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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS – julho 1957

 

Qual o momento em que a alma penetra no embrião?

 

Os sábios da antiguidade admitiam certo intervalo entre a fecundação do óvulo pelo esperma e o aparecimento da alma racional no embrião humano: Hipócrates (séc. 4 a. C.), o famoso médico grego, por exemplo, julgava haver um lapso de trinta dias. Os cristãos medievais, seguindo as noções de fisiologia de Aristóteles (1322 A.C,), opinavam que o feto masculino somente quarenta dias após a fecundação recebia alma racional, enquanto para o feto feminino admitam o intervalo de oitenta dias. Assim julgavam, porque lhes parecia não haver nas primeiras semanas após a concepção a organização de células necessárias para constituir um corpo humano, sede de alma racional; acreditavam, sim, que durante certo tempo o feto só possuía organização e atividades de vida vegetativa (nutrimento e crescimento), e por isto lhe atribuíam princípio vital meramente vegetativo ; a seguir, julgavam distinguir no embrião organização e movimentos espontâneos característicos da vida sensitiva, que eles consequentemente atribuíam a novo princípio vital, a alma sensitiva, recém-originada em substituição à anterior; somente após estas fases reconheciam no feto a organização típica do corpo humano, no qual pode viver uma alma intelectiva ; esta então seria infundida.

 

Hoje em dia, porém, fisiólogos e filósofos em geral admitem que desde a concepção há no embrião humano a organização própria de um vivente humano; em consequência, afirmam que desde a fecundação o novo ser é dotado de alma racional. Está claro que as faculdades intelectivas só se podem manifestar depois que os órgãos da vida sensitiva atingem certo desenvolvimento, pois a alma intelectiva, embora não seja material, depende da matéria ou das faculdades sensitivas para colher as primeiras notícias, que a inteligência elabora, delas abstraindo as noções universais, as definições,

 

A alma intelectiva, tendo funções que transcendem as faculdades corpóreas, não provém da potencialidade da matéria (o menos perfeito não pode por si produzir o mais perfeito), mas é criada diretamente por Deus e infundida ao embrião no momento da fecundação, fecundação que se pode dar algumas horas ou, às vezes, alguns dias após a cópula conjugal.

 

É o que explica a intransigência da Moral cristã perante o aborto direto. Este é sempre tido como infanticídio, mesmo quando praticado nos primeiros tempos da gestação; não há fundamento para se distinguir entre feto animado e feto inanimado (por alma racional). Mesmo na Idade Média, quando se adotava a fisiologia de Aristóteles, os autores cristãos condenavam o aborto, em qualquer época fosse produzido; tinham-no na conta de destruição da vida iniciada de um homem.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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