REVISTA PeR (2446)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 545 – novembro 2007

Arqueologia e Fé:

 

"A TUMBA DA FAMÍLIA DE JESUS"([1])

por Jacobovici e Pellegrino

 

Em síntese: Volta à tona a descoberta de ossuários que, segundo alguns arqueólogos, correspondem a Jesus e seus familiares; Jesus não teria ressuscitado. - Foram refutadas tais teorias em PR 541, pp. 299. Neste fascículo, examinaremos as razões que levam a admitir a ressurreição de Jesus e, por conseguinte, dissipam a hipótese de se ter encontrado o seu ossuário.

 

Simcha Jacobovici e Charles Pellegrino voltam à baila com um livro que pretende corroborar a tese de que Jesus não ressuscitou, mas foi sepultado com sua família no bairro Talpiot de Jerusalém. O prefácio do livro deve-se a James Cameron, que é cineasta; chega a duvidar da existência de Jesus, mas defende a tese de que foi descoberto o verdadeiro túmulo.

 

O problema se reduz hoje ao dilema: Jesus ressuscitou ou não?

 

- Em favor da ressurreição falam vinte séculos de Cristianismo. Se outra fosse a verdade, deveria ter sido professada pelas primeiras gerações cristãs, que, melhor do que nós, conheciam os acontecimentos do fim de vida de Jesus. Nunca até nossos tempos se falou do sepulcro de Talpiot. Ninguém desmascarou o "mito" da ressurreição de Jesus, como foram desmascarados tantos mitos no decorrer da história. Seria estranho que somente no século XXI se tenha a verdade no tocante ao fim da vida de Jesus. A arqueologia, a literatura apontam o túmulo de Jesus junto ao Calvário sem que jamais alguém haja duvidado da autenticidade desse monumento. Esta constante afirmação dos historiadores e arqueólogos de vinte séculos está baseada nas Escrituras mesmas, que afirmam unanimemente a ressurreição de Jesus, embora isto custasse certo desdém por parte dos gregos dualistas, a quem o corpo parecia ser um túmulo ou um cárcere.

 

Vamos, pois, a seguir, auscultar o testemunho do Novo Testamento sobre a ressurreição do Senhor Jesus.

 

1. O testemunho do Novo Testamento

 

1.1.1 Cor 15, 3-8

O texto mais significativo é a profissão de fé consignada por São Paulo em 1Cor 15, 3-8. Ei-la em tradução literal:

(1) Faço-vos conhecer, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o mesmo que vós recebestes e no qual permaneceis firmes. (2) Por ele também sereis salvos, se o conservardes tal como vo-lo preguei... a menos que não tenha fundamento a vossa fé.

(3) Transmiti-vos, antes de tudo, aquilo que eu mesmo recebi, a saber, que Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras,

(4) e que foi sepultado

E que ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras (5) e que apareceu a Cefas, depois aos doze.

(6) Posteriormente apareceu, de uma vez, a mais de quinhentos irmãos, dos quais a maior parte vive até hoje, alguns, porém, já morreram.

(7) Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os Apóstolos.

(8) Por fim, depois de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo.

 

São Paulo escreveu tal passagem no ano de 56, ou seja, pouco mais de vinte anos após a Ascensão de Jesus. Eis, porém, que nesse texto o Apóstolo quer apenas lembrar aos fiéis o que ele lhes transmitiu de viva voz quando fundou a comunidade de Corinto em 51-52: nessa época Paulo entregou aos fiéis a doutrina que lhe fora entregue ("Transmiti-vos... aquilo que eu mesmo recebi..."). E quando o Apóstolo recebeu a mensagem?

 

Ou por ocasião da sua conversão, que se deu aproximadamente no ano de 35, ou no ensejo de sua visita a Jerusalém, que teve lugar em 38, ou, ao mais tardar, por volta do ano de 40.

 

Observemos agora o estilo do texto de 1Cor 15, 3-8: as frases são curtas, incisivas, dispostas segundo um paralelismo que lhes comunica um ritmo notável. Abstração feita dos vv. 6 e 8, dir-se-ia que se trata de fórmulas estereotípicas, forjadas pelo ensinamento oral e destinadas a ser frequentemente repetidas. Nesses versículos encontram-se várias expressões que não ocorrem em outras cartas de São Paulo: assim "conforme as Escrituras", "no terceiro dia", "aos doze", "apareceu" (expressão que só ocorre sob a pena de São Paulo num hino citado pelo Apóstolo em 1Tm 3, 16).

 

Estas indicações dão a ver que São Paulo em 1Cor 15, 3-8 reproduz uma fórmula de fé que ele mesmo recebeu já definitivamente redigida poucos anos (dois, cinco, oito anos?) após a Ascensão do Senhor Jesus. O v. 6, quebrando o ritmo do conjunto, talvez tenha sido introduzido posteriormente; quanto ao v. 8, é por certo uma notícia pessoal que São Paulo acrescenta ao bloco.

 

Vê-se, pois, que desde os primeiros anos da pregação do Evangelho já existia entre os fiéis uma profissão de fé na ressurreição de Cristo formulada em frases breves e pregnantes; tais frases eram transmitidas como expressões exatas da mensagem dos Apóstolos.

 

Ora essa fórmula de fé antiquíssima professa a ressurreição corpórea de Cristo como realidade histórica. Para a comprovar, havia testemunhas oculares, das quais, diz São Paulo, muitas ainda viviam vinte e poucos anos após a ressurreição do Senhor.

 

Tal depoimento de primeira hora é um texto pré-paulino, concebido e transmitido pelos discípulos imediatos do Senhor como expressão da fé comum da Igreja nascente. - É de notar que São Paulo insiste no peso das testemunhas oculares; muitas ainda viviam e podiam ser interpeladas pessoalmente; não diz que "creram", mas que "viram' (Jesus apareceu-lhes ressuscitado).

 

O texto de 1Cor 15, 1-8 é por Bultmann e sua escola reconhecido como obstáculo sério à sua teoria racionalista (obstáculo fatal, segundo a expressão usada pelo próprio Bultmann em Kerygma und Mythos I). Paulo terá sido incoerente consigo mesmo:

 

"Só posso compreender o texto de 1Cor 15, 1-8 como tentativa de apresentar a ressurreição como um fato objetivo, merecedor de fé. Apenas posso dizer que Paulo, levado por sua apologética, caiu em contradição consigo mesmo" (Glauben und Verstehen /. Tübingen 1964, 54s).

 

Passemos agora a

1.2. A pregação da Igreja nascente

 

1.2.1. O destemor dos Apóstolos

Seriam incompreensíveis o êxito e a força persuasiva da pregação dos Apóstolos, se, depois de haverem feito a dolorosa experiência da Paixão do Mestre, não O tivessem visto realmente ressuscitado.

 

Sem o encontro com Cristo vencedor, também não se explicaria a Cristologia pascoal (ou seja, a doutrina concernente a Cristo morto e redivivo) da Igreja antiga. Com efeito, os Apóstolos e os primeiros cristãos não somente se reconciliaram com a ideia de um Messias padecente, mas também com a de um Messias ausente, que voltará no fim dos tempos. Levemos em conta outrossim que, apesar do seu estrito monoteísmo, os Apóstolos no culto sagrado associaram Jesus a Deus Pai, reconhecendo-lhe grandeza e dignidade divinas. Nada disto teria podido ocorrer, se os discípulos não tivessem visto o Senhor ressuscitado e se Ele não vivesse de fato na Igreja nascente mediante o Espírito Santo prometido aos Apóstolos.

 

A conversão de São Paulo, que de perseguidor se tornou incansável arauto de Cristo ressuscitado, desenvolvendo atividade admirável e fecunda, é outro fato que dificilmente se poderia entender sem a realidade da ressurreição de Cristo.

 

1.2.2. O conteúdo da pregação dos Apóstolos

Em termos mais precisos, perguntamos: que é que os discípulos anunciaram quando começaram a pregar?

O livro dos Atos dos Apóstolos responde a esta pergunta, apresentando-nos textos muito significativos:

At 2,4-40: Pedro, no dia de Pentecostes, explica à multidão o fenômeno das línguas;

At 3,12-26: Pedro, apelando para a obra salvífica de Cristo, esclarece como e por que um paralítico foi curado à porta do Templo de Jerusalém;

At 4, 8-12: diante do Sinédrio (tribunal judaico) Pedro explica as ocorrências da última Páscoa;

At 5, 30-32: idem;

At 10, 34-43: Pedro, em casa do centurião romano Cornélio, faz uma síntese do plano de Deus, apresentando a morte e a ressurreição de Jesus como ponto central;

At 13,17-41: Paulo em Antioquia da Pisídia faz o mesmo.

 

A propósito observamos:

 

É possível averiguar o caráter arcaico de tais trechos: neles se encontram, por exemplo, o eco de locuções bíblicas (At 2, 22-24; 10, 38...) e hebraísmos (At 2, 23; 20; 10, 40...) ... Isto significa que estamos diante das camadas mais antigas e das linhas-mestras da pregação dos Apóstolos, dirigida aos judeus, que constituíram o núcleo inicial da Igreja.

 

O tema desse anúncio, como se compreende, é Jesus de Nazaré:

-   anunciado pelos Profetas: At 2, 23; 2, 23; 3,18; 4,11; 5, 30s; 10, 40; 13, 35...

-   figura histórica, pois há referências ao seu nascimento na casa de Davi (At 13, 23; 10, 37), ao seu ministério público precedido pela pregação de João Batista (At 2, 22; 10, 37s; 13, 24-31);

-   ressuscitado dentre os mortos, ponto alto de toda a pregação. A ressurreição revela o significado da existência de Jesus, de tal modo que o Evangelho (a Boa-Nova) é essencialmente o anúncio da ressurreição. Diz São Paulo em Antioquia: "E nós vos anunciamos a Boa-Nova: Deus cumpriu para nós, os filhos, a promessa feita a nossos pais, ressuscitando a Jesus" (At 13, 22). Procurando resumir numa palavra a missão dos Apóstolos, Pedro diz que a sua tarefa principal é a de ser "testemunhas da ressurreição" (At 1, 22).

 

1.2.3. O conceito de Messias

 

Notemos que os judeus do Antigo Testamento não tinham o conceito de um Messias que morreria e ressuscitaria. Esperavam, antes, a vinda do seu reino em poder e glória. Se, não obstante, a ideia da ressurreição do Messias logo após a sua morte foi apregoada por Pedro e seus companheiros, parece lógico admitir que os Apóstolos tiveram a experiência de um encontro pessoal com Cristo redivivo após a morte na cruz. Sem esta experiência, jamais teriam chegado a proclamar que Jesus ressuscitaria dentre os mortos.

 

Com outras palavras: a ideia de um Messias não glorioso, mas crucificado, era "escândalo para os judeus" (cf. 1 Cor 1, 23). O fato de que os Apóstolos a aceitaram, seria um enigma se não tivessem visto Jesus ressuscitado.

 

Observa-se mesmo que os Apóstolos, longe de imaginar que Jesus morto voltaria à vida, perderam o ânimo ao vê-lo presa de seus inimigos, e fugiram. Quando lhes foi dada a notícia da ressurreição, relutaram para aceitá-la; não estavam subjetivamente predispostos a conceber a vitória de Cristo sobre a morte. Fizeram-no, porém, vencidos pela evidência objetiva do fato; cf. Jo 20, 9.19-24 (episódio de Tomé); Lc 24, 13-35 (os discípulos de Emaús); Lc 24, 36-43 (Jesus nega ser mero espírito, dá a palpar mãos e pés).

 

Em outros termos: quem lê os Evangelhos, observa que as aparições de Jesus não se dão após uma expectativa ansiosa dos Apóstolos ou discípulos. Ao contrário, Jesus aparecia de maneira totalmente imprevista, quando os discípulos menos o esperavam.

 

Nas aparições, é Ele, e somente Ele, quem tem a iniciativa ou quem vai ao encontro... Jesus também desaparece imprevistamente, quando os Apóstolos desejariam tê-lo por mais tempo consigo. Estes dados tornam inaceitável a tese segundo a qual as aparições de Jesus não teriam sido senão subjetivas - visões que, após madura reflexão, haveriam sugerido a interpretação: "Jesus ressuscitou". Segundo os Evangelhos, os discípulos tiveram experiência imediata do Senhor Ressuscitado, que eles puderam identificar com o Crucificado.

 

1.3. O Sepulcro Vazio

 

O texto de Mc 16, 1-8 fala das mulheres que encontraram vazio o sepulcro de Jesus na manhã de domingo. A mesma descoberta foi feita por Maria Madalena, segundo Jo 20, 1s, e por Pedro, conforme Lc 24, 10-12.

 

Perguntamos: qual o valor histórico destas narrações?

Admite-se a realidade do sepulcro vazio na base das seguintes razões:

1)  Os Evangelhos dão a entender que Jesus foi sepultado por José de Arimatéia, homem rico, que se serviu de uma rocha ainda não utilizada para tal fim. Por conseguinte, o sepulcro de Jesus devia estar em lugar conhecido; a visita das mulheres ao túmulo correspondia bem aos costumes da época.

2)  A notícia de que as mulheres encontraram vazio o sepulcro de Jesus, não pode ter sido forjada pela Igreja antiga; quem a inventasse, não teria apelado para dizeres de mulheres, já que as mulheres outrora eram tidas como testemunhas pouco fidedignas. Refere São Lucas que as mulheres, tendo encontrado o sepulcro vazio, "disseram isto aos Apóstolos, mas suas palavras pareceram-lhes um desvario e eles não acreditaram. Pedro, no entanto, pôs-se a caminho, e correu ao sepulcro. Debruçando-se, apenas viu as ligaduras e voltou para casa, admirado com o que sucedera" (Lc 24, 10-12).

3)  Os inimigos de Jesus não negaram que o túmulo estivesse vazio, mas unicamente trataram de explicar o fato por vias diversas. Eis, por exemplo, o que se lê em Mt 28, 11-15:

"Enquanto as mulheres iam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade participar aos príncipes dos sacerdotes tudo o que havia sucedido. Estes reuniram-se com os anciãos e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados com esta recomendação: Dizei isto: os seus discípulos vieram de noite e roubaram-no quando dormíamos. E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que os deixe tranquilos. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinham ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os judeus até o dia de hoje".

 

Vê-se, pois, que a tradição do sepulcro vazio é historicamente bem fundada. Ela tem sentido profundo para os cristãos. Sim, ela quer dizer que a mensagem da ressurreição de Jesus implica algo mais que o fato de que “a causa de Jesus continua” (Marxsen). Ela incute que existe continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado; a vida terrestre de Jesus não foi uma fase ultrapassada da existência de Cristo, mas continua presente no corpo do Senhor. O Cristo que ressuscitou, é o mesmo que morreu na cruz; possui o mesmo corpo, embora de maneira diversa.

 

Deve-se dizer também que a ressurreição de Jesus, à qual ninguém assistiu, deixou de si um sinal impressionante na história humana: o sepulcro vazio. Eis por que a questão do sepulcro vazio não é secundária ou pouco importante.

 

2. Conclusão

 

Não tem cabimento dizer que as narrativas do Novo Testamento são mera ficção lendária ou mitológica, e dar crédito à hipótese de Talpiot que só no século XXI veio a lume. Não é possível que os primeiros cristãos ignorassem o paradeiro póstumo de Jesus ou que dentro de poucos decênios (ainda no século I) tenham construído o mito "Jesus Ressuscitado".

 

Fica portanto de pé o relato bíblico. O perdido sepulcro de Jesus é que há de ser considerado espúrio e não merecedor de crédito.

 

Aliás é de notar que os Apóstolos e discípulos de Jesus estavam longe de imaginar que ele ressuscitaria; não dispunham de condições psicológicas para projetar ficticiamente Jesus Ressuscitado.

 

Vejam-se os seguintes textos:

Mc 9, 9s: "Ao descerem do monte, Jesus ordenou que a ninguém contassem o que tinham visto, a não ser depois que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que significaria ressuscitar dos mortos",

Jo 20, 24-29: a incredulidade de Tomé, que pede provas.

Lc 24, 13-31: os discípulos de Emaús estão abatidos, embora Jesus caminhasse ao lado deles.

Lc 24, 36-39: os discípulos se assustam e duvidam da presença do Ressuscitado, que lhes oferece provas.

 

A incredulidade foi vencida pela evidência do fato da ressurreição.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Ed. Planeta do Brasil, São Paulo, 2007, 267pp.


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)