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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 007 – julho 1958

 

Em que Consiste a Tradição?

DOGMÁTICA

E. S. T. (Rio de Janeiro) pergunta: “Em que consiste a Tradição?

 

A Igreja Católica admite dois canais pelos quais se transmite o depósito da fé: a Escritura Sagrada e a Tradição divino--apostólica; esta, não necessàriamente consignada em documentos literários, mas sempre transmitida por via oral. A autenticidade deste segundo canal sendo não raro controvertida (tradição, na linguagem cotidiana, significa por vezes lenda ou produto da imaginação), propomo-nos estudar o significado que lhe compete, assim como algumas premissas de história que concorrem para ilustrá-la.

 

1. Significado e valor da Tradição

 

1. Sabe-se que Jesus Cristo nada deixou escrito nem se preocupou com a redação de seus ensinamentos (a escrita não era veículo habitual do magistério entre os antigos, pois que constituía uma arte dispendiosa e difícil). Apenas mandou aos Apóstolos, fossem pregar pelo mundo e se tornassem testemunhas da verdade; cf, Mt 10, 7; 28, 18-20; Mc 16, 15.

 

Os Apóstolos e seus discípulos empreenderam, sim, escrever alguma coisa dos ditos e feitos do Divino Mestre, sem, porém, visar expor todo o depósito dos ensinamentos de Jesus, como eles mesmos declararam (cf. Jo 20,32; 21,25; 2 Tes 2,15). Consignaram por escrito apenas aspectos fragmentários da vida e da doutrina de Jesus, atendendo a necessidades esporádicas das comunidades cristãs ou da catequese. Deste fato se seguem algumas consequências importantes:

 

a) muitos autênticos ensinamentos de Cristo ficaram no magistério meramente oral dos Apóstolos e de seus sucessores, sem jamais passar para a Escritura Sagrada. Constituem assim o que se chama a «Tradição divino-apostólica», a qual consequentemente é genuína fonte de fé: genuína, incorrupta.... porque Cristo prometeu assistir aos Apóstolos e a seus sucessores no magistério (cf. Mt 28, 20) e lhes assegurou a guia do Espírito Santo, que os confirmaria em toda verdade (cf. Jo 14, 16.26; 16,10). — Nessa genuína fonte de fé (note-se bem) poder-se-ão encontrar não somente verdades equivalentemente professadas pelas Escrituras, mas também verdades não explicitamente contidas na Bíblia; de fato, seria contrário à própria índole da Sagrada Escritura querer afirmar que os Apóstolos, embora não tivessem a intenção do expor toda a doutrina revelada, de fato a consignaram integralmente na Bíblia;

 

b) a Bíblia só poderá ser lida e explicada autenticamente à luz do depósito oral que a precedeu e que é a grande fonte donde os escritores sagrados tiraram o material histórico- -dogmático que eles redigiram. Esse depósito meramente oral continuou a ser transmitido ininterruptamente e incontaminado (em virtude da prometida assistência de Cristo e do Espírito) até hoje, identificando-se com a voz oficial dos sucessores dos Apóstolos ou com o ensinamento da Igreja. É esta, portanto, quem, haurindo de um cabedal mais antigo do que a própria Escritura, é apta a interpretar as Escrituras. Haja vista a questão básica do catálogo dos livros bíblicos: qual o critério para se saber se um livro é ou não é inspirado ou fonte de fé? Não há outro indício senão o testemunho da coletividade dos cristãos; esta, guiada pelo Espírito Santo, à medida que a literatura cristã ia surgindo, tomava consciência (ora mais cedo, ora mais tarde) de que tal ou tal escrito era inspirado e, por isto, merecedor de ser agregado à coleção dos livros sagrados, ao passo que a mesma consciência cristã rejeitava outros escritos como espúrios ou apócrifos. Nunca esse testemunho foi consignado por escrito antes do séc. IV. Quando em 393 um concilio regional reunido em Cartago definiu pela primeira vez a lista dos livros sagrados, foi a Tradição oral, anterior aos escritos bíblicos, quem falou por esse sínodo; o concilio não era um novo órgão de ensinamento dentro do Cristianismo (órgão criado simplesmente pelos homens da Igreja), mas era, ao lado das Escrituras, outra expressão do depósito de verdades que Cristo e os Apóstolos transmitiram verbalmente às gerações cristãs (cf. «Pergunte e Responderemos» 5/1958 qu. 4 e 5). O seguinte esquema pode ilustrar o que acaba de ser dito:

 

A REVELAÇÃO

- conservada na integra fora e ao lado das Escrituras, exprimindo-se pelo magistério oficial da Igreja (ensinamento comum dos bispos, declarações dos concílios universais, definições dos Sumos Pontífices).

 

É COMUNICADA

- consignada parceladamente nas Escrituras, as quais, por conseguinte, recebem luz do ensinamento oral que as acompanha.

 

ORALMENTE

- e conservada na integra fora e ao lado das Escrituras...

 

POR CRISTO

 

2. Vejamos agora se estas considerações encontram esteio na Escritura Sagrada mesma.

Não há dúvida, a própria Bíblia atesta a existência de autêntica Tradição oral, da qual ela se originou e da qual recebe sua interpretação. Tenham-se em vista, por exemplo, as seguintes passagens:

 

a) em 2Tes 2,15 São Paulo exorta:

 

“Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições (paradoseis, em grego) que recebestes, seja de viva voz, seja por carta nossa (eite dia logou eite di'epistolées hemóon)”.

 

No caso, o Apóstolo não apenas exorta a guardar as tradições, mas explica que, quer escritas, quer orais, elas têm igual autoridade, desde que provenham do Apóstolo;

 

b) em 1Cor 11,2 lê-se em termos semelhantes outra alusão às tradições:

 

“Eu vos louvo por guardardes as tradições tais como eu vô-las entreguei (kathoos parêdoka hymin, tas paradóseis katéchete)”.

 

c) particularmente enfáticos são os textos de São Paulo a Timóteo:

 

“Sei em quem acreditei... Toma por norma as sãs palavras que ouviste de mim, na fé e no amor do Cristo Jesus. Guarda o bom depósito (parathéken) com o auxílio do Espírito Santo que habita em nós”. (2 Tim 1, 12-11)

 

Nesta passagem o Apóstolo emprega um termo técnico da linguagem jurídica de seu tempo, o qual é altamente significativo: parathéken. Este vocábulo designava um tesouro confiado pelo respectivo proprietário aos cuidados de um amigo, o qual se obrigava em consciência a guardá-lo e restituí-lo; não era lícito ao depositário utilizar tal tesouro em seu proveito pessoal ou segundo seu bel-prazer. O ato de depositar pressupunha confiança da parte de quem entregava seus bens e exigia fidelidade absoluta da parte de quem os recebia; severas penas eram infligidas a quem violasse tais normas, Era esta a concepção de «depósito» vigente tanto entre gregos e romanos como entre judeus; atribuíam mesmo índole e autoridade religiosas à legislação concernente ao depósito. Alguns autores antigos chegavam a equiparar a religião (com suas crenças e práticas) a um depósito (parathéke) entregue pela Divindade aos homens, depósito que os fiéis deviam conservar ciosamente, sem o ousar retocar em ponto algum (cf. Ranft, Der Ursprung des katholischen Tra- ditionsprinzips. Wuerzburg 1931).

 

Pois bem. No texto de São Paulo acima citado vê-se que o depósito cristão são as palavras de doutrina que o Apóstolo fez ouvir a Timóteo, e que Paulo, por sua vez, recebeu de Cristo; esboça-se então a linha pela qual passa o depósito:

 

CRISTO (o qual recebeu suas palavras do Pai, como Ele mesmo afirma em Jo 8,28,40) ---> PAULO --->TIMÓTEO

 

d) A linha continua..conforme 2 Tim 2,2:

 

«E, o que ou viste de mim em presença de muitas testemunhas, confia-o (ou deposita-o, parathou, forma verbal derivada da mesma raiz que parathéke) a homens fiéis, que sejam capazes de o ensinar ainda a outros?.


Tem-se consequentemente a seguinte sucessão de depositários :

 

O PAI -> CRISTO -> PAULO ->(OS APÓSTOLOS) -> TIMÓTEO (os discípulos imediatos dos apóstolos) -> OS FIÉIS -> OUTROS (fiéis)

 

Desta forma a Escritura mesma atesta a existência de autênticas proposições doutrinárias de Cristo a serem transmitidas por via meramente oral de geração a geração, sem que os cristãos tenham jamais o direito de as menosprezar ou, como quer que seja, retocar. Este depósito oral chegou até a geração presente e c expresso pela voz oficial da Igreja.

 

e) Na epístola aos Hebreus, a mesma concepção é professada com não menor clareza; o escritor, que pertence à geração seguinte à dos Apóstolos (não é São Paulo mesmo), traça por sua vez o roteiro da Tradição oral:

 

... a mensagem salutar, anunciada primeiramente pelo Senhor, nos foi seguramente transmitida por aqueles que a ouviram” (2, 3).

 

A série de transmissores seria:

 

O SENHOR ——> OS TESTEMUNHAS AURICULA- RES    > NÓS, QUE OUVIMOS DÊSTES.

 

f) Voltando às epístolas pastorais, encontramos mais uma vez a ideia do depósito de doutrina oral a ser fielmente preservado e transmitido:

 

“Ó Timóteo, guarda o depósito (parethéken); evita os discursos vãos e profanos e as objeções dc uma falsa ciência; por ter professado a esta, alguns erraram na fé” (1 Tim 6,20s).

 

Neste texto São Paulo opõe seus ensinamentos (dados oralmente a Timóteo, como é óbvio) a discursos inovadores, fazendo da guarda do ensinamento oral a condição para que o discípulo não naufrague no erro.

 

g) em 2 Tes 2,5s São Paulo apela para o ensinamento oral que deu prèviamente aos seus leitores e, em consequência, dispensa-se de escrever muita coisa sobre a segunda vinda de Cristo.

 

Em conclusão, os textos citados mostram a Escritura mesma a recomendar às subsequentes gerações o respeito máximo à tradição orai que a antecedeu e ininterruptamente a acompanha.

 

3. Passando agora aos testemunhos dos antigos escritores cristãos, verificamos que, embora tivessem em mãos todos os livros do Novo Testamento, não desprezavam, mas, ao contrário, continuavam a estimar, como fonte primordial da fé, a Tradição oral. Seja mencionado em primeiro lugar Papias (+ cerca de 330), bispo de Hierápolis na Ásia Menor:

 

«Caso viesse alguém que tivesse convivido com os presbíteros, eu procurava saber os ditos dos presbíteros, isto é, o que haviam ensinado André, Pedro, Filipe. Tomé, Tiago, João, Mateus ou outros dos discípulos do Senhor...  Eslava convencido de que da leitura dos livros não retiraria tanto proveito quanto da voz viva e permanente.» < fragmento citado por Eusébio, História da Igreja 3.3S».

 

E Papias conhecia bem os Evangelhos escritos, como o demonstram as referências que a eles faz em seus escritos.

 

S. Ireneu (+220) é muito explícito no seu testemunho:

 

Se os Apóstolos nada tivessem deixado escrito, dever-se-ia igualmente seguir a ordem da Tradição por eles confiada aos dirigentes da Igreja. Este método é seguido por muitos povos bárbaros que creem em Cristo. Sem papel e sem tinta, estes trazem inscrita em seus corações a salvação por obra do Espírito Santo; conservam fielmente a antiga Tradição.” (Adv. haer. 3, 4, 2. cd. Migne gr, 7,855).

 

Naturalmente, pode haver tradições meramente humanas, que deturpem o depósito sagrado. Existem, porém, critérios para distingui-las das autênticas tradições; estas

 

1) referem-se unicamente à fé e aos costumes (pois não há outro objeto da Revelação divina); por conseguinte, proposições de cosmologia, biologia e ciências naturais em geral, afirmadas repetidamente pelas gerações cristãs, carecem da autoridade do depósito da fé, embora os antigos, mediante uma exegese deficiente, julgassem que eram abonadas pela Escritura Sagrada;

 

2) são universais, isto c, sempre e em toda a parte estiveram em vigor, segundo a fórmula de Vicente de Lerins (+450): “Na Igreja Católica é preciso dar grande cuidado a que guardemos aquilo que em toda a parte, sempre e por todos tem sido acreditado” (Commonitor. 2, ed. Migne lat. 50,640).

 

Era principalmente por recurso a este segundo critério que os antigos Padres da Igreja julgavam as novas teorias ou as interpretações da Revelação propaladas em tal ou tal região (Gnosticismo, Montanismo, Arianismo...): pediam aos inovadores que demonstrassem estar em contato com os Apóstolos através dos tempos e provassem que transmitiam uma doutrina sempre ensinada e reconhecida pelos cristãos em geral. Caso se comprovasse, ao contrário, que as teses discutidas jamais tinham sido propaladas antes de determinada época e eram apanágio de um grupo de cristãos apenas, tais teses eram tidas como aberrantes ou heréticas.

 

2 Alguma considerações de ordem histórica

 

Uma das principais razões por que o homem moderno concebe dificuldades para aceitar a tradição meramente oral como regra válida, é o fato de que as instituições modernas, desde a época de sua fundação, costumam ter seus estatutos escritos, os quais definem com precisão a orientação doutrinária e disciplinar da respectiva instituição; quem formula os estatutos se empenha por incluir neles tudo que deva ser observado como norma, de sorte que fora do código escrito nada pode havei* de importante para a configuração de tal sociedade. Tal praxe é possível (e só se tornou possível) após a descoberta da imprensa por Gutenberg (+1468). Antes disto, quanto mais se retrocede na série dos séculos, tanto mais se verifica que tal praxe era inexequível, pois a escrita constituía uma arte difícil, mormente nos tempos anteriores e imediatamente subsequentes a Cristo: o instrumento apto para ensinar e legislar devia forçosamente ser a palavra oral.

 

Os historiadores ensinam que principalmente no setor da religião o ensinamento oral foi sempre grandemente estimado. Com efeito, sendo a religião um fenômeno muito antigo, verifica-se que cada um dos grandes sistemas religiosos da humanidade depende de um patrimônio doutrinário transmitido de geração a geração por via meramente oral, depósito oral que, em época tardia e em virtude de necessidades mais ou menos acidentais, foi parcialmente (não por inteiro) consignado em livros sagrados; em certas religiões os fiéis se negaram sempre a escrever algumas de suas proposições mais caras. A tradição oral é, pois, elemento essencial de todas as crenças religiosas, elemento que, mesmo após a redação dos códigos sagrados, continuava a ser auscultado com carinho. Em suma, cada uma das grandes religiões é mais antiga do que seus respectivos livros sagrados.

 

Chama a atenção, por exemplo, nos escritos oficiais dá primitiva religião chinesa (de que se derivaram o Taoísmo e o Confucionismo), a fórmula assaz frequente: «Eu ouvi,..».

 

Para assegurar a fidelidade na transmissão oral de suas crenças, os antigos costumavam, de um lado, disciplinar a memória e, de outro lado, redigir as suas sentenças sob forma de frases breves, ritmadas ou cantantes, o que muito facilitava a aprendizagem de cor.

 

Pois bem; foi no mundo habituado a proceder desta forma que o Filho de Deus anunciou o Evangelho. A Revelação ou o depósito do fé do Cristianismo foi, por conseguinte, transmitido aos homens pelas vias comuns do magistério de outrora: palavra oral parcialmente cristalizada na palavra escrita em ocasiões esporádicas.

 

A título de ilustração, vai aqui transcrito um trecho das chamadas «Recognitiones Clementinae, romance cristão oriundo provavelmente no séc. III. O episódio, embora seja fictício, é contudo ótima expressão de quanto as primeiras gerações cristãs estimavam a palavra oral:

 

«Ao despontar do dia que fora escolhido para a disputa com Simão (Mago), Pedro (Apóstolo), levantando-se aos primeiros cantos do galo, despertou também a nós; todos juntos éramos treze a dormir no mesmo aposento... À luz da candeia... .sentamo-nos todos; Pedro, vendo-nos alertas e bem atentos, saudou-nos e começou sua alocução:

 

'É surpreendente, irmãos, a elasticidade de nossa natureza, a qual me parece ser adaptável e maleável a tudo. Digo-o apelando para o que eu mesmo tenho experimentado. Logo depois da meia-noite, costumo acordar-me espontaneamente e não consigo mais conciliar o sono. Isto me acontece porque me habituei a evocar em minha memória as palavras que ouvi de meu Senhor (Jesus Cristo); desejoso de as revolver no espírito, incitei o meu ânimo e a minha mente a se despertarem, a fim de que, em estado de vigília, recorde cada palavra de Jesus em particular e as guarde todas ordenadamente na memória. Já que desejo com profundo deleite meditar no meu coração as palavras do Senhor, adquiri o hábito de ficar em vigília, mesmo que nada, fora deste intento, me preocupe o espírito». (Ps. — Clem. II1, cd. Migne gr. 1, 1247-9).

 

Este texto não nos interessa pela sua narrativa como tal, mas antes por pressupor que de fato os antigos cristãos estimavam extraordinariamente a decoração e a repetição industriosas (auxiliadas por métodos mnemotécnicos) das palavras do Divino Mestre. Tal mentalidade só podia atribuir ao ensinamento escrito valor subordinado.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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