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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 548 – fevereiro 2008

Antropologia:

 

O CÉREBRO É O ESPÍRITO"

(Revista VEJA)

 

Em síntese: A revista VEJA, de 26/10/07, traz na sua página de rosto os dizeres: "A Mente e o Espírito" e à p. 98: "O Cérebro é o Espírito". Esta última proposição é contraditória, pois o cérebro é um corpo, com seu volume material, dimensional, ao passo que o espírito é um ser imaterial, sem peso nem tamanho. A diferença é explicada na sequência deste artigo, que será completado por uma visão sumária de antropologia cristã.

 

A revista VEJA, edição de 26/10/07, pp. 98s, propõe o seguinte título de reportagem: "O Cérebro é o Espírito" e na sua folha de rosto "A Mente e o Espírito". Os três substantivos são utilizados de maneira confusa ou mesmo contraditória, como passamos a ver.

 

1. Cérebro, Espírito e Mente

 

O cérebro é um volume de massa cinzenta que integra o corpo humano, tendo peso dimensionável, tamanho maior ou menor.

 

Ao contrário, o espírito é um ser imaterial, que possui intelecto e vontade; está em contraste com o cérebro, que é material. No ser humano existem as duas realidades distintas uma da outra: o cérebro e a alma espiritual, que possui duas faculdades - a inteligência ou intelecto e a vontade.

 

A noção de espírito é difícil de ser compreendida, pois tudo o que conhecemos com os nossos sentidos externos é material; vamos, porém, elucidá-la e mostrar que existe no homem esse ser espiritual intelectivo que não é o cérebro.

 

Comecemos nosso raciocínio considerando a linguagem ou o falar do homem.

 

Que é a linguagem? - É a capacidade que temos, de formular conceitos universais ([1]) e exprimi-los mediante sons concretos, que variam de idioma para idioma. Assim os conceitos de pai e mãe, por exemplo, são conceitos universais, que todo homem concebe espontaneamente, mas que cada povo ou cada grupo linguístico exprime de modos diferentes. O homem é capaz de emancipar-se de determinado vocábulo para propor exatamente o mesmo conceito mediante outra expressão de voz; é o que se dá com os tradutores, que procuram guardar exatamente a mesma mensagem intelectual através de diversas sonorizações: pai, père, father, Vater, padre,'ab...

 

Com outras palavras repetimos:

 

Quem olha para a cavidade bucal de um homem e a de um macaco, é propenso a dizer: se o homem fala, o macaco também fala, pois organicamente este dispõe de tudo o que o homem possui para falar. Não obstante, o macaco não fala. Isto só se pode explicar pelo fato de que no homem há algo mais do que no macaco; esse algo mais é a sua alma espiritual. Com efeito, o homem só pode falar porque é capaz de distinguir entre o som concreto e o conceito universal, imaterial; por exemplo, o conceito universal de genitor, para nós, está ligado à palavra pai, mas posso distinguir do vocábulo "pai" o conceito universal, usando os termos father, pater, 'ab...([2]) Isto denota no homem a presença de uma alma espiritual ou imaterial, imaterial porque abstrai das realidades concretas materiais. O universal só existe na mente humana; fora desta só temos coisas concretas, materiais. Se o agir é imaterial, também o sujeito desse agir é imaterial.

 

2. Que é o homem?

 

1. O ser humano é composto de corpo material e alma espiritual.

 

Há quem pergunte: qual a diferença entre alma e espírito?

 

Responderemos que o espírito é um ser dotado de inteligência e vontade, mas sem corpo, sem dimensões materiais, sem forma, sem tamanho. Há três tipos de espírito, como se pode ver abaixo:

 

                                não criado: Deus

Espírito                 criado    para existir sem corpo: anjo (bom ou mal)

                                criado    para se aperfeiçoar no corpo: alma humana

 

São Paulo, em 1Ts 5, 23, parece distinguir três componentes (espírito, alma e corpo) no ser humano. - Na verdade, porém, o Apóstolo não intencionou ensinar antropologia, mas aludiu ao ser humano, usando uma das maneiras de falar da sua época. De resto, a palavra "espírito" (pneuma) nos escritos paulinos tem mais de um sentido, podendo designar o Espírito Santo (cf. Rm 5, 5) como também a vida da graça no cristão (cf. 1 Cor 2,14s).

 

O corpo é mortal, pois consta de elementos materiais, que, com o tempo, se vão desgastando.

 

A alma humana, sendo espiritual, é imortal por si mesma; sendo simples, ela não se decompõe. Pode, sem dúvida, ser aniquilada por Deus, que a criou a partir do nada. Sabe-se, porém, que Deus não destrói as criaturas que Ele fez com muito amor.

 

Em cada ser humano há uma só alma (espiritual), que é responsável por todas as funções - vegetativas, sensitivas e intelectivas - dessa pessoa. Não há duas ou três almas no mesmo indivíduo.

 

Corpo e alma, embora sejam distintos um do outro, são complementares entre si; formam um só todo psicossomático. Nenhuma atividade do homem é meramente psíquica ou meramente somática. Embora a alma seja espiritual e imortal por si mesma, ela precisa do corpo para desenvolver suas potencialidades. Uma vez separada do corpo após a morte, ela usufruirá dos valores adquiridos enquanto unida ao corpo.

 

2. A doutrina assim apresentada nada tem que ver com dualismo. Este implica antagonismo entre partes opostas. Ocorre nas teorias maniquíea, órfica, pitagórica e no hinduísmo, que têm a matéria como algo de intrinsecamente mau e o espírito como algo de bom por sua natureza mesma. A doutrina cristã rejeita o dualismo, pois afirma que a matéria é, como o espírito, criatura de Deus e, por conseguinte, ontologicamente boa. Mas nem por isso a doutrina cristã cai no monismo, que identifica entre si matéria e espírito. - Entre dualismo e monismo situa-se a dualidade; esta professa a distinção de espírito e matéria, mas não os julga antitéticos entre si, e, sim, complementares. Analogamente homem e mulher são criaturas distintas uma da outra, mas não antagônicas, e, sim, feitas para se complementar mutuamente.

 

Dualismo: dois princípios opostos entre si por sua própria natureza ou no plano ontológico;

Dualidade: dois princípios distintos, mas não opostos entre si, e, sim, complementares;

Monismo: uma só realidade com facetas diversas.

 

Ora corpo e alma formam uma dualidade, e não dualismo nem monismo. A dualidade de corpo e alma é afirmada em Mt 10, 28: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei, antes, aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena".

 

Frente a recentes concepções monistas, a Igreja se pronunciou.

 

3. A palavra oficial da Igreja

 

Aos 17/05/1979 foi promulgada uma Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, que incute a distinção entre corpo e alma. Eis as suas afirmações principais:

 

"Esta Sagrada Congregação, que tem a responsabilidade de promover e defender a doutrina da fé, propõe-se hoje recordar aquilo que a Igreja ensina, em nome de Cristo, especialmente quanto ao que sobrevêm entre a morte do cristão e a ressurreição universal:

 

1)A Igreja crê numa ressurreição dos mortos (cf. Símbolo dos Apóstolos)

 

2) A Igreja entende esta ressurreição referida ao homem todo; esta, para os eleitos, não é outra coisa se não a extensão, aos homens, da própria ressurreição de Cristo.

 

3) A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o eu humano subsista, ainda que sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra alma, consagrada pelo uso que dela fazem a S. Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos sentidos, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos.

 

4) A Igreja exclui todas as formas de pensamento e de expressão que, se adotadas, tornariam absurdas ou ininteligíveis a sua oração, os seus ritos fúnebres e o seu culto dos mortos, realidades que, na sua substância, constituem lugares teológicos.

 

5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Constituição Dei Verbum 14), que Ela considera como distinta e diferida em relação àquela condição própria do homem imediatamente após a morte.

 

6) A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem após a morte, exclui qualquer explicação que tire o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros eleitos.

 

7) A Igreja, em adesão fiel ao Novo Testamento e à Tradição, acredita na felicidade dos justos que estarão um dia com Cristo. Ao mesmo tempo Ela crê numa pena que há de castigar para sempre o pecador que for privado da visão de Deus, e ainda na repercussão dessa pena em todo o ser do mesmo pecador. E, por fim, Ela crê existir para os eleitos uma eventual purificação prévia à visão de Deus, a qual no entanto é absolutamente diversa da pena dos condenados. É isto que a Igreja entende quando Ela fala de inferno e de purgatório".

 

Nesta Declaração chamam-nos a atenção especialmente

 

-   o item 3: afirma a separação de corpo e alma na morte e a subsistência, sem corpo, da alma humana, elemento espiritual, dotado de inteligência e vontade (núcleo da personalidade);

 

-   os itens 5 e 6: ensinam que não coincidem entre si a hora da morte de cada indivíduo e a parusia ou manifestação final de Jesus Cristo. Se alguém morrer em 2008, não creia que assistirá imediatamente ao fim do mundo, alegando que, após a morte não há futuro nem passado. A ausência de futuro e passado ou o regime da eternidade é de Deus só. A criatura que deixa este mundo, emancipa-se do tempo, mas não passa a viver o regime da eternidade; a sua duração será medida pelo EVO ou por uma sucessão de atos psicológicos.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Conceito universal é o que abstrai de notas concretas e contingentes de diversos indivíduos e apreende o que há neles de essencial. Assim vemos uma criança, um ancião, uma mulher, um homem...; apesar de ter aparências bem diversas, o intelecto percebe que possuem a mesma essência; são viventes racionais ou têm a racionalidade como característica essencial. Quando vemos água doce, água salgada, água gasosa, água mineral..., dizemos: o essencial não é nem o gás, nem o mineral, mas o HzO. A partir de muitas coisas belas com suas diversas configurações, formamos o conceito universal de "beleza".

[2] Com outras palavras: o que entendo por "pai: é "aquele que gera um(a) filho(a)"'. Posso guardar o conceito assim formulado e deixar de lado a sonorização brasileira correspondente (= pai) para usar a sonorização concreta inglesa "father" ou a alemã (Vater).


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