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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 554/agosto 2008

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MORREU DOM ESTÊVÃO

Pe. Paschoal Rangel

 

Pequeno, franzino e feio, Dom Estêvão Bettencourt era um gigante na hora da luta por Deus, pela Igreja e pelos seus irmãos, os homens. Quando penso nele, duas frases me vêm correndo à memória. Uma do Tristão de Athayde em seu livro "A voz de Minas": "O mineiro é, antes de tudo, um feio". A outra, de Euclides da Cunha em "Os Sertões", da qual a primeira é apenas uma paródia: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte." Feio e forte, Dom Estevão foi um teólogo católico, um biblista competente, um catequista e apologeta sempre na brecha, sempre preparado para dar as razões da nossa esperança, como São Pedro nos mandou fazer.

De saúde precária desde jovem, a doença não lhe tirou a disposição para o estudo e o trabalho. Dele se dirá, em termos reais, que levou uma vida toda marcada peio lema de sua Ordem; ora et labora (reza e trabalha) com aplicação beneditina. Começou seus estudos em Paris, onde viveu dos quatro aos quase nove anos. Regressando ao Brasil, continuou o curso no Colégio S. Bento (Rio de Janeiro). A convivência com os beneditinos acabou por levá-lo a consagrar a vida totalmente a Deus segundo o carisma dos monges. Seus superiores religiosos perceberam logo nele não só a aplicação aos estudos, mas seu talento intelectual. Dominava o grego, o latim, o francês, o inglês e o alemão.

Enviaram-no para Roma, a fim de doutorar-se em Filosofia. Obtida a láurea, os Superiores de Roma pediram ao Abade do Rio (na época, o notável Dom Tomás Keller) licença para que ele se doutorasse também em Teologia. Estavam convencidos de que Dom Estêvão poderia prestar um grande serviço à Igreja do Brasil como teólogo, como intelectual.

Era o tempo da II Grande Guerra. Digladiavam-se ferozmente as ideologias: os totalitarismos (Comunismo, Nazismo, Fascismo) e a democracia se enfrentavam, não só nos campos de batalha, mas num mundo esquartejado ideologicamente (le monde casse), em que as filosofias disputavam povos e pessoas, na batalha das idéias. O marxismo conquistava as Universidades, inclusive as católicas. A Igreja precisava de quadros bem preparados para se defrontar com seus adversários.

Dom Estêvão foi preparado e se preparou para isso. E assim, no ano de 1945, estava pronto para voltar ao Brasil. E voltou imediatamente. Tinha 26 anos apenas. Mas encontrou o seu querido Mosteiro de São Bento, no Rio, num dos seus momentos de maior vitalidade. Dom Abade Tomás Keller vivia um instante luminoso. Uma porção de jovens universitários convertidos e generosos tinham deixado o "mundo" e um punhado de jovens médicos, advogados, engenheiros haviam escolhido o Mosteiro para viver sua entrega a Deus, descoberto através do Movimento Litúrgico. Nesse ambiente, Dom Estevão começou entusiasticamente sua missão no Brasil. Foi professor, catequista, escritor, pregador. Não vai caber aqui nem a simples relação de sua atividade.

Só gostaríamos de chamar a atenção para o admirável trabalho de catequista, não só através do Curso por correspondência "Mater Ecclesiae", mas da publicação da revista "Pergunte e Responderemos", cuja coleção é uma verdadeira enciclopédia, redigida só por ele. Aí, ele respondia às questões mais dispares sobre Teologia Dogmática e Moral, sobre exegese bíblica. Comentava os livros polêmicos que estavam nas listas dos mais vendidos. Sua capacidade de ler e se informar era espantosa. Os 89 anos pareciam não quebrantar sua inteligência, nem a memória, nem a força de trabalho.

Aquele caquinho de gente era ainda, foi até o fim, um homem de verdade. Um lutador, um "soldado de Cristo". Tinha fama de tradicionalista, de conservador. Não dá para comentar isto aqui hoje. Mas leiam os seus dois livros mais elaborados: "Para entender o Antigo Testamento" e "Para entender os Evangelhos" e vejam, por vocês mesmos, se ele não merece respeito.

(Este artigo foi publicado originalmente no jornal "O Lutador", de Belo Horizonte, de 1 a 10 de maio de 2008).


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