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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 014 – fevereiro 1959

 

HISTORIA DO CRISTIANISMO

As Profecias de São Malaquias

A. R. (Luziânia) pergunta:

As profecias ditas de São Malaquias são aprovadas pela Igreja ? Não se estão cumprindo mais uma vez na pessoa do Papa João XXIII, Pastor e Navegante ?

 

Para se avaliar a autoridade da Profecia de São Malaquias, torna-se necessário, em primeiro lugar, esboçar o seu conteúdo.


1. O conteúdo da Profecia de S. Malaquias

 

São Malaquias de Armagh (distinga-se bem do profeta Malaquias, do Antigo Testamento) nasceu na Irlanda em 1095 aproximadamente. Fez-se monge em Bangor, tornando-se depois arcebispo-primaz de Armagh. Veio a falecer em 1148.

 

É a esse santo que se atribui a famosa «Profecia dos Papas», a qual teria sido escrita em 1139, quando Malaquias passou um mês em Roma. Consta de 111 breves dísticos latinos, que tentam caracterizar a figura de cada Pontífice desde Celestino II (1143-1144) até Pedro II, que presenciará o fim do mundo. Esse texto, embora seja atribuído a um autor do séc. XII, só se tornou de conhecimento público em 1595, quando o beneditino Amoldo de Wyon o inseriu no seu opúsculo «Lignum Vitae», publicado em Veneza naquele ano.

 

Os 111 dísticos no «Lignum Vitae» são acompanhados de breve comentário do historiador espanhol Alonso Ciacconio O.P. (+depois de 1601). O comentário aplica os dísticos da Profecia aos 74 Papas que governaram desde Celestino II (+1144), um dos contemporâneos de S. Malaquias, até Urbano VII (+1590); mostra como o conteúdo de cada oráculo se cumpriu adequadamente na figura de cada Pontífice a que é referido. O comentário de Ciacconio, indicando onde começa a série dos Papas visados pelos dísticos, permite calcular aproximadamente a época em que se dará o fim do Papado e a segunda vinda do Senhor; assim contam-se 38 Pontífices desde Urbano VII (+1590) até o fim do mundo, sendo que S. Santidade João XXIII, que vem a ser o «Pastor et Nauta» (Pastor e Navegante) da lista, ainda terá cinco sucessores, o último dos quais, Pedro II, verá, com a geração dos seus contemporâneos, a consumação da história.

 

2. A autoridade da Profecia

 

A Profecia de Malaquias, logo depois de divulgada em 1595, obteve sucesso considerável. É inegável que os dísticos interpretados por Ciacconio se aplicam bem aos Papas desde Celestino n até Urbano VII.

Eis alguns exemplos mais frisantes:

«Avis Ostiensis» (Ave de óstia) convém adequadamente a Gregório IX (1227-41), que foi Cardeal-bispo de Óstia e tinha uma águia em seu brasão;"

«De parvo homine» (Do homem pequeno) corresponde a Pio III (+1503), que se chamava Francisco Piccolomini (=Pequeno homem).

«Jerusalem Campaniae» (Jerusalém da Campanha) designa bem Urbano IV (1261-64), nascido em Tróyes (Champanha) e Patriarca de Jerusalém.

 

De Urbano VII (+1590) em diante, Ciacconio não interpretou mais os oráculos. Muitos historiadores, porém, julgam que continuam a quadrar bem com as figuras dos Pontífices que se têm assentado sobre a .cátedra de Pedro.

Assim, para tomar exemplos recentes, indicar-se-iam

«Crux de cruce» (Cruz oriunda da cruz), dístico que designa Pio IX (1846-78) com acerto, pois este Pontífice sofreu duros golpes da parte da Casa de Savóia, em cujo emblema figurava uma cruz;

«Religio depopulata» (Religião devastada) é o dístico bem adaptado a Bento XV (1914-22), que durante o seu pontificado assistiu à primeira guerra mundial";

«Fides intrepida» (Fé intrépida) corresponde a Pio XI (1922-39), Pontífice das missões e defensor da verdade contra modernas teorias sociais e políticas;

«Pastor et Nauta» (Pastor e Navegante) parece caracterizar bem o Papa atual João XXIII, ex-Patriarca de Veneza, cidade das gôndolas, reconhecido por sua ardente têmpera de Pastor de almas...

 

Admitida a veracidade da Profecia na base das observações acima, julgam alguns autores que o fim do mundo não está longe (talvez venha por volta do ano 2000), pois só deverá haver cinco Papas até a segunda vinda de Cristo:

 

«Flos florum» (Flor das flores)

«De medietate Lunae» (Da divisão da Lua ou também Da Lua crescente)

«De labore solis» (Da fadiga do sol)

«De gloria olivae» (Da glória da oliveira)

 

Para terminar, diz o texto (após o 111o dístico): «Durante a derradeira perseguição que a Santa Igreja Romana sofrerá, será Pontífice Pedro Romano, que apascentará suas ovelhas em meio a muitas tribulações. Terminadas estas, a cidade das sete colinas será destruída, e o Juiz terrível julgará seu povo».

 

Procurando interpretar os dísticos acima, há quem queira prever a história dos tempos finais nos seguintes termos:

 

As divisas «Pastor Angelicus» (Pio XII), «Pastor et Nauta» (João XXIII) e «Flos florum» indicam um período de grande paz e bonança para a religião (serão mesmo os nossos tempos ?). Santidade angélica deve florescer no Pastor e nas ovelhas da Igreja; o Pastor, sendo navegante, gozará de grande prestígio no mundo inteiro e empreenderá viagens intercontinentais a fim de confirmar a pregação do Evangelho em toda parte. — As três últimas divisas insinuam os acontecimentos que deverão preceder imediatamente a manifestação do Anticristo: flagelos, como uma calamitosa expansão do islamismo («Lua crescente»), penas e fadigas sobre os Filhos da luz («Sol»); além disto, a almejada conversão dos judeus a Cristo (a oliveira simboliza o povo judaico em Rom 11,17-29). Depois disto, sob o Papa Pedro II, Cristo aparecerá como Juiz Universal.

 

Que dizer dessas conjeturas?

 

Carecem de autoridade. Usando de toda a objetividade, bons críticos modernos não hesitam em rejeitar a autenticidade da Profecia de S. Malaquias.

 

Quem primeiramente a impugnou, apelando para argumentos ainda hoje plenamente válidos, foi o Pe. Ménestrier S. J., no seu livro «Réfutation des Prophéties faussement attribuées à S. Malachie sur les élections des Papes» (Paris 1689). Eis as principais razões desde então aduzidas contra a genuinidade das profecias:

 

1) durante cerca de 450 anos, isto é, desde S. Malaquias (+1148) até o opúsculo «Lignum Vitae» (1595), jamais autor algum fez alusão aos oráculos de S. Malaquias; nem os historiadores medievais e renascentistas, ao escrever a Vida dos Papas, mencionam tal documento, que certamente deveria ser citado, caso fosse conhecido. E por que motivo, em que circunstâncias, teria este caído em mãos de Ciacconio, seu comentador. após 450 anos de ocultamento? E como de Ciacconio terá sido transmitido a Wyon, que o editou pela primeira vez?

 

2) Ao argumento do silêncio associa-se a verificação de faltas históricas e teológicas na Profecia de Malaquias. De fato, na lista dos Papas figuram antipapas (como Vítor IV, 1159-64; Nicolau V, 1328-30; Clemente VII, 1378-94), efeito este que dificilmente se poderia atribuir à inspiração divina. A finalidade mesma da Profecia (insinuar a época do fim do mundo) parece contrariar a intenção de Cristo, que em mais de uma ocasião se negou a revelar aos homens a data do juízo final (cf. Mc 13,32; At 1,7). Além disto, a aplicação dos dísticos aos respectivos Papas baseia-se em notas por vezes acidentais na figura dos respectivos Pontífices, o que lhe dá um cunho de arbitrário; assim Nicolau V (legítimo Papa de 1447 a 1455) traz a divisa «De modicitate Lunae» (Da pequenez da Lua) por ter nascido de família modesta no lugar chamado Lunegiana; Pio II (1458-1464) é assinalado «De capra et albergo» (Da cabra e do albergue) por haver sido secretário dos Cardeais Capranica e Albergati!

 

Positivamente, podem-se indicar as circunstâncias que deram ocasião à falsificação: observe-se, antes do mais, que as divisas dos Papas até 1590 aludem todas a traços concretos e particulares de cada Pontífice: lugar e família de origem, cargos exercidos antes da eleição, figuras dos brasões, etc.. — De 1590 em diante, porém, os oráculos referem apenas qualidades morais, cuja aplicação é assaz vaga, podendo convir a mais de um Pontífice ; assim «Vir religiosus» (Varão religioso), «Ignis ardens» (Fogo ardente), «Fides intrépida» (Fé intrépida); qual Papa não mereceria estes qualificativos, caso não fosse de todo indigno?

 

Observada esta diferença, julgam alguns críticos que a «Profecia de S. Malaquias» foi forjada justamente nesse ano de 1590, quando o falsificador já conhecia parte da história dos Papas que ele havia de caracterizar, ficando-lhe desconhecida a outra parte (a do futuro). O ensejo para se inventar a «Profecia» terá sido o conclave de 1590, após a morte de Urbano VII; o certame foi árduo, durando um mês e 19 dias. Entre os Prelados mais em vista, achava-se o Cardeal Simoncelli, cidadão de Orvieto e antigo bispo desta cidade; ora pensa-se que os amigos de Simoncelli pretenderam favorecer a eleição deste antístite, apresentando aos interessados uma lista «profética» de Papas em que o sufragado pelo Espírito Santo após o Pontífice Urbano VII era o Papa «De antiquitate urbis» (Da antiguidade da cidade), isto é, o Papa de Orvieto (=«Urbs vetus» = cidade antiga); em vista disto, terão , forjado uma série de dísticos papais condizentes com a realidade desde Celestino II (no séc. XII), mas assaz arbitrária após Urbano VII. Essa lista, com a qual os mistificadores quiseram associar até mesmo o nome autorizado de S. Malaquias, não logrou o desejado efeito, pois na verdade quem saiu eleito do conclave foi o Cardeal Sfondrate, arcebispo de Milão, que tomou o nome de Gregório XIV... É esta uma das explicações mais correntes dos motivos que terão inspirado a pseudo profecia de S. Malaquias!

 

Ménestrier, na obra referida, cita outro caso semelhante de recurso à «autoridade divina» para decidir a eleição de um Papa. Após a morte de Clemente IX (1669), alguns adeptos do candidato Cardeal Bona lembrando-se do texto de Eclo 15,1: «Qui timet Deum, faciet bona» (Quem teme a Deus, fará obras boas [Bona]), espalharam o seguinte trocadilho:

«Grammaticae leges plerumque Ecclesia spernit: Esset Papa bônus si Bona Papa foret».

«As leis da gramática, geralmente a Igreja as despreza: Haveria um bom Papa, se Bona Papa fôsse».

 

Diante destas observações da crítica abalizada, vê-se que vão seria evocar a «Profecia» de S. Malaquias, seja para ilustrar a história do Papado, seja para prever o decurso dos futuros tempos ou mesmo a época da segunda vinda de Cristo!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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#0•A1932•C135   2012-05-31 17:57:17 - Convidado/Pedro Erisson
Legal esse artigo... esses dias fazendo minhas leituras tomei um susto ao ficar sadendo da existencia de tal "profecia"... fiquei sem saber o que pensar, de modo que mais acreditei do que duvidei, tendo em vista os tempos difíceis que vivemos. Mas este artigo foi bem legal, aclara um pouco mais a dita profecia, e esbarra na velha questão de que o próprio Cristo se negou a atencipar tal acontecimento. Em todo caso, acredito de alguma maneira ela é válida.

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