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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 529 – julho 2006

Escritos gnósticos:

 

O EVANGELHO DE MARIA MADALENA

 

Em síntese: As páginas seguintes reproduzem o chamado "Evangelho de Maria Madalena"; do qual só existem fragmentos. O texto é muito significativo, pondo em relevo o dualismo gnóstico e o presumido relacionamento de Maria Madalena com Jesus e os Apóstolos, relacionamento inspirado por tendências não cristãs.

 

Existem duas categorias de apócrifos: os de origem cristã, respeitosos para com Jesus, e os de origem gnóstica. O gnosticismo foi uma corrente de pensamento dualista (a matéria seria má, e o espírito bom); queria transmitir suas concepções mediante escritos aparentemente bíblicos, como seriam os Evangelhos.

 

Na categoria dos apócrifos gnósticos encontra-se o Evangelho de Maria Madalena, que só nos foi conservado em fragmentos. O Pe. Lincoln Ramos preparou uma tradução portuguesa desses fragmentos acompanhada de notas explicativas (*) ([1]), que vai, a seguir, reproduzida após breve introdução na temática.

 

A importância do apócrifo está no fato de que Maria Madalena está muito em voga nos dias atuais sem que se tenha noção da origem espúria de quanto se diz a respeito dela.

 

Introdução

 

O Evangelho de Maria Madalena chegou até nós em dois fragmentos:

 

-   o primeiro fragmento está redigido em língua copta (idioma dos antigos egípcios) e se encontra em Berlim;

-   o outro fragmento é redigido em grego e deve datar do século II. ao passo que o anterior é do século V. Acha-se na John Rylands Library de Manchester (Inglaterra).

 

Eis os respectivos textos:

 

I. PAPIRO 8502 de BERLIM

I PARTE

 

1) Depois de dizer isto (1), o Bem-aventurado ([2]) os saudou a todos, dizendo:

 

"A paz ([3]) esteja convosco! Tende a minha paz! Ficai atentos para que ninguém vos iluda com palavras como estas: ‘Vede aqui!’ ([4]) ou ‘Vede ali!’ Na realidade, o filho do homem está dentro de vós. Segui-o! Quem o procura ([5]) o encontra.

2) Ide, portanto, e pregai ([6]) o evangelho do reino. Não acrescenteis nenhum preceito àquilo que vos ordenei; não vos dei nenhuma outra lei, como um legislador, para que não tenhais dúvidas sobre o que vos ensinei". Ditas estas palavras, retirou-se.

3) Eles ficaram tristes e choraram muito. Disseram: "Como podemos ir aos gentios ([7]) e pregar-lhes o evangelho do reino do filho do homem? Nunca foi anunciado entre eles. Devemos nós anunciá-lo?"

4) Levantou-se, então, Maria ([8]), saudou a todos e disse-lhes: "Não choreis, irmãos, não fiqueis tristes nem indecisos. A sua graça estará com todos vós e vos protegerá. Louvemos antes a sua grandeza, por nos ter ensinado e nos ter enviado aos homens".

Falando deste modo, Maria os reanimou e eles começaram a preparar-se para seguir as palavras do Salvador.

 

II PARTE

 

A ascensão da alma presa na matéria e nas trevas para o reino da luz é detida por obstáculos (forças), que são como que os fiscais da estrada.

 

5. Disse a cobiça: ([9]) "Não te vi ([10]) quando estavas lá embaixo, agora te vejo, quando te diriges para o alto. Como te ocultaste, se tu me pertences?"

Respondeu a alma: "Eu te vi, ao passo que não me viste, nem me conheceste. Tu me serviste como uma veste, mas não me reconheceste".

Dizendo isto, a alma se afastou alegre e exultante.

 

6. Aproximou-se a terceira potência que se chama ignorância. ([11]) Perguntou à alma: "Aonde vais? Estás presa na maldade, mas estás presa".

Respondeu a alma: “Porque me vens julgar, ao passo que eu não fiz qualquer julgamento? Estive presa, se bem que não me considerasse presa, Não fui reconhecida, mas reconheci que todas as coisas estão soltas, quer as terrestres, quer as celestes”.

 

7) Depois que deixou para trás a terceira potência, a alma elevou-se ao alto e viu a quarta potência. Tinha sete formas. ([12]) A primeira é a obscuridade; a segunda, a cobiça; a terceira, a ignorância; a quarta, a comoção da morte; a quinta, o reino da carne; a sexta, a prudência insensata; e a sétima é a sabedoria irascível. Estas são as sete potências da ira.

 

8) Perguntaram à alma: "Donde vens, assassina ([13]) dos homens? Para onde te diriges, vencedora dos espaços?" ([14])

 

9) A alma respondeu: "O que me prendia está morto, o que me cercava foi afastado, minha cobiça está aniquilada e minha ignorância está morta. De um mundo fui libertada por outro mundo; de uma imagem por outra imagem superior; da cadeia da incapacidade de conhecer aquilo cuja existência é temporalmente limitada fui libertada pelo tempo no qual alcançarei em silêncio a quietude até o tempo do justo momento do eon". ([15])

 

10) Dito isto, Maria calou-se. Até aí lhe falara o Salvador. Mas André replicou e perguntou aos irmãos: "Que pensais de tudo o que ela disse? Eu, pelo menos, não creio que o Salvador tenha dito tais coisas. Esta doutrina é contrária aos seus ensinamentos".

 

11) A propósito destas mesmas questões, também Pedro replicou, interrogando sobre a atitude do Salvador: "Porventura ele falou a uma mulher e em segredo, em vez de falar a nós e às claras? Devemos todos mudar de opinião e ouvi-la? Por acaso ele a preferiu a nós?"

 

12) Maria, chorando, disse a Pedro: "Pedro, meu irmão, em que pensas? Crês que isto é imaginação minha ou que deturpei as palavras do Salvador?"

 

13) Levi disse a Pedro: "Tu és sempre impetuoso, ó Pedro! Vejo que te voltas contra esta mulher, como se fosse inimiga.

 

14) Se o Salvador a julgou digna, quem és tu para desprezá-la? É certo que o Salvador a conhece bem e que, por isso, a estimou mais do que a nós. Devemos antes envergonhar-nos, revestir-nos do homem perfeito, cumprir o que nos foi mandado e anunciar o evangelho sem tirar ou acrescentar qualquer outro mandamento, fora daquilo que nos disse o Salvador". ([16])

 

15) Depois que Levi disse estas palavras, eles partiram para anunciar e pregar. Evangelho segundo Maria. ([17])

 

 

I. FRAGMENTO P. RYLANDS III 463

 

1).... "o restante do caminho, do momento justo, do tempo, do século, do descanso em silêncio". (1)

 

Depois de dizer isto, Maria (2) calou-se, como se o Salvador lhe tivesse falado somente até ali.

 

5) Diz, então, André:

 

"Irmãos, que vos parece do que foi dito? Eu, de minha parte, não creio que o Salvador tenha dito estas coisas, pois parecem

 

10) não estar de acordo com seu pensamento".

 

Diz Pedro:

"Será que o Senhor, interrogado a respeito destas questões, iria falar a uma mulher ocultamente e não em público para que

 

15) todos escutássemos? Por acaso quereria apresentá-la como mais digna do que nós?"             do Salvador. ([18])

 

20) Levi diz a Pedro: "Tens sempre, ó Pedro, a cólera a teu lado e, ainda agora, discutes com esta mulher, defrontando-te com ela. Se o Salvador a julgou digna, quem és tu para desprezá-la?

De qualquer modo, é certo que Ele lhe dedicou afeição, desde

 

25) que a viu. Envergonhemo-nos, pelo contrário e, revestidos do homem perfeito, cumpramos o que nos foi ordenado. Preguemos o

 

30) evangelho sem restringir nem legislar ([19]), mas exatamente como disse o Salvador".

 

Depois de pronunciar estas palavras. Levi seguiu seu caminho e pôs-se a pregar. Evangelho segundo Maria. ([20])

 

CONCLUSÃO

 

A leitura dos textos aqui transcritos evidencia que o íntimo relacionamento de Madalena com Jesus e os Apóstolos é de origem não cristã; não corresponde às reminiscências que os cristãos tinham de Jesus, mas são derivados de premissas heterogêneas, de modo que não podem ser tidos como notícias autênticas e fidedignas.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



* Ver Fragmentos dos Evangelhos Apócrifos, editados pelo Pe. Lincoln Ramos, Editora Vozes, Petrópolis 2002 (7a edição) 212 pp. Cf. pp. 139-144.

1) Depois de dizer isto. Não se conservou a parte inicial do papiro. Devia conter doutrinas gnósticas atribuídas a Jesus

[2] Bem-aventurado. O nome de Jesus não aparece no texto. É substituído por "o Salvador" ou "o Bem-aventurado".

[3] A paz. Cf. Jo 20, 19.21.26

4)  Ficai atentos... Vede aqui. Cf. Mt24, 4.5.23; Mc 13, 5.6.21; Lc 17, 21.

[5] Quem o procura. Cf. Mt 7, 7

6) Ide... pregai. Cf. Mt 28, 19.

 

7) Aos gentios. Supunham que a salvação fosse só para os judeus. Tinham, portanto, dificuldade em compreender que a pregação se estendesse a outros povos.

8) Maria. Maria Madalena.No texto grego a forma é “Mariamme”.

[9] Disse a cobiça. A segunda parte expõe doutrinas gnósticas sobre a natureza do homem e seu destino. A primeira força ou potência é a obscuridade, como se vê no n° 7. As diversas potências pretendem reterá alma no caminho da luz. A alma, como centelha divina, se esquiva e se liberta do mundo material.

[10] Não te vi. A cobiça argumenta que a alma pertence ao mundo e aqui deve permanecer. A alma responde que a cobiça não a conheceu, isto é, não compreendeu sua natureza luminosa, ao passo que ela compreendeu a natureza material da cobiça.

[11] Ignorância. A terceira força argumenta que a alma, embora seja uma centelha divina, está presa ao corpo. A alma responde que aquilo que é material se dissolve e, portanto, a força material não tem poder sobre ela.

[12] Sete formas. Pelo texto a quarta potência abrange as outras, que são apenas suas formas. Enuncia os nomes, mas não esclarece o papel ou a natureza de cada uma.

[13] Assassina. Elevando-se, matou o homem terrestre.

[14] Vencedora dos espaços. Porque conseguiu transpor os lugares ou espaços em que as potências tencionavam retê-la.

[15] Eon. Na doutrina gnóstica os "eons" eram seres intermediários entre Deus e a matéria. Em sentido geral, como aqui, pode designara "duração da vida"ou a "eternidade".

16 André... Pedro... Maria... Levi. O autor apresenta (n° 10-14) as objeções de André e de Pedro. Maria responde entre lágrimas e Levi com veemência.

[17] Evangelho segundo Maria. É o título da obra. Ver nota 5 ao Papiro Rylands.

1 O restante... em silêncio. Este final dos supostos ensinamentos de Jesus assemelha-se à conclusão do que se encontra exposto na segunda parte do Papiro de Berlim. Deve representar etapas da vida, conforme o pensamento gnóstico.

2 Maria. Maria Madalena. No texto grego a forma é "Mariamme".

[18]... do Salvador. Há uma lacuna no texto grego. Pode ser preenchida com o que se lê na versão copta: "Maria, chorando, diz a Pedro: Pedro, meu irmão, em que pensas? Crês que tudo isto é imaginação minha ou que deturpei as palavras do Salvador?"

[19] Sem restringir nem legislar. Sem suprimir nem acrescentar qualquer coisa.

[20] Evangelho segundo Maria. Desta expressão provém o título dado a estes fragmentos. Não deve ser confundido com a lenda sobre o perfume de Maria Madalena, que se encontra no relato etíope de "Os Milagres de Jesus".

Santos Otero, seguindo Roberts, considera as palavras "o evangelho de Maria" como objeto direto e traduz: "pôs-se a pregar o evangelho segundo Maria". É preferível, segundo Morali, considerar como título da obra.


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