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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 007 – julho 1958

 

A Abstinência de Carne

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

R. S. T. do Rio de Janeiro pergunta: “Qual a origem e a razão da abstinência de carne?

 

1. A abstinência de carne é observância frequente nas religiões antigas. Inspiraram-na razões diversas, das quais algumas muito dignas, outras, porém, supersticiosas e vãs. Não raro, junto com a privação de carne, prescrevia-se a abstenção de outros alimentos tidos como excitantes ou como sagrados: cebolas, favas, peixe, vinho... Para ilustrar a motivação dessas práticas, seja aqui citado o ponto de vista do neoplatônico Juliano, Imperador bizantino de 361 a 363: recusava-se a comer a parte dos vegetais que se acha imersa no solo (raízes, bulbo.. .), porque, dizia, o solo é o cárcere no qual a alma caiu; aceitava, porém, a parte da planta que emerge acima da terra, porque esta emersão lhe parecia simbolizar a subida da alma para as altas esferas (or. V 17a-17c).

 

Os judeus anteriores a Cristo observavam abstinência e jejum em parte ditados pela Lei de Moisés, em parte inspirados por devoção pessoal (cf, Lev 11; Dt 14, distinção entre animais puros e impuros; Ex 34,28 e 3 Rs 19,8, os quarenta dias de jejum de Moisés e Elias; Lev 16,29-31, o solene dia de jejum expiatório; Est 9,31, o jejum de Purim, etc.)

 

Os cristãos herdaram o costume geral de se abster de alimentos em ocasiões solenes. Jesus mesmo deu o exemplo disto durante os quarenta dias que passou no deserto (cf, Mt 4,1-11); também formulou normas sobre a atitude de espírito de quem jejua (cf. Mt 6, 16-18; provàvelmente Mc 9,29; Mt 17,21). Logo a primeira geração dos discípulos aparece nos Atos dos Apóstolos associando jejum e oração; cf. At 13,2s; 13,23. — A prática se foi tornando mais e mais habitual até ser introduzida na legislação eclesiástica.

 

2. Os motivos que sugeriam aos cristãos a abstinência de carne, em particular, não eram

a) concepção pessimista da matéria. Tal foi, sim, o ponto de vista de seitas dualistas (Gnósticos, Maniqueus...), que, nos primeiros séculos do Cristianismo, tinham a matéria e, por conseguinte, a carne como elementos intrinsecamente maus. Tal foi também a concepção de correntes exageradamente espiritualistas, como a dos Montanistas (séc. II/III d.C.). Era a ascese baseada nessas teses errôneas que São Paulo reprovava em Col 2,18-23; 1 Tim 4,3.

O cristão sabe que Deus fez todas as criaturas boas (cf. Gên 1,31) e as destinou a servir ao homem para que este se santifique e dê glória ao seu Senhor; não há, por conseguinte, alimento que por sua natureza mesma seja pecaminoso (cf. 1 Tim 4,4s);

b) respeito, supersticioso aos animais. Os adeptos da metempsicose ou da reencarnação (hinduístas, órficos, pitagóricos...), julgando que a alma de um parente seu poderia estar incorporada em tal ou tal animal, abstinham-se de qualquer consumo de carne.

Para o cristão, a tese da reencarnação é vã; por conseguinte, incapaz de fundamentar algum preceito de abstinência. Cf. «Pergunte e Responderemos» 3/1957 qu. 8;

c) conformidade à Lei de Moisés. Esta cumpriu o seu papel preservando a fé e a esperança messiânicas do povo de Israel. Uma vez que veio o Redentor, já não têm vigor as normas positivas da Torá judaica (todas elas dadas como prenúncios e preparativos do Salvador); permanecem de pé apenas os preceitos de direito natural que Moisés incluiu na sua legislação e que, por serem de direito natural, se estendem a todos os tempos e todas as regiões.

São Pedro mesmo, no caso do centurião Cornélio, teve a revelação de que não deveria mais distinguir entre os alimentos puros e impuros discriminados pela Lei; cf. At 10,10-16. A seguir, os Apóstolos reunidos em Jerusalém puderam declarar, invocando a autoridade do próprio Deus, que estava ab-rogada a Lei de Moisés: «O Espírito Santo e nós dispomos que...» (At 15,28);

d) razões de medicina, higiene, pedagogia. A Revelação cristã não interfere positiva e autoritativamente em questões de ciência natural.

 

Excluídas as justificativas acima para a abstinência de carne entre os cristãos, afirmar-se-á que esta é ditada estritamente pelo dever de penitência e mortificação que incumbe a todo discípulo de Cristo. A abstinência vem a ser uma das respostas que o cristão dá àquela exortação do Divino Mestre : «Se alguém quer vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a cruz e siga-Me» (Mt 16,24; Lc 9,23).

 

Explicando esta doutrina, diremos: o cristão é chamado a viver para Deus e para os bens sobrenaturais, fazendo que estes prevaleçam num corpo que é espontaneamente rebelde à orientação do espírito: duas tendências — uma, superior, voltada para o bem; e outra inferior, carnal, propensa ao mal — se defrontam no íntimo de cada indivíduo. Em consequência, torna-se indispensável a mortificação da carne a todo homem desejoso de viver segundo a sua parte mais nobre. A carne tem que ser até certo ponto extenuada, destituída de seu dinamismo impetuoso, que leva a natureza a agir antes da deliberação da razão ou mesmo à revelia desta. Ora tal objetivo não pode ser alcançado se não se subtraem à carne humana certos alimentos particularmente fortes e excitantes (dinamogênicos), entre os quais a carne de animais (juntamente com o vinho) costuma ser mencionada em lugar de destaque.

 

Assim se compreende que uma alimentação sóbria e simples tenha sido desde cedo considerada pelos cristãos qual preservativo das virtudes e, especialmente, da castidade : “Abster-me-ei de carne, a fim de que, alimentando fortemente a carne, não venha a alimentar também os vícios da carne”, afirmava São Bernardo (+1153), repetindo a doutrina de escritores mais antigos (ed. Migne Iat. 183, 1096s). A Liturgia, por sua vez, incute a mesma ideia quando na Quaresma canta : «Pelo jejum corporal, ó Senhor, comprimis os nossos vícios, elevais as nossas mentes, concedeis as virtudes e o prêmio respectivo» (Prefácio da Missa).

 

A experiência, aliás, levou certos pagãos de bom senso (estoicos, neoplatônicos) a conclusão semelhante. O moralista Sêneca (+66 d.C.), por exemplo, dizia que após um ano de regime vegetariano as suas aptidões de mente se haviam desenvolvido com mais rendimento ainda (epist. 108); o neoplatônico Porfírio (+303 d.C.) escreveu um tratado inteiro sobre o assunto («De abstinentia»), em que propugnava ser a alimentação vegetariana a mais adequada à vida espiritual do filósofo.

 

3. Há, porém, quem receie detrimento de saúde ocasionado pela abstinência de carne. A tais dir-se-á que não somente os ascetas e os filósofos, mas também os fisiologistas, longe de condenar em tese tal prática, reconhecem o seu valor. Numerosas experiências têm demonstrado que uma dieta vegetariana sàbiamente praticada pode favorecer a capacidade de trabalho tanto braçal como intelectual do indivíduo; tenha-se em vista, por exemplo, a força proverbial dos estivadores de Saloniki (Grécia) e Constantinopla (Turquia), os quais se nutrem apenas de cereais, arroz e frutas (em particular, figos), com exclusão total de carne e vinho. Para quem segue um ritmo de vida preponderantemente intelectual, muito sedentária, com pouco exercício muscular, com raras ocasiões de respirar ao ar livre, sofrendo por vezes a ação de excitantes (como o fumo e o álcool), a abstinência de carne pode ser grande auxílio, pois diminui as ocasiões de intoxicação. Epicuro (+270 a.C,), que pessoalmente não foi um gozador debochado, Plutarco (+127 d.C.), Ovídio (+17/18 d.C.) seguiram o vegetarianismo. Pitágoras (+497/ 496 a.C.), vegetariano, morreu com cerca de cem anos de idade. Nas Ordens religiosas em que o regime alimentar é mais austero, registra-se surpreendente quota de longevidade.

 

Mas, repita-se, não são propriamente considerações de saúde que motivam a abstinência de carne dos cristãos; elas foram aqui trazidas principalmente a fim de dissipar qualquer escrúpulo de índole higiênica. Fora dos dias determinados pela legislação eclesiástica (sextas-feiras da Quaresma; quarta-feira de cinzas, sexta-feira santa, 7 de dezembro e sexta-feira das Quatro-Têmporas do Advento), o cristão é livre para seguir o regime alimentar que em consciência lhe pareça conveniente; de modo geral, a abstinência e a sobriedade lhe ficarão sendo um paradigma que ele procurará reproduzir com maior ou menor intensidade, levando em conta as exigências próprias de sua natureza, seu temperamento pessoal, suas condições econômicas, etc. O que em todo e qualquer caso importa ao cristão, é regrar sua alimentação de modo a não fomentar indevidamente as paixões, mas obter o domínio do espírito sobre a carne, emancipar o espírito dos grilhões das concupiscências desregradas, a fim de lhe possibilitar a adesão incondicional a Deus na oração e na contemplação.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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