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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 529 – julho 2006

Ficção x realidade:

 

"O PERFIL DO PADRE"

 

Em síntese: Há quem procure enxovalhar a imagem do padre apontando um clero descrente cumprindo funções por interesse de status na sociedade ou de economia. - Bem diferente é a situação dos padres no Brasil de acordo com uma investigação objetiva e científica da realidade; é evidente que a grande maioria dos clérigos do Brasil vive fielmente a vocação sacerdotal e está devidamente integrada na Igreja.

 

Acabamos de citar a apostila do pastor Joel Santana, que agride até mesmo caluniosamente a Igreja Católica, baseando-se em notícias falsas ou mal transmitidas. Mais um espécime de quanto este autor não merece crédito é a secção de sua apostila em que fala do clero. Propõe autêntica ficção, destituída de todo fundamento, ... ficção à qual se contrapõe um inquérito recente, do qual resulta a evidência de que o clero católico está intimamente identificado com sua vocação.

 

A seguir, proporemos a imagem fictícia caluniosa e a imagem real dos padres no Brasil.

 

1. A ficção tendenciosa

 

Segundo Joel Santana, há quatro tipos de padre:

 

1°) Os que já concluíram que o Catolicismo é falcatrua, mas não o deixam, porque estão tirando proveito disso. Estes constituem a grande maioria, supomos nós.

2o) Os que já concluíram em suas mentes que o Catolicismo é antibíblico e incoerente, e suspeitam da infalibilidade papal, mas também suspeitam da autenticidade de suas conclusões. Temem estar equivocados e por isso preferem continuar submissos ao Vaticano. Preferem trair suas consciências a romperem com o Papa. Embora não sejam a maioria, há grande número de padres assim.

3o) Os que creem piamente que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo, que fora dela não há salvação, que o protestantismo é herético, que o Papa é o sucessor do apóstolo Pedro, que portanto ele manda e não pede, e que quem rejeitar o que o Papa prega irá para o inferno. Há milhares de padres assim, porém são a minoria. Estes estão dispostos a tudo. Eles realmente creem que obedecer ao Papa incondicionalmente é o mesmo que obedecer a Deus. Eles creem no que pregam e estão dispostos a tudo, tudo, tudo. Cuidado! Eles continuam tão perigosos quanto os clérigos da famigerada "Santa Inquisição".

4°) Os que romperam com o Catolicismo, mas não querem romper com a Igreja Católica (isto é, são católicos de direito, mas não o são de fato), por acreditarem que através do Evangelho autêntico que pregam podem levar outros católicos à salvação em Cristo. Há até os que creem na possibilidade de conseguirem mudara Igreja Católica. Contudo, como bem dizia o ex-Padre Hipólito Campos, "Roma sempre a mesma", ou seja, essa "Igreja" é incorrigível. O que os padres e leigos que descobrem a verdade, devem fazer, é abandonar essa "Igreja" às pressas. Como já informamos, o ex-Padre Aníbal também tentou mudar essa seita; porém, após três anos malhando em ferro frio, desistiu e se vinculou a uma igreja evangélica. Façam o mesmo já! Obedeçam o que diz Apocalipse 18, 4: "...Sai dela povo meu...". Fora dessa seita o argumento de vocês será mais forte.

 

Está é a ficção. Vejamos agora a realidade.

 

2. A autêntica face da realidade

 

Em 2005 foi publicado pela editora Loyola o resultado de uma pesquisa realizada a propósito do clero no Brasil, aplicando-se os métodos mais recentes da investigação científica. O trabalho foi organizado de maneira objetiva e destituída de preconceitos pela Dra. Kátia Maria Cabral Medeiros, psicóloga, e pela Dra. Sônia Regina Alves Fernandes, socióloga, sob o patrocínio do CERIS (Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais), filiado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. -Eis os principais dados assim colhidos:

 

"Vivência e prática religiosa

 

A pesquisa procurou identificar os motivos que levaram os pesquisados à opção pela presbiterato e a sua avaliação atual dessa opção, assim como mapear sua vivência e prática religiosa a partir dos aspectos ligados à espiritualidade e à atuação pastoral.

 

Opção presbiteral

 

Os padres foram solicitados a assinalar a principal motivação que os levou à opção sacerdotal, a partir de um rol de 13 opções. A grande maioria assinalou a opção "serviço a Deus e aos irmãos" (58%). Todas as demais opções tiveram índices abaixo de 10%, sendo a única com esse percentual a que aponta a "desordem ou a falta de estrutura familiar". As opções "amor aos pobres" e o "desejo de lutar contra as injustiças sociais" tiveram índices baixos, respectivamente 5% e 2%, o que demonstra que a "opção preferencial pelos pobres", compromisso da Igreja conclamado em Puebla (1979), não tem sido força motriz para as vocações. É interessante observar que duas opções não foram escolhidas nem pelo clero diocesano nem pelo religioso, ou seja, "o desejo de viver uma vida santa" e a "possibilidade de ampliar seus conhecimentos".

 

Quase a totalidade do clero (94%) ao avaliar a própria opção, confirmaria sua opção presbiteral. O desejo de mudança de opção foi sinalizado por 4% do clero diocesano, que optaria pelo serviço à Igreja como leigo (2%), ou como diácono (1%) ou, ainda, pelo casamento (1%); entre o clero religioso todas essas opções receberam indicação de 1% do seu contingente, em cada uma delas.

 

Espiritualidade

 

Um traço característico na opção pela vida religiosa é o compromisso com a vivência da espiritualidade que deve servir de fundamento para a ação evangelizadora. Nas últimas décadas, com o aumento populacional e o crescimento dos desafios pastorais, o ativismo e a sobrecarga de compromissos na vida dos sacerdotes muitas vezes têm sido apontados como obstáculos ao cultivo da espiritualidade.

 

A espiritualidade tem sido considerada como força motriz para 57% do clero, sendo que 34% apontaram a necessidade de ser mais bem cultivada. Entre o clero diocesano e o religioso (1) encontramos índices diferenciados quanto à avaliação da vivência da espiritualidade: os dados expressam que, enquanto 40% do clero diocesano acredita que a espiritualidade precisa de ser mais bem cultivada, a proporção dos que concordam com essa afirmação cai para 27% entre os religiosos. A consideração da espiritualidade como força motriz é mais indicada entre os religiosos (67%) do que entre os diocesanos (52%).

(1) Clero religioso é o que vive sob uma Regra conventual.

As celebrações eucarísticas são consideradas como um dos principais valores que animam a vida espiritual dos padres (67%). Outros valores que os padres consideram importantes são as atividades que exercem em seu ministério (56%), assim como o ideal que os motivou para o ingresso no sacerdócio (46%). As orações, meditações e leituras individuais são assinaladas por 40%.

 

Os três primeiros valores que animam a vida espiritual dos sacerdotes apontados acima são percentualmente semelhantes tanto no clero diocesano quanto no religioso. As diferenças de valoração se encontram no que diz respeito às orações, meditações e leituras individuais que servem como impulso para a vida espiritual dos religiosos (51%) mais do que aos diocesanos (34%); as amizades dentro da comunidade paroquial são mais apontadas pelo clero diocesano (22%) do que pelo religioso (14%) assim como o relacionamento com o clero (diocesano, 16%, religioso, 4%). Já a luta por justiça e igualdade social recebe uma valorização percentualmente semelhante entre os dois cleros (diocesanos e religiosos, 25% e 22% respectivamente).

 

 

Segundo Lorscheider o presbítero deve ser um "homem de oração: interiorizar a Palavra de Deus dentro do contexto em que vive e exerce o seu ministério". De acordo com a pesquisa, a prática da oração é vivenciada por 96% do clero, sendo que 2% dos padres diocesanos não a possuem e, entre os religiosos, 1%. As condições que se tornam mais favoráveis para a prática da oração, segundo os presbíteros, são as celebrações eucarísticas (74% entre os diocesanos e 72% entre os religiosos), a Liturgia das Horas (51% entre os diocesanos e 46% entre os religiosos), e os momentos comunitários (37% entre os diocesanos e 41% entre os religiosos).

 

A vivência diária da espiritualidade entre os padres está marcada principalmente pela missa (87%), Liturgia das Horas (64%), meditação (48%), leitura de cultivo espiritual (44%), oração do terço (42%) e leitura orante da Palavra de Deus (41%).

 

Atuação pastoral

 

Dos padres informantes, 70% estão atuando em pastorais diversas, 22% estão envolvidos em atividades administrativas, 14% na pregação ou direção espiritual e/ou em atividades missionárias e 13% em formação de seminaristas. A presença dos padres nos movimentos sociais é muito pequena (8%), assim como são poucos os que trabalham como assessores (8%) e/ou estão atuando como professores de colégios e universidades (7%) e/ou na pesquisa teológica (4%).

 

Encontramos maior presença dos diocesanos nas atividades pastorais (76%) do que da parte dos religiosos (60%); em atividades administrativas, são 25% os diocesanos, enquanto a participação dos religiosos é de 17%; por outro lado, nas atividades missionárias os religiosos estão em maior número (21%) do que os diocesanos (11%).

 

Apenas no âmbito eclesial

 

Dos padres informantes, 66% têm como maior atividade no campo eclesial a atuação paroquial e aproximadamente 15% indicaram que atuam em diversas atividades eclesiais de maneira igualitária. Poucos são os que atuam em CEBs (5%) e em outros movimentos (1%).

 

A maioria dos padres diocesanos tem na paróquia sua atividade principal (71%), 11% deles atuam em várias atividades eclesiais de maneira igualitária, e não houve menção de atuação no Movimento de Renovação Carismática e/ou Conferência dos Religiosos do Brasil/Comissão Nacional do Clero. Entre os religiosos, 58% atuam em paróquia, sendo que 22% informaram que trabalham em diversas atividades, tais como movimentos, organismos diocesanos, arquidiocesano e regionais de maneira igualitária.

 

Vivência sacerdotal

 

Realização pessoal não é algo que possa ser medido por números e índices. Entretanto, foi solicitado aos presbíteros que dessem uma nota para sua realização pessoal no sacerdócio a fim de servir como termômetro à sua vivência pessoal da opção presbiteral. A nota média dada pelo clero foi 8,2, sinalizando uma boa avaliação da vivência pessoal dos presbíteros, ainda que não seja plena.

Avaliando a motivação, a dedicação e o entusiasmo no ministério, 60% do clero sente-se motivado, 32% muito motivado e 5% pouco motivado. As opiniões são semelhantes tanto para o clero religioso quanto para o diocesano" (pp. 22-25).

 

3. Conclusão

 

Após considerar o procedimento de J. Santana, que ataca na base de preconceitos e inverdades, pergunta-se: que autoridade tem ele para acusar a Igreja Católica? É assim que se prega o Evangelho de Cristo, "o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14, 6)? Seria necessário que Santana investigasse a veracidade das acusações que ele formula, para evitar fazer o papel de papagaio, que repete cegamente o que dizem os ignorantes. A "evangelização" na base da mentira não é obra de Cristo, mas de Satanás, que é o pai da mentira (Jo 8, 44).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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