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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 346 – março 1991

Livros em Estante

 

A Fé nossa de cada Dia, por J. Alves. Coleção "Celebração da Fé" n° 3. - Ed. Paulinas, São Paulo 1985 (2a edição), 130 x 200 mm, 260 pp.

O livro traz o subtítulo "Explicação do Credo em Linguagem Popular",^ percorre os artigos do Credo com comentários de ordem ética ou sociopolítica, mais do que de ordem doutrinária. A mensagem cristã é considerada como escola de transformação social, havendo alusões frequentes a opressão, fome, miséria, injustiças, patrão, operário, dinheiro, exploração, ganância. . . A doutrina da fé é muito superficialmente proposta. Verificam-se mesmo omissões graves, relativas a artigos de fé, como o pecado original, a Missa, o sacramento da Penitência, o purgatório póstumo. A infalibilidade do magistério do Papa é relativizada ou negada à p. 214. Em relação à Igreja, também se registra relativismo à p. 230. O autor cai em contradição no tocante à salvação eterna: à p. 253 diz que "todos os homens (a humanidade) e todo homem (cada pessoa) verão a face do Senhor Deus", mas às pp. 254-256 fala do inferno como real antítese do céu.

 

A linguagem do livro procura exemplos na vida cotidiana, chegando às vezes à banalização, como acontece quando quer explicar o juízo final (pp. 182-186). O subtítulo "Explicação do Credo em Linguagem Popular" é ambíguo e capcioso: o leitor tem, à primeira vista, a impressão de que encontrará a autêntica mensagem cristã em linguagem clara e fácil; na verdade, porém, "linguagem popular" no caso significa "linguagem de incitamento do povo para que tome posição política".

 

Embora o livro seja apresentado "Com aprovação eclesiástica", não corresponde, de modo nenhum, à doutrina da Igreja, seja porque a mutila (cortando-lhe pontos muito importantes), seja porque os tópicos escolhidos são explanados de maneira muito superficial e não raro distorcida.

 

É de notar que o "Jornal de Opinião" vem transcrevendo em suas edições páginas deste livro; transmite assim uma imagem desfigurada do Credo católico — o que não se entende da parte de um periódico que é tido como órgão patrocinado pelo episcopado do Brasil.

 

 

O Evangelho de Mateus, por José Comblin, Paulo Lockmann, Sandro Gallazi, Carlos Mesters, Ana Flora Anderson, Gilberto Gorgulho. Coleção "Estudos Bíblicos" n° 26 - Ed. Vozes, Imprensa Metodista e Editora Sinodal, Petrópolis 1990, 160 x 210 mm, 72 pp.

 

Este comentário de Mateus, como os demais livros da Coleção, deve-se à colaboração de católicos e protestantes. Além do quê a Editora Vozes, a Imprensa Metodista e a Editora Sinodal (Luterana) são responsáveis pela impressão e distribuição dos volumes. A mentalidade que inspira os autores de cada fascículo, é a da Teologia da Libertação, ora mais, ora menos patente em cada artigo.

 

A colaboração de Carlos Mesters no fascículo que analisamos, é a mais significativa das tendências da obra. Lê o Evangelho "a partir do povo latino-americano explorado e oprimido" (cf. p. 61}, e não a partir do Espírito Santo, que inspirou o Evangelho; nenhuma referência faz à Tradição e ao magistério da Igreja. Em consequência, a interpretação do texto sagrado é desviada ou deturpada; tenha-se em vista, por exemplo, a p. 65, em que Mesters comenta a petição do Pai Nosso: "Perdoai-nos as nossas dívidas" (Mt 6,12): Mesters entende o vocábulo grego opheilémata no sentido material e chega a pensar no perdão da dívida externa que os países pobres deveriam receber dos países ricos! Na verdade, opheilémata em Mt 6,12há de ser entendido no sentido de Lc 11,4, onde se lê: "Perdoai-nos as nossas ofensas, hamartíai. . ." O Senhor Jesus tem em mira os pecados (ofensas contra Deus), dos quais devemos esperar o perdão na medida em que soubermos dar o perdão aos nossos ofensores. Ora passar do plano transcendental e definitivo para o material e contingente, como aqui ocorre, é realmente desfigurar o Evangelho. - Este é um, entre outros exemplos, de como a exegese dos autores do fascículo é capaz de desviar o sentido do texto sagrado.

 

À p. 63, é condenado o mérito, quando na verdade é impossível ao cristão prescindir do valor ou do mérito das boas obras. Cf. Mt 5,12: "Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus". Ver também Mt 6,20: "Juntai para vós tesouros nos céus".

 

À p. 64, é rejeitado o juramento na base de Mt 5,34-37, quando na verdade a própria Escritura apresenta exemplos de juramentos legítimos e santos:Mt 26, 63s;2Cor 1,23; Fl 1,8.

Em suma, o volume em foco não é cartilha para se penetrar no autêntico sentido do Evangelho de São Mateus.

 

 

Ancestrais, Vida Intrauterina e Libertação do Homem, por Maria Luiza Zanchetta. Ed. Berthier, Passo Fundo 1987, 155x220 mm, 245pp.

 

A autora é psicanalista e julga que muitas deficiências do comportamento humano têm sua origem em fatos ocorridos durante a vida intrauterina do indivíduo ou mesmo em ocorrências registradas na vida dos genitores, dos avôs ou dos bisavós dessa pessoa. Em consequência, a psicanálise e a regressão em idade fariam o paciente tomar consciência desses traumas dos ancestrais e o libertariam das respectivas falhas de conduta. Cada qual é "o seu mundo biopsicosmoespiritual, e também o mundo biopsicosmoespiritual dos seus ancestrais próximos e remotos" (p. 5). "A biopsicosmoespiritogênese individual e coletiva está viva e atuando nas pessoas de hoje" (p. 207).

 

O aspecto psicanalítico do livro seja discutido pelos especialistas dessa área. O que nos importa, é a filosofia adotada pela autora e subjacente aos capítulos da Parte II do livro (pp. 195-245). Não raro os livros que realçam a eficácia dos tratamentos e treinamentos da mente, supõem uma antropologia panteísta; mesmo autores que se dizem católicos e falam de Jesus Cristo e do Evangelho usam um linguajar panteísta (do qual tal vez não tenham consciência clara por falta de formação filosófica). Assim à p. 211 lê-se: "A Inteligência Infinita que existe no seu interior é infalível". Â p. 243: "A Mente de Cristo na minha mente já me impermeabilizou contra o mal". Do cérebro procedem "ondas mentais ou levam à execução do que se pensa" (p. 244). Do cérebro procedem "vibrações malignas que querem estragar toda a vida" (p. 225). Tem-se a impressão de que todas as nossas expressões psíquicas se fazem por meio de ondas e vibrações, ora benéficas, ora maléficas; o próprio Deus parece agir por meio de vibrações que dele procedem: "Tendo consciência das forças maléficas, poder-se-á destruí-las pela Força e pelo Poder de Deus, ... a Energia viva e presente no homem e no universo. Quanto mais nos tornamos seres espirituais, tanto mais estamos envoltos pela áurea luminosa do Espírito de Cristo, que nos protege e liberta de todo mal. . . É ele que nos capacita para. . . destruir as influências negativas oriundas do mal" (p. 234).

 

A autora professa a tricotomia "espírito, alma e corpo" (cf. pp. 209. 231); na verdade, espírito e alma coincidem no homem, pois a alma humana é espiritual. O Ser humano consta de corpo (material) e alma (espiritual).

 

O livro de Maria Luiza Zanchetta é, pois, eclético e confuso, do ponto de vista filosófico-teológico; tende a fazer da vida espiritual do homem (e do próprio Deus) um jogo de ondas e vibrações semelhantes às que a Física estuda. Ora isto é contraditório e aberrante. Possam as técnicas terapêuticas indicadas pela autora ter mais valor do que a sua filosofia!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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