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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 391/dezembro 1994

Livros em Destaque

 

Obra lúcida e fiel:

"POVO SANTO E PECADOR"

por Álvaro Barreiro

 

Em síntese: A obra de A. Barreiro merece ser lida na íntegra por todos os cristãos. O autor estudou a fundo a temática da Igreja em nossos dias. Conseqüentemente reconhece falhas humanas na Igreja, como sempre foram reconhecidas pelos próprios Santos. Admite a legitimidade da crítica a pessoas da Igreja no intuito de se levar remédio a tais falhas. Mas A. Barreiro distingue bem crítica responsável e construtiva de crítica passional e obsessiva; critica os críticos "profissionais" ou "especialistas" em crítica. Salienta que a autêntica crítica é inspirada por amor filial à Santa Igreja, Mãe e Mestra; este amor no decorrer da obra é freqüentemente salientado; deriva do fato de que o próprio Cristo ama a sua Igreja-sacramento e lhe assegura um ministério indefectível em favor de todos aqueles que a procuram de coração sincero.

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O Pe. Álvaro Barreiro S.J. é professor de Teologia no Estudantado da Companhia de Jesus em Belo Horizonte. Acaba de publicar valioso livro, que tem o título: "Povo Santo e Pecador" e o subtítulo: "A Igreja questionada e acreditada" ([1]). 0 autor aborda exaustivamente a questão, oferecendo ao leitor ampla erudição, bem como um julgamento equilibrado e construtivo a respeito de problemas controvertidos. Se, de um lado, o Pe. Barreiro mostra com sinceridade quão longe vão as críticas feitas à Igreja em nossos dias (muitas vezes de maneira preconcebida e passional), de outro lado afirma o caráter transcendental da Igreja e a plena valia (ou mesmo necessidade) da mesma para a santificação dos homens. — Visto que o livro é muito oportuno, proporemos uma síntese do mesmo nas páginas subseqüentes.

A obra compreende três partes: I. A Igreja em Questão (objeções levantadas contra a Igreja como tal); II. A Igreja como Horizonte e Matriz da Fé (A Fé da Igreja e a Fé na Igreja); III. Crítica, Amor e Fidelidade à Igreja, ao que se seguem quatro Anexos (quatro belos textos sobre a Igreja).

1. A IGREJA QUESTIONADA

1.1. A Crítica

O autor apresenta quatro atitudes de crítica à Igreja:

1)   "Túmulo de Deus". O teólogo holandês Robert Adolfs em 1966 publicou um livro em que atribuía à Igreja tal título; preconiza pobreza para a Igreja e oposição "aos poderes e potestades deste mundo", sem o quê Ela se poderia tornar o túmulo de Deus, em vez de ser o sacramento da salvação. — Ao citar esta proclamação, Álvaro Barreiro lembra que o próprio Concílio do Vaticano II já afirmava algo de semelhante, embora não a partir das mesmas premissas, nem de modo unidimensional: "A Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho de Cristo, que foi o caminho da pobreza e da perseguição" (Constituição Lúmen Gentium 8,3). Ao afirmar isto, o Concílio não deixou de enfatizar também que a Igreja é "o sacramento da salvação para todos os homens" (Constituição Gaudium et Spes 45, 1; ver 42,3).

2)   "O Terceiro Homem". A partir de 1965, ano em que terminou o Concílio, os observadores da história falam do "terceiro homem", ou seja, daquele que se diz católico, mas, cansado das rixas entre conservadores e progressistas, se põe à parte, desinteressando-se da Igreja. Toma uma terceira posição, que vem a ser de indiferença; conserva a fé em Deus e em Jesus Cristo, mas afasta-se da Igreja e dos sacramentos. — A propósito observa o Pe. Barreiro:

"Não seria justo deixar de mencionar, embora o façamos só de passagem, que, junto com o êxodo massivo e silencioso dos que abandonam a Igreja, seja porque a consideram incapaz de um verdadeiro diálogo com o homem moderno, de dar respostas satisfatórias aos seus problemas vitais, ou por qualquer outro motivo, há um crescimento inédito, em número e qualidade, de leigos comprometidos na edificação da Igreja, e que se sentem corresponsáveis nas mais variadas formas de participação nas comunidades e nos movimentos eclesiais... A percentagem dos que se declaram católicos e praticantes nos países de tradição católica, tanto na Europa como na América do Norte e do Sul, é um milagre estatístico. Nenhuma outra instituição nas sociedades ocidentais alcança níveis de adesão comparáveis aos manifestados com relação à Igreja Católica" (p. 22).

 

E observa o autor em nota:

 

"No caso do Brasil, a credibilidade da Igreja é um fato estatisticamente demonstrado. Desde que a Igreja Católica foi introduzida, em 1984, nas pesquisas de opinião feitas pelo IBOPE sobre as instituições mais confiáveis, ocupou sempre o primeiro lugar" (p. 22, nota 8).

Nota ainda o autor que o individualismo é uma das características da modernidade; ora a Igreja Católica é acentuadamente um corpo, e um corpo bem estruturado o que motiva a defecção de muitos. De outro lado, "quanto mais a sociedade moderna se 'protestantiza', isto é, se individualiza, inclusive no sentido de individualização da fé, tanto mais se sente a necessidade de uma instituição que conserve a memória e a visibilidade institucional dessa mesma fé" (p. 23).

3)  "Crer em Deus, crer em Jesus Cristo, crer na Igreja". Álvaro Barreiro observa que a fé em Deus, sendo de caráter mais genérico, é mais fácil do que fé em Jesus Cristo Deus e Homem, ao passo que a fé na Igreja é difícil, visto que a face humana da Igreja está sempre a interpelar e desafiar os homens. A isto o Pe. Barreiro responde:

"No fundo, os três escândalos: o da fé em Deus, o da fé em Cristo e o da fé na Igreja, são inseparáveis. Formam um escândalo só, porque a Igreja é o sacramento de Cristo e Cristo é o sacramento de Deus. Na ordem da salvação historicamente existente, o homem não pode conhecer quem é realmente Deus a não ser em Jesus Cristo. E o conhecimento de Jesus Cristo, do seu Evangelho, da sua pessoa, da sua missão salvífica, foi e continua sempre a ser transmitido pela Igreja" (pp. 28s).

4)  "Jesus, sim; Igreja, não". A rejeição da Igreja em termos modernos começou no século XVI com o protestantismo, que tem relativizado o conceito de Igreja (esfacelada em centenas de denominações). A Igreja, com sua fé, seus sacramentos, seu culto e suas leis, é tida como traição do verdadeiro Jesus, de modo que a autêntica face de Jesus deveria ser procurada fora da Igreja. Muito sabiamente Barreiro cita a propósito o teólogo P.G. Müller:

"A tradição do que é propriamente Jesus não pode ser pensada sem o fator 'Igreja', porque esse Jesus como conteúdo da tradição de Jesus só foi conservado de maneira permanente pela Igreja, em virtude do interesse eclesial por Jesus. Um Jesus sem ou fora da Igreja nunca existiu, e em última instância nunca poderá existir, porque com a perda da Igreja também se perde a única instância que é capaz de testemunhar quem é Jesus e o que Ele significa. Isto porque toda a linguagem do Novo Testamento é uma linguagem testemunhal, inclusive os logia de Jesus. Quem portanto não ouve essa linguagem do testemunho eclesial, também não ouve Jesus" (p. 31).

Segue-se no livro em foco o quinto subtítulo do capítulo I:

1.2. "Jesus Cristo, sim, Igreja, também"

Retornam mais enfaticamente idéias anteriores:

"Toda a Cristologia do Novo Testamento é uma Cristologia eclesial; todo Cristianismo que queira ser evangélico, tem que ser eclesial" (p. 32).

"A contraposição entre Cristo e a Igreja não esvazia só a Igreja. Esvazia também o Cristo. Com efeito, o acesso a Jesus Cristo, o encontro pessoal com Ele e a fé nele, só são possíveis através da Igreja. Tudo o que sabemos sobre Jesus Cristo, sabemo-lo através da Igreja. Foi no seio das comunidades cristãs, a partir delas e para elas, que foram escritos os Evangelhos e todos os outros livros do Novo Testamento. E esse depósito da fé foi transmitido pela Igreja, de geração em geração, até chegar a nós" (p. 32).

"Não há acesso ao Jesus terrestre a não ser através do Cristo da fé. E não há acesso ao Cristo da fé nem ao Jesus histórico, inseparável dele, isto é, não há acesso a Jesus Cristo, a não ser através do querigma da Igreja, através da Igreja que o anunciou e continua a anunciá-lo. O centro da fé é uma pessoa cujo nome é uma profissão de fé: 'Jesus (é o) Cristo'. Em resumo, uma Jesulogia só tem sentido e só é possível dentro de uma Cristologia; e uma Cristologia só é possível dentro de uma Eclesiologia" (p. 33).

 

O autor sintetiza o problema e sua solução no final da Parte I de seu livro.

 

"Podemos dizer que a raiz das incompreensões e dos mal-entendidos, das distorções e também dos escândalos com relação à Igreja está muitas vezes em que ela não é vista nessa sua dimensão teológica profunda, na sua estrutura sacramental, mas de maneira exterior e superficial, a partir das suas estruturas externas, como uma instituição social, que tem seus próprios interesses e que os defende com todos os meios ao seu alcance, como qualquer outra organização da sociedade civil, como uma empresa (no caso, transnacional) ou um partido político" (p. 37).

Após esta Parte I do seu livro, que expunha os questionamentos do homem contemporâneo e os princípios de solução, Barreiro passa à Parte II, em que começa a explanar sistematicamente o papel e o significado da Igreja para a salvação dos homens.

 

 

2. A IGREJA COMO HORIZONTE E MATRIZ DA FÉ

 

Esta Parte II compreende duas subpartes ou dois capítulos: "A Fé da Igreja" e "A Fé na Igreja". Ambas tendem a mostrar que a fé cristã só pode ser autenticamente professada na Igreja, pois é a fé que a Igreja professa com a assistência infalível de Jesus Cristo.

 

2.1. A Fé "da" Igreja

 

A fé tem um sujeito comunitário; não é simplesmente a profissão de uma intuição pessoal, subjetiva, que se exprima em "Eu acho que..." ou "Para mim..." ou "Eu tenho para mim que...". Esse sujeito comunitário que professa a fé, é a Igreja, da qual cada cristão é membro.

Toda a Escritura atesta essa índole comunitária da fé. Especialmente o Novo Testamento nos diz que o Reino proclamado por Jesus é comunitário, a Eucaristia instituída por Jesus é comunitária, o desígnio salvífico de Deus é comunitário, todos os escritos sagrados foram redigidos dentro de comunidades, fazendo eco à fé da Igreja. Donde "é impensável um Cristianismo individualista, independente da comunidade eclesial. Fé em Cristo, vida recebida de Cristo, união com Cristo só se dão no seio da comunidade dos fiéis unidos com o seu Senhor" (p. 52).

Pode-se então afirmar que a fé da Igreja é anterior à Escritura (a Escritura é o eco daquilo que a Igreja acreditava e apregoava sob a guia do Espírito Santo); é também, e com mais razão, anterior à fé dos indivíduos, e é mais ampla do que a fé do cristão tomado isoladamente (a fé tem matizes que nem todos os cristãos professam do mesmo modo; assim a devoção ao S. Coração de Jesus, a piedade mariana, o culto dos Santos, os exercícios de piedade em geral).

Por isto a Igreja formulava e formula sua fé em Símbolos (ou compêndios) que datam já do tempo dos Apóstolos (cf. Fl 2,5-11; Cl 1,15-20; 1Cor 15,3-7; Rm 1,1-7) e que ela entrega aos seus fiéis. Esses Símbolos foram elaborados em continuidade com a Igreja dos Apóstolos, seja para servir à catequese batismal e à celebração da Eucaristia, seja para definir a mensagem revelada quando deteriorada pelas heresias (daí o Símbolo niceno-constantinopolitano do século IV).

"O ato de profissão de fé é eminentemente pessoal, e por isto o Credo é formulado na primeira pessoa do singular (Creio...). Mas ao mesmo tempo a profissão de fé é... essencialmente eclesial, e por isto o cristão individual professa no Credo a fé da Igreja, e a professa na Igreja... A fé pessoal de cada cristão está enraizada na confissão de fé de toda a Igreja e é alimentada com a seiva viva dessa fé" (pp. 64s).

 

2.2. A Fé "na" Igreja

 

A expressão "Fé na Igreja" tem duplo sentido. Pode significar: 1) o objeto da fé ("creio na existência da Igreja como algo de transcendente ou como sacramento de salvação") e 2) o âmbito dentro do qual a fé é professada ("creio dentro da Igreja").

1)   "Creio na existência da Igreja" é crer na índole sobrenatural da Igreja; é crer que, para além da sua dimensão institucional e jurídica, a Igreja é o ponto de encontro de Deus com os homens, é o sacramento que faz a comunhão dos homens com Deus e entre si.

2)   "Creio dentro da Igreja" é uma norma que decorre de quanto foi dito até agora. Dizia o próprio teólogo calvinista Karl Barth: "Todo Cristianismo privado é ilegítimo" (Dogmatique 4,1, p. 770). E ainda, numa linguagem plenamente católica: "Eu creio que a comunidade à qual pertenço, na qual fui chamado para a fé... é a Igreja una, santa, universal. Se não o creio aqui, não o creio de maneira alguma. Nenhum defeito, nenhuma mancha nem ruga desta comunidade pode-me induzir a erro a esse respeito; é um artigo de fé" (Esquisse d'une Dogmatique, p. 333).

Essa comunidade de fé, a Igreja, é obra do Espírito Santo; por isto tem a garantia da infalibilidade. O Símbolo Apostólico desdobra a presença e a ação do Espírito Santo na Igreja formulando seis artigos:

 

"Creio no Espírito Santo (que atua) na Igreja Católica, (a qual é) a Comunhão dos Santos, (para) a remissão dos pecados (em vista da) ressurreição da carne e da vida eterna".

 

É este o significado das mais antigas fórmulas de fé encontradas nos rituais do Batismo. A redação posterior suprimiu a subordinação dos cinco últimos artigos, tornando-os paralelos a "Creio no Espírito Santo"; na verdade, a ação salvífica do Espírito Santo se realiza na Igreja, comunhão de coisas santas (sacramento) e pessoas santificadas mediante a primeira graça que é o perdão dos pecados, cujo último desabrochamento será a ressurreição da carne e o gozo da vida definitiva.

 

 

3. CRITICA, AMOR E FIDELIDADE A IGREJA

 

Esta Parte IlI do livro considera diretamente a crítica que possa ser feita à Igreja, e os termos que deve observar para ser uma crítica sadia e construtiva. Compreende quatro subpartes. ou seja, os capítulos IV, V, VI e VII da obra. Examinemo-los sucessivamente.

 

3.1. A Igreja, "povo santo e pecador"

 

Não há como negar que o pecado existe dentro da Igreja, dado que esta é uma realidade divino-humana; a fragilidade dos homens que, com Cristo, integram a igreja, manifesta-se através dos séculos.

 

Já os escritos do Novo Testamento o reconhecem, apresentando tanto a santidade da Igreja (cf. Ef 5,25s; 1Cor 1,2; 6,11...) como o pecado de seus filhos (cf. Gl 5,19-21; Rm 13,13s...). Os Padres e antigos escritores da Igreja formularam essa dupla face da Igreja em termos um tanto paradoxais. Assim S. Ambrósio (t 393): "A Igreja existe de duas maneiras: como aquela que não conhece o pecado ou como aquela que deixa de pecar" (PL 15, 1724); Ela é imaculada ex maculatis ou "imaculada, à qual pertencem os maculados" (PL 15, 1540). A expressão mais forte é a locução casta meretriz aplicada à Igreja por alguns dos Padres antigos; nenhum deles nega a santidade indefectível da Igreja derivada da sua índole sacramental ou da presença viva de Cristo, Cabeça do Corpo eclesial, mas reconhecem as falhas dos filhos da Igreja. Hans Urs von Balthasar comenta o fato, dizendo:

"Se abstrairmos de todos os seus membros a Igreja, esta não será mais Igreja. A Igreja tem seu destino nos seus membros, da mesma maneira que estes têm o deles nela. Por isto os pecados dos filhos e das filhas recaem sobre a Mãe, e por isto esta deve orar e implorar a salvação própria em seus membros" (citado por A. Barreiro, p. 93).

Os teólogos têm procurado penetrar e elucidar o sentido dessa realidade ambígua. Não coincidem entre si exatamente ao fazê-lo, mas de modo geral concordam em dizer que a Igreja é indefectivelmente santa, mas ela tem membros pecadores; é a Igreja dos pecadores. Estes, mesmo após o pecado grave, continuam pertencendo à Igreja; por isto, esta, como Mãe, tem que reconhecer e confessar os pecados de seus filhos e tem que promover a conversão e a purificação dos mesmos. A Igreja pura e sem mancha congrega homens que podem pecar, e na realidade pecam; é o que afirma, entre outros textos recentes, a Constituição Lúmen Gentium 8, 3:

 

"A Igreja é fortalecida pela força do Senhor ressuscitado, a fim de vencer pela paciência e pela caridade suas aflições e dificuldades tanto internas quanto externas, para poder revelar ao mundo o mistério de Cristo, embora entre sombras, porém com fidelidade, até que no fim seja manifestado em plena luz".

 

3.2. Renovação e Reforma da Igreja

 

Se a Igreja como Mãe é santa, mas tem filhos pecadores, entende-se que ela precise de renovar ou reformar periodicamente os setores em que se exerce e manifesta a fragilidade de seus membros humanos. Há coisas que devem ser questionadas na Igreja, mas não se pode pôr em questão a própria Igreja. Verifica o Pe. Barreiro:

 

"O tema da Ecclesia sempre reformanda é particularmente caro à consciência protestante. Mas, quando é levado ao extremo, desemboca numa espécie de Pentecostes perpétuo... sem efeito eclesial. Uma Igreja que vive se acusando e negando a si mesma, ainda que invoque como motivo o de dar glória a Deus como único Senhor, não corresponde à consciência nem à prática da Igreja no Novo Testamento. Quando a proclamação da penitência é total e generalizada, corre-se o risco de não acontecer nenhuma conversão concreta na vida eclesial e pessoal" (p. 116).

Na Igreja há de se manter a Tradição viva e ininterrupta, revestida, porém, das expressões que a tornem compreensível aos homens das sucessivas épocas da história. Muito a propósito escreveu o Cardeal John Newman (1 1890):

"A Igreja Católica jamais perde aquilo que possuiu... Em vez de passar de uma fase da vida para outra, ela carrega consigo sua juventude e sua maturidade até a velhice. Ela não trocou o que lhe pertencia, mas acumulou os seus valores e, conforme a expressão evangélica, tira do seu tesouro o novo e o velho. Domingos (+1221) não lhe fez perder Bento (+543), e conserva ainda os dois, mesmo quando se torna a mãe de Inácio (+ 1556)" (Ensaio sobre a Missão de São Bento).

Para que as reformas de instituições da Igreja necessitadas de renovação possa ser auténtica e frutuosa, devem-se preencher quatro condições importantes:

 

1)  Observar o primado da caridade e dos valores pastorais sobre as belas idéias

A tentação de um pensador que tenha clara intuição do que poderia ser feito para renovar uma sociedade ou a própria Igreja, é deixar-se empolgar por tal idéia, esquecendo a caridade e a edificação do próximo, que são valores primaciais na Igreja. Aplicando-se ao trabalho, esse pretenso reformador não renova, mas divide a Igreja. Tal foi o caso de Tertuliano (+220 aproximadamente), o de Pedro Valdo e dos Valdenses, que, de maneira passional e exacerbada, pregavam novos rumos para a Igreja no século XII. No extremo oposto situam-se S. Francisco de Assis (+1226) e São Domingos de Gusmão (+1221), que, alheios ao fausto e à riqueza, souberam incentivar a santa pobreza na Igreja mediante a sua palavra caridosa e o seu teor de vida humilde e convicta. Escreve o Papa Pio XI a respeito:

"Toda reforma verdadeira e duradoura partiu, em última análise, da santidade de homens inflamados e movidos pelo amor a Deus e ao próximo. Generosos, prontos para escutar os apelos de Deus e para os realizar imediatamente em si, e no entanto seguros deles mesmos, porque seguros da sua vocação, cresceram até se tornarem as luzes e os renovadores do seu tempo. Onde, pelo contrário, o zelo reformador não brotou da pureza pessoal, mas era a expressão e explosão da paixão, ele confundiu em vez de esclarecer, destruiu em vez de construir, foi mais de uma vez o ponto de partida de aberrações mais fatais que os males que esperava ou pretendia remediar" (Encíclica Mit Brennender Sorge, ASS 1937, p. 154).

 

2)  Permanecer na comunhão com o Todo

Para não se desviar no caminho da sua missão, o reformador tem de manter um contato vivo com toda a Igreja, na qual atua o Espírito, penhor de comunhão entre todos os membros do Corpo de Cristo. Não aceitar este princípio fundamental foi a tragédia de grandes figuras que julgaram não poder ser fiéis à verdade a não ser prendendo-se à sua própria interpretação antes que ao sentido da Igreja.

 

3)  A Paciência tudo espera

 

Para que as reformas tenham êxito, é necessário saber esperar, respeitar o ritmo dos acontecimentos e das pessoas, reconhecer as limitações e imperfeições. Para que as reformas tenham êxito, são necessárias humildade e flexibilidade. Há verdades que só amadurecem depois de ter sido carregadas e nutridas por alguém no decorrer de uma vida de fidelidade e de serviço. Ademais é de notar que cada pessoa tem seu ritmo próprio de abertura e compreensão; enquanto alguns estão bem definidos, outros ainda hesitam; ora é preciso que aqueles não se afastem destes, nem escandalizem os seus irmãos mais lentos, mas, ao contrário, tudo façam para caminhar com eles, ajudando-os a desabrochar genuinamente em seu modo de raciocinar.

Todavia a paciência não deve ser confundida com a covardia, nem a espera com a preguiça. Assim como há impaciências excessivas, há paciências excessivas. Ambos os excessos podem ser caminho para a catástrofe.

 

4) Retorno a uma Tradição mais profunda, não adaptação mecânica

 

Para que a renovação enriqueça a vida da Igreja, há de ser executada na fidelidade à Tradição, que exprime a identidade da Igreja. Todo autêntico movimento de renovação tem dois componentes essenciais: de um lado, a volta às fontes e, de outro lado, a encarnação da fé das origens nas novas situações. Fica assim excluído o modismo ou o mudar por mudar, cego, atento unicamente aos convites do momento presente, sem consideração do passado.

 

Observa muito bem o Pe. Barreiro:

"A tradição não é uma realidade imutável, que se transmite e se recebe mecanicamente, como uma peça de museu. É, antes, uma herança e um depósito, uma realidade viva recebida dos antepassados que viveram a mesma fé, e que se mantém viva, porque é vivida e explicitada em contextos históricos novos, com expressões diferentes das do passado. A tradição não se identifica com a Igreja, mas é essencialmente eclesial, pois é constituída, transmitida, recebida, vivida no meio eclesial. Fora dessa eclesiosfera, torna-se estéril e morre" (p. 135).

 

3.3. A Crítica à Igreja

Neste capítulo VI do seu livro, o autor trata explicitamente daquilo que constitui o âmago do seu estudo. Começa referindo o problema.

 

1) Fato, causas e características da critica

 

Em nossos dias, tudo na Igreja é alvo de crítica: o que ela é e o que não é, mas deveria ser, o que ela faz e o que ela não faz, mas deveria fazer. A Igreja é criticada de fora e de dentro, pelos progressistas e pelos conservadores, pelas suas doutrinas e pelas suas práticas... Tal radicalidade envenena os fiéis, levando-os à irritação e à rebeldia ou ao desânimo e ao ceticismo.

Aliás, vivemos numa época em que o espírito crítico se mostra altamente aguçado. Não há instituições nem personalidades públicas imunes à crítica; a própria Igreja é questionada (o que, de resto, quer dizer que ela é uma realidade significativa no mundo de hoje). O fenômeno da crítica sistemática é, em grande parte, alimentado pelos meios de comunicação, que formam a opinião pública; a crítica torna-se assim uma atmosfera na qual o vírus da contestação é respirado e expirado e se espalha por contágio.

Os cristãos da Igreja antiga e medieval percebiam, não menos do que nós, as limitações da Igreja, e as criticavam. Mas isso não afetava a sua lealdade para com a Igreja nem redundava em desafeição ou em tentativa de viver a fé cristã fora da Igreja. Até para os católicos do século XIX era impensável apostatar da Igreja; "eles não só reverenciavam e amavam a Igreja, mas a viam como uma realidade incomparavelmente mais elevada e pura que todas as outras grandezas deste mundo; sentiam-se protegidos por ela e orgulhosos dela, e estavam dispostos a defendê-la contra todos os ataques" (p. 146).

 

2) A Crítica da Crítica

 

O autor observa que a onda de crítica atual é algo de ambíguo: pode significar desamor à Igreja, mas também pode ser a expressão de que a fé e a esperança na Igreja vivem e, por isto, os fiéis sonham com a Igreja como o lugar da reconciliação e da comunhão.

Notemos também que, se as acusações feitas à Igreja nos últimos decênios tivessem a consistência que os críticos pretendem, não haveria hoje na Igreja pedra sobre pedra. Por isto somos incitados a considerar na Igreja de nossos dias, ao lado de falhas, vários aspectos positivos; uma prova disto é a conceituação da Igreja por parte da opinião pública nos últimos anos. Com efeito; entre 29/10 e 3/11/1993, foi feito um inquérito a respeito da credibilidade das instituições públicas; ora, como a mais merecedora de confiança, foi apontada a Igreja Católica, com 77%, ficando os partidos políticos com 19% e os políticos com 15% (cf. Jornal do Brasil, 11/11/1993, p. 4). Em 1989, em semelhante pesquisa a Igreja ocupou também o primeiro lugar com 82% de credibilidade.

De resto, sempre houve e haverá na Igreja algo a criticar, mas nenhuma dessas críticas é capaz de abalar a existência e a essência da Igreja; pelo contrário, mostram a necessidade da mesma como sacramento do perdão e da reconciliação. A Igreja não é somente instituição; é um sacramento, que tem em Jesus Cristo a garantia de sua vitalidade fecunda. A Igreja também "somos nós"; assim quem critica, considere sua parte de responsabilidade nos problemas da Igreja; por ação ou por omissão, pode ele ser responsável pelas falhas que ele critica. As curas que não saem de um coração comovido e convertido, não convertem nem curam quem quer que seja.

 

3)  Direito, dever e limites da crítica na Igreja

 

Se, de um lado, a crítica construtiva e responsável é um direito que toca aos fiéis na medida em que a Igreja consta não de valores transcendentais, mas também de valores humanos, de outro lado deve-se reconhecer que é uma tarefa difícil e delicada; se mal conduzida, pode levar ao desânimo e à ruptura. Os autênticos profetas, que saibam apontar construtivamente os males, são raros.

 

Qual será então a atitude do cristão com relação à Igreja concreta? Deve criticar? Deve calar? Deve obedecer?

 

"O cristão deve amar a Igreja. Tudo o mais seguir-se-á da lógica do amor. A regra primeira e última é a que foi formulada por Agostinho na célebre passagem do seu comentário à primeira carta de São João: Dilige, et quod vis fac, 'Ama, e faze o que quiseres'. E Agostinho continua: 'Se calas, cala-te por amor; se falas, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor, pois dessa raiz só pode sair o que é bom' " (p. 161).

4)  Pressupostos, critérios e modos de proceder
a) Pressupostos

Para que a crítica à Igreja produza frutos de conversão e renovação, requerem-se algumas condições, das quais as mais importantes são:

 

- Seja a crítica inspirada pelo amor e a esperança

 

Todo verdadeiro amor faz sofrer. As críticas à Igreja derivadas do amor fazem sofrer, em primeiro lugar, aquele que as profere. A crítica à Igreja só se justifica como expressão do amor e da fidelidade ao Evangelho. Não é fácil saber se as críticas nascem dessas profundidades da vida espiritual; daí a necessidade de critérios para se averiguar a autenticidade das mesmas; um deles é a necessidade de morrer a si mesmo, como o grão de trigo; não é criticando tudo e todos, menos a si mesmo, que se alicerça e edifica a Igreja. Por isto os grandes construtores e reformadores da Igreja foram, são e serão sempre, os Santos. Nenhum "crítico profissional", nenhum especialista em crítica à Igreja converteu alguém para valer, dentro ou fora da Igreja. A figura paradigmática dessa atitude de santa contestação é S. Francisco de Assis, o poverello.

 

Acolher o amor de Jesus e amar a Jesus

 

O amor à Igreja há de estar alicerçado no amor a Jesus Cristo. A figura de S. Paulo, o maior edificador de igrejas, é absolutamente inexplicável sem o seu amor a Jesus Cristo.

 

Crer que o Espírito Santo não abandona a Igreja

 

Não somos nós os que tomamos a iniciativa de programar os tempos e lugares, os ritmos e os caminhos de renovação da Igreja. O "programador" é o Espírito Santo. A iniciativa é sempre dele, mas ele não age sem nós.

 

b) Tarefas e modos de proceder

É preciso que a crítica seja lúcida e honesta, levando em conta não apenas um aspecto da realidade, mas toda a realidade, sem paixão obsessiva nem agressividade. Ao lado de aspectos negativos, nota o Pe. Álvaro Barreiro, "encontramos cristãos que vivem de maneira tão profunda e corajosa a sua fé num ambiente tão hostil que eles nos lembram as comunidades cristãs dos primeiros séculos; ora essa riqueza e valentia da fé não são consideradas pelos críticos obsessionados" (p. 169).

É necessário também superar o (que há de falso problema no) confronto entre "conservadores" e "progressistas". A polarização é funesta; pode levar à cegueira espiritual. Na verdade, podemos relativizar as duas tendências; sempre existiram e existirão na Igreja; decorrem do modo limitado como nós, homens, encaramos a realidade, mas não são algo de mortal, desde que cada qual dos dois partidos não se detenha unilateralmente sobre as deficiências do seu oponente. O povo simples, que sente e ama a Igreja, não se identifica espontaneamente com alguma das duas formas extremadas de crítica, mas pode ser vítima tanto de uma como de outra.

O diálogo é o caminho mais indicado para aproximar aqueles que divergem sobre algum ponto da disciplina da Igreja.

 

3.4. A Fidelidade à Igreja

 

Como dito, a fé do cristão é a fé que ele recebe da Igreja. Daí a necessidade de conservar fidelidade à Igreja para conservar a reta fé.

 

1)  Fundamentação bíblico-teológica

 

São Paulo apresenta a Igreja como Esposa de Cristo, que é também Cabeça da mesma (cf. Ef 5,22-33). Em virtude do amor e da fidelidade de Cristo à Igreja, esta nunca perderá seu estado de Esposa; Cristo continua a alimentá-la e protegê-la, mantendo-a sempre bela até a consumação escatológica. Verdade é que essa beleza da Igreja é sempre ameaçada pela fragilidade de seus filhos, que necessitam de constante vigilância e purificação. A fraqueza que daí redunda, pode ser uma provação para a fé dos cristãos, mas é também motivo de alegria na fé. Com efeito; "sem as debilidades da Igreja não poderíamos experimentar a superabundância do amor de nosso Salvador" (p. 184).

"Se a olharmos com os olhos da fé, com um olhar que chegue até o fundo do seu mistério, não nos envergonharemos da debilidade e das debilidades da Igreja" (p. 184).

 

2)Sete Razões últimas de Fidelidade à Igreja (pp. 185-193)

 

Nesta última secção de sua obra, o autor, de certo modo, recapitula pontos importantes das páginas anteriores.

 

A fidelidade à Igreja é motivada por

a)   A fidelidade de Deus. O Senhor é, sim, o primeiro a realizar a fidelidade, ... a fidelidade à sua Igreja e aos homens. Por isto, da parte dos homens requer-se uma resposta à altura, ou seja, a fidelidade à Igreja, que o próprio Deus sustenta no desempenho de sua missão.

b)   Da Igreja recebemos o Cristo. Portanto é na Igreja que vivemos a nossa vida cristã. O que nos importa, é que a Igreja do século XX seja a própria Igreja dos primeiros tempos; ora não se pode provar que não o seja; ao contrário, deve-se dizer que ela continua, como Mãe, a ser a depositária e a transmissora do Evangelho de Jesus Cristo no mundo.

c)   "Ecclesia Mater". A Igreja é a matriz onde nasce, cresce e se torna fecunda nossa fé cristã. Por conseguinte, compete-nos amá-la e nela confiar. Em cada um de seus gestos está o amor inteiro da Igreja-Mãe.

 

O Pe. De Lubac desenvolve com muita ênfase o seu carinho filial devotado à Igreja:

"Pois bem, esta Igreja santa às vezes é abandonada por alguns que receberam tudo dela e que se tornaram cegos aos seus dons. Por vezes, em certos momentos como agora, zombam dela alguns que continuam a receber dela seu alimento. Um vento de crítica amarga, universal e sem inteligência chega por vezes a transtornar as cabeças e a apodrecer os corações. Um vento assolador, esterilizante, um vento destruidor, hostil ao sopro do Espírito. É então, quando contemplo o rosto humilhado de minha mãe, quando mais a amo. Sem me lançar a contra-críticas, saberei demonstrar que a amo na sua forma de escrava. E justamente na hora em que alguns ficam hipnotizados diante dos traços de um rosto apresentado como envelhecido, o amor me fará descobrir nela, com muito mais verdade, suas forças ocultas, suas atividades silenciosas, que constituem sua perene juventude, todas as grandes coisas que nascem no seu coração e que converterão a terra por contágio"  (Paradoja y misterio de la Iglesia, p. 25).

d) Comunhão dos Santos. A Igreja foi escolhida por Deus para ser um "povo santo", isto é, um povo que vive dos grandes dons que, através dos sacramentos, são concedidos a cada cristão. Esses dons frutificaram numa multidão de fiéis que viveram heroicamente a sua vocação em todas as camadas da sociedade e em todos os tempos.

e)  Igreja dos pecadores. Paradoxalmente a Igreja sem mancha nem ruga é também a Igreja dos pecadores. Isto não abala a fidelidade eclesial, pois é justamente na fragilidade dos homens da Igreja que brilha com mais esplendor a glória da graça de Deus. A fraqueza dos membros da Igreja é prova de que é Deus quem a sustenta, e não o talento das criaturas.

f)   A Igreja criticada e desprezada. Uma Igreja que deixasse de ser desprezada e humilhada, não seria mais a Igreja de Jesus Cristo condenado e crucificado; não seria mais a Igreja dos Apóstolos perseguidos e martirizados; não seria mais a Igreja da loucura da Cruz. Uma Igreja cujas estruturas "democráticas" não incomodassem mais ninguém, teria perdido sua identidade evangélica.

g)  Igreja depositária e servidora do Evangelho. Somente na Igreja temos acesso a Jesus; somente na Igreja permanece autêntico o Evangelho. Mesmo que muitos cristãos sejam infiéis ao Evangelho, a igreja continua anunciando o mesmo Evangelho, e transmitindo a vida de filhos de Deus aos que a procuram sinceramente. Escreve o Pe. De Lubac: "A Igreja, hoje mesmo, está-me dando Jesus. Explica-me, ensina-me a vê-lo, conserva para mim sua presença. Dizer isto é dizer tudo. Que poderia eu saber de Jesus, que vínculo haveria entre nós dois sem a Igreja?" (citado por Barreiro à p. 195).

 

 

COMENTANDO BREVEMENTE O LIVRO

 

A obra do Pe. Barreiro merece ser lida na íntegra por todos os cristãos e quiçá... por não cristãos. O autor procura ser sincero e realista; estudou a fundo a temática da Igreja em nossos dias. Conseqüentemente reconhece falhas humanas na Igreja, como sempre foram reconhecidas pelos próprios Santos. Admite a legitimidade da crítica à Igreja no intuito de se levar remédio a tais falhas. Mas A. Barreiro distingue bem crítica responsável e construtiva de crítica passional e obsessiva; critica os críticos "profissionais" ou "especialistas" em crítica. Salienta que a autêntica crítica é inspirada por amor filial à Santa Mãe Igreja; este amor, no decorrer da obra, é freqüentemente salientado; deriva do fato de que o próprio Cristo ama a sua Igreja-sacramento e lhe assegura um ministério indefectível em favor de todos aqueles que a procuram de coração sincero.

 



[1] Álvaro Barreiro, Povo Santo e Pecador. A Igreja Questionada e Acreditada. Coleção "Teologia e Evangelização" n? 11. — Ed. Loyola, São Paulo 1994, 135 x 210 mm, 211 pp.


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