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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 548 – fevereiro 2008

 

Equilíbrio:

 

A FESTA CRISTÃ

 

Em síntese: A festa (honesta e decente) é parte integrante da vida do ser humano, que, por intenso trabalho em escritórios, fábricas, trânsito..., corre o risco de se deixar sufocar e perder o encanto da vida; a festa pode restaurar o homem. A Liturgia tem também esse caráter de distensão do cristão; é festa religiosa, que eleva a mente das criaturas ao Transcendente. A primeira festa que os cristãos celebraram foi a da Páscoa ou a da vitória de Cristo sobre a morte e o pecado; essa festa se repete mais modestamente em cada domingo, que é santificado pela S. Eucaristia. Desta primeira e primacial festa foram-se derivando outras, concernentes a Cristo e aos Santos.

 

O cônego Ramiro Gonzalez publicou um valioso livro que, traduzido para o português, tem por título: "Piedade popular e Liturgia" ([1]). Nesta obra o autor procura harmonizar entre si os dois termos citados: a piedade popular não deve ser menosprezada (como pensariam alguns eruditos), mas há de ser valorizada como algo que é concomitante da Liturgia. O livro é muito interessante; dele extrairemos algumas considerações contidas no cap. 1: "Sentido e Valor das Festas no âmbito da Religiosidade Popular".

 

1. A Festa como tal: que valor tem?

 

Atesta, em nossos dias mais do que nunca, desempenha o papel de recriar ou restaurar o homem, que o trabalho de cada dia tende a massificar ou sufocar. Mais precisamente podemos apontar algumas características da festa (moralmente sadia):

 

1) O homem de hoje é, muitas vezes, valorizado tão somente pela sua produtividade, que proporciona lucro financeiro. Isto ameaça reduzir

O ser humano à condição de máquina e escravo do trabalho.

 

Ora o útil ou a produção lucrativa não bastam para satisfazer plenamente ao homem; este foi feito para valores transcendentais, que exigem a interrupção periódica do trabalho a fim de que o trabalhador se possa recompor ou encontrar-se consigo mesmo, com os seus semelhantes e com a natureza que o cerca.

 

2) O ócio daí resultante parece tempo perdido, a tal ponto que já se instituiu a "indústria do tempo livre", com turismo, torneios esportivos, que são fonte de renda para quem os promove. Ramiro Gonzalez diz que essa indústria proporciona diversão e não festa propriamente dita. O tempo livre de quem trabalha pode ser preenchido por atividades artísticas espontâneas ou, se a pessoa tem fé, pela elevação da mente a Deus pela oração.

 

Dir-se-á: "o ócio é esbanjamento do tempo. Observemos que essa inutilidade é necessária ao homem de brio; este lhe saberá dar pleno sentido, colocando-se num clima de admiração diante dos grandes valores aos quais se dirige seu pensamento. A festa é um Sim à vida; ela nos faz repetir o que é dito na Escritura: "Deus viu que tudo era muito bom".

 

3) A festa deve lembrar ao homem que ele não nasceu somente para trabalhar; ela quebra o ritmo monótono e pesado do trabalho, chegando a fazer contraste com as obrigações do trabalho cotidiano. É oportuno que se sinta tal contraste e que daí se origine um desejo mais ardente de valores maiores do que o dinheiro. O homem foi feito para conhecer a verdade e nela se deleitar com amor. A festa deve aguçar o desejo daquilo a que todo homem aspira, pois tudo neste mundo é pequeno demais para a capacidade do indivíduo. Em suma, a festa deve estimular o homem a procurar a Vida plena, a Verdade plena, o Amor pleno...

 

4) A festa comporta também o relacionamento do homem com seus semelhantes, não permitindo que se feche em seu pequeno mundo, pois a festa implica diálogo, comunicação, encontro de pessoas, que abrem os horizontes.

 

Nota R. Gonzalez que os tópicos atrás enunciados não ocorrem na diversão (cinema, esporte, espetáculos de massa)...; estes não comportam as características de festa. Observa outrossim o autor que não somente se vive a festa, mas se celebra a festa; uma coisa é fazer festa (algo que se pode realizar por razões comerciais ou por fuga da realidade); outra coisa é celebrar a festa. A celebração implica um grupo de pessoas que vivem em comunhão e se abrem à Transcendência. Por isto no mundo antigo a festa era considerada como algo recebido, compartilhado e realizado à semelhança do que faziam os deuses. Esta reflexão chega ao seu auge quando se trata da festa cristã, que em breve será explanada neste artigo.

 

Não se pode abordar a temática da fé cristã, se não se passa pela via do judaísmo. Daí a razão do subtítulo seguinte.

 

2. A festa judaica

 

A festa cristã é o ponto culminante das celebrações do povo judeu.

 

As festas judaicas não foram programadas por técnicos em seus escritórios, mas nasceram como fruto da vivência de Israel. - Elas começam como festas agrovegetativas. Aliás é o que acontecia entre os povos antigos: eram impulsionados e levados ao louvor pela fecundidade da terra, pela alternância das estações (do verão ao inverno), pelo ciclo normal da vegetação (semeadura, crescimento, colheita) ou pelos grandes momentos da vida humana, vida que parecia algo de sagrado: nascimento, morte, casamento. Assim foi-se formando o ciclo litúrgico de Israel.

 

a) a festa dos Ázimos (no mês de Nisã, primavera nórdica): celebrava-se então a primavera, a Lua nova, o pão feito com as novas espigas de trigo, as novas crias nos rebanhos... - Sobre este fundo de cena, a partir do século XIII a.C. começou a sobrepor-se a festa da saída do Egito ou da Libertação, evento ao qual se deu o nome de Páscoa judaica.

 

b) A festa da Colheita (verão) ou das Sete Semanas. Fazia-se a ceifa do trigo e ofereciam-se em sacrifício as primeiras espigas. Com o tempo esta festa passou a celebrar um fato histórico de Israel, ou seja, a entrega da Lei a Moisés no monte Sinai. Isto ocorria sete semanas após a Páscoa; daí chamar-se festa de Pentecostes ou do qüinquagésimo dia (7x7 = 49).

 

c) festa da Coleta (outono)... coleta dos frutos no começo do outono. Passou a comemorar a travessia do deserto, durante a qual Deus habitava com seu povo em tendas. Donde o nome de festa das Tendas ou dos Tabernáculos. Estas grandes festas de Israel são atestadas em Ex 23, 14-17; 34, 21-23. Vê-se assim que as festas de Israel são memoriais dos acontecimentos salvíficos do Senhor em favor do seu povo. Assim também acontecia com a semana e o dia em Israel.

 

A semana, como ritmo fundamental da vida de todo homem, culminava no shabat ou sábado. Este sétimo dia também se recobriu com a celebração de um fato histórico: a libertação do povo cativo no Egito.

 

Em consequência pode-se dizer que o êxodo, enquanto foi a emancipação realizada por Javé, é o grande acontecimento celebrado em todas as festividades de Israel. Todavia este povo tinha consciência de que a saída do Egito ainda não era a consumação da história; aguardavam (ou aguardam) o Messias. Jesus Cristo é o termo final desta expectativa simbolizado pelas festas da antiga Lei.

 

3. A Festa dos cristãos

 

3.1. A grande Festa da Páscoa

 

Após ter comprovado a sua identidade de Messias, Jesus foi condenado à morte e morreu na véspera da Páscoa judaica, quando os israelitas matavam o cordeiro que eles comeriam na noite de 14 para 15 de Nisã (Páscoa); Ele é assim apresentado como o verdadeiro Cordeiro que tira os pecados do mundo. Escreve São Paulo: "O Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa" (1Cor 5, 7s).

 

A partir da Páscoa, foi-se formando o calendário das festas cristãs: já que Cristo morreu numa sexta-feira e ressuscitou no primeiro dia da semana seguinte, este primeiro dia foi tomado como dia do Senhor desde os primeiros anos do Cristianismo com o nome de kyriakè-heméra dia senhorial, ou domínica em latim, donde domingo em português; ver Ap 1,10; 1Cor 16,1s; At 20, 7. Nesse dia celebrava-se o Senhor Ressuscitado e presente na comunidade dos fiéis. O domingo recobriu-se de tanta importância que "celebrar o domingo era sinônimo de "ser cristão", ao passo que celebrar o sábado equivalia a viver em estilo judaico.

 

Páscoa foi, no princípio, a única festa do calendário cristão; os demais dias da semana participavam da índole pascal, pois eram chamados Feriae = festas. O domingo tinha (e tem) três aspectos: significava...

 

- olhando para o passado, a comemoração da ressurreição do Senhor;

-.para o presente: a ressurreição de Jesus é feita presente pela Eucaristia, que perpetua a vitória de Cristo para dela participarmos.

- para o futuro: suscita a esperança da consumação da libertação frente ao Faraó, o pecado e a morte; vivifica assim no cristão um olhar sereno de paz e alegria interior, enquanto percorre os caminhos deste mundo "até que Ele venha" (1Cor 11, 26).

 

A data da celebração da Páscoa causou hesitação aos antigos cristãos: deveria ocorrer na noite da primeira lua cheia da primavera, qualquer que fosse o dia da semana, ou seria deslocada para o domingo seguinte, comemorando diretamente a ressurreição do Senhor? - Os cristãos da Ásia menor (Turquia de hoje) adotavam o primeiro alvitre, ao passo que os ocidentais preferiam a segunda opção. Após sérios debates, prevaleceu a sentença de Roma, de modo que em toda semana santa dos cristãos há sempre uma noite de Lua cheia. O domingo de Páscoa tem data móvel, pois ele é computado conforme o calendário lunar vigente em Israel outrora, ao passo que no Ocidente era observado o calendário herdado do Egito.

 

3.2. As demais festas

 

A observância anual da Páscoa foi-se irradiando por todo o ano cristão. Assim aos poucos foi-se formando o calendário cristão. Vejamos:

 

Cinquenta dias após a Páscoa os judeus celebravam Pentecostes, a festa da entrega da Lei a Moisés, dia que para os cristãos é a celebração do cume da obra de Cristo, que deixa aos seus discípulos outro Paráclito ou o Dom por excelência, que é o Espírito Santo.

 

Enviava outro Paráclito... porque Ele mesmo, o Cristo, devia levar sua humanidade à glória do céu quarenta dias após Páscoa; donde decorreu a festa da Ascensão, comemorando a partida de Jesus. Ascensão e Pentecostes representam o cume das alegrias de Páscoa.

 

Quanto a Natal e Epifania, são festas que celebram o início da vida terrestre e da missão do Senhor; foram colocadas em 25/12 e 6/01 respectivamente, porque aos 25/12 os dias recomeçam a crescer no hemisfério nórdico; ora Cristo é "o sol que nasceu do alto". Natal celebra o nascimento de Jesus e a visita dos pastores, aos quais Ele se manifesta como representantes do povo judaico; Epifania celebra a ida dos magos a Belém em nome de toda a humanidade pagã; além disto, comemora-se nesse mesmo dia o Batismo do Senhor e a conversão da água em vinho no início do ministério público de Jesus. Desta maneira Páscoa era celebrada em novos aspectos, que a piedade cristã revolvia em sua mente. Com o tempo o calendário litúrgico foi-se enriquecendo cada vez mais, guardando, porém, o seu fio condutor: é a vitória de Cristo que se celebra em cada festa cristã; cada Santo é a proclamação da fecundidade dessa vitória celebrada explicitamente na Páscoa; o eido santoral e o ciclo pascal-natalino não são dois ciclos paralelos, de modo que, quando se celebra um, esquece o outro, mas, ao contrário, o Cristo glorioso é exaltado em cada celebração de Santo como fonte de toda santidade. Eis os principais ulteriores desdobramentos da Páscoa cristã:

 

Os cristãos passaram a celebrar...

 

a)a morte heroica dos mártires, que passou a ser chamada "o natalício" dessas testemunhas, como aliás é o natalício de qualquer cristão;

b)as festividades da Virgem Ssma., que já no século III era chamada Theotókos (Mãe de Deus);

c)as celebrações dos outros santos, quer tenham sofrido o martírio cruento, quer o martírio incruento na paciência heroica de cada dia;

d)os aniversários de Dedicação de igrejas importantes ditas "basílicas = imperiais";

e)os quarenta dias da Quaresma como preparação penitencial da Páscoa e preparação dos catecúmenos para o Batismo;

f) o Advento no mês de dezembro, que põe ante os olhos da mente cristã a consumação da história e a segunda vinda de Cristo, como também prepara para a celebração do Natal.

 

Eis como se formou o ano litúrgico. Os ritos e as cerimônias devem exprimir a alegria do cristão, que vê na Liturgia a fonte da sua fortaleza, fortaleza esta chamada a atravessar os altos e baixos desta vida com equanimidade, baseada na mensagem alvissareira da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.

 

 

Dom Estêvao Bettencourt (OSB)



([1]) Ed. Loyola, São Paulo 2007, 284pp.


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