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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 501 – março 2004

 

Discute-se:

 

É FIEL A HISTÓRIA DOS PATRIARCAS BÍBLICOS?

 

Em síntese: A historicidade dos relatos concernentes aos Patriarcas bíblicos se depreende de certos tópicos: a) os Patriarcas seguem os hábitos dos povos nômades; b) observam normas jurídicas que, por seu caráter primitivo, diferem das leis da Idade do Ferro ou da monarquia israelita; c) são apresentados com todas as falhas humanas, sem preocupação de embelezamento artificial. É preciso reconhecer, porém, que nem sempre a cronologia desses relatos é exata, principalmente quando se trata da idade dos Patriarcas.

 

Tem sido posta em foco a credibilidade dos relatos bíblicos concernentes aos Patriarcas Abraão, Isaque, Jacó, José... Há quem os considere fictícios. O assunto é importante, e deve ser examinado com plena objetividade, posto de lado qualquer preconceito religioso.

 

Eis que cinco enfoques permitem afirmar a fidelidade histórica de tais relatos:

 

1. Aspecto geral

 

O Deus que salvou Israel da opressão egípcia é constantemente evocado como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó ou o Deus de nossos pais; cf. Gn 28, 13; 31, 42.53; Ex 3, 6.16.

 

O zelo com que Deus cuida de Israel aparece sempre como a continuação de anteriores intervenções do Senhor em prol do seu povo.

 

Ora estes dados depõem em favor da historicidade dos episódios concernentes "aos pais" ou aos Patriarcas anteriores a Moisés.

 

2. Aspectos históricos e arqueológicos

 

A arqueologia e a etnologia mostram como os povos da Idade de Bronze (2000-1550) viviam. Ora os Patriarcas bíblicos apresentam os mesmos hábitos:

- vivem em tendas: "Abraão armou sua tenda, tendo Betei a Oeste..." (Gn 12, 8)

"Jacó era um homem tranquilo, morando sob tendas" (Gn 25, 27)

- procuram os poços: "Rebeca correu ao poço para tirar água" (Gn 35, 30).

-   emigram periodicamente para lugares de pastagem; "Viemos habitar nesta terra porque não há mais pastagem na terra de Israel" (Gn 47, 4), disseram os irmãos de José.

-   zelam para manter a pureza do sangue: "Eu te faço jurar que não tomarás para meu filho uma mulher entre as filhas dos cananeus" (Gn 24, 3), disse Abraão ao seu servo mais velho.

-   admitem responsabilidade coletiva: Simeão e Levi dispõem-se a vingar a honra de sua irmã Dina violentada por Siquém (cf. Gn 34, 1-31).

-   seguem as normas jurídicas de Códigos antigos a nós conhecidos, como o de Hamurabi.

 

Os locais percorridos pelos Patriarcas eram a região montanhosa de Judá e a estepe do Negev (Palestina meridional). As cidades em cujas cercanias os Patriarcas acampam, são as mais antigas que conhecemos: Siquém, Betei, Hebron, Ai; nenhuma das cidades mais recentes é mencionada na história dos Patriarcas - o que denota a índole antiga das respectivas tradições.

 

3. Religiosidade dos Patriarcas

 

Às pp. 32s escreve Walter Vogels em seu livro "Abraão e sua Lenda" ([1]):

"Autores como Wellhausen, Thompson e Van Seters, que rejeitam todo valor histórico, afirmam que os relatos dos patriarcas nos informam unicamente sobre a época em que os textos foram redigidos. Isso é contraditado pelo menos no que concerne à religião dos patriarcas. Se os autores bíblicos tivessem inventado as tradições dos patriarcas, inspirando-se na religião que eles próprios praticavam, os relatos teriam sido bem diferentes. Os patriarcas praticavam, segundo os textos bíblicos, uma religião pré-israelita, pré-mosaica. Alguns pontos podem mostrá-lo.

 

Não existe antagonismo religioso entre os patriarcas e as pessoas com as quais entram em contato. No restante da Bíblia, a oposição entre Yahweh, o Deus de Israel, e os Baals, os deuses dos cananeus, é habitual. Nos relatos dos patriarcas, diríamos que todos adoram o mesmo Deus. Melquisedec, rei de Shalêm, abençoa Abraão em nome do 'Deus Altíssimo' (Gn 14, 18-20), e Abraão levanta a mão em nome do 'Deus Altíssimo' (14, 22).

 

A Bíblia distingue com frequência Israel, o povo eleito, e as nações, os povos pagãos. Tal distinção não se encontra nos relatos dos patriarcas. Abraão crê que não existe temor algum de Deus em Guerar (20, 11), mas o texto prova o contrario. O povo de Guerar é uma nação justa (20, 4), e seu rei Abimélek age com coração íntegro e mãos inocentes (20, 5-6). Todos são iguais diante de Deus; a perspectiva dos relatos dos patriarcas é mais universalista do que no restante da Bíblia.

 

As práticas são bem diferentes. Não há indicação alguma de que os patriarcas observassem o sabbat, ou as leis concernentes aos alimentos, o que era muito importante na época do exílio. Se as tradições patriarcais tivessem sido inventadas nessa época, os autores teriam muito provavelmente feito os patriarcas viverem segundo essas leis. O mesmo se aplica aos locais do culto. Abraão constrói altares onde quer (12, 7; 13, 18) e planta árvores sagradas (21, 33). Tais práticas eram proibidas pela lei mosaica, que prescreve o lugar do culto (Dt 12, 2-5) e condena essas árvores sagradas (Dt 16, 21).

 

A religião dos patriarcas não conhece mediadores, sacerdotes ou profetas. Os patriarcas não se dirigem aos outros à maneira de Moisés ou dos profetas, e ninguém lhes fala em nome de Deus. Eles estão em contato direto, pessoal com Deus (17, 1). Os patriarcas oferecem seus próprios sacrifícios (22, 13) e não necessitam de sacerdotes que o façam em seu nome.

 

Na religião de Israel, a lei ocupa um lugar bem central, sua observância traz a bênção; sua rejeição, a maldição. Na religião dos patriarcas, encontramos promessas e bênçãos (12, 2-3), mas dadas sem menção de estipulações que os patriarcas deveriam observar para obtê-las. Não existe tampouco ameaça de julgamento, no caso de não serem fiéis.

Esses poucos exemplos, entre outros, ilustram a diferença entre a religião descrita nos relatos dos patriarcas e a religião do restante do Pentateuco. Os patriarcas tinham certas práticas religiosas condenadas pela lei. É difícil, portanto, imaginar que essa religião tivesse sido inventada por um autor que era um fiel ¡avista. Se ele houvesse 'inventado' a história de Abraão, teria escrito uma história mais 'ortodoxa'. Os textos testemunham uma forma de religião antiga pré-javista".

 

Tais observações deram ensejo aos comentários de bons autores, como são:

 

Roland de Vaux, Professor da École Biblique de Jerusalém: "Se, como se afirmou por muito tempo, (os autores bíblicos) tivessem reconstruído o passado segundo o que viam e imaginavam, eles teriam obtido um quadro diferente do que possuímos, e que teria sido falso" ("Les patriarches hébreux et les découvertes modernes", Revue biblique 56 (1949), pp. 5-36, citação p. 36).

 

A. Parrot: "A vida, tal como aparece nos relatos do Gênesis que são consagrados, encaixa-se perfeitamente com o que hoje sabemos, por outras vias, sobre o início do segundo milênio, mas imperfeitamente com um período mais recente" (Abraham et son temps, "Cahiers d'archéologie biblique" 14, Neuchatel, Delachaux et Niestlé, 1962, p. 11).

 

W. F. Albright: "Abraão, Isaque e Jacó não parecem mais, doravante, figuras isoladas, quanto menos reflexos da história hebraica posterior; parecem atualmente verdadeiros filhos de sua época, trazendo os mesmos nomes, deslocando-se sobre o mesmo território, visitando as mesmas cidades (especialmente Harran e Nahor), submetidos aos mesmos costumes que seus contemporâneos. Em outros termos, os relatos dos patriarcas têm de cabo a rabo um fundo histórico".

 

4. Narrações realistas

 

As tradições populares fictícias apreciam o maravilhoso e a ornamentação de seus personagens. Bem diferente, porém, é o estilo dos relatos concernentes aos Patriarcas bíblicos; apresentados com todo o realismo da vida humana. Assim:

-Abraão tem medo de ser raptado e recorre a uma restrição mental, pela qual é censurado; cf. Gn 12, 18s; 20, 9-13.

-   Sara assume atitude ciumenta e maldosa para com Agar, que o anjo de Deus consola duas vezes; cf. Gn 16, 7-12; 21, 10-19.

-   Jacó engana seu pai Isaque, fazendo-se de primogênito que arrebata a bênção devida a Esaú e, por isto, deve fugir; cf. Gn 27, 1-46.

- Jacó, por sua vez, é enganado pelo tio Labão; cf. Gn 29, 20-25.

-   Ruben perdeu o direito de primogênito por causa de um incesto praticado com Bala, concubina de seu pai; cf. Gn 36, 22 e 49, 4.

-   Simeão e Levi foram punidos por sua crueldade homicida; cf. Gn 34, 25-30; 49, 5-7.

 

É de notar que Abraão, esposando uma filha de seu pai (Gn 20, 12), e Jacó, unindo-se em casamento a duas irmãs (Gn 29, 23-28), não observaram leis matrimoniais que mais tarde a Lei de Moisés (Lv 8, 8-18; Dt 27, 22) havia de promulgar, punindo a respectiva infração com pena de morte. Isto abona a historicidade dos relatos em foco: parecem descrever fatos ocorridos antes da época de Moisés.

 

As tradições históricas eram fielmente guardadas na memória dos povos antigos através de sucessivas gerações, visto que a transmissão escrita era rara e difícil; além do quê, o estilo de vida dos pastores, repetitivo e tranquilo, favorecia a tenacidade da memória.

 

5. Historiografia antiga

 

Compreende-se que as narrações concernentes aos Patriarcas, embora sejam fidedignas, carecem da precisão da historiografia moderna. O historiador semita outrora recorria a procedimentos estranhos. Assim, por exemplo, o historiador da época dos Patriarcas refere muitos colóquios em discurso direto, que não foram gravados, mas são reproduzidos de maneira aproximativa. Mais claramente ainda aparece o gênio do historiador quando trata de números e, em particular, de números de anos de vida; sejam considerados os seguintes casos (de suposto simbolismo?):

- a duração da vida de Abraão parece construída sobre o número 25. Com efeito; Abraão tinha passado 75 (3 x 25) anos na Mesopotâmia antes de emigrar para Canaã (cf. Gn 12, 4); tinha cem (4 x 25) anos quando gerou Isaque (cf. Gn 21, 5), e morreu com 175 (= 7 x 25) anos (Gn 25, 7).

-A Isaque são atribuídos 180 anos de vida, ou seja, 4 x 40 + 20 ou também 3 x 60 (cf. Gn 35, 28).

-A Jacó... 147 anos (cf. Gn 47, 28), o que equivale a 3 (7 x 7) ou três vezes um período jubilar (cf. Lv 25, 10) ou ainda equivale a duas vezes 70 mais 7.

 

Mais ainda chamam a atenção as ponderações seguintes:

Idade de Abraão: 175 = 7 (5 x 5) anos, sendo 17 a soma dos fatores 7 + 5 + 5.

Idade de Isaque: 180 anos, isto é, 5 (6 x 6), sendo 17 a soma dos fatores 5 + 6 + 6.

Idade de Jacó: 147 anos, ou seja, 3 (7 x 7), sendo 17 a soma dos fatores 3 + 7 + 7.

 

A título de exercício mental, poder-se-iam dissecar outros números bíblicos, sem que isto tenha algum significado para a mensagem sagrada.

 

6. Uma objeção: os Anacronismos

 

Continua o Prof. Vogels:

 

"Um versículo do ciclo de Abraão diz que 'Abraão residiu por muito tempo na terra dos filisteus' (21, 34), mas esses filisteus só se instalaram em Canaã depois de 1200 a.C. O nome da cidade da qual partiram Terah e sua família 'Ur dos caldeus' (11, 31), também constitui problema. A cidade de Ur é conhecida e muito antiga, mas o termo 'Caldeia' é problemático. Os caldeus só surgem nos textos assírios no século IX a.C. Além disso, referir-se a 'Ur dos caldeus' pressupõe a ascensão ao poder dos caldeus, ou seja, babilônicos, que só ocorre no final do século VII a.C. No início do segundo milênio, talvez se dissesse 'Ur dos sumérios'. Tais dificuldades não perturbam aqueles estudiosos, eles as explicam por meio de anacronismos que não afetariam o fundo verdadeiramente histórico dos textos. Os autores dos relatos dos patriarcas substituíram os nomes antigos pelos nomes em uso na época em que escreviam.

 

Outra dificuldade para a hipótese do início do segundo milênio é o costume dos patriarcas, como Abraão, de se servir de camelos (12, 16). Aceita-se, em geral, que o camelo só foi domesticado e utilizado no Oriente Próximo antigo depois de 1200 a.C. É verdade que se conhecem alguns casos raros um pouco antes do segundo milênio. Poderíamos, assim, recorrera tais casos excepcionais e afirmar que os patriarcas faziam um uso restrito de camelo. Mas prefere-se, em geral, explicar essas referências aos camelos como anacronismos. Chega-se a sugerir que o texto, de início, falava de jumentos, substituídos posteriormente por camelos.

 

Explicar tais dificuldades como anacronismos não é, em si, uma solução absurda. Todos nós tendemos, ainda hoje, a introduzir semelhantes anacronismos em nossos textos. Um dos subúrbios da cidade de Ottawa se chamava, outrora, Eastvlôw. Esse nome foi alterado, em 1969, para Ville de Vanier. Se escrevo em 1996: 'Em minha chegada no Canadá, instalei-me em Vanier', cometo um anacronismo. Quando cheguei ao Canadá, em 1960, a cidade se chamava ainda Eastview. Meu texto, cientificamente falando, não é exato, mas o leitor comum compreende mais facilmente, pois muitas pessoas não sabem mais nada a respeito dessa mudança de nome. Mas o leitor que se baseasse em meu texto para concluir que devo ter chegado ao país depois de 1969 se enganaria. É certo, em contrapartida, que o texto deve ter sido escrito após 1969. Uma frase que afirmasse 'Livingstone morreu no Zâmbia' seria outro exemplo de anacronismo. O país, que sob o regime britânico se chamava Rodésia do Norte, tornou-se Zâmbia no momento de sua independência, em 1964. Isso me indica que a frase deve ter sido escrita depois de 1964. Mas concluir, a partir daí, que Livingstone teria morrido depois de 1964 seria um erro histórico. Esse explorador britânico morreu em 1873 na região da África que hoje se chama Zâmbia" (pp. 28s).

 

Assim fala o professor universitário, à diferença dos jornalistas.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Cf. PR 486/2002) pp. 445-448.


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