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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 513 – março 2005

Escreve sobre

 

"O CÓDIGO DA VINCI"

Pe. Zezinho

 

Seguem-se dois artigos sobre o famoso romance "O Código Da Vinci": de estilos diferentes, mas convergentes entre si pelo respectivo conteúdo.

 

Via internet a Redação de PR recebeu o artigo abaixo, da autoria do Pe. José Carlos Fernandes de Oliveira, que em tom realista participa de famoso debate e, por isto, merece a atenção de muitos leitores.

 

A VERDADE SACRIFICADA AO SUCESSO

 

É um livro que está vendendo mais do que sorvete no verão. Por ossos do ofício de professor e escritor católico, li o livro e três outros sobre ele, dois contra e um a favor. O escritor inglês, de menos de 40 anos, Dan Brown, conseguiu o que todo escritor sonha. Chegou lá. Suscitou polêmica e está vendendo a rodo. Não importa quantos livros se escreverão contra o dele, marcou seus pontos. É do livro dele que o mundo vai falar por muito tempo.

 

Priorado de Sião, Leonardo Da Vinci e seu quadro A Última Ceia, Madalena e Jesus, Dinastia Merovíngia, Santo Graal, Cavaleiros Templários, Opus Deis, tudo isso, para quem estudou Bíblia, História e Literatura parece mais uma sopa destemperada de ingredientes picantes do que alimento para a alma ou para a cultura. Dan Brown ousou e sua ousadia deu certo. Não veio explicar e sim confundir e provocar. Conseguiu!

 

Há um tipo de católico que nunca leu nenhuma biografia de santo, nenhum documento oficial, não leu nenhuma encíclica de qualquer papa que fosse, jamais abriu o catecismo, não leu nem lê a Bíblia, não assina revistas católicas, não vê programas católicos, mas quando vê o tal livro que diz que Jesus casou com Madalena e que existe um tal cálice sagrado em algum lugar do planeta, vai, compra, lê e concorda e passa a defender o escritor. Nunca quis saber do resto, e teria dificuldade de lembrar os rudimentos do catecismo de sua primeira comunhão, mas fala do livro como se, agora, sim, a verdade tivesse aparecido. Não pode ser levado a sério. Afirma-se, mas não é católico.

 

Há outro que sabe religião, mas também não tem visão abrangente da fé. Ficou na sua fé tangencial ligada a determinado movimento e também ele não lê História, nem Dogmas, nem Moral Católica, nem leu as encíclicas nem conhece o pensamento da Igreja. Limita-se aos livros de piedade do seu movimento. Ele descarta o livro com palavras nada agradáveis e o picha sem nunca ter lido. E não lê, porque seu mentor disse que o livro é do demônio e ele não deve ser lido por um católico. Se não leu, não deveria falar do que não conhece.

 

Há outro que conhece os principais livros do catolicismo e tem uma noção bem clara dos acertos e erros dos católicos. O livro de Dan Brown não o assusta e em muitos casos até leva ao riso. Dan Brown inventa fatos para provocar a autoridade da Igreja Católica, como o comediante inventa piadas para rir da autoridade do seu país. Dan Brown não é sério. Passa pela História como o falso entomólogo que foi procurar um tipo de inseto e, não o achando, descreve os bichinhos que achou parecidos com o seu inseto, como se fossem ele. E daí? Afinal 99 entre 100 leitores não irão consultar nem verificar se é verdade o que ele afirma em forma de narrativa exótica e esotérica.

 

Além deles, há o evangélico sereno que também ri do livro e também o seu irmão mais aguerrido que acha Dan Brown maravilhoso porque afinal desmascara a Igreja Católica. Se fosse um livro contra a sua Igreja, ele não leria e o proclamaria do diabo, mas como é contra os católicos ele lê e confirma, sem também se dar ao trabalho de consultar os fatos.

 

Diante desse tipo de livros, que contestam os papas, a Igreja Católica, e os vinte séculos de história de Cristo e dos cristãos, a maioria dos leitores em geral não procura explicação. Vale pela contestação. Finalmente, alguém está pondo os pingos nos is. Só que tem que não é pingo, nem os colocou nos is e sim onde lhe interessou colocar.

 

Como sacerdote católico, sei que minha Igreja teve pessoas, atitudes e situações altamente condenáveis e questionáveis no passado. Mas teve também muitos grandes santos e grandes santas que não aparecem como tais no sectário livro de Dan Brown. Desafio qualquer religião com tanto tempo de existência, que não passe ou não venha a passar por isso, posto que religiões não são feitas de anjos. Outros santos de outras religiões também mandaram matar e massacrar em nome de Deus. Quem leu o Antigo Testamento e o Alcorão sabe onde e quem defendeu a violência contra gente de outras religiões, ou contra os que erraram.

 

O escritor Dan Brown lança suspeitas, não prova e não se explica. Afinal, ele não veio para isso. É um escritor que pesca diamantes em águas turvas. Suja a água e espera que as pessoas venham procurar com ele as verdades escondidas naquelas águas turvas. O ingresso é o preço do seu livro. Eles ficam com as discussões e as dúvidas e o jovem Mister Brown com o lucro. Afinal, não é o primeiro, nem será o último livro dele. Tem cultura suficiente para abordar qualquer assunto e misturar os fatos como alguém embaralha cartas. Quem não conhece baralho, cai no seu truque. Quem leu os mesmos livros que ele leu e os que ele nunca leu nem lerá, sabe com quem está lidando.

 

Ele chega aos quarenta anos como um fenômeno de mercado, consagrando-se como mestre da controvérsia. Que os outros provem que ele está errado. Ele provou que sabe vender livros e semear dúvidas. Tem milhares de religiosos que o odeiam, sem jamais ter lido seus livros, e milhares de leitores que o admiram e que jamais lerão os livros que ele deturpou. Papel aceita tudo. Livrarias e editoras, não. Elas só aceitam o livro que vende, mesmo que minta.

 

Provavelmente vai virar filme. E as caixas registradoras outra vez tilintarão. Outra vez muita gente vai discutir sobre o que não leu, não viu e não pesquisou, mas aceita porque Dan Brown falou que é!

 

O livro dele deu certo e ele virou um ídolo, porque ousou questionar. Mas ai de quem o questionar!

 

As pessoas vão continuar acreditando que quem vende milhões de livros está certo e quem nunca escreveu nem vendeu está errado.

Vale a quantidade e o sucesso, não necessariamente a verdade!

 

É o tipo de sociedade que criamos. Vale mais o grau de exposição na mídia do que o conteúdo!

É... Pois é!

 

Até aqui o Pe. Zezinho.

 

O romance "O Código Da Vinci" já foi comentado em PR 508/2004, p. 455ss.


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