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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 501 – março 2004

Honra ao mérito:

 

O HOMEM DO SÉCULO XX

por Helio Begliomini

 

É com prazer que PR publica o artigo do Dr. Hélio Begliomini ([1]) em homenagem ao Papa João Paulo II, que aos 16/X/2003 completou vinte e cinco anos de pontificado. - Ao estimado autor do artigo seja consignada a gratidão de PR.

 

O HOMEM DO SÉCULO XX

 

Recebeu em 1994 o título de "O Homem do Ano" pela revista Time. Quatro anos após, ao completar o vigésimo aniversário de seu magistério, dado à sua grande atuação e influência no mundo contemporâneo, João Paulo II foi chamado "O Homem do Século".

 

Ainda permanece inolvidável aquele insólito 16 de outubro de 1978, raríssimo ano dos três Papas. Quando a fumaça branca saiu pela chaminé da Capela Sistina, já indicava que a Sé de Roma contava com um novo sucessor de Pedro, advindo do último escrutínio do colégio cardinalício. Logo após o anúncio do camerlengo "Habemus Papam", surgia na fachada de Michelangelo, na Basílica de São Pedro, um homem que marcaria profundamente a história do final do século XX e do início do terceiro milênio da cristandade. Apesar do então recente falecimento de Albino Luciani, Papa João Paulo I, o Papa do sorriso, que teve um dos mais breves pontificados da história da Igreja, o anúncio do novo Pontífice perdeu-se em meio a uma calorosa e continuada ovação pelo povo reunido na praça de São Pedro.

 

O arcebispo de Cracóvia - Polônia - iniciou solenemente seu ministério aos 22 de outubro de 1978 com seus jovens 58 anos e constituiu-se no 264a sucessor de São Pedro. Poucos cristãos sabem que o vocábulo Papa, além de ter o significado de pai e pastor, é um acróstico que quer dizer "Petrus apostolus princeps apostolorum" ou "Pedro apóstolo, primeiro dos apóstolos".

 

Quem é o preclaro homem?

 

1. Família e Formação

 

Karol Jósef Wojtyla nasceu aos 18 de maio de 1920. Seu pai Karol Wojtyla era operário e se tornou suboficial do exército. Sua mãe chamava-se Emília Kaczorowska. Foi o terceiro dos três irmãos e seu apelido na infância era ternamente "Lolek". Aos 9 anos perdeu a mãe e, três anos depois, também seu irmão mais velho, Edmundo, que era médico. Seu pai faleceu quando tinha 21 anos e, doravante, se tornaria no único representante da família.

 

Fez seus estudos fundamentais em Wadowice. Em 1938 mudou-se para Cracóvia, matriculando-se na Faculdade de Letras. Desde os primeiros passos na escola destacou-se intelectualmente. Foi amante do teatro, das artes e da literatura, o que fortaleceu o lado humano de sua vocação. Suas peças escritas e encenadas na juventude retratavam dramas humanos e sociais da época e seus poemas eram recheados de espiritualidade. Participava de atividades esportivas como futebol (goleiro), esqui, canoagem e alpinismo.

 

Em 1942, em plena II Grande Guerra Mundial, sob a ocupação da Polônia pelas tropas de Adolf Hitler, entra no seminário clandestino no porão do Arcebispado de Cracóvia, sob a responsabilidade de Dom Stefan Sapihea, tendo aí, nesse contexto de resistência ao nazismo e à cultura da morte de Deus, a argamassa do seu caráter. Por ter participado de uma época em que a Igreja sobrevivia na clandestinidade, viveu uma experiência rara entre os Papas: ser trabalhador braçal. A complementação de sua têmpera dar-se-ia nos anos seguintes após o término da guerra em 1945, uma vez que seu país, sob a influência soviética, passaria a ser governado pelos comunistas até 1989. Ambas as ideologias, nazismo e comunismo pretendiam construir uma sociedade perfeita, prescindindo de Deus e da experiência cristã. São suas palavras: "Os dois sistemas totalitários que marcaram tragicamente o nosso século, eu os pude conhecer, por assim dizer, por dentro. É fácil, portanto, compreendera minha sensibilidade pela dignidade de cada pessoa humana e pelo respeito para com seus direitos, a começar pelo direito à vida".

 

Não há dúvida de que João Paulo II é um dos maiores líderes mundiais, se não o maior do século XX na defesa da liberdade religiosa e dos direitos humanos. Em visita a Cuba em 1998 declarou a bordo: "Os direitos humanos são o alicerce de qualquer civilização. Esta convicção tenho-a comigo desde a Polônia, desde o confronto com o regime soviético e o totalitarismo comunista".

 

Logo após a sua ordenação sacerdotal em 1o de novembro de 1946, foi para Roma onde, após dois anos, se doutorou em Filosofia e Moral com tese sobre a Ética em São João da Cruz. Em 1949, agora em Cracóvia, seguindo seus estudos, doutorou-se em Teologia e em 1954 assumiu a cadeira de Filosofia na Universidade Católica de Lublin. A propósito, Wojtyla é o primeiro Papa filósofo e o primeiro filósofo Papa. Enquanto padre e bispo, publicou cinco livros e escreveu mais de quinhentos artigos.

 

2. Bispo e Papa

 

Foi nomeado Bispo auxiliar de Cracovia em 1958, Arcebispo em 1964 e Cardeal em 1967. No Concílio Vaticano II participou da Comissão de redação do documento "Gaudium et Spes"- "Alegria e Esperança", versando sobre a presença da Igreja no mundo contemporâneo. Ademais, participou do Sínodo dos Bispos em 1969 e, posteriormente, de todas as suas assembleias ordinárias, sendo eleito em 1971 seu Secretário-Geral.

 

Ao assumir o nome de João Paulo II, a exemplo de seu imediato antecessor, quis dar continuidade ao trabalho de João XXIII (1958-1963) e Paulo VI (1963-1978) e estava predestinado a superar magistralmente vários obstáculos e marcas que se lhe foram apresentando.

 

O último Papa não-italiano a ocupar a cátedra de São Pedro foi o holandês Adriano VI (1522-1523). Karol Wojtyla é o primeiro Papa eslavo da história da Igreja e o mais jovem desde 1846. Por sua grande veneração à Virgem Maria, Mãe de Cristo, inseriu no seu brasão a letra "M" e o lema "Totus Tuus" - "Todo Teu" - confiando a ela de modo sensível a proteção de seu ministério. Logo no seu discurso de posse aos 22 de outubro de 1978 exprimiu seu caráter pastoral ao dizer "Abram as fronteiras dos Estados, os sistemas, tanto o econômico como o político, os vastos campos da cultura, da civilização, do desenvolvimento. Não tenham medo! Cristo sabe ‘o que se passa dentro do homem’. Só ele sabe! (...) Abram as portas para Cristo!". E esse vigor evangélico o tem acompanhado ao longo dos anos. Apesar de suas limitações físicas, lançou um desafio para o terceiro milênio: "Duc in altum!" - avança mar adentro! - ou seja, cristianizar um mundo muito tecnocrata, antropocêntrico, materializado, militarizado, repleto de misérias sociais e pobre em consciência ética.

 

Karol Wojtyla tem uma memória singular. É exímio poliglota. Fala, além do polonês, latim, italiano, inglês, francês e alemão. Apresenta inaudita facilidade para se expressar nos mais diversos idiomas; tenham-se em vista suas viagens apostólicas, suas saudações públicas em audiências e por ocasião de Missas solenes como a do Natal.

 

Ao comemorar cinco lustros de ministério, tornou-se o quarto Papa mais longo da história, atrás apenas de São Pedro (25, 34 ou 37 anos, de acordo com diferentes referenciais dos historiadores); Pio IX (1846-1878 ou seja, 31 anos, 7 meses e 17 dias) e Leão XIII seu sucessor (1878-1903, ou seja, 25 anos e 4 meses e 17 dias).

 

Mais do que ser salvo milagrosamente de um atentado a tiros em plena praça de São Pedro, no dia 13 de maio de 1981, festa de Nossa Senhora de Fátima, ficou explícito seu testemunho cristão ao perdoar e, posteriormente, visitar na cadeia seu agressor Mohamed Ali Agca.

 

3. Números

 

Apenas para citar algumas de suas façanhas, salienta-se que por ocasião do Jubileu de Prata de seu pontificado, João Paulo II havia celebrado 9 Consistórios criando 232 Cardeais; nomeou mais de 3300 dos mais de 4200 Bispos do mundo, além de reunir-se com cada um deles por ocasião da visita qüinqüenal "ad limina Apostolorum". Escreveu 14 encíclicas, 14 Exortações Apostólicas, 11 Constituições Apostólicas, 42 Cartas Apostólicas e 28 Motu próprio, além de centenas de mensagens e cartas. Convocou e presidiu 15 Sínodos dos Bispos, o maior número até então realizado por um papa, sendo seis ordinários, um extraordinário e oito especiais. Publicou três livros: "Cruzando o Limiar da Esperança" (1994), "Dom e Mistério no 50o Aniversário de Minha Ordenação Sacerdotal" (1996) e "Tríptico Romano - Meditações" (2003). Além de acrescentar mais cinco Mistérios para meditação, denominados luminosos, à recitação milenar do Rosário da Virgem Maria, proclamou 2003 como um Ano Santo Mariano ou o Ano do Rosário.

 

Preocupado insistentemente com a família e a vida, criou o Pontifício Conselho para a Família e a Pontifícia Academia para a Vida.

 

Feito único na história do papado foi ter realizado até o momento 102 viagens pastorais internacionais, sendo peregrino em mais de 610 cidades de mais de 130 nações, encontrando-se com milhões de pessoas, além de diferentes personalidades do mundo religioso, cultural, científico e político. Ademais, protagonizou mais de 143 visitas pastorais no interior da Itália e quase 700 na cidade e diocese de Roma, onde se fez presente a 301 das suas 325 paróquias, sem contar as visitas a institutos religiosos, universidades, Seminários, hospitais, casas de repouso, prisões, escolas, etc. É exímio comunicador de modo que ao redor de sua presença, onde quer que esteja, têm-se constituído neo-areópagos de evangelização.

 

Ao pisar em solo estrangeiro até quando gozava de saúde satisfatória, deixou sua marca pessoal de amor, humildade, respeito e espírito de concórdia ao oscular o chão onde pisava.

 

No Brasil esteve quatro vezes. Em 1980 visitou 12 capitais em 12 dias e proferiu 51 discursos. Nessa ocasião recebeu o precioso epíteto de "João de Deus". Em 1982 permaneceu apenas duas horas, pois estava de passagem para a Argentina. Em 1991 esteve por dez dias e pronunciou 31 discursos. Por fim, retornou em 1997, quando cumpriu igualmente uma extensa e diversificada agenda. Foi indelével a participação de mais de dois milhões de pessoas no Aterro do Flamengo. Ao despedir-se no Rio de Janeiro, comentou jocosamente: "Se Deus é brasileiro, o Papa é carioca".

 

Nas suas 245 viagens pastorais dentro e além-ltália somaram-se 1.163.865 quilômetros, ou mais de 28 vezes a circunferência da Terra ou três vezes a distância entre o nosso planeta e a Lua.

 

Em Roma costuma receber, em média, um milhão de peregrinos anualmente, além do que aparece nas ocasiões especiais como as missas de Natal, Páscoa, beatificações e canonizações. Até o momento já participou de 1.106 audiências gerais, às quais afluíram mais de 17 milhões de participantes de todo o mundo. Outras especialmente concedidas a Chefes de Estado e de Governo superam a cifra de 1500. Só por ocasião do grande Jubileu do ano 2000, oito milhões de fiéis estiveram na cidade eterna.

 

Elevou às honras dos altares mais do que todo o conjunto dos 263 pontífices que o precederam. Assim, beatificou 1325 servos de Deus em 140 cerimônias e canonizou 477 Bem-aventurados em outras 51. Embora tenha sofrido críticas por mais esse gesto inédito, não se pode deixar de frisar que, só de mártires, o catolicismo conta com cerca de 40 milhões, tendo mais da metade dos martírios (27 milhões!) ocorrido no último século.

 

No início de seu pontificado a Santa Sé mantinha relações diplomáticas com 85 países, sendo esse número elevado para 174 nações, assim como com a União Européia e a Soberana Ordem Militar de Malta. O Vaticano tem relações especiais com a Federação Russa e a Organização para a Libertação da Palestina.

 

4. Rumo à Reconciliação

 

Para Wojtyla os meios de comunicação devem buscar a paz tendo como base a verdade, a justiça, a liberdade e a caridade, aliás, como também foi ensinado por João XXIII na encíclica Pacem in Terris.

 

Em 1994 surpreendeu o mundo ao estimular que os cristãos pedissem perdão pelos pecados cometidos e que estão discriminados na carta preparatória para o Jubileu do ano 2000, a Tertio millennio adveniente e que se sumariam na divisão dos cristãos; no colonialismo e na opressão do Terceiro Mundo; na escravidão de africanos e índios; e nos atentados contra a liberdade religiosa.

 

Tem trabalhado intensamente pelo ecumenismo entre os cristãos e pelo diálogo com outras religiões, tendo orado em vários idiomas e templos. Inéditos foram os dois macroencontros de oração pela paz em Assis (1986 e 1992) com aproximadamente 200 dos principais líderes religiosos do planeta, além de Patriarcas, rabinos e imames. Dignos de nota foram a reunião com os jovens muçulmanos de Marrocos (1985), o encontro com o Rabino-chefe na sinagoga de Roma, bem como ter sido o primeiro Papa a visitar uma mesquita, feito este realizado em Damasco na Síria (2001).

 

5. Política Internacional

 

Com relação à política internacional teve duas fases. A primeira, de 1978 até 1989, quando predominou a denúncia do marxismo, suas estruturas e sua ideologia da morte de Deus; não hesitou em somar esforços com os movimentos antissoviéticos vigentes nos países do Oeste Europeu. A segunda fase vai de 1989 e estende-se até os dias atuais. Em seus pronunciamentos destacam-se as denúncias contra a globalização excludente e o capitalismo selvagem, tendo o mercado e o excessivo consumo como únicos paradigmas; defesa irrestrita da pessoa humana da concepção à morte e, portanto, combate à cultura do aborto e da eutanásia; pedido de perdão da dívida externa para os países pobres; defesa da paz em oposição à guerra e autodeterminação dos povos com suas tradições e raízes culturais.

 

Wojtyla contribuiu para que a contraposição dos dois blocos ideológicos e geopolíticos que então existiam na Europa pelo Tratado de IALTA se atenuasse progressivamente, até o feito impensável, poucos anos atrás, da queda do muro de Berlim em 1989. Em 1990 foram restabelecidas as relações diplomáticas entre o Vaticano e a ex-União Soviética. Declarou padroeiros da Europa os santos Cirilo e Metódio, apóstolos da Rússia, juntamente com São Bento, querendo enaltecer e aproximar valores religiosos e culturais do Ocidente e do Oriente. Infelizmente, não pôde ainda concretizar o convite que já lhe fizera Mikail Gorbachev de visitar Moscou, a "Terceira Roma". Assim como é defensor da "Grande Europa", a do Atlântico aos Urais, comungando entre si as tradições cristã-ocidental e a eslavo-ortodoxa, é também artífice da união da "Grande América". Por isso, em 1997, convocou o Sínodo Especial da América e não das Américas - Norte, Centro e Sul - ou das Américas de língua inglesa e de luso-hispânica, ou a América dos países abastados e a dos pobres.

 

6. Conclusão

 

Não há dúvida de que João Paulo II, personalidade estelar, tem desempenhado um papel singular na história contemporânea, constituindo-se numa das grandes figuras hodiernas e um dos grandes Papas da história da Igreja. Não é por acaso que alguns querem lhe aditar mais o insigne título de "Magno", assim como foram reverenciados outros notáveis homens como Santo Alberto, São Gregório e São Leão. Entretanto, não resta dúvida alguma de que o título que mais lhe fará jus será o de Santo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Membro da Academia de Medicina de São Paulo, Academia Cristã de Letras, Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e Academia Brasileira de Médicos Escritores.


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