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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 389 – outubro 1994

Releitura do passado:

 

"O MOVIMENTO DE JESUS"

 

por Eduardo Hoornaert

 

Em síntese: E. Hoornaert escreve a história na ótica dos pobres, em réplica à historiografia convencional, que lhe parece cultivada segundo a perspectiva dos ricos e dominadores. Na verdade, nem uma nem outra maneira de ver atinge os fatos objetivamente; ambas incorrem o risco da ideologia. O ser humano não é apenas um vivente necessitado de pão e saúde, mas é uma pessoa misteriosa, que anseia por saber qual o sentido da vida; é este o "apetite" mais fundamental de toda pessoa humana. Quem não leva em conta este traço característico, não explica suficientemente a rápida propagação do Cristianismo apesar da perseguição contra ele desencadeada até 313; não foram os aspectos socioeconômicos do Evangelho que empolgaram os mártires da fé cristã, mas, sim, a certeza de que viver e morrer com Cristo é penhor de plenitude ou de bem-aventurança sem fim.

 

O CEHILA (Centro de Estudos da História da Igreja Latino-Americana) tem-se dedicado a escrever a História da Igreja a partir da ótica do pobre, julgando que este olhar é novo e deve ser explorado para que haja melhor entendimento do passado. Entre outras obras já publicadas, apareceu em 1994 o primeiro volume de uma coleção destinada a compreender seis tomos, que considerarão o Cristianismo em suas origens e em seu desenvolvimento tais como os pobres os poderiam relatar; tal volume intitula-se "O Movimento de Jesus" e deve-se ao conhecido historiador Eduardo Hoornaert. ([1])

 

Por ser uma obra desafiadora, apresentaremos os principais traços do seu conteúdo e os comentaremos brevemente.

 

1. O MÉTODO

 

Na Introdução, o autor propõe seu método: afirma que a história do Cristianismo tem sido escrita em perspectiva ocidental e europeizante, além de confessional e institucional. Parece-lhe fazer falta a perspectiva do homem como tal. Ora o homem é essencialmente um ser corpóreo, que precisa de bens materiais, como alimento e saúde. Eis, porém, que tais bens faltam aos pobres; estes são os excluídos. Acontece que Jesus veio preocupar-se especialmente com a fome, a saúde e também com os sonhos religiosos do povo simples da Palestina... Daí a importância de se contar a história a partir desse interesse de Jesus pelos mais carentes:

 

''Entramos, pois, na história do Cristianismo com estas três perguntas na cabeça e no coração: onde se distribui o pão? Onde se consegue a saúde? Por onde passa o mundo dos sonhos? Estas perguntas hão de levar-nos por caminhos próprios, inusitados e mesmo estranhos numa área de estudos onde as preocupações institucionais e confessionais estiveram tantas vezes em primeiro plano" (pp. 11s).

 

O autor se declara também independente de qualquer instituição eclesial, ou seja, de qualquer visão de fé. Escreverá segundo parâmetros de sociologia, geografia, historiografia, aparentemente neutros do ponto de vista da fé. "Queremos descrever a história desde o reverso das condições que frequentemente temos que aceitar como normais, como a dominação dos grandes e ricos, o predomínio do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro, do civilizado sobre o indígena, do adulto sobre a criança ou o velho, do bem educado sobre o ignorante, do sadio sobre o deficiente físico, do patrão sobre o operário" (p. 14).

 

O autor adotará, portanto, a hermenêutica do pobre: "Interessa-nos saber como é que ele vive, sente, pensa, fala, reza, namora, imagina as coisas, se relaciona com as pessoas, com os Santos, com Deus. Vamos à procura do excluído concreto" (p. 21).

 

Isto quer dizer, entre outras coisas, que não se deve considerar o Cristianismo como a culminância da história,... culminância para a qual se encaminhavam o paganismo e o judaísmo. Esta concepção do Cristianismo como culminância da história "dificulta o diálogo com as diversas religiões existentes no mundo; dificulta também um estudo mais consistente da história do Cristianismo a partir dos pobres, pois estes (índios, negros, amarelos) entendem a mensagem cristã a partir do seu referencial pagão" (p. 22).

 

Em consequência, o autor se absterá de julgar paganismo, heresia, misticismo, Cristianismo... Prescindirá da veracidade ou da autenticidade religiosa de cada qual destas correntes, levando em conta apenas o ser humano que, em sua pobreza, se exprime como pagão, como judeu, como cristão, como herege...

 

"A hermenêutica do pobre questiona igualmente a eclesiologia em vigor" (p. 23). Reorganizar a sociedade implica reorganizar outrossim o espaço eclesial e deve fazer emergir o tema do sacerdócio comum dos fiéis.

 

Após estas premissas, o autor começa os capítulos de sua obra historiográfica, dos quais destacaremos alguns tópicos.

 

2. OS TEXTOS DO NOVO TESTAMENTO

 

O autor examina, logo de inicio, o valor histórico dos textos do Novo Testamento, dos quais se devem depreender as etapas do Cristianismo nascente. Neste ponto parece inseguro e contraditório. Com efeito, em certas passagens de sua obra parece cético:

 

"Hoje não vivemos mais na ilusão que tanto animava os estudiosos do Novo Testamento uns quarenta anos atrás. Pensava-se que seria possível recuperar um dia a ipsissima vox Jesu, ou seja, a literalidade das palavras de Jesus, a voz de Jesus mesmo. Mas essa perspectiva de um conhecimento da história de Jesus 'ao pé da letra' não existe mais. Sabemos como os textos neotestamentários ficaram expostos à manipulação durante longos séculos antes do controle do texto impresso (século XVI) e da informática (final do século XX) e sobretudo no período de cem anos que separa o tempo apostólico das primeiras preocupações com um 'cânone' de livros do Novo Testamento, no final do segundo século" (p. 29).

 

Todavia à p. 71 o autor parece assumir outra posição:

 

"Não se pode negar que as referências historiográficas do evangelho de João são convincentes, sobretudo seu relato da Paixão de Jesus. Mais ainda: trata-se do único texto bíblico inteiramente escrito por testemunha ocular da vida de Jesus... Com o quarto evangelho estamos, pois, diante de um texto que tem de ser tomado a sério historiograficamente. Disto se conclui que o jeito é respeitar uma certa diversidade na apresentação histórica de Jesus. Não existe uma só maneira de entender a sua história. Cada um a vê a seu modo; uns enxergam de um jeito e outros de outro jeito. Não se pode excluir nenhuma leitura, nem a joanina nem a sinótica, sob pena de não se dialogar de verdade com as fontes históricas de que dispomos".

 

Assim vemos que até os sinóticos são reabilitados; diferem de São João apenas pela modalidade do enfoque, dir-se-ia. Esta impressão se corrobora, se damos atenção ao que se lê à p. 37:

 

"Percebemos que essas comunidades (antigas) se comunicavam entre si e tinham o máximo cuidado em preservar a memória de Jesus e dos apóstolos da maneira mais fiel possível, sempre dentro da mentalidade da época, que não lidava com textos como nós hoje costumamos fazer. Podemos compreender perfeitamente o cuidado em pôr por escrito as memórias, pois o escrito é mais confiável do que a pura memória oral e auditiva".

 

Apesar de reconhecer a veracidade dos textos dos Evangelhos nos termos atrás, Hoornaert cede a conjeturas a priori e julga que passagens importantes do texto sagrado foram manipuladas. Assim, ao considerar a condenação de Jesus à morte, Hoornaert quer atribuir a responsabilidade aos romanos mais do que aos judeus; crê, porém, que os evangelistas procuraram diminuir a responsabilidade de Pilatos para conquistar as simpatias romanas de que precisavam para sobreviver:

 

"O judaísmo não costumava matar seus dissidentes. Conforme Flávio José, as autoridades judaicas só agiam com rigor no caso de revolta armada. A tradição cristã sempre enfatizou o papel do judaísmo na morte de Jesus, enquanto tende a minimizar a responsabilidade de Roma. Nos relatos evangélicos Pilatos aparece hesitante, quase simpático. Percebe-se nisso uma estratégia das primeiras gerações cristãs no sentido de conquistar as simpatias romanas. O fato é que a pena de morte era exclusiva das autoridades romanas. Será que elas intuíram na postura e pregação de Jesus um perigo para a 'pax romana'? De alguma forma Jesus deve ter perturbado essa 'paz', pois as autoridades romanas fizeram tudo para isolar Jesus de seus seguidores e desarticular o movimento (Wilson)" (pp. 80s).

 

Os preconceitos ou os a priori de Hoornaert são tais que ele pretende saber qual era a mensagem de Jesus antes de ser "manipulada" pelos evangelistas.

 

Assim, em virtude de suas premissas, Hoornaert julga que Jesus deve ter entrado em sérios conflitos com as autoridades civis do seu tempo, pois Jesus queria defender os pobres oprimidos da terra. Acontece, porém, que os evangelistas não referem tão frequentes e calorosos conflitos. Por quê?, pergunta Hoornaert. — Porque os evangelistas escreveram em época tardia; Mt, por exemplo, entre 80 e 100; ora nesses decênios as autoridades romanas vigiavam sobre os judeus e cristãos a fim de que não surgissem revolucionários como os que moveram a rebelião judaica de 66 a 70 d.C; daí se explica que Mt tenha apresentado "um Jesus humilde, pacífico, obediente às autoridades e de forma nenhuma subversivo" (p. 85). Lucas também terá abrandado o retrato de Jesus Contestatório; cf. p. 86.

 

Mais: a petição do Pai Nosso relativa ao pão (Mt 6,11) era a oração dos primeiros missionários itinerantes, que não tinham casa nem comida e, por isto, pediam tais subsídios ao Pai Celeste: "a oração (Mt 6,11) exprime a esperança de encontrarem uma casa, uma mesa, uma cama para passar a noite depois de um dia de peregrinação e pregação. Com o tempo esta prece terá mudado de sentido, significando sucessivamente o pão da mesa de família, o pão da palavra ou da doutrina e, finalmente, o pão eucarístico (sob Pio X, 1903-1914)! - Realmente o autor se afasta da exegese objetiva, para ceder a uma interpretação ideológica, derivada de um preconceito!

 

 

3. A FIGURA DEJESUS

 

1. Hoornaert apresenta Jesus preponderantemente como homem. ([2]) Faz questão de dizer que "Jesus não é diretamente qualificado como Deus em nenhum dos livros do Novo Testamento a não ser em alguns trechos de cartas apostólicas, que, por sinal, apresentam problemas de autenticidade literária" (p. 72). Tais textos seriam: 1Tm 3,16; Tt 2,13; Rm 5,1 (?); 1 Jo 5,7-9 (?). Todavia à p. 118 o autor reconhece: "No evangelho de João as coisas não são bem assim. Jesus se declara 'filho de Deus' "; ver Jo 1,1 s; 10,30.38; 14,9s, textos em que a Divindade de Jesus é explicitamente professada. Além disto, na tradição sinótica não se podem esquecer as passagens de Mt 11,27-29; 16,16-19-28,18-20...

 

Jesus veio salvar os pobres (entendidos no sentido da pobreza material), dando início a um movimento, e não à Igreja (p. 33). "O cristianismo elaborou uma leitura ocidentalizante e helenizada, ou seja, não judaizante do movimento de Jesus e foi essa leitura que nos foi transmitida desde nossa infância" (p. 31).

 

"Preferimos não falar em igreja ao descrever os inícios, pois aí imaginaríamos logo um Jesus fundador. Ele teria, por assim dizer, alicerçado o imponente edifício eclesial que se montou depois. Esse tipo de projeção nos desvia da realidade histórica" (pp. 33s).

 

Segundo Hoornaert, Jesus era camponês, isto é, "estava perfeitamente sintonizado com o mundo rural" (p. 74). Exerceu seu ministério segundo duas modalidades: realizando milagres e participando da mesa das famílias de sua terra (comensalidade).

 

2. Milagres... Conforme Hoornaert, não eram "acontecimentos que fugiam às leis da natureza", mas "os camponeses galileus os entendiam como provas de que a força de Jesus era maior do que a dos demônios e dos rabinos. Ora demônios e rabinos não querem o bem do povo, mas seus próprios interesses. Atrás da exaltação em torno dos milagres de Jesus os pobres experimentavam o sentimento confortante de que alguém efetivamente se interessava por eles, que eles não estavam de todo abandonados (cf. p. 81). — Assim o milagre deixa de ser enfocado como sinal teológico propriamente dito, mas é considerado politicamente como um gesto do amor de Jesus aos pobres, à diferença do que faziam os rabinos.

 

Hoornaert atribui um significado singular às curas realizadas por Jesus. Julga que, conforme os judeus, "a cura era um monopólio do Senhor Deus. O recurso a um médico era frequentemente interpretado como falta de fé em Deus, como no caso de Asa narrado em 2Cr 16,12 (cf. p. 77); Deus operava segundo os canais oficiais (os sacerdotes e os funcionários do Templo); Jesus, porém, arrogava a si o direito de perdoar os pecados e efetuar curas. "Jesus operava milagres 'por fora', inclusive sem cobrar nada, de graça, enquanto os funcionários do Templo cobravam por seus serviços" (p. 77). Assim Jesus incomodava... desafiando a legitimidade dos sacerdotes do Templo...

 

Mais uma vez se percebe o preconceito... Havia em Israel quem valorizasse os médicos e a medicina; por isto não se pode dizer que o recurso aos mesmos era, de modo geral, tido como pecaminosa falta de fé. Tenham-se em vista os dizeres do Eclesiástico, que datam do século II a.C. e revelam mentalidade diversa da que supõe Hoornaert:

 

"Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou... A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes... Dá lugar ao médico, porque o Senhor também o criou; não o afastes de ti, porque dele tens necessidade" (Eclo 38,1.3.12s).

 

Na verdade, Jesus não foi um curandeiro extraoficial. Ele curava os corpos sempre em sinal (semeion) de sua obra redentora; veio trazer aos homens a verdadeira vida ou a filiação divina e, para testemunhá-lo, dava a saúde corporal, símbolo da restauração do homem e da sua vocação para a plenitude da Vida.

 

3. Comensalidade... Jesus se sentava à mesa com publicanos e prostitutas; tomava-se, por assim dizer, cúmplice com os seus comensais. Não era o pregador com ar de asceta distante, mas o companheiro, o colega, o amigo (cf. p.78). "A partilha do pão com pecadores e pobres fazia parte das práticas transgressoras de Jesus. Com isso ele vivia desafiando as formalidades do comportamento social;tornava-se igual a todos os que se sentavam com ele à mesa" (p. 79). — Eis outra interpretação unilateral ou sociológica e política do comportamento de Jesus.

 

Ainda a respeito de Jesus chama-nos a atenção uma estranha afirmação de Hoornaert:

 

"O Evangelho não constitui uma novidade absoluta; é antes uma radicalização dos ensinamentos contidos tanto na Torá escrita (Bíblia) como na Torá oral, ou seja, nas doutrinas rabínicas" (p. 92).

 

Pode-se, de fato, reconhecer que o Evangelho é a plenitude da Lei e da Revelação do Antigo Testamento. Por conseguinte, tem seus ecos antecipados na Torá de Israel; a preocupação com os pobres já existia no Talmud. Todavia o que o Evangelho possui de mais típico não é a preocupação com os pobres; esta é uma decorrência (necessária, sem dúvida) de algo ainda maior; sim, Jesus nos revelou o mistério de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) e a vocação do homem a ver Deus face-a-face,... vocação que já começa na terra pela comunhão com a vida trinitária na graça santificante; o homem é chamado à filiação divina e, por isto, deve tendera ser perfeito como o Pai Celeste é perfeito, Ele que dá a chuva e o sol aos bons e aos maus (cf. Mt 5,44-48); o cristão ama os pobres prolongando o amor de Deus a todos os homens,... "amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rm 5,5).

 

O Evangelho é, portanto, algo de inédito na história do pensamento religioso, como lembra São Paulo:

 

"Quando ainda éramos fracos, Cristo, no tempo marcado, morreu pelos ímpios. Dificilmente alguém dá a vida por um justo; por um homem de bem talvez haja alguém que se disponha a morrer" (Rm 5,6-8; cf. Jo 4, 10.19).

 

4. ULTERIORES CONSIDERAÇÕES

 

Outros traços destoantes ainda podem ser apontados na obra de Hoornaert:

 

1) O Apocalipse de São João é tido como o livro do clamor dos pobres oprimidos pelo Império Romano. Por isto as autoridades da Igreja terão hesitado sobre a conveniência de o incluir no catálogo dos livros sagrados (cf. p. 113). — Ora o Apocalipse é, antes do mais, o livro da consolação dirigida a cristãos perseguidos por causa da sua fé; o enfoque do autor sagrado é, antes do mais, religioso; não há dúvida, os primeiros cristãos se recrutavam entre as classes pobres (cf. 1Cor 1,26-29); todavia o que motivava a perseguição contra eles, era o fato de que o Império Romano os julgava ateus (... ateus porque não adoravam os deuses do Império e o próprio Imperador). As hesitações sobre a canonicidade do Apocalipse não eram de ordem política, mas de ordem teológica: o capítulo 20 do livro sugeria o milenarismo (ou um reino milenar de Cristo sobre a Terra), doutrina controvertida nos primeiros séculos.

 

2)   À p. 144 Hoornaert afirma: "Foi Paulo que abriu a porta do Cristianismo aos pagãos". — Não se pode esquecer, porém, que foi Pedro quem recebeu o primeiro pagão na Igreja. Movido por revelação divina, Pedro deu o início à acolhida dos pagãos, sem lhes impor a circuncisão, como haveria de fazer mais tarde São Paulo.

 

3)   Ao tratar da origem do Evangelho segundo Marcos, o autor imagina que "Marcos fez uma pesquisa... na Galiléia, uns trinta anos após os acontecimentos, e conseguiu ouvir ainda testemunhas oculares. Mas o texto não é puro relato de um pesquisador; nele há muito trabalho de comunidades" (p. 36). — O autor poderia ter levado em conta a tese de J. O'Callaghan (ainda discutida, mas bem fundamentada) segundo a qual o Evangelho de Marcos começou a ser redigido antes de 50, visto que em Qumran, a N.O. do Mar Marto, se encontrou um fragmento de papiro que parece reproduzir Mc 6,52s. De resto, o Evangelho de Marcos tem características de antiguidade, dado que é o mais tosco e rude, tornando-se por vezes uma cruz para os intérpretes. Ver PR 354/1991, pp. 482-494.

 

4)   Em suma, toda a obra de Hoornaert é concebida em perspectiva de luta de classes e de rivalidade — o que impede uma visão objetiva da realidade.

 

5. REFLEXÃO FINAL

 

Hoornaert quis escrever a história segundo a ótica dos pobres, em oposição à historiografia cultivada segundo a ótica dos ricos e poderosos. Na verdade, tanto uma como outra perspectiva falseiam os fatos e incorrem em ideologia. Quem percorre o livro de Hoornaert, percebe tomadas de posição forçadas ou artificiais; deixam de levar em conta certos dados que a ciência exegética objetiva ou neutra propõe como dignos de consideração. Ademais é impossível encarar corretamente Jesus Cristo e o Evangelho sem ponderar os dados da fé. Chama a atenção especialmente a rápida propagação do Cristianismo, que apregoava um Messias morto na Cruz e ressuscitado, portador de uma Ética exigente e contrária aos costumes vigentes no Império Romano; tão rápida propagação, à revelia da perseguição que se estendeu até 313, não pode ter sido simplesmente fruto de um entusiasmo de índole sócio-político-econômica. O ser humano não é simplesmente um vivente que procura pão e saúde; ele traz grandes interrogações em seu coração: De onde venho? Para onde vou? Que haverá depois da morte? Em suma:... qual o sentido da vida? Ora o Cristianismo respondia a essas indagações, preenchendo os anseios do ser humano; foi isto que lhe valeu a vitória sobre a perseguição. Jesus predisse aos seus discípulos tribulação e dureza (exigiu mesmo que tomassem a sua Cruz e o seguissem); se não fosse a certeza de que essa caminhada levava à vitória sobre a morte, os homens não teriam aceito a mensagem do Evangelho. Dizia Tertuliano (+220): "Anima humana naturaliter Christiana. — A alma humana é naturalmente cristã"; não porque o Cristianismo conteste sem mais os ricos e desperte os pobres para a revolução, mas porque o Evangelho toca as mais íntimas fibras da alma humana, que são as concernentes ao sentido da vida, do sofrimento e da morte. Quem privilegia os interesses meramente materiais ou corpóreos do homem, não entendeu o mistério da pessoa humana. Em consequência, escrever a história dentro de tal perspectiva implica não entender devidamente os fatos pretéritos.

 

Em suma: não seria lícito depreciar a ordem social justa e o empenho do cristão em prol da mesma. Mas importa não reduzir o Cristianismo simplesmente a uma mensagem de ordem temporal ou a uma convocação para a militância política. Antes do mais, o Cristianismo revela ao homem o seu destino transcendental e chama-o a procurar instaurar neste mundo os princípios do Reino de Deus, que só estará consumado após o término da história presente.

 

A fim de corroborar as reflexões atrás propostas, seguem-se três testemunhos da Igreja antiga; mostram a maneira como os homens dos primeiros séculos encaravam o Cristianismo e por que a ele aderiam.

 

APÊNDICE

 

1. SÃO JUSTINO, FILÓSOFO E MÁRTIR (+165 APROXIMADAMENTE)

 

Justino nasceu de família pagã helenista, que residia em Flávia Neápolis (Naplousa) na Palestina. Desde cedo foi movido pelo desejo de descobrir a Verdade. Por isto bateu à porta de quatro escolas de filosofia (sabedoria), como a estoica, a peripatética (aristotélica), a pitagórica e a platônica... Finalmente, quando passeava à beira-mar em Éfeso, foi abordado por um ancião, que lhe falou dos Profetas e das Escrituras Sagradas, voltando a sua atenção para o Cristianismo. Justino resolveu então abraçar a fé e o Evangelho como sendo a súmula de toda a sabedoria (daí dizer-se filósofo por toda a sua vida).

 

O caso de Justino não é único na literatura cristã antiga. Oferece um válido espécime do significado que o Cristianismo tinha para os homens do Império Romano. O texto que se segue, narrando a conversão de Justino, é extraído do início do seu "Diálogo com Trifão".

 

"Inicialmente, desejando muito entrar em contato com um destes filósofos, fui ter com um estoico. Permaneci junto dele por longo tempo, mas nada aprendi a respeito de Deus. Aliás, nem ele sabia alguma coisa, nem julgava necessária essa ciência. Abandonei-o, portanto, e dirigi-me a outro, que diziam ser peripatético. Este achava-se a si mesmo sutilíssimo. Suportou-me os primeiros dias, mas depois pediu que determinasse o seu salário, para que o nosso convívio não fosse infrutífero... Ora, por este motivo abandonei-o também, certo de que ele não podia ser filósofo... Com a alma ainda repleta do desejo de ouvir o que é peculiar e interessante na filosofia, procurei um pitagórico, que gozava de grande estima. Este homem muito se vangloriava de sua sabedoria. Quando tratei com ele, para tornar-me seu ouvinte e pensionista, perguntou-me:

 

— Mas como? Já estudaste música, astronomia e geometria? Acaso pensas perceber algo das coisas que conduzem à felicidade, sem teres aprendido antes o que desprende a alma das coisas sensíveis e a torna apta a perceber os objetos inteligíveis, a contemplar o próprio Belo e o próprio Bem?

 

E assim, louvando sempre essas ciências e dizendo-as muito necessárias, despediu-me, depois de eu ter confessado ignorá-las. Como era natural, fiquei aborrecido por ver frustrada a minha esperança, sobretudo porque julgava que ele sabia alguma coisa. Considerando por outro lado o tempo que iria despender com tais estudos, não suportava a ideia da longa demora a que me tinha de submeter. Em tal dificuldade pareceu-me bom procurar os platônicos, que também gozavam de considerável reputação. Comecei a frequentar assiduamente um sábio que se mudara, havia pouco, para a nossa cidade e que era um dos platônicos mais em vista. Fiz progressos, e cada dia adquiria novos conhecimentos. Entusiasmava-me sobremaneira com o conhecimento das coisas incorpóreas, e a contemplação das ideias dava asas a meu pensamento. Julgava ter-me tornado sábio em tão pouco tempo, e esperava em breve ver o próprio Deus — pois tal é o fim da filosofia platônica.

 

Com tais disposições de espírito, querendo cercar-me de completa solidão e escapar até aos rastros dos homens, dirigi-me para uma localidade não longe do mar. Quando cheguei perto do lugar onde iria ficara sós comigo mesmo, um ancião de aparência respeitável pôs-se a seguir-me a pequena distância. Seu aspecto era calmo e imponente. Voltei-me e, parado, encarei-o com firmeza. Ele então perguntou:

 

    Conheces-me? Neguei.

    Então por que me olhas assim?

    Admiro que tenhas conseguido chegar ao mesmo lugar que eu. Não esperava ver um homem por estas bandas.

    Estou preocupado, disse ele, com os meus; afastaram-se de mim, e por isso estou à procura, para ver se não aparecem por aqui. E tu, que queres neste lugar?

    Gosto deste gênero de distrações, onde, não havendo nada que perturbe, posso à vontade conversar comigo mesmo. Este lugar aqui facilita muito minha 'filologia'.

    'Filologia?' replicou. És então amigo só de palavras, e não das ações e da verdade? E nem procuras ao menos ser pragmático em vez de sofista?

    Que obra melhor poderá alguém empreender, disse eu, do que mostrar que a razão tudo domina? ... abraçá-la, e elevado por ela, contemplar os erros e as ocupações dos outros, e ver como nada fazem que seja verdadeiramente são ou agradável a Deus? Sem a filosofia e sem a reta razão é impossível achar em alguém a prudência. Por isso convém que todos os homens se deem ao estudo da filosofia. Esta ocupação não deve ser colocada em segundo e terceiro lugar. As coisas que permanecem na dependência da filosofia são comedidas e dignas de ser aceitas, porém as que não a seguem, ou são privadas do seu auxílio, tornam-se pesadas e grosseiras para os que as têm de tratar.

 

    Então a filosofia conduz à felicidade? perguntou ele.

    Certamente, respondi, e ela só!

    Mas que é filosofia? e qual a felicidade que pode dar? Se nada te proíbe dizê-lo, dize-o!

— Filosofia, disse eu, é ciência do ser e conhecimento da verdade. E isso mesmo constitui a felicidade, o prêmio da sabedoria.

 

— E o que é que chamas Deus? perguntou.

— Aquilo que sempre é o mesmo e se comporta da mesma maneira, e é a causa da existência dos outros seres: a isto chamo Deus".

 

Mais adiante continuou o ancião:

 

"Existiram, muito antes de todos estes que se dizem filósofos, uns homens felizes e justos, aos quais Deus amava. Falaram movidos pelo Espírito divino, e predisseram acontecimentos futuros que agora se realizaram. Nós os chamamos Profetas. Eles foram os únicos a contemplar a verdade e anunciá-la aos homens. Ninguém os fazia temer, ninguém os confundia. Nunca foram vencidos pela ambição. Limitavam-se a dizer o que haviam visto e ouvido, cheios do Espírito Santo. Os seus escritos foram conservados até hoje, e quem os consulta aprende muito no que diz respeito aos princípios, aos termos e a todas as outras questões que um filósofo tem de tratar, mas desde que creia neles. Quando falavam, não faziam uso de demonstração filosófica, pois na qualidade de testemunhas fidedignas da Verdade estavam acima de toda demonstração. Porém os fatos que aconteceram e continuam a acontecer obrigam-nos a acreditar no que disseram, ainda que disso fossem dignos já pelos milagres que realizaram, e porque davam glória ao Deus, Pai e Criador de todas as coisas, anunciando aos homens o Cristo, seu Filho e enviado. Milagres tais nunca fizeram nem hão de fazer os falsos profetas, cheios de espírito da mentira e da imundície, se bem que ousem produzir alguns fenômenos prodigiosos para aterrar os homens, e glorificar os espíritos do mal e os demônios.

 

Tu, porém, antes de tudo, pede que te sejam abertas as portas da luz, porque só pode perceber e compreender estas coisas aquele a quem Deus e seu Cristo concederam a inteligência.

 

Depois de me ter dito todas estas coisas e ainda muitas outras que não posso repetir por faltar-me tempo, deixou-me o ancião, recomendando que continuasse por mim mesmo a pensar sobre o assunto. Nunca mais o vi, mas logo se acendeu um fogo em minha alma, penetrou-me um grande entusiasmo pelos Profetas, e pelos homens que são amigos de Cristo. Refletindo comigo mesmo sobre as palavras do ancião, acabei achando que eram a única filosofia segura e conveniente. Assim, posso dizer que por causa desta filosofia também eu sou filósofo. Quisera que todos os homens, tomados do mesmo entusiasmo que eu, não se apartassem dos ensinamentos do Salvador. Suas palavras são fortes e temíveis, capazes de persuadir os que andam desviados do caminho reto; e contudo um suave descanso para os que as meditam. Se portanto te interessa tua própria pessoa, e desejas a salvação, já que tens fé em Deus e não és completamente um estranho, podes alcançar a felicidade, desde que reconheças a Cristo e sejas iniciado."

 

2. ATENÁGORAS, O "FILÓSOFO CRISTÃO DE ATENAS" (+180 APROXIMADAMENTE)

 

É um apologista da fé cristã, autor da "Súplica em favor dos cristãos", dirigida, em 177 aproximadamente, ao Imperador Marco Aurélio e a seu filho Cômodo; defende os cristãos contra três acusações: ateísmo, antropofagia (banquetes de Tiestes) e incesto, e põe em relevo a dignidade de vida dos cristãos, atraídos pelo mistério de Deus revelado pelo Verbo:

 

"Lançaram-nos três acusações: ateísmo, banquetes de Tiestes, incestos de Édipo. Se isso é verdade, se existe entre nós quem viva como animais, então não poupeis a ninguém, puni radicalmente esses crimes, condenai-nos à morte com nossas mulheres e filhos, destruí-nos totalmente. Aliás, os próprios animais não vivem assim, não atacam seus congêneres, copulam conforme a lei da natureza e só no tempo de procriar, sem licenciosidade; eles reconhecem, inclusive, os que os ajudam. Se pois existe alguém mais selvagem que os animais, qual será o castigo proporcionável a tais crimes?

 

Se, pelo contrário, não há nisso mais que fabulações e vãs calúnias — naturalmente o mal se opõe à virtude e a lei divina faz que os opostos se guerreiem — certos de que não somos culpados de nenhum desses crimes, mandareis, não que os confessemos, mas que se vos faça um inquérito sobre nossa vida, nossas opiniões, nosso zelo, nossa obediência para convosco, para com vossa casa e vosso império; agindo assim, não nos estareis concedendo algo mais que a nossos perseguidores, aos quais venceremos dando, sem hesitação, nossas próprias vidas em favor da verdade.

 

Nós não somos ateus. Reconhecemos a existências de um único Deus, incriado, eterno, invisível, impassível, incompreensível . . . Ora, se não crêssemos num Deus acima do gênero humano, poderíamos levar uma vida tão pura? Não seria possível. É na persuasão de que de nossa vida presente haveremos de prestar contas ao Deus nosso Criador e Criador do mundo que optamos por uma vida moderada, caritativa e desprezada, crendo não ser possível sofrer mal algum (mesmo se nos tirassem a vida), comparável à recompensa que receberemos do grande Juiz, por uma vida humilde, caridosa e boa. Platão dizia certamente que Minos e Radamanto tinham que julgar e castigar os maus; porém nós dizemos que nem Minos nem Radamanto nem o pai deles escaparão ao juízo de Deus. Vemos aliás serem tidos por piedosos os que adotam como conceito de vida o 'comamos e bebamos porque amanhã morreremos' ([3]) e que consideram a morte um sono profundo; nós, ao contrário, temos a vida presente como de curta duração e de pequena estima, comovendo-nos pelo desejo de chegar a conhecer o verdadeiro Deus e o Verbo que está nele, qual a comunhão que há entre o Pai e o Filho, o que seja o Espírito, qual seja a unidade de tão grandes realidades e a distinção entre os assim unidos, o Espírito, o Filho e o Pai; sabemos que a vida que esperamos é superior a tudo quanto se possa expressar por palavras, desde que possamos chegar a ela puros de toda iniquidade, desde que amemos extremosamente a nossos amigos — conforme diz a Escritura: 'se amais aos que vos amam e retribuís aos que vos fazem bem que recompensa esperais?' ([4]). Pois bem, não haveremos de ser prezados como religiosos os que assim somos e vivemos tal tipo devida, receosos de uma condenação?...

 

Tendo a esperança da vida eterna, subestimamos as coisas da vida presente e mesmo os prazeres do espírito: cada um de nós tem por mulher a que desposou segundo as leis que já estabelecemos, e com a finalidade da procriação... É fácil mesmo achar entre nós muitos homens e mulheres que chegaram celibatários até a velhice, na esperança de alcançarem uma intimidade maior com Deus".

 

3. EPISTOLA A DIOGNETO (SÉCULO III)

 

Eis uma carta de autor desconhecido do século III, que louva a beleza da vida cristã; esta, inserida neste mundo e compartilhando o que a sociedade tem de honesto, não perde de vista os valores definitivos:

 

"Os cristãos não diferem dos demais homens pela terra, pela língua, ou pelos costumes. Não habitam cidades próprias, não se distinguem por idiomas estranhos, não levam vida extraordinária. Além disso, sua doutrina, não a encontraram em pensamento ou cogitação de homens desorientados. Também não patrocinam, como fazem alguns, dogmas humanos. Mas, habitando, conforme a sorte de cada um, cidades gregas e bárbaras, é acompanhando os usos locais em matéria de roupa, alimentação e costumes, que manifestam a admirável natureza de sua vida, a qual todos reputam extraordinária.

 

Habitam suas pátrias, mas como estrangeiros. Participam de tudo como cidadãos, mas tudo suportam como estrangeiros. Qualquer terra estranha é pátria para eles; qualquer pátria, terra estranha. Casam-se e procriam, mas nunca lançam fora o que geraram. Têm a mesa em comum, não o leito. Existindo na carne, não vivem segundo a carne. Na terra vivem, participando da cidadania do céu. Obedecem às leis, mas as ultrapassam em sua vida. Amam a todos, sendo por todos perseguidos. Desconhecidos, são assim mesmo condenados. Mas quando entregues à morte, são vivificados. Na pobreza, enriquecem a muitos; desprovidos de tudo, sobram-lhes os bens. São desprezados, mas no meio das desonras sentem-se glorificados. Difamados, mas justos; ultrajados, mas benditos. Injuriados, prestam honra. Fazendo o bem, são punidos como malfeitores; castigados, rejubilam-se como revivificados. Os judeus hostilizam-nos como alienígenas, os gregos os perseguem, mas nenhum de seus inimigos pode dizer a causa de seu ódio.

 

Para resumir numa palavra, o que é a alma no corpo, são os cristãos no mundo: como por todos os membros do corpo está difundida a alma, assim os cristãos por todas as cidades do universo. Habita a alma no corpo, mas não procede do corpo; assim os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é enclausurada num corpo visível; os cristãos, conhecidos enquanto estão no mundo, têm uma religião que permanece invisível. A carne odeia a alma sem ter recebido injúria, mas apenas porque não a deixa gozar os prazeres; aos cristãos odeia o mundo sem ter sido injuriado por eles e só porque renunciam aos prazeres. A alma ama o corpo e os membros que a odeiam; também os cristãos amam os que os odeiam.

 

A alma está encerrada no corpo, mas é ela que o sustenta. Os cristãos, por sua vez, estão encerrados no mundo como num cárcere; mas são eles que o sustentam. A alma habita um tabernáculo mortal. Os cristãos peregrinam através de bens corruptíveis, na expectativa da celeste incorruptibilidade.

 

Maltratada quanto a alimentos e bebidas, a alma se aperfeiçoa; também os cristãos, afligidos por castigo, cada dia mais aumentam em número. Deus colocou-os num posto tal que não lhes é lícito desertar.

 

Não foi, como já disse, invenção terrestre o que se lhes transmitiu; nem julgam ter sob sua vigilante guarda uma concepção mortal. Não lhes foi confiada a dispensação de mistérios humanos.

 

Mas foi o próprio Deus invisível, verdadeiramente Senhor e Criador de tudo, que do alto dos céus colocou entre os homens a Verdade, o Logos santo e incompreensível, e o inseriu firmemente nos seus corações".

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Eduardo Hoornaert, O Movimento de Jesus. Ed. Vozes, Petrópolis 1994, 145 x 210 mm, 160 pp.

[2] Pelo fato de que o autor se apresenta como católico (p.20), pode-se admitir que tenha guardado a fé em Jesus Deus e Homem.

[3] Is 22, 13.

[4] Mt 5, 46.


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