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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 015 – março 1959

 

Como se Justifica o Aparato Externo do Culto Católico?

QUIRINO (Bauru) E CAMUS (Poços de Caldas) perguntam:

Se Deus é espírito e aqueles que O adoram, em espírito e verdade O devem adorar (cf. Jo 4,24), como se justifica o aparato externo do culto católico? Não haverá nisto corrupção do Evangelho por intrusão de práticas pagãs?

 

Frequentemente, em nome de um espírito religioso mais esclarecido, apregoa-se a inutilidade de todo ritual; este corresponderia a uma etapa infantil do gênero humano, etapa que os verdadeiros adeptos da religião cedo ou tarde tendem a ultrapassar. Em apoio de tal tese, é muitas vezes citado o texto de Jo 4,21-24. — Em vista disto, procuraremos abaixo determinar primeiramente o autêntico sentido da passagem do S. Evangelho; a seguir, teceremos algumas considerações sobre o culto externo e seu valor.

 

1. A mensagem de Jo 4, 21-24

 

1. O cap. 4 de São João descreve o colóquio de Jesus com a Samaritana, junto ao poço de Jacó. A determinada altura do diálogo, a mulher, percebendo que o Senhor lia o íntimo da sua consciência, quis mudar o objeto do colóquio; entrou então no terreno das tradições religiosas. O seu estratagema deu ocasião a que Cristo proferisse “algumas palavras decisivas na história religiosa da humanidade” (Lagrange, Saint Jean 113).

 

Do poço de Jacó, a Samaritana podia mostrar a Jesus as encostas do monte Garizim. Neste o sacerdote Manassés, em fins do séc. V a.C., construíra um Templo ilegítimo, rival do de Jerusalém, arrastando para o cisma a população da Samaria. Em consequência, samaritanos e judeus disputavam entre si a respeito do lugar em que se devia praticar o legitimo culto de Javé: seria Jerusalém (como queriam estes) ou seria Garizim (como ensinavam aqueles)?

 

Tendo a mulher proposto a questão a Jesus, o Senhor mostrou que ocioso era discuti-la. Com efeito, Deus é espírito, e quer ser cultuado primeiramente pelo espírito do homem ; ora este, para agir, não depende necessariamente de determinados lugares, mas em toda parte pode-se elevar ao Criador e O adorar. O Divino Mestre entendia assim distanciar-se da atitude religiosa de muitos judeus do Antigo Testamento, que, em sua mentalidade rude, atribuíam valor preponderante às circunstâncias externas do culto, reduzindo a religião a um conjunto de cerimônias por vezes hipócritas. Cristo veio, ao contrário, ensinar uma religião mais profunda, que remata as fases preparatórias do Antigo Testamento: nesta o culto há de ser primàriamente encontro daquilo que o homem tem de mais nobre (o espírito) com Deus, que é Espírito puro ; e isto, porque religião não é magia, não é aplicação de ritos que forcem a Divindade a agir e obtenham efeitos benéficos por eficácia própria.

 

Por conseguinte — eis aqui a famosa fórmula — os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade. Esta expressão, como se vê, designa a mentalidade que deve mover os genuínos cultores de Deus. «Em espírito...», isto é, com o que o homem tem em si de mais íntimo e mais semelhante a Deus; não basta o cumprimento meramente legal de rubricas. «E em verdade», isto é, com disposições sinceras, ávidas de remover toda contradição entre profissão de fé e conduta de vida; o culto visível não acompanhado de ânimo interior vem a ser a caricatura da oração; esta só é autêntica se se procura cumprir a admoestação de S. Agostinho: “Irmãos caríssimos, o que cantamos com uma só voz, procuremos penetrá-lo com coração puro e façamo-lo passar para a nossa vida”.

 

2. Cumpre agora observar que, embora acentuasse o caráter íntimo e profundo da verdadeira religião, Cristo estava longe de querer abolir as manifestações rituais.

 

O homem, constando de alma espiritual e corpo, não desenvolve normalmente as faculdades de seu espírito sem o concurso do corpo ou da matéria; tudo que é autenticamente humano resulta sempre da colaboração de alma e corpo, e traz um cunho psicossomático. Em consequência, mesmo nas relações com a Divindade, o homem tem que se afirmar tanto com o seu ânimo interior como com o seu corpo. O próprio Deus, em todo o decorrer da história sagrada, quis vir ao encontro da sua criatura, servindo-se de formas e sinais sensíveis, até revestir a própria natureza humana na plenitude dos tempos, a fim de que, «conhecendo nós visivelmente a Deus, fôssemos arrebatados ao amor das coisas invisíveis» (Prefácio da Missa de Natal).

 

Ora o Senhor Jesus, vindo ao mundo reerguer a natureza decaída, não havia de se opor à estrutura corpórea do homem. Por isto Ele mesmo participava das cerimônias usuais em Israel: ia ao Templo para orar e celebrar as solenidades de Páscoa, dos Tabernáculos, da Dedicação... (cf. Jo 5,1; 7,14 ; 10,22s) ; era no Templo que Ele ensinava diariamente antes da sua Paixão (cf. Jo 18,20); além disto, quis receber o batismo de João, observar um jejum de quarenta dias (cf. Mt 3,13-4,2) ; vemo-Lo também a instituir ritos, como o batismo ou a ablução visível que confere uma vida nova, invisível (cf. Jo 3,3.5), a ceia sagrada ou a Eucaristia, que alimenta para a vida eterna... (cf. Mt 26,26-29); Ele praticou o Iava-pés em sinal de união com os seus discípulos (cf. Jo 13,8); confirmou a unção dos doentes (cf. Mc 6,13), os exorcismos já vigentes na religião judaica (cf. Mt 10,1), etc.

 

Destas considerações se conclui que, ao incutir adoração em espírito e verdade, o Senhor não visava senão aquilo mesmo que os Profetas do Antigo Testamento tencionavam ao incriminar certos abusos do seu povo: desejavam reagir contra a execução meramente extrínseca ou material das cerimônias sagradas (cf. Os 6,6; Am 5,20-26 ; Is 1,11-17; Jer 6,20; SI 49,7-23).—É certo, porém, que, ao censurar a hipocrisia, os profetas de modo nenhum pretendiam opor-se ao cumprimento dos ritos estipulados pelo próprio Deus na Lei de Moisés.

 

Todavia objetar-se-á que Deus, transcendente e perfeito, não precisa das homenagens sensíveis do homem. — É certo que Ele as poderia, dispensar por completo. Sabemos, porém, por revelação positiva do próprio Senhor no Antigo e no Novo Testamento, que Ele quer ser reconhecido por todas as faculdades de que a natureza racional dispõe, pois também os sentidos e o corpo são criaturas de Deus; encerram em si um filete da sabedoria do Altíssimo e, esse filete, eles o têm que exprimir tão lucidamente quanto possível, ainda que isto se faça no plano da matéria mesma (o corpo e a matéria em geral se tornam como que transparentes ou dotados de palavras quando utilizados pelo espírito do homem...).

 

3. Para ilustrar a maneira como se hão de fundir culto externo e culto interno na vida do cristão, vêm a propósito algumas passagens de São Paulo:

 

a) 1 Cor 5,6-8: “Não está bem a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levantar toda a massa? Afastai o velho fermento para serdes massa nova, porquanto sois ázimos. Pois Cristo, a nossa Páscoa, já foi imolada. Assim celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da malícia e da perversidade, mas com os ázimos da pureza e da verdade”.

 

Em Corinto certa vez surgira grave escândalo: um cristão vivia incestuosamente sem ser repreendido por seus irmãos na fé, antes gozando da condescendência destes. que chegavam a se vangloriar pela ousadia do pecador. O Apóstolo tinha que condenar essa desonesta atitude da comunidade...

 

Ora Paulo previa que sua carta, com a respectiva repreensão, chegaria a destino por ocasião da festa de Páscoa de 57; nessa época as famílias cristãs estariam a celebrar os mistérios da morte e da ressurreição do Senhor reproduzindo (como julgam bons comentadores) o ritual do Antigo Testamento: imolariam o cordeiro pascoal, eliminariam de suas casas todo pão fermentado e consumiriam durante oito dias pão ázimo (sem fermento). — Para que todo esse ritual sensível? O Apóstolo julgava que ele devia ter significado e repercussão na vida prática ou moral dos fiéis, para poder ser plenamente agradável a Deus. Por isto pôs-se a desenvolver uma alegoria, da qual a lição moral se depreenderia com muita delicadeza: o fermento simbolizava, na tradição rabínica, a corrupção e as más paixões (cf. Mc 7,15). Por conseguinte, a eliminação ritual do fermento das casas, para ser verdadeira (culto «em verdade»), devia ser acompanhada da extirpação do vício e do pecado; purificando-se das desordens morais, os fiéis se tornariam, então, no plano espiritual («em espírito»), massa nova, sem fermento, à semelhança daquela massa que eles haviam de comer durante a oitava de Páscoa; comer o pão ritual, ázimo, guardando na alma restos do fermento ou do pecado antigo, seria, para os fiéis, cair em contradição, desvirtuar o rito e torná-lo hediondo a Deus. E — podia ainda dizer S. Paulo — a renovação da massa «em espírito e verdade» era mais premente do que nunca, pois o Cordeiro imolado na Páscoa dos cristãos já não é o animal irracional do Antigo Testamento, mas é o próprio Cristo Jesus; Este, mais do que o seu tipo vétero-testamentário, exige pureza interior para ser dignamente celebrado.

 

Assim S. Paulo, a propósito de um caso mesquinho ocorrido entre os seus fiéis, desenvolvia uma profunda visão do que é o culto cristão. Este compreende dois planos — o visível e o invisível — inseparáveis um do outro, sendo o visível sinal do invisível. Sem perder os seus traços e símbolos sensíveis, a religião tem que ser vivida tanto no santuário como fora do santuário, transformando e renovando a conduta moral dos cristãos... É então que se tem o culto autêntico, «em espírito e em verdade».

 

b) Flp 2,16s: “Recebei com firmeza a palavra de vida para que eu me possa gloriar, no dia de Jesus Cristo, de não ter corrido em vão nem trabalhado à toa. E, se o meu sangue tiver que ser derramado como libação sobre o sacrifício e o serviço (leitourgia) da vossa fé, alegrar-me-ei e congratular-me-ei com todos vós”.

 

Supondo os ritos da liturgia sagrada, o Apóstolo neste texto mostra como eles se prosseguem e desabrocham na conduta cotidiana dos fiéis.

 

Ele compara, sim, a vida normal dos cristãos, com todos os seus atos, grandes e pequenos, a um sacrifício da liturgia, a uma função de culto perene, pela qual a alma exprime sua adoração e seu amor a Deus (a mesma ideia aliás, ocorre em Roma 12,1: «Oferecei vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus...»). O ministro desse ato de culto é o Apóstolo, que, por sua obra missionária, suscitou a vida cristã entre os filipenses. Tal é o aspecto que a existência cotidiana toma aos olhos de S. Paulo. — Eis, porém, que o Apóstolo prevê a possibilidade de morrer vítima da perseguição à fé... Completa então a imagem, comparando o seu sangue de mártir ao vinho das libações ou das ofertas que costumavam acompanhar os holocaustos e os sacrifícios pacíficos no Antigo Testamento (cf. Num 15, 5-10; 28,7). Assim a sua morte será a consumação do tributo de louvor e adoração a Deus iniciado no rito sagrado ou na liturgia do santuário.

 

É nestes termos que o Apóstolo entende a correlação entre o visível e o invisível no culto de Deus. Veja-se outrossim Rom 1,9; Flp 4,18.

Após estas explanações de caráter bíblico, passamos a breve reflexão sobre

 

2. O significado do culto externo

 

1. A história demonstra estar intimamente associada ao senso religioso a estima do culto visível com suas solenidades, de modo a se poder dizer que a festa religiosa é algo de tão espontâneo ao homem quanto a própria religião : «Uma religião sem festas, nunca a houve, justamente porque não seria religião» (A. Brunner, Die Religion 1956, 227).

 

E qual o motivo animador das solenidades religiosas e, em geral, de todo o culto externo?

 

Considerando os testemunhos da história e da psicologia humana, respondem os estudiosos nos seguintes termos: todo homem parece ter espontaneamente consciência não só de que Deus existe, mas também de que Deus lhe está próximo e se manifesta às suas criaturas, a fim de lhes promover a salvação (note-se a propósito o que S. Paulo dizia aos pagãos em At 14,16s). Ora em certas ocasiões essa consciência parece exaltar-se, suscitando solenes celebrações religiosas, em que o homem julga encontrar-se mais vivamente com a Divindade; nessas .celebrações se exprime a convicção que o orante tem, de estar realmente em contato com Deus, experimentando como que um antegozo da salvação definitiva. Por isto, em geral o homem primitivo estima as solenidades religiosas como dom de Deus ou como sorriso benévolo da Divindade; não é lícito, por conseguinte, promovê-las em qualquer época e em qualquer lugar, segundo o bel-prazer dos devotos; há tempos sagrados e há lugares sagrados, porque é a Divindade quem, direta ou indiretamente, toma a iniciativa de indicar as circunstâncias em que Ela se quer comunicar aos homens. Daí a importância que a religião sempre atribuiu ao calendário; é este que assinala os encontros com Deus.

 

Tais considerações se aplicam também ao culto cristão, desde que isentas de qualquer concepção grosseira ou supersticiosa que os pagãos lhes possam ter mesclado. É, sem dúvida, no culto cristão que se cumpre por excelência a aspiração, inata na alma humana, de se encontrar com Deus e de antegozar a posse da Divindade; o cristão, e só o cristão, tem fundamento para dizer que Deus tomou a iniciativa de salvar o homem e que o culto sagrado nada mais é do que a reafirmação continua dessa iniciativa.

 

2. Eis, porém, que alguns autores, comparando o culto cristão com o pagão, naquele apontam ritos que parecem ocorrer igualmente na religião politeísta. É o que lhes sugere a conclusão de que o culto cristão não vem a ser senão uma modalidade do culto pagão; o ritual da Igreja seria uma traição infligida ao Evangelho — traição levada a efeito principalmente no séc. IV, depois que Constantino Magno concedeu plena liberdade à Igreja, facilitando o intercâmbio dos cristãos com o mundo pagão.

 

Que dizer do problema?

 

Resolve-se sem dificuldade, desde que se levem em consideração os seguintes pontos:

 

a) houve precipitação, por parte de certos autores, ao apontarem analogias entre formas de culto cristão e formas pagãs ; teses outrora afirmadas já não têm voga em nossos dias (assim pretensas afinidades entre o Cristianismo e o helenismo deixaram de ser apregoadas depois que melhor se conheceu a espiritualidade judaica do inicio da era cristã, principalmente depois que se descobriram em 1947 os manuscritos do Mar Morto);

 

b) mesmo que haja real analogia entre certas cerimônias cristãs e outras pagãs (é o que se dá talvez no caso das procissões, das ladainhas, dos ósculos, das reverências, etc.), essa analogia não significa dependência essencial do Cristianismo em relação ao paganismo; apenas manifesta que a alma humana em todos os indivíduos obedece às mesmas tendências fundamentais; de fato as cerimônias apontadas não são mais do que símbolos a que todo homem espontaneamente recorre ; não se derivam diretamente nem da Revelação cristã nem da superstição pagã, mas do senso religioso inato na natureza humana. — No séc. IV a autoridade da Igreja permitiu fossem adotadas no culto oficial cristão tais expressões naturais da alma religiosa já usuais entre os pagãos; permitiu-o, porque em si elas não implicam profissão de erros religiosos; assim como eram praticadas em espírito politeísta, poderiam muito bem ser observadas dentro de um quadro monoteísta muito puro, servindo então para realçar a grandeza de Deus e o ardor da alma cristã. Esta afirmação é comprovada pelo fato de que a mesma autoridade da Igreja rejeitou peremptoriamente outras formas de culto, por serem essencialmente expressões de superstição, magia, idolatria (assim certos banquetes sobre os túmulos dos mortos, algumas danças, o uso de objetos profiláticos, etc.).

 

3. A espontaneidade e o valor do culto externo podem ser otimamente ilustrados por notável episódio da história moderna.

 

Augusto Comte (+1857), o fundador do positivismo, tendia por seus princípios a rejeitar toda e qualquer forma de misticismo; por conseguinte,... de religião e culto religioso. Tendo desenvolvido esta sua tendência primeiramente na escola de Saint-Simon, cedo resolveu abandonar o mestre, porque este lhe parecia prestes a restaurar teorias místicas, «fabricando uma nova religião, uma miserável paródia do catolicismo» (cf. carta de Comte a Armand Marrast, de 7/1/1832).

 

Aos 6 de dezembro de 1828, Comte escrevia a Eichtal a respeito do grupo de Saint-Simon:

«Não tardarão a se extinguir no ridículo e no desprestígio. Imagine que as suas cabeças se foram aos poucos exaltando a ponto de pensarem agora em uma autêntica nova religião, em uma espécie de encarnação da Divindade em Saint-Simon. Enfim, só falta dizerem a Missa nova; e isto não tardará, dado o ritmo que as coisas vão tomando» (Littré 167).

 

Justamente para não pactuar com essa volta à fé na Encarnação de Deus (encarnação mal-entendida, no caso de Saint-Simon), Comte se afastou de seus companheiros... Ora mais tarde o próprio fundador do positivismo experimentou, por sua vez, a mesma evolução de pensamento: muito mais ainda do que Saint-Simon, ele se tornou o iniciador de nova religião — a da Humanidade —, em que templo e cerimônias rituais ocupam lugar de não pouco relevo. Assim escrevia E. Sémerie, discípulo ardoroso de Comte, dirigindo-se aos católicos:

 

“Temos a fé que inspira as grandes coisas e a coragem que leva a realizá-las. Aos perfumes dos vossos incensos e aos acordes dos vossos cânticos, nós opomos as esplêndidas festas da Humanidade na cidade santa da Revolução (Paris); ao culto de Deus, o culto da mulher e dos grandes homens que fizeram de nós o que somos; ao misticismo estreito do católico, a nobre atividade do cidadão e o patriotismo entusiasta dos republicanos de 1792. Convenceremos os homens, persuadiremos as mulheres; não está longe o dia em que nos vossos templos abandonados entraremos quais mestres, ostentando o estandarte da Humanidade triunfante” (Positivistes et catholiques 1870, pág. 135).

 

Nestas palavras é toda a mística espontânea (diríamos: incoercível) da alma humana que se afirma,... trasladada, porém; em vez de ter por objeto o Bem infinito, Deus, o único capaz de saciar, é ao homem mesmo que ela vai pedir a sua saturação. Precária fonte, esta, de satisfação! E mísera sorte da criatura que rejeita o Criador, para produzir os ídolos dos séc. XIX/XX!

 

A conclusão sugerida por.este e outros episódios congêneres (que ainda se poderiam colher na história) é que, sem aderir ao invisível e sem manifestar essa adesão por sinais visíveis, o homem não consegue equilibrar as suas tendências; dir-se-ia que não encontra a sua face autêntica ou que não vive como homem. É o que sugerem as derradeiras palavras de Saint-Simon:

 

“A última parte de meus trabalhos, o novo cristianismo, não será compreendida imediatamente. Os homens julgaram que todo sistema religioso devia desaparecer porque conseguiram provar a caducidade do sistema católico. Enganaram-se; a religião não pode desaparecer do mundo; ela apenas se transforma” (Le Globe, 30 de dezembro de 1831).

 

Comte, no fim de sua vida, após haver tentado ainda mais conscientemente fazer a experiência malograda de Saint -Simon, teria proferido a mesma conclusão.

 

Os não-católicos celebram o seu culto «em espírito e em verdade» através de formas sensíveis... Eles não estranharão, por conseguinte, que os católicos também o façam, e o façam à luz da Verdade mais pura!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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