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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 531 – setembro 2006

Apócrifo:

 

O EVANGELHO DE JUDAS (complemento) (1)

 

Em síntese: O Evangelho de Judas, recentemente publicado em inglês, é um texto de origem gnóstica. Pretende reabilitar Judas como sendo o discípulo que melhor conheceu Jesus; entregou-o aos adversários para que, morrendo, fosse libertado do seu corpo, tido como matéria má e cárcere do verdadeiro homem que essa matéria envolvia. - Ora o pensamento gnóstico, que deu origem a esse escrito, não é cristão; o dualismo (a matéria é má, o espírito é bom) não se compatibiliza com a mensagem bíblica, que vê na matéria uma criatura boa de um Deus bom. Aliás não foi Judas quem escreveu tal Evangelho, visto que o texto original grego deve datar de 150 aproximadamente. Atribui-se a origem de tal texto a uma seita gnóstica dita "dos cainitas", seita que tendia a exaltar os personagens delituosos que a Bíblia apresenta: Caim, a serpente, os sodomitas, Coré... Assim entendido, o Evangelho de Judas não altera as clássicas concepções relativas à origem do Cristianismo.

 

(1) Ver PR 528/2006, pp. 282-285.

 

Em abril de 2006 a imprensa noticiou a publicação de um apócrifo intitulado "O Evangelho de Judas", que apresenta Judas como o discípulo mais chegado a Jesus, que ele não traiu, mas, ao contrário, com quem colaborou. Propagou-se então a ideia de que tal manuscrito poderia alterar as clássicas concepções sobre a origem do Cristianismo, ideia que em breve foi dissipada pela consideração mais atenta do que é esse documento. As páginas subsequentes apresentarão tal "Evangelho".

 

1. A Descoberta

 

Em 1945 um lavrador encontrou uma caixa de pedra escondida numa caverna na localidade de Nag Hammadi, ao sul do Cairo (Egito). Essa caixa continha quatro códices que, além do Evangelho de Judas, apresentavam o Primeiro Apocalipse de Tiago, a Epístola de Pedro a Filipe, o Livro de Alógenes, algumas cartas do Novo Testamento em língua copta (o idioma dos antigos egípcios), o livro do Êxodo em grego e "Tratado Matemático" (em grego também). Quanto ao Evangelho de Judas, está escrito em copta e datado do século III ou do início do IV. Traduz o original grego, que deve ter sido redigido em meados do século II, pois

 

Santo Ireneu (f 202) já o conhecia. O texto está mal conservado, apresentando lacunas, que dificultam a leitura. A coleção dos quatro códices foi vendida no Cairo a exploradores. Foi roubada por ladrões gregos e recuperada posteriormente. Depois de várias peripécias, o Evangelho de Judas foi adquirido pela Fundação Mecenas de Basiléia (Suíça). Mediante um contrato com a National Geographic Society, foi entregue a uma equipe de especialistas, que o estudaram e ocasionaram a sua publicação em tradução inglesa aos 5 de abril de 2006. Do inglês o texto foi traduzido para o francês e o alemão.

 

Examinemos agora

 

2. O conteúdo do Evangelho de Judas

 

O texto reflete bem as grandes linhas do pensamento gnóstico: é a gnose (conhecimento) trazida por um mensageiro do céu que salva o homem. Este se acha na terra envolvido na matéria do seu corpo, que é má; a gnose revelada o liberta do corpo e lhe permite voltar ao reino celeste, espiritual, onde tudo é bom.

 

Dentro desta perspectiva o livro se abre com as palavras ([1]):

 

"Eis o relato secreto da revelação que Jesus fez em conversa com Judas Iscariotes, durante a semana, três dias antes dele celebrar a Páscoa". Trata-se de 'mistérios que estão para além do mundo'.

 

Em seguida mostra-se a cena dos discípulos de Jesus envolvidos com a preparação da Páscoa. Jesus ri quando os vê, embora eles a estejam preparando de modo correto. Ele explica: ri porque é daquela maneira que o Deus deles é louvado. Os discípulos retrucam, dizendo que Jesus é o 'filho do nosso Deus', mas Jesus afirma que nenhum deles o conhece realmente. Eles se enfurecem e Jesus chama a atenção para a imperfeição que demonstram. Nenhum dos discípulos ousava então ficar diante de Jesus, exceto Judas, que afirma: 'Eu sei quem tu és e de onde tu vens. Tu vens do imortal domínio de Barbelo. E eu não sou digno de pronunciar o nome daquele que te enviou'.

 

Jesus percebe que Judas entendeu quem ele era e por isso o toma à parte e lhe ensina os mistérios do Reino. Anuncia-lhe também que ele será maldito por todas as gerações.

 

Em seguida, os discípulos têm uma visão: ao redor de um grande altar, encontram-se doze sacerdotes. Uma grande multidão espera junto ao altar e possivelmente oferece dons sacrificais aos sacerdotes (o texto está em parte corrompido). Os sacerdotes são pecadores: assassinam seus próprios filhos, suas esposas; fala-se de homossexualismo e assassinatos e de uma 'multidão de pecados e atos de impiedade'. Jesus interpreta a visão: 'são vocês' os sacerdotes. Neste contexto é dito: 'Vede! Deus recebeu seu sacrifício pelas mãos de um sacerdote'. Fala-se ainda de anjos e de estrelas.

 

À pergunta de Judas: 'que frutos dará esta geração?', Jesus responde: 'As almas de toda geração humana morrerão. Quando este povo, entretanto, tiver completado o tempo do Reino e o espírito os deixar, seus corpos morrerão, mas suas almas viverão e serão tomadas'.

 

Judas tem então uma visão: primeiramente, os doze discípulos o apedrejam e perseguem; em seguida vê uma casa e seu interior. Jesus lhe diz que 'nenhum mortal é digno de entrar na casa que ele viu, porque este lugar é reservado para o santo. Nela não dominam nem o sol nem a lua, nem o dia, mas o santo habitará lá para sempre, no domínio eterno, com os santos anjos'. Jesus repete que revelou a Judas os 'mistérios do Reino' e diz que Judas é o 13o espírito. Reafirma que ele será maldito por todas as gerações, mas que, no entanto, reinará sobre elas. Jesus repete que ensinou a Judas coisas que ninguém conhece. É algo muito grande e sem limites:

 

'que nenhum olho de um anjo viu,

nenhum pensamento do coração compreendeu

e que jamais foi nomeado por nenhum nome'.

 

A partir deste momento, por um longo trecho, é explicada a origem do bem e do mal. Um primeiro anjo, luminoso e divino, chamado Adamas, saiu de uma nuvem luminosa e criou miríades de anjos. Da nuvem surgiram também outros anjos, Nebro (nome que significa 'rebelde') e Saklas, que criou Adão e Eva 'à sua semelhança e imagem', mas que não deve receber deles sacrifícios. Continua o diálogo entre Jesus e Judas acerca do destino da humanidade (o texto está corrompido). Saklas terá um tempo, mas depois sua soberania terminará. Os que são batizados e oferecem sacrifícios a Saklas são ímpios. Neste ponto, Jesus acrescenta:

 

'Mas tu [Judas] sobrepujarás a todos. Porque tu sacrificarás o homem que me veste.

Teu chifre já foi elevado,

Tua ira se inflamou,

Tua estrela brilhou limpidamente'.

 

O texto termina com o relato da traição de Judas. Os sumo-sacerdotes murmuram porque Jesus entrou numa sala e está rezando. Alguns escribas o observam, mas não o capturaram porque têm medo do povo, que o considera um profeta. Aproximando-se de Judas, perguntam-lhe por que ali estava e se era discípulo de Jesus. Judas respondeu às perguntas feitas, recebeu uma soma pecuniária e lhes entregou Jesus".

 

3. Avaliando...

 

O Evangelho de Judas, escrito mais de um século após a partida de Jesus, enquadra Jesus dentro do esquema gnóstico, que não é o do Cristianismo bíblico, como se pode depreender da exposição seguinte:

 

A gnose professa o dualismo, ou seja, a oposição entre a matéria, que é tida como má, e o espírito, considerado bom. Por conseguinte afirma que o mundo material não procede de um Deus bom, mas vem de um Princípio mau e é governado pelo poder das trevas. O homem é um ser espiritual que decaiu do mundo espiritual e teve que descer ao mundo material, revestindo um corpo como escravo da matéria. A centelha de luz que nele está deve ser emancipada da matéria e de tudo que é material - o que significa: deve renascer, voltar a ser o que era antes. A salvação assim concebida ocorre mediante o conhecimento (gnose) da revelação do esquema gnóstico, que permite ao homem tomar consciência do que ele é, da sua origem e da finalidade da vida.

 

Ora o Evangelho de Judas insere Jesus nesse quadro: Judas é louvado por Jesus porque lhe presta grande serviço entregando Jesus aos adversários que o levariam à morte, porque deste modo contribuiu para libertar Jesus da matéria ou provocar sua partida deste mundo material; por isto diz Jesus a Judas em tom elogioso: "Tu sacrificarás o homem que me veste".

 

Em consequência fica evidente que tal apócrifo não oferece a história do passado, mas é uma reconstrução da figura de Jesus e do seu relacionamento com Judas, reconstrução efetuada tardiamente segundo um esquema filosófico-religioso preconcebido. Aliás tem-se a impressão de que o texto cai em contradição consigo mesmo; com efeito, Jesus, revestido de matéria como se fosse um ente decaído, esse Jesus é que faz o relato secreto da revelação a Judas em conversa ocorrida três dias antes de celebrar a Páscoa. Como entender?

 

O dualismo gnóstico aparece em diversas passagens do apócrifo, mencionando figuras luminosas opostas a outras, responsáveis pela criação e o governo do mundo material.

 

Destas considerações se percebe que o Evangelho de Judas não interfere na clássica noção da origem do Cristianismo. É um documento que serve para se compreender melhor o embate das ideias dos primeiros tempos do Cristianismo, mas não implica retoque de quanto até hoje os Evangelhos canônicos transmitiram.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



([1]) O texto que se segue até o próximo subtítulo é da autoria da Profa Maria de Lourdes Corrêa Lima.


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