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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 547 – janeiro 2008

 

Oriente e Ocidente:

 

A ORAÇÃO: UM IOGA CRISTÃO?

 

Em síntese: A oração dos orientais não cristãos (Ioga, Zen, Meditação Transcendental...) consiste numa série de exercícios que levam, como dizem, à plena união com a Divindade ou à fusão com a Divindade, pela qual o orante perde a sua individualidade numa visão panteísta fundem numa só realidade a Divindade, o homem e os seres visíveis.

 

Ao invés, a oração cristã é um dom gratuito de Deus, para o qual o homem se dispõe pela fé e o amor, não é o homem que, mediante técnicas especiais, repetição de mantras... se eleva à união com Deus, mas é a graça de Deus que o eleva de acordo com suas predisposições. As premissas desta concepção são monoteístas e não panteístas; Deus é o Criador, o homem é criatura.

 

A Editora Quadrante publicou o livro "Tempo para Deus. Guia para a vida de oração" da autoria de Jacques Philippe, sacerdote que se tem dedicado ao estudo da espiritualidade. O livro trata em sua primeira parte, das diferenças entre a oração cristã e a do hinduísmo, budismo, ioga, e apresenta o tema sob o título "A oração não é uma técnica, mas uma graça". Examinaremos, a seguir, o conteúdo desse capítulo.

 

1. A oração não é um ioga cristão

 

Antes do mais, faz-se necessário conceituar o que é a oração.

“Na tradição católica ocidental, chamamos "oração" essa forma de rezar que consiste em pôr-se na presença de Deus, durante um tempo mais ou menos longo (quinze minutos, meia-hora) em solidão e silêncio, com o desejo de entrar em íntima união de amor com Ele” (p. 3)- O orante poderá utilizar um livro de espiritualidade, fazer a "lectio divina" ([1]) ou dispensar qualquer recurso vindo de fora.

 

Pois bem, diz Jacques Philippe com razão, a oração cristã não é fruto de uma técnica, mas um dom a ser acolhido. No Cristianismo não existe um conjunto de receitas ou de procedimentos que bastaria aplicar para orar bem. A verdadeira oração é um dom que Deus concede gratuitamente, mas que devemos aprender a receber.

 

Ao contrário desta concepção, os métodos orientais bem como a nossa mentalidade moderna pretendem reduzir tudo a técnicas, criando uma imagem falsa da oração, como se fosse um ioga cristão. O progresso na oração dependeria de concentração mental e de recolhimento, de técnicas de respiração apropriadas, de posições do corpo, da repetição de certas fórmulas... Uma vez bem dominados, esses elementos permitiriam ao indivíduo ter acesso a um estado de consciência superior. Esta visão das coisas subjacente às técnicas orientais, influi por vezes na ideia que se faz da oração e da vida mística no Cristianismo e delas apresenta uma visão totalmente errônea. - Errônea porque se prende a métodos em que o elemento determinante é o esforço do homem, ao passo que no Cristianismo tudo é dom de Deus.

 

Com efeito, na concepção oriental trata-se de uma atividade que depende essencialmente do homem e das suas capacidades. Ao contrário, no Cristianismo, embora se exija uma certa atividade do homem (predisposições para a graça) todo o edifício da vida de oração se assenta na iniciativa de Deus e na sua graça (pp. 6s).

 

"Se a vida de oração fosse uma questão de técnica, haveria pessoas capazes de oração contemplativa e outras não. É verdade que há quem tenha maior capacidade de recolher-se, para cultivar belos pensamentos, mas isto não tem importância. Se respondemos fielmente à graça divina, de acordo com a nossa personalidade, com os seus dons e as suas fraquezas, todos somos capazes de uma vida de oração muito profunda. O convite à oração, à vida mística, à união com Deus na oração é tão universal como o convite à santidade, porque uma não existe sem a outra. Não há absolutamente ninguém excluído. Não é a uma elite escolhida, mas a todos sem distinção que Jesus se dirige quando diz: 'Orai em todo tempo' (cf. Lc21, 36)...

 

Ainda: se a vida de oração não é uma técnica que devamos dominar, mas uma graça que devemos acolher, um dom que vem de Deus, o mais importante não é falar de métodos nem de receitas, mas conhecer as condições que permitam acolher esse dom. Com outras palavras, "o que assegura o progresso na vida de oração e a torna frutuosa, não é tanto o método que se adota para orar, mas as disposições interiores com que se aborda a vida de oração e se caminha por ela. A nossa principal tarefa é esforçar-nos por adquirir, cultivar e aprofundar essas disposições do coração. O resto será obra de Deus" (p. 9s). Diga-se de passagem que também o cultivo das disposições interiores só pode ocorrer com a graça de Deus.

Quais seriam essas disposições interiores?

 

2. Disposições interiores

Jacques Philippe enumera as quatro seguintes:

 

2.1. Fé e confiança, as bases da oração

A fé apresenta dois aspectos:

 

a) Fé na presença de Deus

Quando nos dispomos a fazer oração... devemos crer com toda a alma que Deus está presente a nós. Independentemente do que possamos sentir ou não sentir de nossa capacidade ou incapacidade de cultivar bons pensamentos. Deus está junto de nós, olha-nos e ama-nos... Sejam quais forem as nossas dificuldades, resistências..., devemos crer firmemente que todos sem exceção - sábios ou ignorantes, justos ou pecadores, pessoas equilibradas ou profundamente feridas - são chamados à vida de oração, na qual Deus se comunica conosco. Dará a todos as graças necessárias para perseverarmos na oração.

 

b) Fé na fecundidade da vida de oração

Escreve Jacques Philippe:

 

"Mesmo que tenhamos a impressão... de que a vida de oração é estéril, de que marcamos passo, de que fazer oração não muda nada,... Não devemos desanimar, mas permanecer convictos de que Deus manterá a sua promessa: 'Pedi e recebereis...' (Lc 11, 9s). Quem persevera com confiança, receberá infinitamente mais do que ousa pedir ou esperar" (pp. 11s).

 

2.2. Fidelidade e perseverança

Quem envereda pelo caminho da oração, deve propor-se a fidelidade.

 

"Mais vale uma oração pobre, mas regular e fiel, do que uns momentos de oração sublime, mas episódicos. É a fidelidade que permite alcançar a maravilhosa fecundidade da vida de oração" (p. 13).

 

2.3. Humildade e pobreza de coração

"A humildade consiste em que o cristão aceite a sua pobreza radical, pondo toda a sua confiança em Deus. O cristão humilde aceita não ser nada, porque Deus é tudo para ele... Na oração é impossível fugir a essa experiência de pobreza. É verdade que se fará muitas vezes a experiência da ternura de Deus, mas o que se revelará mais frequentemente será a nossa miséria, a nossa incapacidade de orar, as nossas distrações, as feridas guardadas na nossa memória e imaginação, a lembrança de nossas faltas e fracassos... O homem encontrará mil pretextos para fugir de um Deus que lhe desvenda o seu nada radical, porque, em última análise, se recusa a reconhecer que é pobre e frágil.

 

O humilde persevera na vida de oração sem jactância, sem contar consigo mesmo... Põe toda a sua confiança em Deus e não em si mesmo; jamais desanima, e isto é afinal o que mais importa" (p. 16s).

 

"Sem vida de oração, não há santidade. 'Quem foge da oração, foge de tudo o que é bom', diz São João da Cruz... Sem ela, é impossível avançar espiritualmente...

 

Pode-se objetar que Deus nos confere a graça santificante através dos sacramentos... - É verdade, mas sem vida de oração os próprios sacramentos terão eficácia limitada, porque faltará a terra boa para recebê-la (cf. pp. 13ss).

 

2.4. Ter tempo para Deus

Jacques Philippe considera a alegação frequente: "Bem que eu quisera fazer oração, mas não tenho tempo". E responde:

 

"O problema está em saber o que conta na nossa vida. Nunca se viu alguém morrer de fome por lhe faltar tempo para comer. Sempre se encontra tempo - ou melhor, se procura - para fazer o que se considera vital. Antes de dizer que não temos tempo, interroguemo-nos sobre a nossa hierarquia de valores, sobre o que é realmente prioritário para nós" (p. 14).

 

O autor considera outra objeção: “Não podemos dar a Deus o tempo roubado aos homens". E responde: "O tempo dado a Deus não é roubado aos homens. A experiência mostra que é entre as pessoas de intensa oração que se encontra o amor mais atento, mais delicado, mais desinteressado, mais capaz de consolar e reconfortar" (pp. 22s).

 

Há também quem diga: "Oro trabalhando. Minha oração é o meu trabalho". Ao que responde o autor nas pp. 24ss:

"Temos de ser realistas. Não é tão fácil permanecermos unidos a Deus quando estamos mergulhados em nossas ocupações. Pelo contrário, a nossa tendência natural é deixarmos-nos absorver totalmente pelo que fazemos... Precisamos de uma prévia reeducação do coração, e o meio mais seguro para a alcançarmos é a fidelidade à oração. Sem esse espaço de tempo gratuito, o amor tende a asfixiar-se em breve prazo.

 

Mais uma alegação vem ao caso: "A oração parece-me algo maravilhoso, mas só rezo quando me sinto impelido a fazê-lo. Orar quando não me interessa ou a contragosto seria uma falta de sinceridade, uma forma de hipocrisia. Farei oração quando tiver vontade". Responde J. Philippe:

"Se esperarmos ter vontade, talvez tenhamos de esperar até o dia do juízo. A inclinação da vontade é algo de muito mutável. É Deus quem nos convida a fazer oração: 'Orai sem desfalecer' (Lc 18, 1). A fé é que nos deve guiar, e não o estado de alma subjetivo. A espontaneidade é um valor, mas nem sempre está orientada para o bem; tem necessidade de ser purificada e curada" (pp. 24s).

 

O autor considera ainda outra dificuldade que leva a renunciar à oração: "Estou cansado(a). Estou com dor de cabeça". Responde:

A oração começa pelo intelecto, procura ver e compreender, mas não pode ficar só na inteligência; tem que passar para o coração, para o amor provocado pelo conhecimento de Deus e de sua Providência. Considere-se o seguinte episódio da vida de Santa Teresa de Lisieux:

 

Pouco antes de falecer, quando estava de cama e muito doente, a sua irmã - Madre Inês - entrou no seu quarto e lhe perguntou: "Em que está pensando?". "Não penso em nada, não posso; sofro demais, então rezo". "E o que diz a Jesus?". Teresa respondeu: "Nada lhe digo, amo-O".

 

Conclui o autor: "Esta é a oração mais pobre, mas a mais profunda: um simples ato de amor, para além de todas as palavras, de todos os pensamentos. Devemos tender a essa simplicidade. A nossa oração não deveria ser senão isto... sem a sucessão de atos distintos, um só ato simples de amor" (p. 51).

 

Em conclusão: O livro de Jacques Philippe é fecundo em inspirações para alimentar uma autêntica vida de oração.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Sobre "lectio divina" ver PR 464/2001, pp. 26s.


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