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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 519 – setembro 2005

 

Zoólogo britânico:

 

O DEVOTO DE DARWIN

(VEJA)

 

Em síntese: Richard Dawkins faz a apologia de Darwin e censura a Religião como sendo antagonista do progresso científico. Em resposta deve-se dizer que o Catolicismo rejeita a evolução mecanicista, afinalista propugnada por Darwin, mas aceita a evolução finalista, segundo a qual Deus criou a matéria inicial e lhe deu as leis de sua evolução até o nível do organismo humano, ao qual infundiu uma alma intelectiva; como para o primeiro, assim para qualquer ser humano, Deus criou (ou cria) a respectiva alma humana.

 

A revista VEJA, edição de 10/06/05, publicou uma entrevista concedida pelo zoólogo britânico Richard Dawkins, que faz a apologia de Charles Darwin da evolução mediante seleção natural, censurando a Religião por não aceitar o darwinismo. - Vamos, a seguir, transcrever tópicos dessa entrevista, cujos dizeres serão devidamente elucidados; a fé não é contrária à evolução, como se evidenciará.

 

1. Deus ou seleção natural?

 

Veja - Hoje há um embate entre evolucionistas como o senhor e os criacionistas. Por que o senhor considera inaceitável a ideia de que a vida foi criada por Deus?

 

Dawkins - Postular a existência de um Deus que criou a vida é o tipo de ideia que só complica as coisas. É um raciocínio contraprodutivo, pois traz a necessidade adicional de explicar a existência desse ser. A partir de elementos muito simples, a seleção natural mostra como e por que a natureza abriga a imensa complexidade, a imensa variedade dos seres vivos existentes. Esse é o poder desse conceito. Com ou sem um ser divino no início de tudo, a seleção natural ainda teria a mesma capacidade de explicar o funcionamento da natureza.

 

Proporemos quatro considerações:

 

1) Deus é, por definição, o Ser Absoluto, o Criador não criado. Há necessidade de se admitir o Absoluto para se explicarem os seres contingentes e relativos. Se Deus foi criado, é ao Criador de Deus que competem os atributos de Deus.

2) Dawkins propõe a seleção natural como antítese de Deus, suficiente para explicar as maravilhas deste mundo. Pergunta-se então: será a seleção natural um ser inteligente, capaz de planejar o universo? A seleção natural seria uma Dama dotada de alta inteligência? Na verdade não existe a Senhora "Seleção Natural". Dawkins nega Deus e o substitui pelo conceito mesmo de Deus rotulado com outro nome.

3) Para a fé católica, não há conflito entre criação e evolução, que se podem combinar nos seguintes termos:

Deus terá criado a matéria inicial tal como a ciência a descreve (ela não é eterna) e lhe terá dado as leis da sua evolução, de modo que a matéria foi desdobrando suas virtualidades até o nível do corpo humano. Deus então haverá criado a alma humana (que é espiritual, não material) e a terá infundido no corpo do primata evoluído, fazendo-o passar da categoria do animal irracional para a de ser humano racional. Para cada ser humano, até hoje Deus cria uma alma espiritual. Como se vê, assim se conciliam criação e evolução.

4) Não se deve confundir darwinismo com evolucionismo simplesmente dito. O darwinismo professa uma modalidade de evolução, modalidade que admite como elemento decisivo para a evolução a luta pela vida, na qual perecem as espécies mais fracas e subsistem as mais fortes ([1]). É evolução mecanicista, afinalista (sem finalidade predeterminada), ao passo que a Teologia católica admite a evolução finalista ou dotada de dinâmica própria para atingir determinados modelos de seres minerais, vegetais e animais irracionais.

 

2. Fé e ciência

 

Veja - Um cientista não pode ser religioso?

 

Dawkins - Pode, e muitos cientistas são. Mas eu não consigo entender suas razões. Talvez seja um tipo de cérebro repartido: eles mantêm suas crenças religiosas em um nicho, e a ciência em outro. Tenho dificuldade em simpatizar com isso. Se eu mantivesse crenças contraditórias, tentaria refletir sobre o tema até me decidir por um lado ou outro.

 

Observamos que a resposta de Dawkins é complicada; apregoa o divórcio entre ciência e Religião admitindo dois compartimentos fechados na mente do cientista religioso: um para a ciência e outro para a Religião. Ora esta dicotomia vem a ser um postulado insustentável. O cientista cultiva a ciência com toda a riqueza do seu intelecto e descobre o Criador através dos artefatos da criação. A própria ciência leva a Deus. Veja-se quanto a propósito ainda é dito em PR 509/2004, pp. 513ss.

 

3. Religião e saúde mental

 

Veja - Por que o senhor chama a religião de "vírus da mente"?

 

Dawkins - A religião seria um memeplexo, isto é, um conjunto de memes que costumam florescer na presença uns dos outros, tal como acontece com certos complexos de genes. Mas, ao contrário dos bons memes, a religião não se dissemina porque é útil. Ela salta de uma mente para outra como uma infecção, ou como um vírus de computador, que só se propaga porque traz embutida uma instrução codificada: "Espalhe-me".

 

Em resposta devemos distinguir entre Religião propriamente dita e crendice, superstição ou fanatismo. - A Religião como tal é o que de mais elevado possa o ser humano vivenciar: é o encontro com o Absoluto ou Infinito; é o repouso da agulha magnética (símbolo da pessoa humana) com o seu Norte. Isto não pode deixar de contribuir para harmonizar as diversas tendências do ser humano, sanando distúrbios e moléstias a tal ponto que alguns julgam ser a Religião uma forma de terapia, cf. PR 509/ 2004, pp. 492ss.

 

A crendice e a superstição vêm a ser caricaturas da Religião, pois se guiam pela fantasia e as emoções, deixando de lado a razão, que é das mais nobres faculdades da pessoa humana.

 

Vê-se, pois, que não se pode dizer que a Religião é o "vírus da mente"; é a falta de experiência do assunto que leva a falar assim.

 

4. Quem foi Charles Robert Darwin?

 

Charles Robert Darwin foi um naturalista ou biólogo inglês que nasceu em Shrewsburg (1809) e faleceu em Down (1882).

 

Entre 1831 e 1836 viajou pela América do Sul e as ilhas Galápagos, coletando dados que o ajudariam a construir sua teoria sobre a evolução das espécies já sumariamente exposta neste fascículo. A sua principal obra intitula-se em tradução portuguesa "A Origem das Espécies por Seleção Natural" (Londres 1859); conheceu seis edições na Inglaterra até a morte do autor, valendo-lhe o cognome de "o mais popular naturalista do século XIX".

 

No plano religioso e filosófico, Charles Darwin foi-se afastando da religiosidade da sua juventude, chegando às margens do agnosticismo ou da teoria que afirma ser impossível conhecer a Deus. Verdade é que na edição definitiva de "A origem das espécies" Darwin fala de um Criador que terá dado existência à primeira forma de vida ou às primeiras formas de vida. Assim escrevendo, Darwin queria dizer que o evolucionismo não é incompatível com a noção de Deus. "As minhas ideias não são necessariamente ateias" dizia ele. É certo que ele não compartilhava a teoria do acaso como explicação da origem do mundo e do homem; todavia a noção de um Deus Criador era enfraquecida na sua mente pelo presumido fato de ser a mente humana o produto da evolução dos animais irracionais. Perguntava Darwin "se as convicções de nossa mente oriunda da mente dos animais inferiores tem algum valor ou merecem confiança". Escrevia ele em carta a Bentham "A aceitação da seleção natural deve fundamentar-se inteiramente sobre considerações de ordem geral. Quando descemos a particularidades, não podemos provar que alguma espécie se tenha transformado; não podemos provar que uma espécie sequer haja passado por transformação nem podemos provar que as supostas transformações tenham sido úteis à sobrevivência da espécie (utilidade esta que é o fundamento da teoria da evolução)". Assim o próprio Darwin se mostrava reservado no tocante à sua famosa teoria da seleção natural mecanicista.

 

A crítica científica posterior enfatizou a falta de provas convincentes em favor da seleção mecanicista. Os estudiosos verificam que a evolução obedece a leis que garantem sua harmonia e o equilíbrio necessário ao mundo dos viventes. Assim escrevia o pesquisador inglês Osborn: "A paleontologia demonstra que na evolução a lei prevalece sobre o acaso". Essa lei, o cristão a chama "lei do Criador".

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Mais precisamente: Darwin observou as variantes provocadas artificialmente em animais domésticos e no cultivo de certas plantas e concluiu que somente as variantes úteis ou vantajosas para o indivíduo têm probabilidade de se transmitir à descendência deste indivíduo. Fora do ambiente doméstico, ou seja; no cenário amplo da natureza, o fator que mais pode provocar variantes é a concorrência, que se concretiza em luta pela existência (struggle for life); nessa luta a vitória ou a subsistência toca aos mais fortes e resistentes; estes sobrevivem, ao passo que os mais fracos perecem e se extinguem. Assim é que variantes simples podem tornar-se decisivas; se ocorrem diversas variantes simultaneamente, podem suscitar uma característica nova, base de uma nova espécie. Por conseguinte, conforme Darwin, a evolução terá sido lenta e pragmática.


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