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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 507 – setembro 2004

Estranha surpresa:

 

OS SANTOS ATRAVÉS DA GRAFOLOGIA

 

Em síntese: A grafologia é o estudo das características psíquicas de uma pessoa mediante a escrita da mesma. Um dos pioneiros desse tipo de estudo é o Pe. Girolamo Moretti, que formulou oitenta e uma regras aptas a estabelecer a correlação entre as diversas modalidades de escrever e as inclinações inatas que possa haver no ser humano. O mesmo grafólogo, cuja autoridade é reconhecida, estudou numerosos manuscritos de santos; a princípio surpreendeu-se pelos resultados a que chegou. Depois, resolveu publicarem famoso livro as análises grafológicas de santos por ele realizadas; o título original italiano da obra é "I Santi dalla Scrittura", em francês "Copie non conforme" (Casterman, Paris 1960).

 

Desse livro extraímos no presente artigo alguns dos mais significativos retratos hagiográficos; são confrontados os dados grafológicos e os traços biográficos de vários santos. Enquanto a escrita revela muitas vezes que os santos foram propensos a graves falhas de caráter ou de ética, os elementos biográficos mostram que os mesmos, por efeito da graça de Deus, souberam superar essas más tendências, transformando em positiva a carga negativa de suas inclinações desregradas; neles o amor sensual converteu-se em amor místico a Deus; a obcecada cobiça de bens temporais foi transformada em inflexível procura de bens espirituais; a prodigalidade perdulária mudou-se em generosidade contínua para com Deus e o próximo, etc.

 

A consciência destes fatos é apta a despertar alento e avivar em todos os cristãos a aspiração à santidade, vocação normal e comum de todos os filhos de Deus.

 

Pode-se dizer que a análise da escrita é apta a revelar algo do tipo de personalidade de quem escreve. Verdade é que a grafologia somente nos últimos decênios vem sendo cultivada de maneira científica; é por isto que certas regras propostas pelos grafólogos ainda estão sujeitas a revisão. Como quer que seja, é interessante levar em conta a obra de um dos mais abalizados grafólogos, o Pe. Frei Girolamo Moretti, da Ordem dos Franciscanos Conventuais, obra intitulada "I Santi dalla Scrittura" ou, em francês, "Copie non conforme. Le vrai visage des saints révélé par leu écriture", Paris, Casterman 1960. Este livro contém os resultados dos exames da escrita de trinta santos, desde São Francisco de Assis (t 1226) e S. Tomás de Aquino (f 1274) até S. Pio X (t 1914). É obra que consideraremos neste artigo. Procederemos de modo a dar inicialmente algumas noções sobre grafologia; ao que se seguirão as ponderações referentes a algumas escritas de santos, que não serão os mesmos já analisados em PR 45/1961, pp. 363-373.

 

1. Grafologia: fundamentos filosóficos

 

A grafologia, como ciência, supõe a antropologia. Considera o ser humano como um composto de corpo e alma. A alma é a parte determinante; o corpo, a parte determinada. O corpo é tal porque recebe da alma a sua ordem interior ou o seu "plano arquitetônico". O ser humano, embora composto de corpo e alma, constitui uma unidade; nessa unidade, o corpo é o espelho da alma; o modo de ser do corpo é o espelho do modo de ser da alma. Donde se segue que a linguagem exterior e sensível de alguém é o espelho do modo como as ideias e os afetos são concebidos no íntimo dessa pessoa. Existem, pois, relações bem definidas entre as modalidades da linguagem exterior, gráfica, e o estilo íntimo ou o caráter próprio da mesma pessoa. Aliás, pode-se dizer que qualquer aspecto de uma personalidade é sempre marcado pelo estilo geral da mesma; o modo de agir corresponde ao modo de ser do sujeito; "agere sequitur esse", diz a filosofia clássica.

 

Na base destas premissas, o Pe. Girolamo Moretti dedicou-se ao estudo criterioso da escrita e, após cinquenta anos de confronto e reflexão, estabeleceu 81 regras grafológicas ou regras de interpretação dos caracteres gráficos. Cada regra exprime a relação existente entre determinado sinal gráfico e certa qualidade psicossomática do indivíduo. Essas regras, submetidas a controle e experiências, obtiveram notável confirmação por parte do próprio sujeito cuja escrita fora analisada, ou por parte de educadores, médicos, amigos... que conheciam tal sujeito. Diz o próprio Pe. Moretti: "Num total de 300.000 análises, recebi 299.999 confirmações" (ob. cit., p. 241, ed. francesa).

 

Os sinais gráficos são por Moretti distribuídos em substanciais, modificadores e acidentais, e enquadrados dentro de um sistema próprio de classificação decimal.

 

A teoria se apresenta muito aprimorada e original. Contudo os críticos se mostram cautelosos ao julgá-la. Consciente de que a ciência grafológica ainda está em seus anos de infância, admitem que os estudos futuros possam levar a reformar certas conclusões do Pe. Moretti, no momento tidas como válidas, mas talvez insuficientemente assentadas. Além disto, propõem uma questão não desprezível: nos casos em que os grafólogos proferem diagnósticos certos, estarão sendo induzidos a isto unicamente pelas regras da grafologia ou quem sabe se não falam por efeito de um dom pessoal de clarividência (o que não teria que ver com os princípios da grafologia)?

 

Como quer que seja, o Pe. Moretti aplicou suas regras à escrita dos santos, deixando-nos, em consequência, um livro que muito tem impressionado o público: "I Santi dalla Scrittura".

 

2. A grafologia aplicada aos santos

 

1. Há noventa anos, em 1914, Monsenhor Clementi, historiador em serviço no Vaticano, entregava ao Pe. Girolamo Moretti, já então conceituado grafólogo, uma carta de S. José de Cupertino (1603-1663), franciscano conventual, que acabava de ser declarado padroeiro dos aviadores. Submetendo o documento à análise grafológica, Moretti se surpreendeu por descobrir na fisionomia do santo assim expressa sinais de fraqueza de caráter e de espírito vingativo. Contudo Mons. Clementi assegurou-lhe que a conclusão bem correspondia aos dados históricos: estes atestam que São José de Cupertino teve de sustentar, durante toda a vida, árduas lutas contra as más tendências de sua natureza.

 

A seguir, foram confiados ao Pe. Moretti espécimes da escrita de cerca de cinquenta santos canonizados, cujos nomes não lhe eram revelados, a fim de que a análise não sofresse influências estranhas. Os resultados da análise desses documentos de tal modo surpreenderam Moretti que este por três anos renunciou a praticar a grafologia: as pesquisas haviam-lhe dado a ver de perto a humanidade dos santos, humanidade que, na maioria dos casos, lhe aparecia tecida de inclinações pouco condizentes com a santidade. Daí o espanto, à primeira vista, desnorteador...

 

Moretti, porém, se refez do susto e decidiu-se a publicar, no volume citado, os resultados de seus estudos concernentes a trinta santos. A disposição da matéria é a mesma em cada caso: vê-se 1) uma página de texto da lavra do respectivo santo; 2) o exame da escrita, segundo a classificação decimal e a terminologia técnica de Moretti; 3) a interpretação clara e minuciosa dos dados colhidos; 4) traços biográficos do santo que mostram a correspondência entre o julgamento do grafólogo e a realidade vivida pelo santo.

 

2. Qual a mensagem de tão meticulosos exames? Será realmente desconcertante, levando a crer que, na verdade, não há santos ou que é impossível chegar à santidade?

É o que vamos ponderar abaixo.

 

a)  Antes do mais, leve-se em conta o fato de que a grafologia apenas indica o "lastro bruto" ou o "fundo bravio" do qual se fez a figura do santo; ela só evidencia as tendências inatas, sem dizer coisa alguma do trabalho que cada santo empreendeu industriosamente com essa sua massa de argila; já não é da alçada da grafologia enunciar as vitórias sobre as paixões que cada santo logrou no decorrer de sua vida.

 

b)  Assim a ciência da escrita apenas leva a concluir que ninguém nasce santo, mas que também os santos compartilharam o patrimônio da miséria nativa do comum dos homens. Experimentaram ímpetos da natureza desregrada, como os experimentam os demais homens. Contudo o que os diferencia dos restantes mortais, é que, embora possuíssem esse fundo de fraqueza, não se renderam à "sina" de ser medíocres por toda a vida, não se conformaram com a miséria moral, mas empreenderam corajosamente a luta que poucos empreendem: oraram, pedindo a graça de Deus; cooperaram com esta, lutando contra seus defeitos sem desfalecer, sem desanimar (desânimo seria expressão de amor próprio decepcionado ou magoado)... Em consequência, conquistaram as virtudes contrárias às suas más tendências, tornando-se verdadeiros heróis; merecem assim o título de "autênticos homens livres"; livres, sim, porque escaparam aos.pretensos "determinismos" da natureza e do ambiente, configurando-se totalmente ao exemplar de perfeição que Deus lhes assinalou.

 

Assim o exame grafológico, longe de lançar descrédito sobre os santos, contribui para que melhor se perceba o seu verdadeiro valor e mais estima se lhes tribute; os santos não foram santos por possuírem uma natureza humana privilegiada ou, de algum modo, diferente da nossa; ao contrário, a partir do ponto mesmo em que todos começamos a vida na terra, foram subindo para Deus; o segredo do seu êxito consistiu simplesmente em deixar-se guiar pela graça, à qual infelizmente tantos homens se subtraem.

 

c) A luz dos resultados grafológicos, entende-se melhor como todos possam ser (e, de fato, são) chamados à santidade, apesar das más tendências congênitas em cada ser humano. Não é necessário que estas digam a última palavra no currículo terrestre de alguém. Para suplantá-las, qualquer que seja a sua intensidade, existem os recursos da oração e da graça de Deus indistintamente oferecidos a todos os homens.

 

Às vezes, pessoas particularmente favorecidas por suas qualidades naturais ficam na mediocridade, justamente por não terem ocasião frequente de se humilhar diante de Deus e de pedir a graça do Altíssimo. Bem-aventurados, antes, aqueles que se colocam na atitude de humildes mendigos diante de Deus (cf. Mt 5, 3)!

 

d) Ainda em outros termos: a análise da escrita permite ver como a graça de Deus explorou a massa de argila humana dos santos, transformando em arroubo para Deus cada uma das baixas tendências que eles traziam em si mesmos.

 

Assim o amor sensual veemente, apaixonado, foi, pela graça, convertido em amor místico de Deus; a obcecada cobiça de bens temporais foi transformada em inflexível procura de bens espirituais ou ardente sede de Deus e da vida eterna; a prodigalidade perdulária, esbanjadora, mudou-se em generosidade contínua para com Deus e o próximo; a teimosia soberba transfigurou-se em tenacidade inquebrantável no serviço humilde de Deus; a sandice lasciva passou a ser ausência de todo respeito humano na procura do bem... Em consequência, vê-se também que a humildade de S. Antônio de Pádua, por exemplo, não foi a humildade de S. Francisco de Sales, nem o amor de S. Francisco de Assis foi o amor de S. Inácio de Loiola, pois cada santo oferecia à ação da graça um lastro próprio. A propósito, pode-se citar o famoso adágio de S. Tomás de Aquino: "A graça não destrói a natureza humana, mas a supõe e aperfeiçoa" (S. Teol. I qu. 1, a. 8 ad 2).

 

Desta forma a obra de Moretti contribui para evidenciar e exaltar as riquezas da graça de Deus entre os homens (cf. Ef 1, 12).

 

3. Alguns vultos relevantes

 

A fim de ilustrar o fenômeno que acabamos de considerar, vão reproduzidos abaixo alguns tópicos significativos apresentados pelo Pe. Moretti no seu livro.

 

3.1. S. João da Cruz (1541-1591)

 

1.  Nascido em Fontiveros (Castilha), empreendeu, por inspiração de S. Teresa de Ávila, a reforma da Ordem Carmelita, à qual pertencia; a peste e o cisma haviam feito declinar a respectiva observância. Retirou-se, pois, para um eremitério em companhia de outros monges, que tomaram todos o nome de "descalços". Tiveram que suportar contradições e perseguições, e mesmo o cárcere; mas, por graça de Deus, conseguiram superar os obstáculos e difundir largamente a reforma. S. João da Cruz morreu relativamente jovem, após intensa vida de oração e atividades.

 

2.  O exame grafológico mostra que leão da Cruz podia ter sido um homem sensual, requintado nas concessões à carne; teria dissimulado a sensualidade sob o verniz dos sofismas e do cumprimento do dever com esmero "artístico". Visto que era sujeito a ser atormentado pelo remorso, teria procurado construir "sua" filosofia para sufocar a consciência, baseando-se em críticas extremadas, no ceticismo e no pessimismo.

 

Afirmam os estudiosos que houve muitos homens de tal tipo entre os fundadores de seitas e de partidos subversivos; ufanavam-se de ser os pioneiros da verdade, enquanto bem sabiam que não a conheciam, e deixavam-se ensurdecer pelas paixões, a fim de não ouvirem as advertências da consciência.

 

3. A história mostra que João da Cruz, dotado de inteligência penetrante e lúcida, se aplicou ao estudo da filosofia e da metafísica a fim de chegar ao cume do saber, ou seja, ao mais profundo conhecimento de Deus. Era um filósofo e teólogo que vivenciava em si e ensinava aos outros a vida mística, isto é, o conhecimento experimental de Deus; a sua inteligência aplicou-se, pois, a preservar das falsas interpretações do racionalismo os tesouros da vida de oração.

 

Embora fosse propenso a elaborar "sua filosofia" sofisticada, cética e supercrítica, ele transmitia aos jovens princípios de fé ardente e de conduta de vida enérgica e santa.

 

Apesar de suscetível e sujeito ao amor próprio, sabia estimar as humilhações mais penosas. Certa vez, por causa da reforma empreendida, foi açoitado até o sangue; entrementes, que fazia o santo? - Algo de muito simples: dava graças a Deus. Seguir Jesus em sua via dolorosa sempre atraíra aquele monge. Dizia: "Mereço mais, muito mais do que esses castigos!" Diante de censuras e ameaças, baixava a cabeça e calava-se.

 

No tocante à sensualidade, soube ser inflexível, guardando absoluta fidelidade à sua Regra. Um episódio dá testemunho disto:

 

Certa noite, estando João da Cruz absorvido na oração, a porta da sua cela abriu-se e uma jovem bela e ricamente vestida aproximou-se; o monge já a conhecia, pois era penitente dele; com palavras apaixonadas, ela lhe exprimiu a sua admiração e o seu amor. Disse-lhe que fugira da casa paterna, porque já não podia resistir à paixão que a devorava. O santo sentiu-se estremecer diante do perigo iminente. Certo de que não venceria sem a graça de Deus, voltou o coração para o Senhor em oração. E a sua prece foi atendida, pois não somente João da Cruz escapou à tentação, mas também conseguiu reconduzir a jovem à consciência dos seus deveres.

 

Com S. Teresa de Ávila teve relacionamento intenso, que se dirigiu ardorosamente para o mesmo ideal: a reforma do Carmelo. Assim, embora pudesse ter sido requintadamente sensual, João da Cruz foi heroico em sua pureza, como, aliás, nas demais expressões de sua rica personalidade.

 

3.2. S. Luís Grignion de Montfort (1673-1716)

 

1.  Dedicou toda a sua vida à caridade, como missionário dos pobres. Grande devoto de Maria SS., fundou a Congregação das Filhas da Sabedoria e a Sociedade dos Missionários de Maria (monfortanos).

 

2.  A sua escrita manifesta a tendência à exterioridade; teria gostado de impressionar os outros para ser admirado.

 

Era também inclinado a dissimular os seus defeitos, o que o faria cair facilmente na hipocrisia. Não tendo grande talento filosófico, podia dar-se ao plágio, a fim de conquistar fama. Ainda no intuito de distinguir-se vaidosamente, era propenso à sátira requintada mediante palavras e sorrisos oportunos.

 

Sabia despertar a simpatia do sexo feminino, pois tinha certa penetração psicológica e distinção de porte. Isto o sujeitava constantemente à tentação da sensualidade.

 

Por conseguinte, se tal homem se dedicou à virtude, teve que visar principalmente à simplicidade e à pureza de intenções - qualidades estas que ele não possuía.

 

3. A biografia de S. Luís de Monfort nos mostra que a sua tendência à exterioridade se concretizou no cultivo das artes, para as quais tinha habilidade. É considerado o mais prendado poeta religioso da sua época. Exerceu também a escultura, a fim de reproduzir com graça um pouco da beleza ideal de Jesus e Maria que, em sua mente, tinham forma viva e atraente.

 

Embora tendesse a impressionar os outros a fim de suscitar admiração, Montfort cultivou a humildade, a paciência e o esquecimento de si. Certa vez, enquanto pregava, foi insultado violentamente por um herege jansenista. Desde que ouviu a voz colérica do adversário, o santo desceu do púlpito, caiu de joelhos e com a cabeça baixa deixou que o jansenista se desabafasse, sem dar sinal de impaciência ou surpresa. Quando este terminou a sua catilinária e voltou à viatura, o missionário apenas disse estas palavras: "Irmãos, nós nos dispúnhamos a plantar uma cruz diante da porta desta igreja. Agora plantemo-la em nossos corações, pois aí ela estará melhor do que em qualquer outro lugar". E começou a recitar o rosário.

 

Dado à sátira requintada, aconteceu-lhe o seguinte episódio:

Por amor à pobreza e à humildade, gostava de viajar a pé e incógnito. Um dia, ao passar perto da abadia de Foníevrault, experimentou o desejo de rever sua irmã, que era membro da comunidade; movia-o a intenção de um colóquio espiritual. Apresentando-se então à porta da abadia, pediu hospitalidade pelo amor de Deus. Todavia a Irmã Porteira começou, antes do mais, a pedir-lhe informações (nome, origem, finalidade da viagem, etc). O santo só tinha uma resposta: "Peço a hospitalidade pelo amor de Deus". Exasperada, a Irmã foi chamar a abadessa, a qual por sua vez se pôs a crivar de perguntas o desconhecido visitante; ao que Montfort respondia constantemente: "Senhora, meu nome importa pouco; não é por mim, mas é pelo amor de Deus que lhe peço a caridade". Afinal, as duas Religiosas, insatisfeitas, o despediram como se fosse um vagabundo. Antes, porém, que a porta se fechasse atrás dele, Montfort deixou escapar umas palavras que haviam de excitar a curiosidade das Irmãs: "Se a Sra. soubesse quem sou eu, por certo não me recusaria a caridade". Estes dizeres foram esparsos de boca em boca na comunidade, até que a Irmã Silvia compreendeu que se tratava do seu irmão. Já que este tinha fama de santo, a abadessa logo enviou-lhe um mensageiro ao encalço, pedindo-lhe que a desculpasse e voltasse a fim de se hospedar no mosteiro. Contudo o santo mandou pelo mesmo mensageiro a seguinte resposta: "A Sra. Abadessa não me quis oferecer hospitalidade por amor de Deus; agora, ela ma oferece em vista de mim mesmo; agradeço-a". E foi pousar em casa de pobres campônios.

 

3.3. S. Inácio de Loiola (1491 ou 1495-1556)

 

1.  Oriundo de família nobre, foi educado e instruído na corte de Castilha. Até os 26 anos, levou a vida habitual dos jovens galantes da corte e do exército. Ferido no decorrer de uma batalha, foi reduzido à imobilidade, que Inácio aproveitou para consagrar-se à leitura religiosa. Foi então que se deu a sua conversão. Praticou severa penitência, associada ao estudo. Após alguns anos de vida santa, fundou a Companhia de Jesus. É o autor do livro dos "Exercícios Espirituais".

 

2.  Grafologicamente falando, refere-se que tinha caráter irredutível, propenso ao comando despótico. Não gostava de que os subalternos se justificassem ou fizessem valer razões contrárias às suas. Tendia a se vingar de quem censurasse o seu comportamento. Inclinava-se a ambição e ao desejo de aparecer ostensivamente.

 

3.  Os biógrafos narram que Inácio soube dominar maravilhosamente as suas tendências egocêntricas e autossuficientes.

Por exemplo, sabia ler no íntimo dos corações e, por conseguinte, percebia os meios de atender às necessidades de cada um. Certa vez, conseguiu, por uma série de artifícios, deter um desgraçado que planejava o suicídio; doutra feita, foi-se confessar a um sacerdote que vivia mal, a fim de lhe dar o testemunho do seu arrependimento; ainda outra vez, deteve-se no caminho de um homem adúltero, e sob o olhar do mesmo mergulhou em água gelada, declarando-lhe que ficaria assim até que ele desistisse dos seus maus propósitos - objetivo este que Inácio realmente atingiu.

 

Propenso à vingança, S. Inácio não a exerceu. Aconteceu que um cidadão lhe causara dano considerável. Todavia esse homem caiu gravemente enfermo, oprimido por tristeza que se derivava dos males cometidos. Chamou então para junto de si Inácio, a quem ele tanto prejudicara. O santo hesitou um pouco, como se a viagem lhe fosse acarretar novos danos. Mas finalmente decidiu-se. Visitou o enfermo, assistiu-lhe generosamente e tudo fez para que o seu desenlace fosse autenticamente cristão.

 

Sentia-se inclinado à arrogância. Todavia conseguiu dominar-se. Certa vez, os colegas e mestres quiseram proibir a Inácio e seus companheiros (fundadores da Companhia de Jesus) que usassem hábito próprio. O estudante Inácio, que era desinibido em suas respostas, explicou que, se queriam vê-lo usar outro traje, bastava que lho dessem de presente. - Costumava falar de Jesus Cristo nas ruas aos transeuntes, que paravam para ouvi-lo. Disseram-lhe então os mesmos colegas e mestres que, embora Inácio nada proferisse de blasfemo, desejavam que se calasse e evitasse toda inovação. Ao que respondeu Inácio: "Nunca pensei que entre cristãos falar de Jesus Cristo fosse inovação".

 

Inácio, que sentia a ambição de se pôr em evidência, quis morar num hospital e viver da caridade alheia, desde que voltou à sua pátria. Disto dissuadiam-no os amigos. Depois que foi eleito Preposto Geral da Companhia de Jesus, empenhou-se especialmente por duas linhas de programa: conservar sempre a simplicidade e a humildade, e só fazer uso da sua autoridade para a maior glória de Deus... A princípio, quis exercer as funções de cozinheiro, às quais ainda acrescentou os mais humildes serviços da casa.

 

3.4. S. Filipe Néri (1515-1595)

 

1.  Nascido em Florença, deixou muito jovem a sua cidade natal para ir morar em Roma, onde fundou com Persiano Rosa a Companhia da Trindade dos Peregrinos. Em 1551 foi ordenado presbítero. Depois, com a colaboração de Cacciaguerra, fundou o Oratório de S. Jerônimo, Instituto de sacerdotes que desejavam levar vida conventual.

 

2.  Segundo a sua escrita, Filipe tinha caráter estranho; gostava da contradição. Ria e fazia rir os outros, sujeitando-os ao ridículo. Tinha espírito inquieto e vingativo. Se fosse deputado no Parlamento, teria prazer em provocar dissensões e mal-entendidos para rir e suscitar o riso alheio. Era levemente predisposto ao sadismo; regozijar-se-ia quando os outros se atormentassem ou fossem desfavoravelmente interpretados.

 

Tendia à usura, podendo mesmo ser daqueles que se enriquecem à custa do próximo. Quando, porém, a sua forte sensualidade se despertava, a avareza passava para segundo plano; muito afetivo e atraente, podia servir-se destes predicados para dar-se ao prazer sensual. Era ainda propenso a dominar e não se deixar dominar.

 

3. Os biógrafos nos afirmam que S. Filipe Néri foi uma personalidade original. Apresentava um misto de autoridade e hilaridade, cuja dosagem dificilmente poderia ser analisada. À primeira vista, a hilaridade parecia prevalecer;mas percebia-se que a sua hilaridade estava a serviço de um plano de renovação da Igreja. Esta foi, sem dúvida, marcada pelo cunho que lhe deu S. Filipe Néri.

 

A sua alegria inata era muitas vezes o fator que equilibrava as suas emoções religiosas íntimas e profundas. Estas repercutiam fortemente em seu físico, que em consequência se agitava como se o santo já não pudesse permanecer no corpo.

 

Penetrava o íntimo dos outros com facilidade. O seu confessionário era frequentado por pessoas de todo tipo. Cada uma tinha a impressão de ser precisamente aquela por quem o santo mais se interessava. Mesmo cidadãos despudorados foram vivamente atingidos pelo olhar de Filipe, como se este ferisse o coração. Um olhar bastava para que os pecadores mais obstinados tomassem consciência de sua má vida; daí concebiam a vergonha e o arrependimento.

 

Filipe Néri sabia descobrir o ponto vulnerável dos outros. Mas, em vez de o explorar para a sátira e o sadismo, procurava dar-lhe o remédio oportuno; dissipava escrúpulos e dúvidas, levando os outros "per angusta ad augusta" (por caminhos estreitos a píncaros elevados). Era capaz de exprimir observações e censuras em tom afetuoso; bastava que exclamasse uma só vez "Que pena!" após a confissão de um pecador, para realizar mais milagres espirituais do que se fizesse qualquer outra observação.

 

Embora fosse propenso a criar mal-entendidos para "gozar" os outros, parece ter dito um dia que é quase impossível não amar todos os homens; em todo caso, é certo que se pode experimentar amizade e compaixão para com cada um, em lugar de ódio e cólera.

 

As suas atitudes exprimiam o contrário da suscetibilidade e da vingança. Durante certo tempo, Filipe e Cacciaguerra, que, juntos, fundaram o Oratório, sofreram a oposição de sacerdotes que os acompanhavam. Mas o efeito obtido foi desconcertante, pois os dois fundadores se regozijaram com o sofrimento e propuseram pagar o mal com o bem.

 

Por mais que tendesse a se alegrar com as aflições alheias, era solícito para com o próximo e estava pronto a acudir com presteza quando sabia que seus jovens discípulos corriam perigo; o seu coração o advertia a respeito.

 

3.5. S. José Cottolengo (1776-1842)

 

1.  Nasceu em Bra (Turim). Ordenado sacerdote, fundou a Pequena Casa da Divina Providência, que em seus inícios só contava quatro leitos, mas se tornaria obra grandiosa, hoje admirada no mundo inteiro. Acolhia com amor os abandonados e infelizes, dando-lhes assistência material e espiritual. Fundou uma Congregação de Religiosas dedicadas à caridade. Morreu após ter servido ao próximo durante a vida inteira.

 

2.  A grafologia ensina que Cottolengo tinha vontade tenaz, que não se dobrava nem diante de obstáculos práticos nem frente a argumentações filosóficas.

 

Tendia a distinguir nitidamente o que lhe pertencia, do que era propriedade dos outros; daí a inclinação a não ceder o que era seu; era naturalmente propenso a aproveitar do alheio para dar mais importância ao que era seu. Pensava muito no dia seguinte; por isto era dado à poupança e à economia.

 

Podia ter lances de generosidade e magnanimidade; mas logo depois era inclinado a concentrar-se para examinar sua situação financeira e remediar aos inconvenientes da sua liberalidade.

 

3. Quem lê a vida de Cottolengo, observa que aí não havia traços de ganância, como não havia riqueza nem pobreza. Não se dizia: "Isto é meu, isto é teu", pois tudo pertencia à Divina Providência.

 

Longe de pensar em si ou em "se garantir", Cottolengo dava aos indigentes o que tinha de melhor. Seus trajes eram os de um sacerdote pobre, do mesmo pano que os trajes dos doentes hospitalizados. Para defendê-lo do frio, os amigos muitas vezes tinham de confeccionar-lhe um manto, pois, a sua roupa de lã, ele a dava aos pobres. Em casa usava tamancos em vez de sapatos. Repetia frequentemente: "Sejamos todos pobres, mas todos também alegres no Senhor!" A sua palavra de ordem era: "Esperança e alegria!" Confiando na Providência Divina, não receava desastres financeiros.

 

Além da pobreza material, Cottolengo praticava e ensinava a pobreza espiritual, exigindo que cada um dos seus discípulos oferecesse a Deus e aos seus irmãos o mais rico tesouro que alguém possa dar: o seu coração dedicado à vontade do Senhor e ao amor fraterno.

 

Embora fosse firme e enérgico, sabia ser afável e jovial, de modo a conquistar a simpatia dos outros. Gracejando e humilhando-se, conseguia auxílio para* os seus pobres. Um dia, por exemplo, disse-lhe um amigo: "Tu tens espáduas de mulo". Respondeu-lhe então Cottolengo: "Sou realmente um mulo; se queres tentar carregar-me com duzentos ou trezentos francos, verás como eu saberei levá-los aonde eles são realmente necessários".

 

3.6. S.Teresa de Lisieux (1873-1897)

 

1. Com especial autorização de S. S. Leão XIII, entrou no Carmelo aos quinze anos de idade. Distinguiu-se pela prática da "infância espiritual" ou da "pequena via".

 

2.O exame grafológico de S. Teresa de Lisieux revela que o orgulho, a ambição e a vaidade teriam feito dela uma pessoa rebelde, mas rebelde de maneira artística e requintada. - Se tivesse vivido na miséria, como criatura pouco instruída, haveria levado uma existência medíocre, talvez de manequim de alta costura ou de modelo de modas, simplesmente para ganhar a vida. Teria gostado de ser a predileta e tudo haveria tentado a fim de o conseguir. Se tivesse nascido rica, ter-se-ia entregue a obras de" beneficência, a fim de gozar de manifestações de gratidão.

 

3. Ora é notória a humildade de S. Teresa de Lisieux. Procurou seguir.à risca o caminho da infância espiritual, ocultando-se aos olhos de todos, e mesmo aos seus próprios olhos. Procurava encobrir os seus atos de virtude; estes, embora aparentemente de pouco vulto, eram heróicos por não serem sustentados por elogio nem reconhecimento da parte das criaturas. Se Teresa de Lisieux aparece hoje como a santa delicada ou a santa das rosas, não se deve esquecer que ela o foi por ocultar entre as pérolas os espinhos que levam tantas pessoas a se afastar do árduo caminho da perfeição.

 

O Senhor Deus quis manifestar plenamente em nossos tempos a forma de santidade dos pequeninos ou da "pequena via". Ora Santa Teresa de Lisieux foi escolhida para ser o mais belo exemplo e a grande doutora dessa forma de santidade.

 

3.7. S. Afonso Maria de Ligório (1695-1787)

 

1. Filho de família nobre empobrecida, seguiu primeiramente a carreira jurídica. Compreendendo, porém, que o mundo não lhe podia satisfazer, resolveu, aos 26 anos, abandonar tudo e fazer-se sacerdote missionário. Fundou a Congregação dos Redentoristas e tornou-se grande Doutor da Igreja principalmente em assuntos de Moral.

 

2. A escrita de S. Afonso, além de revelar notável firmeza, manifesta forte propensão ao orgulho e à ambição. Tendia a adular os grandes, ceder aos favoritismos e a intrigar finoriamente. Em suma, sabia ser hábil para atingir os fins almejados.

Era simpático ao sexo feminino, e gozava do poder de sedução.

 

3. Ora, se a história mostra S. Afonso fiel observante das leis da Moral, isto nos leva a considerá-lo um campeão da virtude, pois, para chegar a tal ponto, deve ter lutado asperamente e sem trégua contra as suas inclinações.

 

Embora tendesse à ambição e à ostentação, os biógrafos nos dizem que ofereceu decididamente a sua vida a Deus, renunciando ao mundo e aos seus direitos de herdeiro de nome famoso. Quando, idoso, foi nomeado bispo de Santa Águeda, sentiu-se como que fulminado; quis resistir suplicante, e só se submeteu a contragosto.

 

Apesar de se inclinar ao favoritismo, acolhia a todos e a cada um com benevolência, mormente os pequeninos, humildes e pobres. Em seus escritos, deixou por norma que "o confessor deve ocupar-se de uma mulher pobre, suja e maltrapilha, com tanto zelo como se tratasse com sua princesa; dê provas da máxima caridade, principalmente para com os pecadores. Deve interessar-se por seus penitentes mais do que um pai se interessaria por seus filhos".

 

Era extremamente austero consigo mesmo, passando muitas vezes as noites deitado no chão quando não se entregava à oração até a aurora na igreja ou no quarto. O seu espírito de sacrifício e compaixão teve especial ocasião de se exercer durante o inverno de 1763-1764, quando a fome assolou o Reino das Duas Sicílias. Não tendo mais provisões nem recursos, S. Afonso vendeu a carroça, os mulos, a pedra do seu anel pastoral e reduziu ao mínimo as suas já modestas refeições. Franqueou aos pobres a residência episcopal, dizendo: "O que eles pedem, a eles pertence". Chegando a idade provecta, escrevia:"Minha vida é uma morte que se prolonga... Estou quase reduzido ao estado de cadáver". Dado que, a contragosto, tivera que renunciar aos instrumentos de penitência que ele outrora aplicara a si, receava levar vida cômoda!

 

Estes dados hagiográficos concorrem para ilustrar eloquentemente o fato de que os santos não nasceram de estirpe diferente da dos demais homens. O que os distinguiu, foi a incondicional aceitação do plano de Deus a se realizar sobre eles. Com humildade e grande entrega a Deus, deixaram que a graça fosse burilando a sua natureza e trocasse em positivo o sinal negativo de suas propensões.

 


A ESCRITA DOS SANTOS CITADOS

 

1. São João da Cruz

 

2. São Luís Grignion de Monfort

 

3. Santo Inácio de Loiola

 

4. São Filipe Néri

 

5. São José Cottolengo

 

6. Santa Teresa de Lisieux

 

7. Santo Afonso Maria de Ligório

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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