REVISTA PeR (2504)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 551 – maio 2008

 

A Boa-Nova no mundo pagão

CRISTIANISMO E PAGANISMO

por Christine Prieto

 

Em síntese: A autora estuda diversas passagens do Novo Testamento que referem o encontro do Cristianismo com o mundo pagão. Revela como o Cristianismo foi vencendo obstáculos, costumes e preconceitos que se lhe opunham. Leitura muito instrutiva, pois, além do mais, refere os procedimentos da medicina, do exorcismo, da magia no mundo greco-romano, abrindo assim os horizontes do leitor.

 

Christine Prieto é pastora protestante e animadora bíblica da Comunidade Reformadora da França. - Escreveu um livro muito interessante1, em que analisa diversos episódios do Novo Testamento nos quais se encontram a mentalidade cristã e a pagã sobre doenças e curas, adivinhação, magia, exorcismos... Em cada caso expõe minuciosamente o texto bíblico e lhe apresenta o pano de fundo ou os hábitos pagãos relativos ao tema considerado pelo Novo Testamento. Assim o texto sagrado se torna muito vivaz, pois é colocado sobre o quadro do mundo pagão, do qual muitos leitores modernos ignoram quase tudo.

 

A seguir, proporemos o conteúdo do capítulo 1 do livro, que trata da cura do paralítico num lugar de cura pagão em Jo 5, 1-14.

 

1. O texto do Evangelho

Eis a secção de que se trata:

 

1- Depois disso, houve uma festa judaica, e Jesus subiu a Jerusalém. 2- Ora, há em Jerusalém, junto à Porta das Ovelhas, uma piscina que, em hebraico, se chama Bethzatha, e que possui cinco pórticos. 3- Debaixo deles, estava deitada uma multidão de doentes, cegos, coxos, ressequidos, paralíticos, que esperavam o borbulhar da água. 4- Porque um anjo descia periodicamente na piscina e agitava a água; e aquele que aí descia por primeiro, depois que a água fosse agitada, ficava curado, qualquer que fosse a sua doença. 5- Encontrava-se aí um homem, trinta e oito anos na sua doença. 6- Jesus, vendo-o deitado e sabendo que já estava aí havia muito tempo, lhe disse: "Queres ficar curado?". 7- O enfermo lhe respondeu: "Senhor, não tenho ninguém que me jogue na piscina quando a água é agitada. E, enquanto eu vou indo para lá, outro desce antes de mim". 8- Jesus lhe disse: "Levanta-te, toma tua maca e anda". 9- E imediatamente o homem ficou curado e carregou sua maca e andou. Era um dia de sábado. 10- Então, os judeus disseram àquele que havia sido atendido: "É o sábado, e não te é permitido carregara tua maca". 11- Ele lhes respondeu: "Aquele que me curou me disse: 'Toma tua maca e anda "'. 12- Eles lhe perguntaram: "Quem foi o homem que te disse: 'Toma e anda'?". 13-Aquele que havia sido curado não sabia quem fora, porque Jesus havia desaparecido no meio da multidão que se encontrava no lugar. 14- Depois disso, Jesus o encontrou no Templo e lhe disse: "Eis que tu ficaste curado. Não peques mais, para que não te suceda algo ainda pior". 15- O homem se afastou e anunciou aos judeus que fora Jesus que o havia curado. 16- É por isso que os judeus perseguiam Jesus: porque ele fazia tais coisas durante o sábado. 17- Jesus, porém, lhes respondeu: "Meu Pai trabalha até agora; eu também trabalho". 18- Por causa disso, os judeus procuravam ainda mais fazê-lo morrer, não somente porque violava o sábado, mas porque chamava Deus de seu próprio pai, fazendo-se ele mesmo igual a Deus.

 

2. Comentando...

 

1. A piscina de Bethzatha foi encontrada mediante escavações arqueológicas junto à porta das Ovelhas ao Norte do Templo de Jerusalém. Essa piscina foi construída talvez sob o sumo sacerdote Simão, filho de Onias, no século II a.C. para servir ao reabastecimento de água da cidade; ficava fora dos muros de Jerusalém. Tornou-se um lugar de curas pagão, dada a ocupação da terra de Judá por povos estrangeiros pagãos. O lugar era muito procurado por doentes, pois se dizia que a água tinha poderes terapêuticos quando agitada por um anjo. Os doentes aí pareciam entregues a si mesmos, sem acompanhamento de quem os pudesse ajudar.

 

2. É importante a menção do anjo que agitava a água em 5, 3b-4.

Não é necessário identificá-lo com algum mensageiro enviado por Deus. "Anjo" é um termo vago, muito comum no judaísmo e no sincretismo pagão; pode ser o símbolo de um deus médico pagão. Já que se trata de figura misteriosa, tendo possíveis conotações pagãs, muitos copistas eliminaram os versículos 3b-4. É de crer, porém, que pertencem à integridade do texto, pois apresentam um pormenor necessário para se compreender o versículo 7 seguinte. Informa que a água da piscina era agitada e era necessário que um doente se atirasse na água por primeiro a fim de ser curado. É esta informação que permite compreender o versículo 7. O texto sagrado nada refere a respeito da periodicidade da visita do anjo, de modo que uma multidão de enfermos ficava à espera do fenômeno sem poder contar com a assistência de algum enfermeiro.

 

É em tais condições que se encontra o homem que Jesus vai curar. Ele é deixado no anonimato, tem pouca probabilidade de ser curado, pois parece estar deitado numa cama e sofrer dificuldade para se mover. Jesus lança sobre ele o seu olhar, que dá início a um diálogo que acaba com a ordem do paralítico se levantar e caminhar. Ficou curado. O termo grego traduzido por "curado" corresponde ao hebraico rafa, que tem o sentido amplo de "restabelecer em sua integridade, restaurar a força vital e cósmica". "Rafa" é também um termo dos relatos de curas dos deuses pagãos; assim Shadrafa era um deus médico de Palmira, cujo nome se compunha de shad = deus e rafa = curar. São João atribui, desta maneira, a Jesus uma ação que era própria dos deuses do paganismo, indicando o significado religioso das curas que não eram apenas uma intervenção médica. Jesus, porém, é colocado em plano superior. Ele faz unicamente com sua palavra ("levanta-te...") o que os deuses pagãos "realizavam" mediante muitos artifícios, como se dirá mais adiante. São João enfatiza a rapidez da cura; "imediatamente" o homem que passara trinta e oito anos num leito, tal homem se vê erguido num instante; Jesus lhe dá a ordem de ressurgir. Jesus é apresentado como o verdadeiro "curandeiro" e dispensador da vida; se os deuses Zeus, Apolo, Esculápio, Serapis eram chamados cada qual "Salvador do mundo", o título passa a caber tão somente a Jesus.

 

3. Ainda se faz necessária um observação: Logo depois da cura Jesus vai ao Templo (8v. 14), onde encontra o homem curado e lhe diz: "Eis que foste curado. Não peques mais para que não te aconteça algo ainda pior". Jesus mostra que conhece o íntimo do homem. Este não responde e vai embora para se juntar aos judeus dizendo que Jesus o havia curado em dia de sábado. - Este traço do relato é muito ponderável, pois associa entre si pecado e doença. Esta conjugação era comum no judaísmo; ver Eclo 38,15: "Aquele que peca contra o seu Criador; cai nas mãos do médico"; cf. outrossim Ex 15,26; Nm 17,11 -15; 2Sm 12,7-10.- Isto dá a entender que a cura operada por Jesus compreende a remissão dos pecados. Essa concepção enquadra bem com a tese judaica de que o corpo e espírito não se dissociam.

 

Aprofundemos agora um pouco melhor.

 

3. O pano de fundo pagão

 

O mundo pagão anterior a Cristo tinha seus deuses curandeiros com seus santuários próprios, espaçosos (possuíam piscinas e galerias subterrâneas, onde havia abundância de água em vista das curas). Atendiam a ricos e pobres. Os agentes desses santuários eram sacerdotes e médicos.

 

O procedimento da cura é bem documentado. O doente devia procurar um santuário em peregrinação inspirada pela divindade. O enfermo que não se pudesse deslocar, podia ser substituído por um parente.

 

Chegando ao santuário, o doente procura o sacerdote e lhe explica o seu caso; há relatos de defeitos incuráveis e, às vezes, moléstias extravagantes, como gravidez que já dura quatro anos.

 

O tratamento começa com importantes preparativos: abluções para se tornar puro, banhos quentes e frios em pequenos tanques (frequentemente subterrâneos), passeios e, eventualmente, um regime alimentar. Para ser eficaz, a água dos tanques deve ter molhado antes os pés das estátuas dos deuses, impregnando-se da força vital deles. Essa água "santa" poderá curar qualquer doença ou enfermidade.

 

O doente seguia esse regime preparatório por algum tempo, depois era instalado numa galeria subterrânea, bem próxima de água. Este é o momento chave da terapia, pois em seu sono o enfermo vai receber a visita do deus que lhe indicará o remédio para o seu mal. Às vezes o simples aparecimento do deus é suficiente para realizar a cura. Em outros casos a divindade aparece como uma serpente, que lambe o doente e assim o cura.

 

Esses procedimentos eram geralmente aceitos, mas havia também quem os escarnecesse. Com efeito, Aristófanes (século V/IV) escreve uma paródia de peregrinação: o velho cego Plutos, chegando ao santuário, põe-se a tomar banhos de água salgada fria; após ter consagrado, no altar do deus, óbulos e oferendas, ele se deita entre os outros doentes; e vê durante a noite um sacerdote "surrupiando os bolos redondos e os figos secos da mesa sagrada e os restos de todos os altares". Entretanto o deus curará Plutos por meio de duas serpentes que lhe lamberão os olhos (Plutos 633-747).

 

Tais instituições fazem parte da cultura helenista. Na Palestina não havia hospitais nem asilos, os doentes físicos e mentais ficavam a cargo das famílias. Se violentos, eram expulsos e ficavam vagando (Mt 8, 28). Havia poucos médicos, todos caros e incapazes (Mc 5, 26); daí o sucesso dos curandeiros; o caso de Bethzatha podia ser uma exceção, dando testemunho de práticas de um verdadeiro santuário de curas. - em todo caso os primeiros leitores do Evangelho de João escrito por volta do ano 100 se defrontavam com uma realidade social que lhes era familiar.

 

4. Conclusão

 

Após quanto acaba de ser dito, pode-se afirmar que o episódio de Jo 5,1 -18 é um quadro da polêmica contra os deuses curandeiros pagãos e seus santuários. Neste intuito o evangelista frisa um milagre realizado por Jesus no mesmo local em que se professava a intervenção da divindade em favor dos enfermos. Vejamos os traços que manifestam a superioridade ou mesmo a singularidade de Jesus.

 

Jesus não está ligado a algum santuário ou lugar portentoso; mas é um carismático itinerante, que não tem santuário próprio. Não recebe dinheiro nem culto pelos benefícios que presta. Tem o poder de sanar os casos desesperados sem ritos preparatórios e sem demora; não usa a água que está à sua disposição, mas cura unicamente com a sua autoridade; os ritos pagãos são inúteis para a cura.

 

A polêmica era justificada pelo fato de que muitos cristãos provenientes do paganismo eram tentados a associar sua fé cristã à fé nos curandeiros (como hoje ainda acontece a muitos discípulos de Cristo, que vão à Igreja e também... à mãe benzedeira ou ao terreiro de religião afro-brasileira).

 

Eis um espécime dos valiosos capítulos do livro de Christine Prieto.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Pergunte e Responderemos - Bíblia Católica - Catecismo
Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 1
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)