valor cronológico e, por via de adições, concluir algo sobre a idade do gênero humano, a época do dilúvio bíblico, etc.

 

Alguns exegetas, movidos pela intenção de fazer concordar a pretensa cronologia de Gên 1-11 com a cronologia profana, apelam para hipóteses insustentáveis: teriam sido omitidas algumas gerações nas listas genealógicas de Gên 5 e Gên 11... (na verdade, teriam sido omitidas tantas gerações que as ditas tabelas, em última análise, de nada valeriam como documentos de cronologia). Tratar-se-ia de anos lunares, e não de anos solares, nas cifras que parecem indicar longevidade ... Dez anos das listas corresponderiam a um ano dos nossos (opinião de S. Agostinho)...


Essas hipóteses, além de não conseguirem a almejada conciliação de cronologias, estão radicalmente viciadas. Partem de um pressuposto falso, admitindo que o autor sagrado tinha a mesma intenção que o paleontólogo, ou seja, a intenção de estabelecer uma cronologia do mundo!


Não resta dúvida de que o autor bíblico nunca teve em vista ensinar tal assunto; nem o Espírito Santo o teria inspirado em vista de tal fim. Não se queira, portanto, forçar os dizeres do texto neste sentido.


Verdade é que na Idade Média se deduzia a idade do mundo a partir dos dados bíblicos, de sorte que ainda hoje o Martirológio Romano pressupõe tal computação; fazia-se isso, por falta de conhecimento do emprego artificioso das cifras entre os antigos. Lembremo-nos, porém, de que a Igreja jamais definiu tal cronologia, a qual não pertence ao depósito da fé ou da moral cristã.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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