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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 549 - março 2008

A linguagem bíblica:

 

"A BÍBLIA SEM MITOS"

Eduardo Arens

 

Em síntese: O autor adota a teoria da demitização proposta por Rudolf Bultmann sem pretender negar algum artigo da fé católica. Em consequência nega a historicidade das narrativas da pré-história bíblica. Também seriam mitos os anúncios do anjo Gabriel a Zacarias e Maria. Em grande parte as idéias de Arens estão ligadas ao conceito de inspiração bíblica que ele professa e que nas páginas seguintes será explanado.

 

Eduardo Arens é doutor em Teologia e professor do Instituto Superior de Estudos Teológicos de Lima (Peru) - Escreve um livro (1) que pretende demitizar a Bíblia sem ser tão radical quando o pai dessa tática, que é o exegeta protestante liberal Rudolf Bultmann.

 

(1)"A Bíblia sem mitos". - Ed. Paulus, São Paulo 2007, 412 pp.

 

Abaixo exporemos os traços principais da obra, ao que se seguirão comentários.

 

1. O conteúdo da obra

 

Eis como E. Arens entende a Bíblia: "A Bíblia

-   é um conjunto de escritos

-   que de alguma maneira têm sua origem em Deus; são "palavra de Deus"

-   e cujo conteúdo é constituído por múltiplos testemunhos de fé vivida por diversas pessoas e comunidades em diferentes tempos e diante de distintas circunstâncias" (p. 27).

 

Comentemos esta quase definição:

Tem origem em Deus, não no sentido clássico de inspiração bíblica (que consideraremos mais adiante), mas nos seguintes termos:

 

Deus sempre inspirou os homens e os inspirará sempre; todavia inspirou de modo especial aqueles que escreveram "livros inspirados" ou livros bíblicos; inspirou as mentes de tais homens, não o texto que escreveram, de modo que os autores bíblicos puderam cometer erros por distração ou insuficiente informação, não por má fé (o que seria mentir).

 

Sendo assim, não se pode dizer que a Bíblia é Palavra de Deus em sentido literal, mas apenas em sentido metafórico; Deus não tem boca nem mãos para emitir palavras.

Ainda sendo assim, a Bíblia exprime experiências da fé vivida por antigos cristãos, que nos dão testemunho do que acreditavam.

 

Em consequência E. Arens enumera, às págs. 220ss uma série de textos que lhe parecem contradizer-se entre si ou faltar à verdade nos planos histórico e geográfico. Deus seria o autor desses erros?

 

Arens muito insiste sobre o fato de ter sido a Bíblia escrita por mãos humanas, que transmitiam a cultura contingente desses homens ou dos muitos que a confeccionaram. Estes recorreram aos gêneros literários de sua época, entre os quais Arens dá muita importância ao mito. Eis suas palavras textuais: "O problema que nos concerne aqui é a relação entre as realidades transcendentes e o tipo de linguagem empregada para falar delas. Na Bíblia fala-se de Deus, de anjos, de demônios como se fossem seres humanos que falam, que se movem, que têm um corpo visível, etc. Fala-se do céu, do inferno como se fossem do aquém. Fala-se da origem do mundo e da humanidade como resultado de um fazer divino (Fez, não criou) e do destino dos homens como resultado de um juízo divino. Este modo de falar se costuma classificar como mítico ([1]), porque é característico dos mitos apresentar as causas de algo em intervenções de seres e forças que não são deste mundo. Somos nós que qualificamos essa linguagem como mítica, não os autores bíblicos. O mito como tal é a expressão do pensamento mítico em forma de um relato parecido com o conto...

 

O princípio de que o mito é intervenção do além no aquém, pode suscitar a pergunta: a própria Encarnação do Verbo de Deus não seria um mito?...

 

O leitor da Bíblia portanto deverá depreender de cada mito o significado que ele tem em linguagem moderna ou em linguagem filosófica.

 

A bem da verdade, é preciso notar que o livro de E. Arens também contém belas páginas sobre Escritura e Tradição e o princípio luterano "Somente a Bíblia", que ele impugna.

Pergunta-se agora:

 

2. Que dizer?

 

Distinguiremos na tese de E. Arens dois aspectos: um positivo e outro negativo.

 

2.1. O positivo

 

Arens quer combater, em primeira instância, o fundamentalismo ou "a atitude mental que sustenta e propaga os fundamentos de determinada crença, seja política, seja social, religiosa ou outra que pertencem a um passado já não em vigência, e o faz de maneira progressivamente fanática, proselitista, não crítica, fechada a todo diálogo, seus fundamentos são categóricos e dogmáticos... inquestionáveis. Não se trata de uma seita ou religião, mas de uma atitude mental e emotiva" (p. 381).

 

"Estão preocupados em recriar o que Jesus disse e fez, e ignoram o autor inspirado; leem o texto como se estivessem diante de um vídeo do tempo de Jesus. O típico discurso é "Jesus disse / fez". Em vez de começar por "Marcos apresenta Jesus dizendo / fazendo". Omitem o tempo do autor bíblico. Palavra de Deus (o texto) equivale a videocassete de Jesus nos anos 30... O relato do êxodo de Israel do Egito seria reportagem precisa e exata de tudo o que aconteceu no decurso do êxodo, como se o relato fosse dos mesmíssimos tempos que os acontecimentos, quando sabemos que os fatos ocorreram vários séculos antes que o autor escrevesse seu livro" (p. 375).

 

Ora é lícito admitir que os autores sagrados, sob a inspiração divina, muito tempo depois dos acontecimentos, tenham narrado os fatos de maneira mais aprofundada ou mais compreensível do que se o tivessem feito na primeira hora. Dizemos: "... sob a inspiração de Deus", que garante a autenticidade da versão dada pelo autor humano ao fato descrito. Na verdade, pode haver muitos casos em que o autor humano faz suas interpretações por conta própria sem advertir o leitor, que as toma como versões fidedignas.

 

Já abordamos este assunto em artigo anterior deste fascículo ao expor o Método da História das Formas (cf. pp. 114-118). A dificuldade, no caso, é saber o que é interpretação genuína e o que é interpretação pessoal ou mesmo falsificadora dos fatos. Um intérprete racionalista apresentará uma versão totalmente diversa da interpretação do homem de fé. Daí a cautela que os fiéis devem exercer diante de alegações como as de Eduardo Arens.

 

A problemática se prende, entre outras, à noção de inspiração bíblica. Eis por que passamos a propor a clássica doutrina respectiva.

 

Inspiração bíblica

 

A tendência imediata de quem ouve falar de inspiração bíblica é imaginar que Deus tenha utilizado o autor humano como um chefe de escritório que dita uma carta à sua secretária, sem que ela entenda claramente de que se trata. Tal noção de inspiração bíblica é falsa. Digamos então:

 

a) Inspiração bíblica não é revelação de verdades desconhecidas ao autor humano, como acontece em Is 7,14, quando Deus revela a Isaías que uma jovem mulher daria à luz o Emanuel, oito séculos antes que isto acontecesse.

 

A inspiração bíblica não aumenta os conhecimentos do autor sagrado mas faz que use tais conhecimentos de modo a exprimir uma verdade religiosa intencionada por Deus. O escrito que daí resulta é todo de Deus e todo do homem; é divino-humano. Isto pode ser ilustrado pelo caso de um homem que queira escrever num quadro negro a palavra DEUS. Se usar giz branco, o efeito será branco; se usar giz vermelho, o efeito será vermelho... A causa principal será sempre o homem, único que pode conceber a noção de Deus; quanto à causa secundária, que é o giz, não deixará de produzir seus efeitos próprios. Paralelamente pode-se dizer: o homem que concebe a noção a ser transmitida (DEUS), é imagem de Deus; o giz representa o autor humano, que não é meramente passivo, mas atua dentro das suas potencialidades; se ele julga que o mundo tem três andares (o céu, a terra, e o subterrâneo), Deus não lhe tira esta concepção; se ele julga que certas doenças são efeito de possessão diabólica, isto passará para o texto bíblico.... Assim em muitos casos é preciso levar em conta a presença desses elementos da cultura antiga para perceber a mensagem divina do texto. Esta vem envolvida numa roupagem antiquada (que Arens chama "mito") e que deve ser reconhecida como mera figura de linguagem sem valor dogmático; assim os relatos da criação em Gênesis 1-3 querem afirmar que todas as criaturas têm origem em Deus, não há dois Princípios co-eternos (o do Bem e o do Mal), tudo o que Deus fez é bom... Esta é uma demitização sadia (embora a palavra "demitização" se preste a mal-entendidos). A demitização é falha quando, como no caso de Bultmann, se afirma que toda a Bíblia foi escrita em linguagem mítica e, em última análise, quer dizer uma só coisa: "Converte-te da vida não autêntica para a vida autêntica" (sem falar de pecado do homem e da graça de Deus).

 

Desta maneira se explicam as falhas ou os erros históricos e geográficos da Bíblia: o autor humano recorria muitas vezes ao gênero literário dito "midrache", que procurava pôr em relevo o sentido teológico dos fatos relatados. Exemplo típico de midrache é o do maná: considerado insípido em Nm 11, 4-9, ele é apresentado, séculos mais tarde, em Sb 16, 20s como "o pão que tinha todos os sabores e se convertia naquilo que cada qual queria"; além do quê, é dito "pão dos anjos" em SI 78, 25. A visão de Números 11 é o entendimento literal dos fatos, ao passo que a de Sabedoria 16 exprime o sentido profundo do maná reconhecido aos poucos pela tradição judaica; foi o maná que permitiu aos israelitas caminhar durante quarenta anos até a terra prometida.

 

Outro nítido exemplo de midrache é a genealogia de Jesus em Mt 1, 1-17; o evangelista conta 42 gerações entre Abraão e Jesus, distribuídas em três blocos de quatorze nomes em cada um. Ora quem lê o Antigo Testamento verifica que houve mais de 42 gerações no caso. Por que então o autor sagrado terá recorrido a tal artifício? - Muito provavelmente para dizer qual o significado teológico de Jesus; Ele foi três vezes 14, sendo que 14 é a soma das letras que compõem o nome hebraico de David: D = 4 + V = 6 + D = 4 (cada letra tinha valor numérico no alfabeto hebraico). Ao gênero midrache não importam pormenores de ordem historiográfica, mas sim a demonstração do sentido religioso da história.

 

Pode acontecer também que na tradição oral dos judeus houvesse duas ou mais versões diferentes do mesmo fato. Assim na arca de Noé entraram sete pares de animais puros e um casal dos animais impuros ou, segundo outra tradição, entrou um casal dos animais puros e dois impuros; cf. Gn 7, 2-9. A enumeração precisa não importava ao autor, mas sim o fato de que os animais deveriam poder multiplicar-se após o dilúvio... Seria muito longo expor todos os casos de imprecisões na Bíblia. Elas existem, mas não afetam a veracidade daquilo que Deus quis fosse escrito "em vista da nossa salvação', como diz o Concílio do Vaticano II em Dei Verbum 11.

 

E a questão: a Bíblia pode ser dita "Palavra de Deus"? - De acordo com a teoria da inspiração bíblica atrás proposta, pode-se dizer que a Bíblia é a Palavra de Deus, porque toda ela foi escrita com a colaboração de Deus e do homem; mesmo os salmos, que mais parecem palavra do homem do que de Deus, devem ser tidos como palavras "inspiradas" no sentido atrás descrito.

 

E onde fica a Inspiração quando o autor sagrado utiliza documentos redigidos por outrem ou quando várias mãos contribuem sucessivamente para a redação de determinado texto? - Respondemos que a inspiração é dada unicamente ao autor que confere ao texto a sua forma definitiva. Não se diga, porém, que Deus redigiu com suas próprias mãos o texto bíblico; Ele apenas iluminou a mente do autor sagrado para que, servindo-se dos dados culturais do seu tempo, escrevesse uma mensagem religiosa fiel àquela que Deus queria comunicar aos homens.

 

2.2. Negativo

 

A aversão de Arens ao fundamentalismo é tal que ele professa uma noção insuficiente de inspiração bíblica. Esta não é dada à mente do homem só, mas recai também sobre o texto sagrado. Nem é uma modalidade especial da geral inspiração que Deus concede aos homens e aos povos, mas é algo de inédito, que antecipa de certo modo o mistério da Encarnação do Verbo na plenitude dos tempos.

 

Além disto, notamos que Arens não traça limites entre o milagre real e o portento imaginado pelos mitos. Seria necessária mais clareza, pois a intervenção do além no aquém existe, tendo seu protótipo na Encarnação do Verbo. A estrada que Arens abre, pode levar ao total esvaziamento do texto bíblico, como ocorre no caso dos protestantes liberais, especialmente no de R. Bultmann. O subjetivismo pode devastar por completo a mensagem bíblica.

 

A delimitação entre a linguagem mítica e a linguagem literal é assaz frouxa e sujeita ao individualismo.

O livro pode surpreender a quem se inicia na leitura da Bíblia, mas será útil aos mais peritos que o saibam utilizar com cautela.

 

Mais informações se encontram às pp. 114-118 deste fascículo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] E. Arens reconhece: "O termo 'mito' e o qualificativo 'mítico' para referir-se a esta linguagem são infelizes, porque, para a maioria, são sinônimos de fantasioso, de ficção, de conto, do que foi criado pela imaginação. É preciso esclarecer que o termo 'mito' se emprega no campo religioso, as filosófico, antropológico e sociológico, para referir-se a maneira pré-científica de compreender e falar a respeito do mundo que se caracteriza por ser explicações em chave religiosa, em que intervêm forças espirituais, divindades, demônios" (p. 320s).


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