REVISTA PeR (3087)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 374/julho 1993

O Que É?

Zelo Pastoral e Equilíbrio:

 

"O QUE É PRECISO SABER SOBRE A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA"

por D. Antônio Afonso de Miranda

 

Em síntese: O Sr. Bispo de Taubaté publicou um livro simpático à Renovação Carismática, no qual expõe os frutos positivos que tem produzido, como também os desvios e exageros a que está sujeita. Fala com franqueza do perigo de se confundirem estados emocionais com dons do Espírito Santo. É preciso que haja, da parte dos Bispos e sacerdotes, assistência mais assídua aos grupos de oração a fim de que, evitando falhas doutrinárias e morais, possam continuar a ser núcleos de uma Igreja viva, voltada para o Transcendental e o serviço aos irmãos, ponto de atração de fiéis afastados e tíbios, e foco de afervoramento dos mais piedosos.

-=-=-

 

O Sr. Bispo de Taubaté, D. Antônio Afonso de Miranda, acaba de publicar um pequeno livro sobre a Renovação Carismática, seus frutos e desvios.([1]) É opúsculo equilibrado, que com estima considera a Renovação Carismática e aponta resultados valiosos como também falhas que podem prejudicar o seu futuro. É, pois, o zelo pastoral e o desejo de preservara Renovação Carismática que inspira o autor. Visto que se trata de explanações muito judiciosas, publicaremos abaixo uma síntese das principais páginas da obra em foco.

 

 

1. OS PORQUÊS DO QUESTIONAMENTO

 

São variadas as denominações que o fenômeno carismático tem recebido: Renovação Carismática Católica, Experiência do Espírito Santo, Oração Carismática, Renovação Espiritual Católica Carismática, Renovação no Espírito Santo...

 

Logo de início é preciso distinguir a Renovação Carismática dentro da Igreja Católica e a Renovação Carismática Pentecostal ou Protestante. Esta última professa os princípios doutrinários do protestantismo (aversão a Maria SS., recusa do primado de Pedro, rejeição do sacramento da Eucaristia... ), de modo que a confusão entre o movimento católico e o protestante gera polêmicas e ansiedades nos meios católicos. Parece que alguns grupos católicos se deixaram influenciar pelo Pentecostalismo protestante, entregando-se a exageros ou desvios doutrinários. Por outra parte, crentes pentecostais foram aceitos em grupos católicos de oração, e levaram para estes certas interpretações da Bíblia não condizentes com o ensino da Igreja Católica: assim alguns carismáticos católicos puseram-se a combater o culto à Virgem Santíssima e aos Santos; começaram a professar uma "Igreja Carismática" teologicamente diluída, insensível ao Magistério. O Batismo no Espírito Santo foi excessivamente valorizado, como se desse origem a uma classe privilegiada de cristãos, portadores de carismas únicos dons de línguas e de curas; assim se constituiria a verdadeira Igreja, cujo único Mestre seria o Espírito Santo, propulsor direto e íntimo de cada cristão. A meditação da Palavra de Deus e a oração cederiam, em grande parte, à euforia de louvores, aleluias, "Viva Jesus".

 

Tais proposições são heréticas.

 

Não há dúvida de que a Igreja de Cristo é, por sua natureza mesma, carismática ou vivificada por carismas (dons) do Espírito Santo. Em todos os tempos nela brilharam os carismas da oração intensa, da caridade operante, do zelo apostólico, da contemplação mística, como também, em alguns Santos, os dons de milagres, de curas e de profecia. Sobretudo a Igreja teve sempre os carismas essenciais do sacerdócio, da vida consagrada, do Magistério pontifício e episcopal, a atividade exuberante de teólogos e doutores e a multiforme atuação dos leigos.

Disto se segue que a Renovação Carismática ou a Oração Carismática não é estranha nem esdrúxula na Igreja. Pode e deve ser aceita dentro de uma linha pastoral bem orientada.

 

O Documento de Puebla assim se expressou:

 

"Os carismas nunca estiveram ausentes da Igreja. Paulo VI expressou sua complacência para com a Renovação espiritual que aparece nos meios e lugares mais diversos e que leva à oração de alegria, à união íntima com Deus, à fidelidade ao Senhor e a uma profunda comunhão de almas. Do mesmo modo procederam várias Conferências Episcopais. Contudo esta Renovação exige dos pastores bom senso, orientação e discernimento, para que se evitem exageros e desvios perigosos" (no 207).

 

2. OS FRUTOS DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA

 

A Renovação Carismática tem dado frutos excelentes, que podem correr o perigo de deterioração por falta de assistência. Ei-los:

1)  A consciência cada vez mais viva da presença e da ação do Espírito Santo na Igreja e no coração de cada fiel.

Ter consciência da ação do Espírito e saboreá-la é fundamental na Igreja. A profundeza do mistério da Igreja está aqui. Quando o cristão permite que o Espírito nele desenvolva sua vida, a Igreja toma novo sentido no fiel; Ela nasce de fato em seu coração.

É neste sentido que se pode falar de "batismo no Espírito Santo", expressão muito usual nos meios carismáticos. Sem dúvida, todo cristão foi batizado no Espírito, quando recebeu o sacramento do Batismo na infância. Mas poucos fiéis tomam consciência da vida nova que o Batismo lhes trouxe. Os encontros da Renovação Carismática têm conseguido despertar esta consciência, constituindo-se como verdadeiro "Batismo no Espírito" para os conscientizados.

Fora desta interpretação, o "Batismo no Espírito Santo" é algo de ambíguo, sujeito a mal-entendidos e a erros doutrinários.

2)  Como fruto dessa consciência, tem-se avivado nos fiéis o gosto pela oração no e pelo Espírito Santo.

Na realidade observa-se que a oração dos grupos carismáticos aparece em proporções e modalidades menos usuais em outros grupos: assim a oração de louvor, não simplesmente de pedidos; a oração espontânea, não a partir de fórmulas escritas, a oração pessoal e comunitária; a oração alegre, que se prolonga por horas, e não afasta, mas atrai grande número de. pessoas.

João Paulo II verifica o fato na sua Encíclica Dominum et Vivifi-cantem:

'"Nestes últimos anos vai crescendo também o número de pessoas que, em movimentos e grupos cada vez mais desenvolvidos, põem a oração em primeiro lugar e nela procuram a renovação da vida espiritual" (no 65).

3)    Os grupos de oração têm oferecido aos que estão afastados da Igreja a oportunidade de um reencontro com Deus mediante o exercício da prece e a vivência da fraternidade. Os grupos de oração apresentam aos que estão longe e impressionados pelo secularismo de nossos dias, uma face da Igreja voltada para o Transcendental e para a procura da intimidade com Deus — valores estes que em muitos lugares têm sido sufocados pela preocupação com problemas de ordem material.

4)    Registra-se outrossim renovado amor pela Palavra de Deus consignada na Bíblia. Os fiéis passam a ler as Escrituras com freqüência e mesmo a saboreá-la, cientes de que é palavra consignada pelo Espírito Santo. O Concílio do Vaticano II lembrou a todos os fiéis que a leitura das Divinas Escrituras há de ser assídua e acompanhada de oração, a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e o homem (Constituição Dei Verbum no 25).

5)    As pessoas mais conscientizadas pela Renovação Carismática têm mostrado grande disponibilidade para o apostolado. A catequese, a pastoral dos enfermos e a dos encarcerados têm-se dinamizado com a participação de agentes muito dedicados.

6)    Dos grupos de oração têm provindo não poucas vocações ao sacerdócio e à Vida Religiosa. Também se têm fortalecido os grupos de jovens, perseverando na sua dedicação à Igreja e à vida sacramental, quando preparados pela Renovação Carismática.

Outros vários benefícios se poderiam apontar como frutos dos grupos de oração. Já estes granjeiam, da parte dos observadores sinceros, grande estima para a Renovação Carismática. — Todavia não se pode deixar de levar em conta certos desvios; conscientes destes, os fiéis os evitarão muito decididamente.

 

 

3. DESVIOS E EQUÍVOCOS

 

Os desvios e equívocos no Movimento Carismático são explicáveis e naturais. Resultam do fato de que a graça de Deus é recebida dentro de moldes humanos, que podem, às vezes, dificultar a ação do Espírito. A graça não modifica imediatamente as tendências da natureza. Por isto, com razão observou o Cardeal Joseph Ratzinger: "Como toda realidade humana, também a Renovação Carismática fica exposta a equívocos, a mal-entendidos e exageros. Mas seria nocivo considerar apenas os perigos e não o dom que nos é oferecido pelo Espírito Santo" (citado em A Renovação Espiritual Católica Carismática. Ed. Loyola, p. 31).

Quais seriam esses exageros e desvios?

1)    O mais grave é o fato de que alguns participantes acreditam, talvez inconscientemente, que, movidos pelo Espírito Santo, têm todo o conhecimento necessário e aprofundado da fé. Às vezes, alguns presumem ser as únicas pessoas que receberam o Espírito Santo de modo a formar um grupo elitista dentro da Igreja.

2)    Em conseqüência, não poucos dispensam o estudo da doutrina; outros crêem que encontram todo o saber religioso nos textos sagrados lidos de modo subjetivo; por isto também há os que euforicamente se julgam habilitados a falar amplamente sobre Teologia. Assim o "dom da profecia" é exercido com desvios doutrinários, que podem ser funestos à comunidade.

O Papa João Paulo II, na sua Exortação sobre Catequese Hoje, falando de grupos de oração como focos importantes de catequese, chamava a atenção dos respectivos dirigentes: "Nunca permitais, custe o que custar, que a esses grupos falte um estudo sério da doutrina cristã. Sem isto, eles correriam o risco e tal perigo infelizmente tem-se verificado muitas vezes de decepcionar a própria Igreja" (no 47).

 

3)  O desvio fundamental que eiva a presumir saber muito, suscita outras graves conseqüências, apontadas pelos Bispos latino-americanos reunidos em La Ceja (Colômbia) em setembro de 1987:

 

"Concentrar-se unicamente em determinados carismas, não valorizar devidamente a riqueza sacramental, interpretar as Sagradas Escrituras segundo um critério fundamentalista,([2]) que, em algumas ocasiões, desconhece o devido entendimento dado pelo Magistério hierárquico, menosprezar a verdadeira devoção mariana e aceitar critérios e afirmações protestantes equivocados" (citado em A Renovação Espiritual Católica Carismática, p. 33).

 

Está claro que estas falhas não são generalizadas, mas ocorreram, e podem ocorrer aqui e ali.

4)  O critério fundamentalista suscita outros desvios: a crença na possessão diabólica como algo de freqüente — o que provoca o desejo de aplicar o carisma do exorcismo em qualquer situação problemática; os outros carismas, como o de curas (com imposição das mãos) e o de línguas, são também ocorrentes com freqüência que parece mais doentia do que oportuna. Verdade é que os adeptos de dons extraordinários em profusão se baseiam no texto de Mc 16,17, em que Jesus promete:

"Os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem, são estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; se pegarem serpentes ou beberem algum veneno, não sofrerão nenhum mal; quando colocarem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados".

Este texto não deve ser interpretado como fundamento para a generalização de prodígios; exprime somente a promessa feita aos primeiros evangelizadores nos meios pagãos e arautos da Divindade de Jesus Cristo. Sabemos que no decorrer da história da evangelização, através dos séculos, tais milagres nunca foram necessários sinais de Deus para autenticar o trabalho de seus missionários.

5)    Acontece também que em alguns encontros carismáticos são acolhidos crentes pentecostais e pessoas de psiquismo doentio. Estas últimas, movidas por emoções súbitas, tomam não raro a atitude de indivíduos possuídos por espíritos malignos e manifestam histeria ou sintomas mórbidos. O dom das línguas é então confundido com o falar confuso de quem está sob o impacto de emoções. Quanto aos crentes, influenciam os irmãos na interpretação subjetiva de textos bíblicos e na recusa do Magistério eclesiástico, o que leva alguns católicos a falsa noção de ecumenismo ou até ao abandono da Igreja.

6)  Os Bispos da Província Eclesiástica de Aparecida arrolaram ainda outros desvios:

 

"Muitas pessoas buscam na Renovação Carismática uma experiência exagerada de Deus e de seus dons. Há os que se angustiam e desesperam por não conseguirem os carismas que almejam com sofreguidão. Sentem-se inferiorizados diante da ausência dos sinais que aguardam, diante do silêncio de Deus... Convém saber que os dons de Deus, os carismas se destinam, antes de tudo, ao bem comum da comunidade, e Ele os distribui quando, como, onde e a quem quiser. Ninguém presuma obter os dons de Deus em proveito próprio e como se fossem uma conquista. Este ponto deve ficar bem esclarecido" (Renovação Carismática. Orientações e Normas Pastorais dos Bispos da Província Eclesiástica de Aparecida, pp. 7s).

Destes fatos negativos depreende-se a necessidade de que a Igreja acompanhe com carinho e interesse os grupos de oração. Sentem-se, por vezes, desassistidos. Não se corrigem os erros pelo abandono dos que erram. Os sacerdotes e pastores de almas têm aí fecundo campo de atividades.

 

Passemos agora a outro aspecto da questão.

 

 

4. O RAZOÁVEL E O DOENTIO

 

Já foi dito que a graça de Deus não dispensa o respectivo fundamento humano ou psíquico. Aliás, toda atividade humana é impregnada do psiquismo, de emoções que impressionam, mais ou menos fortemente, a pessoa. Ocorre, portanto, que na Renovação Carismática pessoas bem intencionadas, se têm índole fortemente emotiva, podem impressionar-se e chegar a crer que proceda do Espírito Santo o que é produto das próprias emoções ou imaginações. Há então falta de discernimento e passa-se do razoável para o doentio. Este perigo não é de hoje. Em muitas épocas da Igreja existiram "visionários", de modo que o Magistério da Igreja sempre se mostrou cauteloso frente a muitas "aparições" e "visões" de Cristo ou dos Santos. Poucas aparições, como as do S. Coração de Jesus em Paray-Le-Monial a S. Margarida-Maria Alacoque, as de Nossa Senhora em Lourdes e em Fátima... são aceitas pela Igreja não como revelações a que se deva um ato de fé, mas como manifestações que nada têm de suspeito, de doentio, sendo os "videntes" pessoas honestas e merecedoras de crédito; o conteúdo das "revelações" foi tido como ortodoxo ou condizente com a fé cristã. Fica a critério de cada fiel aceitar ou não tais fenômenos extraordinários; a Igreja reconhece a validade do culto a Nossa Senhora aparecida em Lourdes, em Fátima..., mas não o impõe.

 

As ilusões a respeito de fenômenos extraordinários, como, por exemplo, certos carismas do Espírito Santo, podem acontecer com facilidade, especialmente em pessoas que tenham uma certa propensão para superestimar esses fenômenos; aguardam-nos sofregamente, a ponto de imaginar que os receberam, quando na verdade apenas manifestam sintomas de sua ansiedade e expectativa.

 

Como discernir até onde vai o autêntico fenômeno carismático e onde começa o doentio?

 

Via de regra, quando as pessoas proclamam fenômenos milagrosos em massa e com enorme freqüência, pode-se supor que aí há ilusão. Os milagres são fatos extraordinários; não são acontecimentos em série, aos quais todos possam ou devam aspirar. Por isto não devem ser tidos como fenômenos carismáticos as curas de tudo quanto é "doença" em favor de todas as pessoas que as pedem, até por telefone... Isto é irrazoável. Quem julga ser o intermediário de tais milagres, ainda que os atribua a Jesus, acha-se em condições de exaltação doentia.

Exemplo muito significativo é citado por D. Antonio Afonso de Miranda:

"Certa vez uma senhora do Movimento Carismático Católico veio dizer-me que já havia realizado mais de mil casos de cura de câncer. Não consegui, por mais que me esforçasse, demovê-la de tal convicção. Fácil concluir que essa senhora era vítima de um processo psíquico doentio.

Para se ver até onde podem ir as ilusões emocionais, registro mais um caso. Uma mulher, declarada cancerosa pelos médicos foi levada a um grupo de oração. Impuseram-lhe as mãos, fizeram 'oração de cura', como costumam dizer. Ela sentiu alívio considerável, certamente sob o impulso de sugestão. Uma semana depois, diziam-me os componentes do grupo (entre eles um médico): 'Ela está radicalmente curada... Desapareceu completamente o câncer'.

Cerca de vinte dias depois, quando me encontrei com seu marido, ele me disse: 'Aceito a vontade de Deus. Ela foi sepultada ontem'.

Julgo que se equiparem a este tipo de ilusão os casos em que todo um imenso auditório se põe, debaixo de insinuante exortação de um coordenador, a 'orar em línguas', num como explodir de algaravia.

Não é isto razoável. Creio tratar-se, no caso, apenas de um fenômeno de psicologia de massa" (ob. c/f., p. 25).

Não se podem negar os dons de cura e de glossolalia mencionados no Novo Testamento (cf. At 2, 4.6; 1Cor 12, 10; 14,2.30). Foram muito freqüentes no início do Cristianismo a fim de despertar a fé nos gentios (cf. 1Cor 14, 22), mas não são fenômenos generalizados em toda a história da Igreja. Com o decorrer do tempo, foram rareando; Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz no século XVI não os mencionam. Em nossos dias o Espírito Santo pode suscitar os mesmos dons onde e como lhe apraza. Mas é preciso que os fiéis se acautelem contra as ilusões e os distúrbios psíquicos. O próprio São Paulo já advertia os coríntios: "Se numa assembléia da Igreja inteira todos falarem línguas, e se entrarem homens simples ou infiéis, não dirão que estais loucos?" (1Cor 14, 23).

 

Diga-se ainda breve palavra sobre

 

5. OS CARISMAS

 

O carisma pode ser tido como um dom gratuito de Deus ordenado à edificação da comunidade cristã. O Concílio do Vaticano II menciona os carismas sem referir os aspectos extraordinários dos mesmos; reconhece que são "multiformes os carismas dos leigos, dos modestos aos mais elevados, e os presbíteros devem descobri-los com senso de fé e incentivá-los com entusiasmo" (Presbyterorum Ordinis no 9).

 

Alguns carismas são essenciais e imprescindíveis à estrutura da Igreja. Outros são extraordinários, conferidos a alguns de seus membros. Procuremos enumerar uns e outros.

 

5.1. Dons essenciais à vida da Igreja

 

São dons sem os quais a Igreja não poderia subsistir; não poderia continuar a obra salvadora de Cristo na qualidade de "sacramento do mundo".

 

Desses dons essenciais, alguns são dados globalmente a todos os fiéis, e outros são concedidos especialmente a alguns indivíduos.

 

5.1.1. Dons concedidos globalmente a todos os fiéis

1)    O senso da fé, sensus fidei; são como que antenas para identificar e captar as verdades da fé;

2)    o dom da graça: participação da vida trinitaria, comunhão íntima com o próprio Deus;

3)    o sacerdócio comum, pelo qual todos podem cultuar a Deus e oferecer-lhe as suas dádivas;

4)    a função profética e régia, pela qual todo cristão pode anunciar Cristo (dom profético) e colaborar com Cristo na construção do Reino de Deus (dom régio);

5)    a caridade (ágape), o mais sublime dos carismas, como incute São Paulo (1Cor 13, 13).

 

Esses dons derivam-se do Batismo e da Crisma e, por isto, são essenciais a todos os fiéis.

 

5.1.2. Carismas essenciais concedidos a alguns fiéis

 

Em virtude de vocação especial, o Espírito Santo confere, por via sacramental, três dons ou carismas também essenciais e indispensáveis à Igreja:

1)    o Episcopado, que encerra a plenitude dos dons do Espírito em vista da santificação, para ser distribuídos gradualmente na Igreja;

2)    o Presbiterato ou sacerdócio específico, que é uma participação maior no carisma santificador dado em plenitude aos Bispos;

 

3)  o Diaconato, participação menor no carisma santificador.

 

Esses três carismas são inerentes a uma consagração definitiva de homens a serviço do povo, para manter nele a santidade e os carismas essenciais a todos os batizados.

4)  Pode-se acrescentar o carisma da consagração religiosa sob o tríplice voto de pobreza, castidade e obediência. É sinal sublime de santidade e serviço sob a ação do Senhor, que a Igreja sempre teve em privilegiada consideração.

 

5.2. Carismas extraordinários concedidos a alguns fiéis

Além dos carismas essenciais até aqui mencionados, o Espírito pode dar, e dá, esporadicamente a alguns membros da Igreja dons extraordinários, que se destinam a edificar os fiéis e converter os infiéis. Eis os principais:

1)    O dom dos milagres. É raramente concedido. Narra-se, porém, que o tiveram S. Antônio de Pádua, S. João Bosco, S. Bento de Núrsia... Inclui-se sob este título o carisma das curas físicas e o das curas espirituais (o dom de curar de vícios e más tendências).

2)    O dom das línguas e o da interpretação das mesmas. É mencionado pelo Apóstolo, que julga necessário haver a interpretação das línguas extraordinárias para que a comunidade se possa edificar: "Aquele que fala em línguas, deve poder interpretá-las... Numa assembléia prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em línguas" (1Cor 14, 13.19). A glossolalia (como é chamada tecnicamente) parece ter gerado confusões na comunidade de Corinto a tal ponto que São Paulo fez a seu respeito sérias advertências (cf. 1Cor 14, 22s). É de notar que já no século IV São João Crisóstomo (+407) não sabia explicar o que fosse tal carisma, pois caira em desuso.

3) Os dons de iluminação interior, de discernimento espiritual e de êxtase na oração. Também podem ser tidos como raros se consideramos a sua exígua freqüência na vida dos Santos.

Os dons extraordinários estão na linha dos milagres. Serviam (e servem) mais para edificar e converter do que para a construção cotidiana e ordinária do Reino de Deus (com exceção do dom do discernimento).

 

6. CONCLUSÃO

 

Acabamos de apresentar em poucas páginas o conteúdo do livro de D. Antônio Afonso de Miranda. Em suma, é favorável à Renovação Carismática; precisamente para garantir a sua persistência incólume na Igreja e evitar que se deteriore, o autor aponta tanto os frutos benéficos quanto os desvios da Renovação Carismática. Estes são compreensíveis, já que o ser humano vibra sob a ação da graça, mas nem sempre de maneira consentânea com o Espírito. A fim de impedir exageros e deturpações dos grupos de oração, é claro que se requer, da parte dos pastores, uma assistência assídua e benévola, disposta a promover o que é bom, afastando o que seja falho nas expressões dos orantes.

Congratulamo-nos com D. Antônio A. de Miranda pelo valioso serviço que, com o seu estudo, prestou à Renovação Carismática e à Igreja.



[1] O que é preciso saber sobre a Renovação Carismática. Ed. Santuário, Rua Pe. Claro Monteiro 342, 12570-000 Aparecida (SP), 125 x 180 mm, 62 pp.

[2] Chama-se "fundamentalismo" a tendência a interpretar a S. Escritura cegamente, ao pé da letra, sem levar em conta os matizes de expressão existentes em toda linguagem, e também no linguajar bíblico. Parece o fundamentalismo ser expressão de fidelidade, quando na verdade se fecha ao autêntico sentido do texto sagrado. (Nota do Redator).


Pergunte e Responderemos
Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
7 1
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)