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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 549 – março 2008

 

Vista por um protestante

 

A IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS

 

A revista protestante ULTIMATO, edição no 309, novembro-dezembro 2007, pp. 60-61 publicou um artigo sobre a Igreja Universal do Reino de Deus que, com a autorização do respectivo editor, reproduzimos a seguir, com a expressão de nossa gratidão ao autor.

 

A IGREJA DE EDIR MACEDO...

A IGREJA DE EDIR MACEDO TORNOU-SE UM CONGLOMERADO QUE MESCLA RELIGIÃO, MÍDIA, POLÍTICA E NEGÓCIOS

 

A mensagem é curta e diz tudo: Jesus Cristo é o Senhor. Foi tirada da Palavra de Deus, da Carta de Paulo aos Filipenses. Refere-se à plenitude da história, quando todas as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos, em homenagem ao nome de Jesus, cairão de joelhos e declararão abertamente que Jesus Cristo é o Senhor, "para a glória de Deus, o Pai" (Fp 2, 11, NTLH). Essa mensagem radical (Jesus Cristo é o Senhor, e pronto) está associada à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Provavelmente esse recado incisivo tem levado alguns brasileiros a se converter verdadeiramente a Jesus Cristo. A grande pergunta é se o solene letreiro colocado na fachada dos quase cinco mil templos da Universal está em harmonia com a pessoa e as pretensões de seu fundador e líder máximo, o bispo Edir Macedo Bezerra, de 62 anos. Muitas coisas levam a crer que a resposta é negativa.

 

Edir Macedo é um gênio, muito mais como empresário do que como bispo. Para falar a verdade nua e crua, ele parece se encaixar perfeitamente bem entre aqueles que "embora preservem as formas da religiosidade, renegam seus efeitos" (2Tm 3, 5, BP). O rebuliço em torno de sua biografia, lançada com muito alarde no dia 15 de outubro de 2007, em todas as capitais brasileiras, torna claras muitas coisas estranhas. Como empresário, há pouco o que dizer contra Edir Macedo. Mas, como empresário e bispo, pesam contra ele algumas coisas sérias.

 

Primeiro, a biografia foi encomendada e remunerada. "Trata-se de uma obra parcial", como diz o comentário da Folha Online. Foi escrita por dois empregados de Edir Macedo na TV Record - Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo, e Christina Lemos, repórter de política do Jornal da Record. O próprio autor faz "uma pergunta que qualquer leitor com senso crítico faria: Como fazer uma biografia isenta de alguém que paga o seu salário?" (Folha de São Paulo, 08/10/07, A9).

 

Embora razoavelmente discreto até agora, o homem que se mantinha longe dos holofotes e não dava entrevista a ninguém, de repente tornou-se excessivamente visível. Lê-se no jornal da IURD que a biografia de Macedo "conta a trajetória do maior líder evangelístico do mundo" e que o livro foi publicado por "uma das mais conceituadas editoras de livros do mundo" (a Larousse). A Folha Universal (de 14 a 20/10/2007) também diz que a tiragem dos 700 mil exemplares "representa o dobro da tiragem de lançamentos como Harry Potter e dos títulos de Paulo Coelho" e promete para o início de 2008 as versões em inglês e espanhol. O mesmo jornal faz referências aos diplomas de doutorado em filosofia cristã, em teologia e em divindade que Edir Macedo tem na parede do escritório. Revela também que a Universal, fundada há 30 anos, tem 9.660 pastores, 4.748 templos e 500 mil obreiros, e estaria presente em 172 dos 183 países do mundo (vantagem maior do que o McDonald's, rede de fast food mais famosa do mundo, que já se instalou em 115 países). O lançamento de O Bispo - a história revelada de Edir Macedo foi realizado estrategicamente quinze dias depois da inauguração da Record News, o primeiro canal inteiramente noticioso da TV aberta do Brasil, com a presença do presidente Lula e do governador José Serra. Presunçosamente, Edir Macedo disse ao editor-chefe da Folha Online que as revelações em sua biografia podem mudar o Brasil. Outro sinal evidente de autoavaliação exacerbada encontra-se no próprio livro: "Se eu fosse presidente, este país seria outro". Todas essas peças são úteis ao empresário Edir Macedo, mas inconvenientes ao bispo Edir Macedo, que anuncia que Jesus Cristo é o Senhor "para a glória de Deus, o Pai".

 

Na reportagem de capa de nove páginas publicada na Veja de 10 de outubro de 2007, há um cantinho no alto da página 88 onde se lê algo muito sério: "Como o dinheiro da Igreja Universal do Reino de Deus chega à Record - e termina na conta de Edir Macedo". Não parece nem calúnia nem futrica. A lógica é a seguinte: os bens da Universal (tanto os templos como as empresas - construtoras, seguradoras, táxi aéreo, agências de turismo e consultorias) não pertencem a Edir Macedo, mas a Record é dele e da mulher (90% do capital para ele e 10% para ela). A questão é que um dos melhores clientes da Record é a Igreja Universal, que compra, segundo Veja, 300 milhões de reais por ano em horários na televisão, o que equivale a um terço de tudo que a emissora arrecada no mercado publicitário. É desse modo legal que parte do dinheiro da Universal parece ir para as mãos de Edir Macedo.

 

Fábio Zanini, da sucursal de Brasília da Folha de São Paulo explica que, "fundada no Rio em 1977, a Universal tornou-se um conglomerado que mescla religião, mídia e política" (FSP, 23/09/07, A4). Talvez se deva acrescentar a essa tríade um quarto elemento: religião, mídia, política e negócios. É um argumento a mais a favor da denúncia de que Edir Macedo é mesmo um daqueles homens ávidos pelo lucro e também obcecados pelo orgulho, que conseguem manter aparências de piedade religiosa, negando a sua força interior (2Tm 3, 5, EP).

 

É preciso insistir: o que está errado (e muito) é a associação do Edir Macedo bispo com o Edir Macedo empresário. Naturalmente as incomuns habilidades de Macedo nas áreas de gestão de negócios, marketing, mídia, empresariado e política fizeram seus negócios crescerem muito e depressa (a Record está avaliada em 4 bilhões de reais e a mansão que ele está terminando em Campos do Jordão, SP, é algo fora de série) e também explicam parte do crescimento vertiginoso da igreja por ele fundada. A Universal declara que tem 8 milhões de fiéis e 22 mil empregos só no Brasil, além das imponentes e bem construídas catedrais em lugares estratégicos nas capitais e maiores cidades do país. A promessa de cura e de riqueza, quase sempre associada à entrega de dízimos e ofertas vultosas - a malfadada teologia da prosperidade -, é outra explicação da expansão sem igual da igreja de Edir Macedo. É preciso fazer uma ginástica enorme e passar por cima de muitos critérios para tentar atribuir o crescimento da IURD à atuação do Espírito Santo. Quanto às eventuais conversões que ali acontecem, devem ser creditadas à misericórdia divina e ao poder intrínseco da Palavra de Deus. Paulo já havia enfrentado essa questão quando escreveu aos Filipenses que não importa se Cristo é proclamado com segundas intenções ou não. Nota de rodapé da Nova Tradução na Linguagem de Hoje explica que "enquanto a falta de sinceridade atinge apenas a pessoa, sem mexer com aquilo que está sendo anunciado, Paulo não se importa" (Fp 1, 8).

 

Pelo menos o letreiro colocado na fachada dos 5 mil templos da Universal está proclamando que "Jesus é o Senhor, para a glória de Deus, o Pai" - uma mensagem absolutamente certa!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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