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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 374/julho 1993

Reflexões

Onde fica a

COMUNIDADE IDEAL?

Em síntese: O presente artigo tem por centro uma página do escritor luterano Dietrich Bonhoeffer, que morreu em 1944 num campo de concentração. Este autor faz ponderações inspiradas por fé profunda a respeito de comunidades cristãs e, em particular, a respeito da Igreja. Embora o conceito luterano de Igreja não seja equivalente ao católico, o que está dito por Bonhoeffer é plenamente válido: a comunidade da Igreja é divino-humana; Deus vem aos homens mediante os homens. Quem sonha com uma comunidade angelical ou destituída de criaturas frágeis, sujeitas ao pecado, ilude-se e foge do plano de Deus; viverá numa utopia, que Deus não quer. O autor insiste muito na necessidade de se dissiparem tais sonhos, em favor de uma adesão firme e fiel ao dom de Deus, que é a continuação do mistério da Encarnação ou do Deus velado pela face do homem.

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É normal que, ao ingressar em alguma comunidade religiosa, todo cristão deseje ver encarnada a realização de seu ideal ou uma comunidade perfeita. Na verdade, porém, toda comunidade existente na vida presente ainda está a caminho da perfeição; inclui muitos elementos de grande valor ou pessoas altamente respeitáveis, mas compreende também membros marcados pelas limitações humanas e deficientes. Isto não surpreende, dado que o próprio Apóstolo São Paulo exclamava: "Realmente não consigo entender o que faço, pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto... O querer o bem está ao meu alcance, não, porém, o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas cometo o mal que não quero" (Rm 7,15-19).

A fraqueza humana acompanha sempre a caminhada de todos neste mundo. Daí a necessidade de que o cristão, ao mesmo tempo que sustenta seu ideal e peleja para o atingir, esteja munido de fé viva, a fim de não fugir da via certa. Diz o mesmo Apóstolo três vezes: "O justo vive da fé" (Rm 1, 17; Gl 3, 11; Hb 10, 38, referindo-se sempre a Hab 2, 4).

A exigência de fé, para quem ingressa numa comunidade religiosa ou nela vive,([1]) é proposta por autores católicos e também por Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano morto em campo de concentração em 1944. Este autor escreveu a respeito palavras lúcidas e fortes, que passamos a traduzir, cientes de que tal depoimento tem grande peso:

"Querer mais do que aquilo que Cristo estabeleceu entre nós, não é desejar uma fraternidade cristã; é, antes, ir à procura de não sei quais experiências comunitárias inéditas, que pensamos encontrar na Igreja, porque não as encontramos alhures; é introduzir na comunidade cristã o turbulento fermento dos nossos desejos. É aqui que a fraternidade dos fiéis corre os mais graves perigos. E isto, na maioria dos casos, desde os primeiros dias: a intoxicação por dentro, provocada pela confusão entre fraternidade cristã e um sonho de comunidade piedosa,... pela mistura de nostalgia comunitária que todo homem religioso traz dentro de si, com a realidade de índole espiritual que a fraternidade em Cristo implica. Ora é da máxima importância tomar consciência, desde o início, de que a fraternidade cristã não é um ideal humano, mas uma realidade dada por Deus, e... de que esta realidade é de índole espiritual, e não de índole psíquica.([2])

São incontáveis as comunidades cristãs que pereceram por terem vivido de uma imagem quimérica da Igreja. Por certo, é inevitável que um cristão sério, ao entrar numa vida de comunidade, leve consigo um ideal preciso do que ela deve ser, e tente realizá-lo. Mas é graça de Deus que esse tipo de sonhos seja sempre dissipado. Para que Deus nos possa dar a conhecer a comunidade cristã autêntica, é preciso mesmo que sejamos decepcionados, decepcionados pelos outros e decepcionados por nós mesmos. Em sua graça, Deus não nos permite viver, ainda que por poucas semanas apenas, na Igreja dos nossos sonhos, nessa atmosfera de experiências benfazejas e de exaltação piedosa, que nos embriaga. Pois Deus não é um Deus de emoções sentimentais, mas um Deus de verdade. Eis por que somente a comunidade que não receia a decepção que inevitavelmente ela experimentará tomando consciência de todas as suas taras, poderá começar a ser tal como Deus a quer e alcançar pela fé a promessa que lhe é feita. Mais vale para o conjunto dos fiéis, e para o fiel em particular, que essa decepção se realize quanto antes. Querer a todo preço evitá-la e pretender agarrar-se a uma imagem quimérica da Igreja, destinada, sem dúvida, a se 'desinchar', é construir sobre areia e condenar-se, cedo ou tarde, a desfalecer.

Devemos persuadir-nos bem de que, transferidos para dentro da comunidade cristã, nossos sonhos de comunhão humana, quaisquer que sejam, são um perigo público e devem ser dissipados sob pena de morte para a Igreja. Aquele que prefere o seu sonho à realidade, torna-se um sa-botador da comunidade, ainda que suas intenções sejam, segundo ele, perfeitamente respeitáveis e sinceras.

Deus odeia o sonho piedoso, pois este faz de nós seres duros e pretensiosos. Leva-nos a exigir o impossível de Deus, dos outros e de nós mesmos. Em nome do nosso sonho, colocamos condições à Igreja e erguemo-nos em juízes de nossos irmãos e do próprio Deus. Nossa presença torna-se para todos como que uma censura permanente. Assemelhamo-nos a pessoas que pensam que poderão finalmente fundar uma autêntica comunidade cristã e exigem que cada qual compartilhe a imagem que elas concebem. E, quando as coisas não vão como quiséramos, ameaçamos recusar nossa colaboração, prestes a proclamar que a Igreja desmorona quando vemos nosso sonho dissipar-se. Começamos a acusar nossos irmãos; depois acusamos a Deus e, a seguir, em desespero de causa, é contra nós mesmos que se volta a nossa amargura. As coisas são muito diferentes quando nós compreendemos que Deus mesmo já colocou o único fundamento sobre o qual se pode estabelecer a nossa comunidade e que, antes de qualquer iniciativa da nossa parte. Ele nos uniu num só corpo ao conjunto dos fiéis por Jesus Cristo; pois então aceitamos unir-nos a eles, já não com as nossas exigências, mas com corações gratos e dispostos a receber" (De la Vie Communautaire, pp. 21-23, extraído do livro de Pierre Miquel: La Voie Monastique. Bellefontaine 1986, pp. 53-55).

 

COMENTÁRIO

1) As palavras do autor lembram, em última análise, que a Igreja não é uma sociedade meramente humana, mas um sacramento, um dom de Deus revestido de humanidade. Daí a necessidade de não se julgar a Igreja segundo critérios meramente naturais. Assim como o Filho de Deus, em sua Encarnação, realizou obras admiráveis, mas também escandalizou, porque nem sempre correspondia à expectativa dos homens piedosos de seu tempo (cf. Mc 2, 15-3, 6; Mt 27, 42s; Lc 7, 22s), também a Igreja tem em seu favor façanhas em prol da evangelização e da cultura, mas carrega os traços da realidade humana que a integra. Bonhoeffer admoesta: "Querer mais do que aquilo que o Cristo estabaleceu entre nós não é desejar uma fraternidade cristã, mas ir à procura de..."

Os cristãos sempre foram tentados a imaginar uma Igreja de Santos apenas, com exclusão dos pecadores; tal foi o caso de Tertuliano (+ 220 aproximadamente), dos donatistas (séculos IV-V) no Norte da África, e de outros muitos, que acabaram caindo na heresia e no cisma. S. Agostinho lhes lembrava a parábola do joio e do trigo (cf. Mt 13, 24-30. 36-43): os servidores do patrão do campo querem arrancar o joio logo que aparece no campo, mas o patrão lhes responde que não o façam; o joio deve crescer juntamente com o trigo até o fim dos tempos; somente então serão separados o joio e o trigo; a presença do joio pode ser salutar, de modo que querer arrancá-lo prematuramente pode implicar dano para o trigo...

2)   Por isto Bonhoeffer julga que é oportuno que o Senhor se encarregue de dissipar qualquer ilusão subjetiva dos seus fiéis e os eduque na fé para que possam apreender melhor o dom de Deus. "Deus não é um Deus de emoções sentimentais, mas um Deus de verdade". Sim; a fé nem sempre coincide com os sentimentos espontâneos e imaturos da pessoa. Os autores místicos falam freqüentemente da noite dos sentidos e da noite da fé; felizes aqueles que sabem atravessar a noite, certos de que após a noite vêm o dia e a plena luz!

3)   Quem não aceita o dom de Deus encarnado, mas o quer "a seu modo subjetivo", pode tomar-se um "sabotador" da comunidade, uma pessoa permanentemente crítica, infeliz e portadora de mal-estar para as outras. Chega a criticar o próprio Deus e em lugar algum encontra repouso. Ao contrário, quem, movido pela fé, diz Sim ao dom de Deus, sabe estar unido a todos os fiéis no Corpo de Cristo prolongado, onde certamente o Senhor lhe faz chegar as suas graças. Para tanto, requer-se também humildade,... humildade que não é acovardamento nem capitulação, mas é a única atitude digna da criatura diante da grandeza de Deus, que a quer enriquecer.

4)   O que estas reflexões sugerem, não é um conformismo medíocre, "achatado", mas é o reconhecimento do desígnio de Deus, que quer vir a nós de maneira soberana e ser reconhecido pela fé. Esta visão de fé tranqüila é plenamente compatível com a demanda da utopia que o Sermão da Montanha (Mt 5-7) recomenda aos discípulos de Cristo. Estes são incitados a procurar ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito (cf. Mt 5, 48); incitados a se ultrapassar constantemente na procura da santidade, devem saber oportunamente dar a face esquerda a quem os esbofeteia na direita, a veste a quem deseje levar a túnica, caminhar duas milhas a quem os obrigar a andar uma milha (cf. Mt 5, 39-42). Isto quer dizer que os verdadeiros discípulos de Cristo nunca se dão por satisfeitos na procura da perfeição pessoal ou na obra de sua santificação, mas vivem da fé, sem perceber o fruto de seus esforços, crendo que a fidelidade lhes valerá a coroa da vida eterna, prometida pelo Senhor aos servidores bons e perseverantes.

Estêvão Bettencourt O.S.B.



[1] Essa comunidade pode ser a própria Igreja como tal; pode também ser uma instituição de vida religiosa existente dentro da Igreja.

[2] O autor aqui alude à distinção, feita por São Paulo, entre o homem psíquico (psychikós) e o espiritual (pneumatikós);cf. 1Cor2,14s. Psíquico é aquele que se orienta unicamente por princípios e normas de índole natural, racional, meramente humana. Ao contrário, pneumatikós é aquele que tem em si o Espírito (pneuma) de Deus e é por Ele orientado segundo critérios de fé e de índole transcendental.


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