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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 501 – março 2004

Ciência e Fé:

 

"A CIÊNCIA TENTA EXPLICAR A BÍBLIA"

(ÉPOCA)

 

Em síntese: A revista ÉPOCA, 22/12/03, apresenta a reportagem de Marcelo Ferroni, que, à luz de escavações arqueológicas, atribui à Bíblia diversas imprecisões e inverdades. - O artigo tem índole sensacionalista mais do que caráter científico objetivo, como se depreende do confronto da reportagem com obras de especialistas em arqueologia e historiografia bíblicas.

 

A revista ÉPOCA, de 22/12/03, pp. 84-93, publica a reportagem de Marcelo Ferroni intitulada "A Bíblia reescrita pela Ciência" com o subtítulo: "Pesquisas arqueológicas criam polêmica ao desmentir as versões mais aceitas dos relatos bíblicos". O artigo tem aparências científicas e pode suscitar dúvidas em seus leitores; daí a conveniência de o abordarmos nestas páginas.

 

1. Os principais traços da reportagem

 

O repórter se refere tanto ao Antigo quanto ao Novo Testamento.

 

1.1. Antigo Testamento

 

Pág. 87: "Êxodo sem vestígios. Não há indícios da existência de Moisés nem da travessia épica pelo deserto".

Pág. 91: "Conquista sem muralhas. Jericó... nunca chegou a ser protegida por muros".

Pág. 88: "Nem tanto poder assim. Para arqueólogos, Davi existiu de fato, mas não chegou a unificaras 12 tribos israelitas".

"O templo de Salomão, descrito na Bíblia, tendo dimensões internas de 10 metros de largura por 30 metros de profundidade, era de fato grande para os padrões do Oriente Médio, mas não era o maior".

 

1.2. Novo Testamento

 

Pág. 84: "Em busca do Jesus histórico. Na época, fora dos livros religiosos, há somente duas menções ao nome de Jesus, filho de José".

Pág. 91: Pouca coisa se sabe sobre o Jesus histórico.

Primeira capa: "A estrela de Belém pode ter sido um cometa ou a explosão de uma supernova".

 

Deixando de lado o último tópico (que não causa problemas), consideraremos sucessivamente os pontos atrás indicados.

 

2. Repensando...

 

2.1. Antigo Testamento

No Brasil uma das mais recentes publicações sobre arqueologia bíblica é a do Prof. Amihai Nazar, da Universidade Hebraica de Jerusalém, com o título "Arqueologia na terra da Bíblia (10.000-580 a.C.) (1). Este autor, profissional sábio e erudito, é muito mais moderado do que o repórter de ÉPOCA. Aliás a verdadeira ciência é sempre cautelosa ao fazer suas afirmações, porque sabe que ulteriores pesquisas podem modificar o quadro dos conhecimentos presentes.

1) Ed. Paulinas, São Paulo 2003, 150 x 230 mm, 554 pp.

 

Percorramos os principais pontos citados pelo repórter:

 

1) Moisés não existiu? - Eis o que se lê no "Dicionário Enciclopédico da Bíblia" de A. van den Bom, verbete "Moisés":

"No conjunto de Ex2, 10- Jos 24, 5, Moisés é mencionado mais de 700 vezes (nos demais livros históricos, 51 vezes, nos livros proféticos apenas 4 vezes; depois, 8 vezes nos Salmos e 2 vezes em Dn). No entanto, temos poucas informações certas sobre a sua pessoa. Ninguém mais nega a sua existência histórica, mas um estudo crítico terá de distinguir entre aquilo que ele foi realmente, e aquilo que dele fizeram certas tradições, e, mais tarde, "a" tradição dos israelitas.

Para o judaísmo posterior M. é a figura principal da história da salvação no AT; um grande número de lendas é tecido em torno de sua pessoa. No judaísmo helenístico do século I a.C. surgiu um romance sobre M., no qual ele é o mestre da humanidade, o homem genial ou o piedoso ideal, e no qual a sua morte se toma uma apoteose (morreu em glória ou foi elevado ao céu). Por esse romance, que polemiza evidentemente com uma lenda egípcia antissemítica sobre M., nasceu uma imagem de M. notavelmente diferente da imagem bíblica. Também no judaísmo palestinense M. é glorificado, não porém na qualidade de herói, como entre os helenistas, mas na de mediador da revelação, o mestre de Israel por excelência. Aqui, portanto, a figura de M. está mais perto dos dados bíblicos. No entanto, são-lhe aplicadas diversas noções soteriológicas. Isso, porém, não tanto em escritos apócrifos, como nas expectativas do povo. Ele entra na escatologia, tornando-se provavelmente uma figura do Messias (cf. Dt 18, 15-18), o Messias é concebido como um segundo M., a libertação do Egito como prefiguração da redenção messiânica (cf. p. ex. At 21, 38). Também esse segundo M. terá de sofrer. O judaísmo posterior atribui-lhe o livro dos Jubileus e a Assumptio Mosis".

 

Estes dados evidenciam como os próprios pesquisadores se sentem, por vezes, inseguros. Lembram também que não se deve confundir a historicidade de alguém com os traços fictícios que a posteridade lhe acrescentou.

 

2) As muralhas de Jericó. O arqueólogo Prof. Mazar observa:

 

"O material arqueológico é às vezes utilizado indiscriminadamente nos estudos históricos. Temos de levar em conta que dados de escavações podem levar a diferentes interpretações; essas interpretações são frequentemente subjetivas e tendenciosas para com uma visão histórica específica. Um exame geral da tradição da conquista no contexto arqueológico ilustra a complexidade do tema e as várias possibilidades para a interpretação dos achados" (p. 323).

 

À p. 324 o Prof. Mazar considera diretamente a campanha de Josué contra Jericó e as cidades vizinhas:

"Existem diversas avaliações da narrativa literária com relação à conquista descrita em Josué 1-11. Enquanto alguns estudiosos encaram a narrativa como demonstrativa de uma campanha militar real sob a liderança de Josué (Y. Kaufmann, Y. e outros), outros a vêem como uma criação literária de uma época muito posterior. Não obstante, mesmo essa visão posterior não exclui a possibilidade de que tais histórias repercutam eventos históricos individuais que podem ter acontecido no processo de assentamento israelita".

 

3) O Templo de Salomão 12m x 30m? - Escreve o Prof. Mazar à p. 363:

 

"As medições do edifício são dadas em cúbitos. Dois cúbitos-padrão eram empregados durante o período bíblico: o longo, ou régio, de 52,5 centímetros; e o cúbito curto, de 44,5 centímetros. Muito provavelmente, na construção do templo foi utilizado o primeiro. O templo era uma estrutura regular, medindo 50 x 100 cúbitos, ou aproximadamente 25m x 50m - maior do que qualquer templo fenício ou cananeu conhecido por nós. A altura também era excepcional, 30 cúbitos (aprox. 15 metros). É dito das paredes que tinham 12 cúbitos de espessura - uma medida que lembra a do templo da Idade do Bronze Médio em Siquém".

 

Estes ensinamentos do mestre israelita mostram bem como são discutíveis as afirmações do repórter Marcelo Ferroni.

 

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2.2. Novo Testamento

 

1) "Na época, fora dos livros religiosos, há somente duas menções de Jesus". Estas seriam a de Flávio José, historiador judeu, e a de Plínio o Jovem. - Em resposta observamos que, além da referência de Flávio José, encontram-se os testemunhos (dos anos de 110 a 120) de três escritores romanos, que vão, a seguir, apresentados.

 

a)Tácito

Tácito foi um historiador que soube exercer espírito crítico e se mostrou honesto em seus relatos. Escreveu em seus Anais, por volta de 116, a respeito do incêndio de Roma ocorrido em 64:

 

"Um boato acabrunhador atribuía a Nero a ordem de pôr fogo à cidade. Então, para cortar o mal pela raiz, Nero imaginou culpados e entregou às torturas mais horríveis esses homens detestados pelas suas façanhas, que o povo apelidava de cristãos. Este nome vem-lhes de Cristo, que, sob o reinado de Tibério, foi condenado ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Esta seita perniciosa, reprimida a princípio, expandiu-se de novo não somente na Judéia, onde tinha a sua origem, mas na própria cidade de Roma" (Anais XV 44).

 

Tácito conta, a seguir, as horríveis torturas infligidas aos cristãos e se mostra contrário a esse desumano procedimento. As referências pouco elogiosas aos cristãos mostram que só os conhecia por ouvir dizer e compartilhava as opiniões do seu tempo. Essa hostilidade mesma torna mais valiosa a breve notícia que ele nos transmite a respeito de Cristo.

 

b) Suetônio

Poucos anos depois, em 120, Suetônio, também hábil historiador, escreveu a Vida dos Doze Césares, em que cita duas vezes os cristãos: uma primeira vez para confirmar que eram perseguidos desde os tempos de Nero. Na segunda vez, referindo-se ao reinado de Cláudio (41-54), diz que este "expulsou de Roma os judeus, que, sob o impulso de Cresto, se haviam tornado causa frequente de tumultos" (Vita Claudii XXV). A informação coincide com a de Atos 18, 2; a expulsão deve ter ocorrido por volta de 49/50. Chrestós é a forma grega equivalente a Christós, que traduz o hebraico Messias. Suetônio, mal informado, julgava que Cristo se achava em Roma, instigando as desordens.

 

c) Plínio o Jovem

 

Em 111 chegou à Bitínia e ao Ponto, províncias da Ásia Proconsular (Turquia de hoje), Plínio o Jovem, com o título de Legado Imperial. Era homem de letras, sério e inteligente. Em 112 enviou a Trajano uma carta minuciosa a respeito dos cristãos. Recebera denúncias contra eles, prendera vários, submetera alguns a torturas, inclusive duas diaconisas; nada, porém, fora apurado que lesasse a boa ordem cívica. Ao contrário, podia dizer que os cristãos se difundiam cada vez mais e "estavam habituados a se reunir em dia determinado, antes do nascer do sol, e cantar um cântico a Cristo, que eles tinham como Deus" (Epístolas, I. X 96). Deste testemunho depreende-se que, desde os primeiros decênios do Cristianismo, o Senhor Jesus era louvado como Deus.

 

Plínio atestava que aquela boa gente cristã se comprometia, com juramento, a não roubar, não mentir, não cometer adultério - o que não podia ser passível de pena. Acontecia, porém, que os sacerdotes dos deuses se queixavam: os templos se esvaziavam; os vendedores de carne destinada aos sacrifícios deixavam de lucrar. Sendo assim, Plínio perguntava ao Imperador o que devia fazer frente aos cristãos; havia de puni-los somente por serem cristãos? - Vê-se que Plínio era, de certo modo, simpático aos discípulos de Cristo.

 

Não há por que duvidar da fidelidade histórica dos três escritores romanos citados, ao contrário do que escreve Marcelo Ferroni.

 

Pergunta-se, porém: por que os escritores romanos falaram tão pouco a respeito de Jesus? - O fato deixa de ser estranho desde que se pondere que Jesus viveu num rincão do Império Romano (a Palestina). Ademais a obra de Jesus pôde, a princípio, parecer não ser mais do que um motim dos muitos que agitavam a Palestina no século I; assim o livro dos Atos dos Apóstolos 5, 36s nos refere o levante de um certo Teudas e o de Judas Galileu, que foram frustrados. Somente quando o Cristianismo penetrou no Império Romano e começou a sacudir as populações e mudar os costumes é que Jesus e os cristãos chamaram a atenção do grande público.

 

Vejamos o depoimento de Flávio José.

Flávio José

 

O historiador judeu Flávio José (37-95) nas suas "Antiguidades Judaicas" se refere a Jesus:

 

"Por essa época apareceu Jesus, homem sábio, se é que há lugar para o chamarmos homem. Porque ele realizou coisas maravilhosas, foi o mestre daqueles que recebem com júbilo a verdade, e arrastou muitos judeus e gregos. Ele era o Cristo. Por denúncia dos príncipes da nossa nação, Pilatos condenou-o ao suplício da cruz, mas os seus fiéis não renunciaram ao amor por ele, porque ao terceiro dia ele lhes apareceu ressuscitado, como o anunciaram os divinos profetas juntamente com mil outros prodígios a seu respeito. Ainda hoje subsiste o grupo que, por sua causa, recebeu o nome de cristãos" (XVill, 63s).

 

Este testemunho, tão elogioso em relação a Jesus, está sujeito às dúvidas dos críticos. Os louvores a Cristo podem ter sido interpolados por mãos cristãs, mas é certo que Flávio José assim atesta a sua convicção de que Jesus fora personagem histórico.

 

Na verdade, não é de crer que o texto, como ele hoje é, seja da pena de Flávio José; se este tivesse escrito tais dizeres, ter-se-ia feito cristão. Sabe-se, porém, que Flávio José, bajulador do Imperador Romano, escreveu que o verdadeiro Messias, aguardado por Israel, era incontestavelmente Vespasiano. Foi em homenagem a este que acrescentou ao seu nome judaico José o nome do Imperador Flávio.

 

2) "Muito pouco de concreto se pode dizer sobre a vida de Jesus" (p. 91).

 

A respeito da vida de Jesus somos informados pelos Evangelhos canônicos (Mt, Mc, Lc, Jo), que bem podem ser tidos como fidedignos pelas seguintes razões:

 

a) Os Evangelhos nos apresentam particularidades históricas, geográficas, políticas e religiosas da Palestina. Cf. Lc 2, 1; 3, 1s (César Augusto e Tibério imperadores, além dos governantes da Palestina: Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás); Mc 3, 6; Mt 22, 23 (os partidos dos fariseus, herodianos, saduceus); Jo 5, 2 (a piscina de Betesda); Jo 19, 13 (o Lithóstrotos ou Gábata)... Ora tais peculiaridades supõem testemunhas que viveram antes do ano de 70 d.C, pois em 70 a terra de Israel foi invadida e transformada pelos romanos.

 

b) Os Apóstolos e evangelistas dificilmente poderiam mentir, pois viviam em ambiente hostil, pronto a denunciar qualquer desonestidade da parte dos mensageiros da Boa-Nova.

 

Sem dúvida, a fantasia dos discípulos imaginou muitas lendas a respeito de Jesus. Todavia esses episódios fantasistas não foram reconhecidos pela Igreja, e por isso passaram a constituir a literatura apócrifa. Nesta nota-se a tendência a apresentar um Jesus maravilhoso, que desde a infância surpreende seus pais e amiguinhos pelos prodígios que realiza. O estilo dos Evangelhos canônicos é, ao contrário, muito simples e despretensioso, deixando mesmo o leitor diante de passagens que se tornaram "cruz dos intérpretes" (cf. Mc 3, 21; 6, 5; 10, 10...); tem-se a impressão de que os Evangelistas possuíam a certeza de estar transmitindo a verdade... verdade que não precisava de ser artificialmente embelezada.

 

c) Os Apóstolos e Evangelistas nunca teriam inventado um Messias do tipo de Jesus. Com efeito, não cabia na mente dos judeus o conceito de Deus feito homem,... e homem crucificado. São Paulo mesmo notava que tal concepção era escândalo para os judeus e loucura para os gregos (cf. 1 Cor 1, 23). Os judeus, através dos séculos, tendiam a exaltar cada vez mais a transcendência de Deus, distanciando-o dos homens.

 

d) Afigura de Jesus é de tal dimensão intelectual, moral e psicológica que seria difícil a rudes homens da Galiléia inventá-la.

 

e) Quanto aos milagres em especial, se Jesus não os tivesse realizado, não se explicaria o entusiasmo do povo e dos discípulos, que sobreviveu à morte do Senhor na Cruz. Com efeito; a pregação de Jesus não era apta a suscitar fácil entusiasmo: ao povo dominado pelos estrangeiros, Jesus ensinava o amor aos inimigos; proibia o divórcio, que era habitual em Israel; incutia a abnegação e a renúncia... Dificilmente um tal pregador teria sido endeusado se não houvesse realizado sinais que se impusessem aos discípulos. Ao contrário, se admitimos a historicidade dos milagres de Jesus, compreendemos o fascínio exercido pelo Mestre... Em particular, a ressurreição corporal de Jesus sempre foi considerada o milagre decisivo que autentica a pregação cristã (cf. 1 Cor 15,14.17); ora, se não houve ressurreição de Jesus, o Cristianismo estaria baseado sobre mentira, fraude ou doença mental e alucinação de alguns poucos pescadores da Galiléia; tal consequência seria um autêntico portento, talvez ainda mais milagroso do que a própria ressurreição corporal de Jesus.

 

3. Conclusão

 

Não existe conflito entre fé (mensagem bíblica) e ciência. Quando tal parece ocorrer, diz-se sabiamente: ou a proposição da ciência está mal formulada ou a proposição religiosa não pertence ao patrimônio da fé. A pesquisa científica tem o valor de dar a conhecer melhor o mundo antigo com seus costumes e seus meios de comunicação (que os autores sagrados adotaram). Os dados arqueológicos são importantes, mas ambíguos; dependem da interpretação que o cientista lhes queira dar, muitas vezes em função de suas premissas filosóficas. Em consequência o mesmo fato arqueológico pode ser interpretado pró ou contra determinada proposição bíblica.

 

É o que se depreende da leitura das páginas deste artigo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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