REVISTA PeR (1166)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 015 – março 1959

 

Cérebros Artificiais

CIÊNCIA E RELIGIÃO

INDUSTRIAL (Rio de Janeiro) pergunta: “Os cérebros artificiais ou as máquinas que pensam atestam não haver distinção entre matéria e espírito. Toda a realidade se reduz simplesmente à matéria posta em diversos graus de evolução”.

 

O problema das “máquinas que pensam” ou dos robôs é dos mais modernos... Ocasiona-o o estudo de uma ciência que somente em 1942 (quando o físico inglês Norbert Wiener publicou a obra «Cybernetics...») recebeu o seu nome oficial — a Cibernética (do grego kybernetikós, adjetivo que significa «governativo» ou «regulador»); tal é a ciência que pesquisa o poder autorregulador das máquinas (também chamada «ciência da Automação», desde que em 1947 a empresa Ford nos Estados Unidos criou uma seção de engenheiros com o título «Automation Department»). Em seus poucos anos de existência, a Cibernética já conta com mais de 30.000 publicações!

 

Veremos abaixo quais os principais resultados desse ramo do saber para depois tomar posição diante da questão filosófico-religiosa que eles suscitam.

 

1. Os dados do problema

 

Há alguns decênios atrás os cientistas começaram a aplicar ao estudo dos fenômenos humanos as fórmulas usuais nas disciplinas físico-químicas. Em consequência, conceberam o plano de fabricar máquinas que imitem as funções vitais do homem; daí o surto de sistemas «óticos» e «acústicos» que servem para advertir, mecanismos para «vigiar» a qualidade e a quantidade da produção e «transmitir ordens»; os aparelhos assim confeccionados dispensam o trabalho dos músculos, dos nervos, do cérebro e fazem entrever a perspectiva de uma usina a funcionar sem homem algum...

 

a) Uma das realizações mais fecundas da nova técnica são as máquinas de calcular, cujos pálidos primórdios se devem ao matemático francês Blaise Pascal, autor de um rudimentar dispositivo desse gênero desde 1642.

 

O princípio aí aplicado é relativamente simples: em vez de contar servindo-se dos dedos, o homem pode contar recorrendo aos dentes de rodas de uma ou mais engrenagens. A primeira tarefa do operador há de ser a de traduzir em furos feitos em fichas próprias os dados numéricos do problema (a posição de cada furo corresponde a determinado valor matemático). As fichas perfuradas são introduzidas na chamada «máquina calculadora». O operador então determina o trajeto a ser executado pelo aparelho, ou seja, as diversas e sucessivas operações que levam à solução do problema; todo o trâmite do raciocínio e o programa do trabalho são assim de antemão impostos à máquina. Feito isto, o manipulador, apertando um botão, desencadeia um processo eletrônico...; sem demora lhe vêm os resultados sob a forma de fichas perfuradas que são «decifradas» por dispositivos especiais (também automáticos) e traduzidas em linguagem clara, ou seja, em números.

 

Os resultados obtidos são fidedignos, sujeitos a insignificante probabilidade de erros. A máquina IBM («International Business Machine») 704, por exemplo, é capaz de efetuar em um segundo 40.000 adições ou 4.000 multiplicações ou ainda 9.000 divisões. O rendimento do calculador artificial é cem vezes maior do que o do cérebro humano; a unidade de tempo, para o robô, é o microssegundo ou o milionésimo de segundo. Os trabalhos que, por exemplo, o astrônomo Le Verrier no século passado executou durante seis meses para deduzir a existência do planeta Netuno, poderiam ser hoje realizados à máquina em menos de um minuto.

 

Como se entende, os aparelhos de calcular têm tido variadas aplicações: uma das mais notáveis foi a confecção de um Índice ou Concordância da Bíblia em inglês; uma obra dessas já fora publicada em 1894 após trinta anos de trabalho; a tarefa foi refeita ultimamente em 400 horas (16 dias e 6 horas aproximadamente) por um aparelho Univac nos EUA.

 

b) Quem fala de calculadores artificiais, usa quase espontaneamente termos de psicologia humana para designar as suas funções: memória, aplicação de regras, autorregulação etc. O robô parece ter memória, por exemplo, porque os dados iniciais do problema lhe são comunicados pelo operador, e ai ficam armazenados por tanto tempo quanto exija o programa do cálculo ; no decorrer deste, outros dados são como que adquiridos pela máquina como resultado das operações e ficam consignados nos dispositivos do aparelho; por fim, as cifras finais ficam gravadas no robô, que as manifesta ao operador. — Pois bem; esse dispositivo de «memória» consiste em se manter dentro de um circuito elétrico fechado um determinado sinal oriundo de uma combinação de impulsos (trata-se de um «circuito oscilante», no qual certo sinal gira e regira, como produto da transformação de impulso elétrico em impulso ultrassonoro, e vice-versa).

 

Como imitação ainda mais nítida da psicologia humana, pode-se citar o funcionamento da chamada «tartaruga de (Jrey Waner».

 

Esta é dirigida não por um leme ou um volante, mas por uma câmara fotoelétrica, adaptada a reagir a luz de determinada intensidade. Enquanto o aparelho não está em presença da luz oportuna, ele se volta para diversas direções, como que a «explorar o horizonte». Quando a tartaruga finalmente «vê» o foco de luz conveniente, a câmara fotoelétrica reage, deixando passar uma corrente (desencadeia-se um interruptor) que põe em movimento as rodas do autômato; a tartaruga então se encaminha para a luz. Se no seu trajeto a máquina encontra um obstáculo um pouco elevado, entra em jogo um interruptor (como que o «sentido do tato») que a torna insensível à luz; a tartaruga então se afasta; mas, logo que a câmara fotoelétrica, distanciando-se, sofra de novo a ação da luz conveniente, a máquina se volta mais uma vez para a sua meta, até deparar-se com o obstáculo em outro ponto; é repelida, e assim vai e vem até contornar o empecilho. Note-se que há certas borboletas que se chocam continuamente com uma vidraça, mesmo quando a janela ao lado está aberta; também não sabem contornar o obstáculo.

 

Caso a luz se torne demasiado intensa, a tartaruga recua; pouco depois retoma o caminho. Dir-se-ia que tem medo de se queimar, coisa que não acontece a certos insetos noturnos, os quais são atraídos por um foco luminoso a ponto de sofrerem combustão total.

 

Até mesmo a função de alimentar-se é imitada pela tartaruga artificial!... Quando os acumuladores que fornecem energia ao aparelho, já estão insuficientemente carregados, a tartaruga é atraída por toda e qualquer luz, mesmo muito intensa. Caso haja um foco de luz muito possante nas proximidades, a máquina se encaminha para ele e vem a sofrer a ação de uma corrente elétrica nova; o acumulador se carrega de novo e a tartaruga, a seguir, retoma seu procedimento normal.

 

Acontece também que, posta em presença de duas fontes de luz que parecem de igual intensidade, a tartaruga se volta para uma ou para a outra, sem que seja possível prever para qual — o que faria crer que goza de certa indeterminação ou liberdade. Na verdade, porém, o tropismo é rigorosamente determinado: depende de mínima diferença na luminosidade ou de angulação diversa em relação às duas fontes (angulação diversa que ocasiona diversa excitação do receptor fotoelétrico). — Alguns autores quiseram ver no diferente comportamento de duas tartarugas semelhantes como que um esboço de personalidade.

 

São esses e outros elementos da Cibernética que sugerem a questão capital: haverá distinção real entre máquina e inteligência ou entre matéria e espírito ? Caso não a haja, está claro que se esvanece o conceito de um Deus pessoal e transcendente ou, simplesmente, a ideia de Deus.

 

2. A resposta à dúvida

 

Impressionados pelos produtos da eletrotécnica, alguns autores não somente cancelam o hiato tradicionalmente admitido entre máquina e inteligência, mas julgam que a máquina está fadada a ultrapassar a perfeição do espírito humano; este não seria senão uma fase da evolução da matéria.

A titulo de ilustração, seguem-se aqui certas opiniões das mais avançadas:

 

Há quem «conceba um universo de máquinas que tenha por finalidade planejar e fabricar outras máquinas, sem que a equipe de engenheiros humanos autores das primeiras máquinas possa saber de antemão como se configurarão as máquinas posteriores com seus pormenores» (L. Gougerot. em «Limites de L'humain». Études Carmélitaines. Paris 1953, 67).

 

Ashby, o inventor das tartarugas artificiais, afirmava: “Um cérebro artificial deve poder ultrapassar (em perfeição) o seu próprio construtor, e esta perspectiva já está sendo focalizada”. Escrevia outrossim que bastaria “multiplicar os elementos do homeostato (regulador do equilíbrio estático), para que este se possa tornar cada vez mais adaptado, adquirir uma memória duradoura, assim como uma consciência” (ib.).

 

Tais concepções, porém, não se sustentam à luz da sã filosofia.

 

1. Verifica-se que o “cérebro artificial” executa com extraordinária rapidez um determinado programa de cálculo ; executa-o, porém, cega e necessàriamente. É incapaz de conceber o próprio programa. É o operador humano quem deve pôr o problema em equação; uma vez formulada a equação (trabalho árduo que requer inteligência estritamente dita ou a faculdade de apreender proporções), a máquina dispensa o homem de fazer o cálculo subsequente; basta ao trabalhador colocar os termos da equação (sob forma de cartões perfurados, fichas, etc.) dentro da máquina e movê-la a fazer as operações programadas ; estas então são rigorosamente executadas, pois a máquina jamais recusa o roteiro que lhe é imposto. Dado que o operador se engane ao colocar os elementos do problema no autômato ou ao indicar a Via de solução, a máquina não percebe o erro, não corrige o homem, mas fica estritamente presa aos limites de ação que o operador humano lhe tenha determinado.

 

O que se dá quando um cérebro artificial trabalha, é o seguinte: suponha-se um estudioso que conheça bem as leis da Física; constrói uma máquina capaz de sofrer o exercício de tais e tais leis quando posta em tais e tais circunstâncias, e deixa que as leis desencadeiem seus efeitos sobre o aparelho; os diversos elementos deste entram em ação e produzem um resultado certo, porque certas são as leis que o operador aplicou. Em todo esse processo a máquina em absoluto não raciocinou, apenas executou leis físicas; quem raciocinou, foi o seu fabricante e manipulador humano, foi também o Autor Supremo da Natureza, o Criador, que deu tais e tais leis ao elementos.

 

Em linguagem de escola, costuma-se distinguir entre o matemático, pensador que compara os termos de um problema entre si e os põe em equação, e o calculista, indivíduo que aplica de maneira mais ou menos mecânica as regras de cálculo ditadas pelos elementos da equação. Uma vez feito o trabalho do matemático, não raro diz-se com referência à tarefa do calculista: «Isso agora é trabalho braçal!»; o que quer dizer: trabalho no qual o raciocínio, o discernimento de proporções já não são necessários, bastando o traquejo para desencadear uma engrenagem e os efeitos nela contidos (assevera-se mesmo que um calculista prodigioso pode ser muito limitado no terreno do raciocínio propriamente dito). — Pois bem; no setor filosófico de que tratamos, o robô faz perante o homem o papel do calculista perante o matemático.

 

Em outros termos ainda se diria: a máquina é incapaz de inventar. O operador não encontra nos resultados do robô coisa alguma que não esteja implicitamente contida nos dados que ele colocou dentro do autômato. Como notava Einstein, “por muito que a máquina se aperfeiçoe, ela poderá resolver todos os problemas que quisermos, mas nunca pôr um problema” (pôr, isto é, formular em equação).

 

A máquina também não é suscetível de educação, ou seja, de aperfeiçoamento inspirado pela reflexão sobre sucessivas experiências. Só se aperfeiçoa na medida em que é aperfeiçoada ou na medida em que o homem, refletindo sobre as suas experiências, se aperfeiçoa.

 

Uma ilustração típica desta afirmação é sugerida pelo robô que «joga xadrez», ou melhor, que joga as etapas finais de uma partida, destinado a obter a vitória sobre o adversário. O robô vence sempre mediante a mesma série de lances; nem após o milésimo jogo, muda o seu plano, seja para melhor, seja para pior.

 

2. Mas não se poderia conceder que algum dia as máquinas evoluam a ponto de chegar ao nível da inteligência propriamente dita?

 

Não. Entre matéria e inteligência há um hiato intransponível. Observe-se que a capacidade de por um problema em equação supõe a faculdade de perceber as relações existentes entre o todo e suas partes, entre os meios e o respectivo fim; supõe também a faculdade de refletir sobre experiências feitas e dessa reflexão deduzir certas normas. Ora isto só é possível se se faz abstração das notas contingentes que afetam os seres materiais (dimensões, extensão, peso, etc.) para apreender o que em cada um é essencial, universal, independente de tais e tais características. A faculdade, porém, de apreender o essencial e universal supõe um sujeito de ação emancipado, também ele, das notas contingentes e concretas que definem a matéria; supõe, em outros termos, um sujeito não material, ou seja, espiritual. Com razão ensina o adágio: «O agir segue-se ao ser» ou «O modo de agir de cada um é condicionado pelo seu respectivo modo de ser». Donde qualquer atividade que transcenda a matéria supõe um sujeito que também a transcenda, ou que seja espiritual.

 

Voltando agora a considerar o chamado «cérebro» artificial, verifica-se que este em absoluto não transcende os dados concretos que o operador nele introduz, mas é essencialmente limitado a tal programa, tal cadeia de operações a realizar com tais números (o robô não corrige; não percebe o propósito ou despropósito de suas operações). Intrinsecamente, pois, ou por sua essência a matéria e o espírito (a inteligência) se diversificam. É por isto que se diz não haver transição do funcionamento dos robôs para o da inteligência humana ou, equivalentemente, da matéria para o espírito. No homem há um principio de ação transcendente e abstrativo, que não se pode identificar com a matéria, pois esse princípio constitui justamente a negação daquilo que a matéria é (significa algo de «não-dimensional», ao passo que a matéria é sempre algo de «dimensional»; a matéria que deixasse de ter suas dimensões, sua figura, seus contornos, em vez de se aperfeiçoar, se destruiria).

 

«Enquanto a máquina não compuser um soneto ou um concerto, não poderei conceber que a máquina iguale o cérebro, esse cérebro que dirige a mão do escritor que sabe estar escrevendo e sabe o que está escrevendo» (J. Jefferson, citado por J. Lhermitte no artigo «Des rapports du cerveau avec la pensée». Études Carmélitaines, Limites de l'humain. Paris 1953, 75).

 

Não creiamos que o cérebro fabrique pensamento. O cérebro não produz forma alguma de energia como a produz o músculo” (palavras de N. Wiener, o grande mestre da Cibernética, citado ib.).

 

Quanto à relação (que não é identificação) vigente entre o cérebro humano e o pensamento, veja-se «P. R.» 5/1958. qu. 1 e 2.

 

3. Em conclusão: a mensagem que os robôs trazem aos homens não é mensagem revolucionária, mas antes um convite a manterem sua dignidade de seres inteligentes feitos para outros valores que não os da produção meramente material. Não queira o homem, na civilização dos autômatos, materializar-se ou rebaixar-se ao nível da mera matéria, pois a matéria por si não pode subir ao nível do homem e cancelar a dignidade deste. Com outras palavras: não se deixe o homem avassalar em nossos dias pela sede de produzir bens transitórios, com detrimento para os bens perenes da inteligência e da vontade. Se os povos não tomarem cuidado, a máquina poderá dominar a vida dos cidadãos, tornando-os escravos da matéria; isto, porém, por culpa do homem, não por exigência da natureza ou da reta ordem das coisas.

 

Sejam antes os robôs ocasião para que se dê mais aprimorada formação cultural ao operário, a fim de que não somente se torne hábil em sua profissão, mas também saiba desfrutar com vantagens para a dignidade humana os benefícios do automatismo. É o que o S. Padre o Papa Pio XII aos 7 de junho de 1957 lembrava em um discurso feito a Associações Operárias:

 

“Não é sòmente a cifra elevada de rendimento que deve importar, mas é também, e mais ainda, o emprego da mesma consoante a razão. Também não é a posse de direito» cada vez mais amplos que interessa, mas é o bom uso dos mesmos. Todas estas são coisas que dependem da firmeza interior dos homens...

A nova educação profissional deve certamente adaptar-se às exigências do progresso técnico e assegurar a aquisição de um saber e de uma prática profissionais sólidos. Mas, para que seja uma verdadeira educação, deverá abranger o homem por inteiro, pois no funcionamento da economia moderna as qualidades de caráter no trabalho têm importância decisiva” (transcrito de «Documentation Catholique» LIV, 7 de julho de 1957, 844).

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
4 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)