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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 519 – setembro 2005

 

Manipulação da linguagem:

 

"MENSALÃO, EMBARRIGAR, DESENCRAVAR UMA UNHA"

 

Em síntese: Em todos os tempos os homens procuraram disfarçar ideias novas ou mesmo revolucionárias mediante uma linguagem própria que cria um ambiente receptivo da novidade, sem que as pessoas receptoras tenham consciência de que estão sendo invadidas e transformadas interiormente. Isto ocorre ainda hoje no Brasil, onde explodiu a crise política de junho 05 e na área da sociologia, em que vários vocábulos são usados em sentido ambíguo para dissimular certas concepções relativas à família.

 

A revista VEJA, edição de 22/06/05, p. 114, publicou um ensaio de Roberto Pompeu de Toledo que aponta o vocabulário próprio dos políticos desejosos de se dissimular na crise governamental de junho pp. -Algo de semelhante ocorre na sociologia; procura-se destruir a família mediante o uso de vocábulos ambíguos capazes de modificar a opinião pública sem que esta perceba estar sendo manipulada.

 

O presente artigo se interessará especialmente por esta segunda área.

 

1. Manipulação da linguagem: que é?

 

Existem dois modos de constranger as pessoas a agir contrariamente às suas próprias convicções, inclusive no plano ético:

 

-   o uso da força, que é incômodo, pois encontra resistência e, além do mais, exige constante vigilância e pressão sobre os subordinados;

 

-   a propaganda sistemática, que, mediante manipulação de palavras e dialética falaciosa, procura incutir novas convicções nos seus ouvintes. Quem aceita (geralmente de modo inconsciente) essas sugestões, passa a agir de acordo com elas).

 

Tal manipulação fere a dignidade da pessoa humana, pois a trata como objeto a ser controlado e dominado. Ademais o ser humano aspira naturalmente à verdade e à honestidade de pensamento, que são antítese de semi-verdades ou de inverdades.

 

É grande o alcance da manipulação verbal, a tal ponto que o filósofo racionalista francês Voltaire notava ao escrever: "Mintam, mintam! Sempre ficará alguma coisa!". O abuso da palavra para enganar sorrateiramente já era denunciado por Platão, que se insurgia contra os sofistas, gente bem paga e aplaudida, profissionais da arte da Retórica, capazes de transformar qualquer coisa má em boa e vice-versa ou de fazer crer que o preto é branco.

 

Sejam, a seguir, examinados alguns casos concretos de desvio ou distorção da linguagem.

 

1.1. Igualdade

 

Este conceito bem entendido significa que todos os homens e mulheres são da mesma essência ou natureza; são viventes racionais e, por isto, gozam de iguais e inalienáveis direitos, como o direito à vida, o direito à liberdade, o direito à pesquisa da verdade... Dito isto, não se pode deixar de afirmar que nem todas as pessoas podem ser tratadas do mesmo modo; há diferenças que sobrevêm à igualdade de natureza, ... diferenças de talentos, aptidões e habilitações para assumir tarefas na sociedade. Ignorar essas diferenças e tratar a todos do mesmo modo significa impor-lhes uma "camisa de força". Donde resulta que todos os seres humanos são iguais entre si, mas não são idênticos; deve cada qual ser considerado na sua singularidade. Principalmente a diversidade dos sexos, que se sobrepõe à igualdade de natureza, exige ser respeitada para o bem comum; o varão não é apto à maternidade física nem a mulher foi feita para o combate violento.

 

1.2. Democracia

 

É paradoxal a história da palavra "democracia". No século XIX significava a antítese do regime constituído ou da monarquia; implicava subversão tendente à anarquia. No século XX tornou-se a expressão do governo ideal ou do governo do povo (demos, em grego) para o povo mediante a autoridade eleita pelo povo. Nos últimos tempos, porém, há quem deseje significar por "democracia" uma comunidade "anti-hierárquica e de fraternidade universal", "comunidade radical em que as decisões são tomadas com a participação de toda a comunidade" (Leonardo Boff, em JORNAL DO BRASIL, 23/06/05). A palavra grega ekklesía (donde se faz "igreja" em português) designaria esse tipo de democracia radical ou significaria "assembleia popular"; "escolheu-se este nome (ekklesía ou igreja) para distinguir a democracia cristã de outras expressões religiosas da época" (L. Boff, ibd.).

 

Ora tem-se nesse arrazoado um jogo de engenharia verbal ou de tendencioso recurso à linguística. Na verdade, o vocábulo ekklesía significa em grego convocação; foi aplicado à sociedade fundada por Cristo para enfatizar que esta corresponde à convocação do povo de Deus disperso entre as nações pagãs, convocação prometida pelos Profetas de Israel para os tempos messiânicos. Este genuíno significado de ekklesía nada tem de anti-hierárquico ou de político. A Ekklesia que Cristo chama "minha Igreja" tem seu governo assistido pelo próprio Senhor, como se depreende dos textos de Mt 16, 16-19 e Mt 18, 18.

 

Os Apóstolos (incluindo Pedro) e Pedro a sós, mas subentendida a comunhão com a Igreja, têm o poder de ligar e desligar, poder que é ratificado no céu ou confirmado pelo próprio Deus; tal poder é assistido pelo Espírito Santo enviado por Cristo como outro Paráclito.

 

É, pois, dialética inconsistente a conclusão de L. Boff no artigo citado: "É importante resgatarmos a memória revolucionária escondida na palavra igreja".

 

1.3.Gênero ou gender

 

Gender seria o sexo masculino ou feminino caracterizado não pela Biologia, mas pela cultura nas diversas fases da história. Ser masculino e ser feminino seriam procedimentos que se aprendem na família e na escola de cada povo; em consequência a mesma pessoa que desempenha as funções de homem poderia executar igualmente o papel de mulher; também decorre daí que o mesmo indivíduo pode optar indiferentemente pelo heterossexuaiismo, pelo homossexualismo, pelo lesbianismo ou até pelo transexualismo. Não haveria, na origem de cada ser humano, um menino ou uma menina, mas um indivíduo.

 

A palavra gender começou a se difundir na década de 1960 a 1970. Se a Biologia conhece apenas dois sexos - o masculino e o feminino - o vocábulo gender, como no idioma de vários povos, admite três variantes: o masculino, o feminino e o neutro, independentemente das diferenças morfológicas... É a sociedade, com os seus modelos e estereótipos, que atribui a cada indivíduo as suas funções. Por isto pode-se usar o binômio "sexo biológico" e "sexo psicossocial" em vez de "sexo" e "gender".

 

Estas noções dão origem a uma revolução cultural que põe em xeque a família e reduz o ser humano à condição de peão num jogo de xadrez. Como exemplo de tal descaracterização do sexo, afirmam certas feministas que o amor materno não é algo inscrito na natureza ou na índole própria da mulher, mas vem a ter origem num determinado contexto cultural, podendo ser destruído ou desaparecer com a mudança da cultura. É de notar que existem projetos de declaração dos direitos do gender.

 

1.4. Homofobia

 

Homofobia (medo do homossexual) é um termo forjado pelos grupos homossexuais para designar as pessoas que se opõem ao reconhecimento dos direitos reivindicados pelos homossexuais. Tal apelativo deve intimidar a quem não os reconhecem, dando a crer que são pessoas anormais ou doentes. Além disto, as pessoas heterossexuais seriam culpadas de cometer injustiça, porque só aceitam uma sociedade fundada sobre as características biológicas do homem e da mulher.

 

1.5. Separatismo e Separatista

 

Tais vocábulos designam as pessoas que não aceitam as normas impostas por quem está no poder; são separatistas - designação esta que intimida e que ocorre na linguagem dos regimes totalitários.

 

1.6. Abertura e ser aberto

 

Abertura pode significar algo de muito positivo e valioso. Seria a aceitação de novidades sadias ou conformes à Verdade e à Ética. O vocábulo, porém, é empregado em sentido relativista: implicaria a aceitação de qualquer novidade, sem se fazer distinção entre verdade e erro ou entre bem e mal. Não haveria Verdade Absoluta nem Bem Absoluto; consequentemente todas as religiões seriam equivalentes entre si. Todas caminhariam por vias, às vezes, contraditórias para o Absoluto.

 

Não se pode negar o valor da abertura que reconheça a Verdade Absoluta; o ser humano é um peregrino sobre a terra, que caminha para a perfeição confrontando entre si os dados das diferentes culturas que se lhe oferecem.

 

2. Conclusão

 

As considerações deste artigo poderiam prolongar-se. São suficientes, porém, para pôr o leitor em contato com tendências do mundo contemporâneo contrárias à natureza humana e à fé cristã e que é preciso saber discernir através dos seus neologismos e vocábulos ambíguos.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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