REVISTA PeR (3246)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 549 - março 2008

 

Método histórico-crítico:

 

AINDA O LIVRO DO PAPA SOBRE "JESUS DE NAZARÉ"

 

Em síntese: A crítica tem-se projetado sobre o livro de Bento XVI "Jesus de Nazaré" porque o autor não aceita as consequências do método histórico-crítico aplicado aos Evangelhos por autores racionalistas e liberais. Daí expor-se, a seguir, as diretrizes de tal Método, que procura explicar o texto dos Evangelhos recorrendo a fatos (hipotéticos?) ocorridos depois de Jesus.

 

O livro "Jesus de Nazaré" de Bento XVI suscitou aplausos e críticas, como era de esperar. Já tivemos a ocasião de expor a simpatia de vários críticos por essa obra. Vejamos agora as contestações.

 

1. O Problema

 

O Papa Bento XVI se apresenta como estudioso, cuja palavra pode ser contestada, e não como Pastor Supremo da Igreja. É criticado por seguir a "exegese canônica", que tende a explicar a Escritura através da Escritura. Com um olhar de fé, não terá levado em conta o que o método histórico-crítico afirma dos Evangelhos nem o que a arqueologia e a paleontologia têm trazido à tona. Eis um espécime de tais críticas, devido ao filósofo Gabriele Cornelli:

 

"A imagem do Jesus histórico que as pesquisas mostram é bem diferente daquela construída pelas igrejas... não temos nenhuma dúvida, por exemplo, de que todas as tradições sobre a infância de Jesus não são históricas. Não houve aquela história do presépio, da estrela, dos reis magos...

Jesus era um camponês da periferia do mundo judaico, com um discurso e uma prática pouco usuais. Era ainda menos compreendido pelas elites de seu povo, e dedicava atenção especial à problemática do campo. Seu discurso e orações espelham as vicissitudes mais dramáticas dos camponeses oprimidos pelo Império: dívidas, fome, doenças,...

Jesus é com certeza um mago; por exemplo, mais de um terço do Evangelho de Marcos se refere direta ou indiretamente a práticas mágicas ou milagrosas" (extraído da internet GALILEU: O Jesus brasileiro", ed. 18 -jan-fev2007).

 

2. O Método histórico-crítico

 

Tal método é de origem alemã e na sua língua originária é dito Formgeschtliche Methode (Método de História das Formas). Consiste nos seguintes termos:

 

Depois de haverem estudado os Evangelhos, principalmente do ponto de vista meramente literário ou crítico, na década de 1920, os críticos optaram por dar preferência a fatores históricos para explicar o texto dos Evangelhos. Houve, sim, um intervalo de vinte ou mais anos entre a pregação oral de Jesus e a redação escrita da mesma.

 

Nesses dois, três ou mais decênios, a Boa-Nova foi sendo transmitida oralmente em diversas regiões: Palestina, Síria, Ásia Menor, Grécia, Roma... Em cada um desses territórios, os pregadores procuravam dar-lhe um Sitz im Leben, isto é, um lugar (uma ressonância) na vivência dos respectivos ouvintes; procuravam fazer que a mensagem se tornasse resposta adequada aos anseios das populações de cada região. Tais pregadores e seus ouvintes não terão tido preocupação histórica nem metafísica, mas se terão interessado principalmente pelos aspectos existenciais e concretos do Evangelho. Em consequência, dizem vários autores, a imagem e a doutrina de Jesus foram tomando feitios novos, distanciando-se da sua face original. Ora os Evangelistas, ao redigir seus escritos, utilizaram os dados dessa pregação dos Apóstolos e discípulos, de modo que consignaram nos seus Evangelhos uma figura de Jesus que já não era fiel ao Jesus real e à Boa-Nova primitiva. Por isto, dizem os racionalistas, nos Evangelhos somos informados a respeito daquilo que as primeiras gerações cristãs professavam (temos o Jesus da fé), e não a respeito daquilo que Jesus foi e disse realmente (o Jesus da história). Para sabermos o que Jesus foi e fez, sem desvios nem deturpações, teríamos que eliminar do texto escrito dos Evangelhos os prováveis retoques e acréscimos que os pregadores e as comunidades antigas impuseram à mensagem inicial; mediante esse trabalho de "desmontagem" e "expurgo" é que se poderia tentar chegar à verdadeira imagem de Jesus e da sua pregação.

 

Ora essa tarefa de "desmontagem" é necessariamente baseada em conjeturas e suposições; ninguém dos estudiosos modernos possui documentação suficiente para reconstituir minuciosamente o quadro histórico e geográfico da Igreja nascente, de modo que pode haver até suposições contrárias entre os autores da EHF ou Escola da História das Formas.

 

Ponderando todos estes dados, muitos exegetas críticos são céticos em relação ao valor histórico dos Evangelhos. Estes só nos ofereciam o Jesus da fé (isto é, Jesus tal como Ele era projetado pela fé dos antigos cristãos, ignorantes e dados à imaginação), e não o Jesus da história (Jesus como Ele foi e pregou realmente).

 

Como se compreende, tais teorias têm séria repercussão na elaboração de um tratado sobre Jesus Cristo, pois solapam as bases da reflexão teológica. Qualquer afirmação que se queira fazer sobre Jesus a partir dos Evangelhos (e tudo afinal há de ser deduzido dos escritos e das tradições do Novo Testamento), pode ser impugnada como sendo eco da fé simplória dos primeiros discípulos. Entre Jesus, tal como ele foi, e nós, haveria uma cortina opaca, que não nos deixaria chegar até Jesus; tal cortina seriam as concepções das antigas comunidades cristãs, que terão elaborado uma imagem de Cristo não correspondente à realidade histórica. Retrocedendo através dos séculos, esbarraríamos com essas primeiras gerações cristãs, que não deixariam contemplar Jesus tal como Ele viveu aqui na Terra.

 

Procuremos, pois, avaliar o que possa haver de certo no método histórico-crítico atrás proposto, e o que haja de tendencioso.

 

Aceitável

1)  É certo que o Evangelho, antes de ser escrito, foi pregado oralmente durante decênios. Tal intervalo é muito importante para se entender o texto escrito dos Evangelhos.

2)  É certo também que os pregadores tinham grande interesse em estruturar a fé e a vida dos ouvintes, tocando em seus anseios mais profundos; o Evangelho é mensagem de salvação. - Até aqui tem razão a crítica liberal.

 

Não aceitável

As premissas apresentadas não implicam que os pregadores e as comunidades cristãs antigas, no seu afã de responder aos problemas dos homens, se tenham desviado da realidade histórica ou tenham mostrado desinteresse pela genuína figura de Jesus. Neste ponto começa a crítica equilibrada a divergir da extremada; ela afirma que, apesar de todas as tramitações históricas e geográficas pelas quais passou a mensagem de Jesus, esta se conservou íntegra, fiel a si mesma, ou, se quisermos, ela se foi desabrochando, como uma semente, com o tempo, vai expandindo suas virtualidades, mas de maneira sempre homogênea. Em consequência, quem crê nos Evangelhos, não crê apenas naquilo que os antigos cristãos imaginavam simploriamente, mas crê na própria figura e na autêntica mensagem de Jesus Cristo.

 

Notamos ainda que as conclusões negativistas apresentadas pelos críticos liberais são geralmente baseadas sobre hipóteses ("tais palavras não vêm de Jesus, mas de tal ou tal grupo cristão"); essas hipóteses aos poucos são consideradas como quase certezas e tornam-se, muitas vezes, bases para novas hipóteses; as conclusões decorrentes desse encadeamento de hipóteses são dadas como certas; assim tais críticos vão tentando destruir a credibilidade dos Evangelhos. - A propósito observemos o papel das hipóteses na pesquisa científica: o físico, por exemplo, querendo explicar um fenômeno, constrói legitimamente uma hipótese; se ele a consegue confirmar, o cientista a incorpora ao seu patrimônio; se comprova o contrário, rejeita-a; se nada consegue, põe de lado, provisoriamente ao menos, tal hipótese. Mas, se por cima dessa hipótese ele constrói outra hipótese, já vai deslizando para o terreno da fantasia; as conclusões que se seguem desse encastelamento de hipóteses são cada vez menos prováveis, pois as probabilidades se exprimem por frações que se vão multiplicando. Assim a probabilidade de 1/10 x 1/10 = 1/100!

 

Ora acontece frequentemente, entre os críticos liberais dos Evangelhos, que as suposições são formuladas sem que se diga que são suposições; outras se lhes encastelam..., e os resultados finais são apresentados ao público como as mais puras sentenças da moderna pesquisa bíblica. Na verdade, temos aí preconceitos, e não ciência.

 

Mais informações sobre o método histórico-crítico podem encontrar-se em nosso curso de Cristologia. Módulo 2, Escola "Mater Ecclesiae" (telFax: 21-2242-4552).

 

3. Reflete o Cardeal Ratzinger

 

No tempo da minha juventude - nas décadas de 1930 e 1940 -houve uma série de livros verdadeiramente entusiasmantes sobre Jesus: Karl Adam, Romano Guardini, Franz Michael William, Giovanni Papini, Jean Daniel-Rops, para apenas citar alguns nomes. Em todos esses livros, o retrato de Jesus era esboçado a partir dos Evangelhos, tal como Ele como homem viveu sobre a terra, mas - sendo totalmente homem - tendo trazido ao mesmo tempo Deus ao homem, com o qual Ele, como Filho, era um só. Deste modo, por meio do homem Jesus tornava-se visível Deus, e, a partir de Deus, a imagem correta do homem.

 

A partir dos anos 1950, a situação alterou-se. A cisão entre o "Jesus histórico" e o "Cristo da fé" tornou-se cada vez mais profunda, afastando-se ambos rapidamente cada vez mais um do outro. Mas o que é que pode significar a fé em Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, se o homem Jesus foi totalmente diferente daquele que os evangelistas representam e daquele que a Igreja, partindo dos Evangelhos, anuncia?

 

Os progressos da pesquisa histórico-crítica conduziram a distinções sempre mais refinadas entre camadas de tradição, por trás das quais a figura de Jesus, à qual precisamente a fé se refere, tornou-se sempre menos clara, perdeu sempre mais contornos. Mas, ao mesmo tempo, as reconstruções de Jesus, que deviam ser procuradas por trás das tradições dos evangelistas e das suas fontes, tornaram-se cada vez mais contrastantes: desde o revolucionário anti-romano, que trabalha pela queda dos poderes constituídos e fracassa, até o manso moralista, que tudo aprova e que assim, de um modo inconcebível, acaba Ele mesmo por moralmente se afundar. Quem lê várias destas reconstruções umas ao lado das outras, pode rapidamente verificar que elas são muito mais fotografias dos autores e dos seus ideais do que reposição de um ícone, entretanto tornado confuso. Por isso foi crescendo a desconfiança a respeito destas imagens de Jesus; mas a sua figura foi progressivamente se afastando cada vez mais de nós.

 

Como resultado comum de todas estas tentativas, ficou a impressão de que sabemos com segurança pouco sobre Jesus e de que a fé na sua divindade só posteriormente é que tenha formado a sua imagem. Esta impressão, entretanto, ganhou mais terreno na consciência geral da cristandade. Uma tal situação é dramática para a fé, porque se torna inseguro o seu ponto de referência mais autêntico: a íntima amizade com Jesus, da qual tudo depende, ameaça cair no vazio.

 

Mais adiante diz o autor:

 

"Eu julgava dever estas indicações metodológicas ao leitor, porque elas determinam o caminho da explicação da figura de Jesus no Novo Testamento. Para a minha representação de Jesus, isto significa principalmente que eu confio nos Evangelhos. Naturalmente pressupõe-se tudo o que o Concílio e a moderna exegese nos dizem sobre os gêneros literários, sobre a intenção narrativa, sobre o contexto comunitário dos Evangelhos e o seu falar neste contexto vivo. Acolhendo tudo isto - enquanto me foi possível - quis tentar representar o Jesus dos Evangelhos como o Jesus real, como o "Jesus histórico"no sentido autêntico. Estou convencido, e espero que também o leitor possa ver, que esta figura é mais lógica e historicamente considerada mais compreensível do que as reconstruções com as quais fomos confrontados nas últimas décadas. Penso que precisamente este Jesus - o dos Evangelhos - é uma figura racional e manifestamente histórica...

 

Cerca de vinte anos após a morte de Jesus, já encontramos no grande hino cristológico da carta aos Filipenses (PI 2, 6-11) uma cristologia plenamente desenvolvida, na qual se proclama que Jesus era Igual a Deus, mas se desfez de si mesmo, se fez homem, se humilhou até a morte na cruz e agora lhe é devida a veneração cósmica, a adoração que Deus anunciou pelo profeta Isaías (Is 45, 23) como devida apenas a Ele" (pp. 17s).

 

Eis como o Cardeal Ratzinger justifica sua fé no Jesus dos Evangelhos, fé que perpassa o livro inteiro e muito pode falar ao leitor. Em suma, o teólogo é a fé que procura compreender (fides quaerens intellectum) Sem fé não se pode compreender a mensagem bíblica em toda a sua amplidão, mensagem que não é contraditada pela linguística nem pela arqueologia nem pela história antiga.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)