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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 513 – março 2005

Vocações:

 

SÃO FRANCISCO DE ASSIS FOI PADRE?

 

Em síntese: O artigo expõe os diversos tipos de vocação que podem afetar a pessoa humana: 1) a vocação à santidade, que é básica e universal, para todos os homens; 2) vocação ao matrimônio ou a formar uma igreja doméstica, vocação muito frequente, mas nem sempre devidamente entendida; 3) vocação ao sacerdócio ou ao ministério hierárquico peculiar ao sexo masculino; 4) vocação à Vida Religiosa ou à vida consagrada a Deus por votos; 5) vocação à vida fiel a Deus no mundo, sem consórcio conjugal nem votos religiosos.

 

Há pessoas que se surpreendem quando se lhes diz que São Francisco de Assis não era padre; julgam que o deveria ser, porque vestia uma túnica e pregava o Evangelho. É a esta temática que se dedicarão as páginas seguintes, tratando do tema "vocação".

 

1. Vocação em geral

 

São chamados todos os homens e mulheres a ocupar um lugar ou exercer uma função no plano de Deus. Ninguém está no mundo à toa ou por acaso, mas cada criatura corresponde a um exemplar ou um arquétipo na mente do Criador. Em consequência toca a cada criatura humana o dever de descobrir o desígnio de Deus a seu respeito; aliás esse desígnio se manifesta através das aptidões inatas que cada um traz dentro de si; o Criador as depositou no seu artefato humano para que, cultivando-as ou fazendo-as desabrochar, se realize plenamente e assim dê glória a Deus; não há oposição entre a plena realização do homem e a glória de Deus; ao contrário, quanto mais é belo o artefato, tanto mais será exaltado o Artífice.

 

A seguir, distinguiremos cinco tipos de vocação: 1) a vocação à santidade, que é básica e geral, dirigida a todas as criaturas humanas; 2) a vocação ao matrimônio ou a fundar a igreja doméstica; 3) a vocação ao sacerdócio peculiar ao sexo masculino; 4) a vocação à Vida Religiosa ou consagrada a Deus por votos públicos; 5) a vocação do leigo ou da leiga no mundo, sem compromisso conjugal, nem outro de ordem jurídica (incluídos os viúvos e as viúvas).

 

2. Vocação à santidade

 

Não há vocação para a mediocridade ou para o meio-termo. Deus não pode ter feito criatura alguma para ser indefinida, incoerente ou morna, mas concebeu um arquétipo perfeito para cada criatura.

 

Com outras palavras: todos são chamados à santidade desde o seu Batismo... Batismo de água ou de desejo. O desejo pode ser explícito, como no caso dos catecúmenos, ou implícito, como no caso das pessoas que vivem fora do Catolicismo, professando um Credo estranho ao qual julgam dever obediência em plena fidelidade à sua consciência sincera e cândida. Julgam que o seu falso credo é o verdadeiro e cumprem-no com exatidão. Tais pessoas têm o desejo do Batismo implicado em seu teor de vida; se soubessem que Deus instituiu o Batismo como porta da salvação, elas o pediriam. Se Deus não lhes revela o Evangelho com a clareza necessária para que lhe possam aderir, Ele não julgará tais pessoas segundo o Evangelho, mas segundo a fidelidade de tais criaturas à voz de Deus, que fala pela consciência reta e sincera.

 

Tal concepção é formulada pelo Concílio do Vaticano II na Constituição Lumen Gentium n° 16 e na Gaudium et Spes n° 22.

 

O Concílio do Vaticano II proclamou com ênfase especial a vocação de todos à santidade: tenha-se em vista Lumen Gentium:

 

"39. A indefectível santidade da Igreja - cujo mistério este sagrado concílio expõe - é objeto da nossa Fé. Na verdade, Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado 'o único Santo' [solus sanctus] (cf. Lc 1, 35; 4, 34; Mc 1, 24; Jo 6, 69; At 3, 14; 4, 27.30; Hb 7, 26; Jo 2, 20; Ap 3, 7), amou a Igreja como Sua esposa, entregando-Se por ela para santificá-la (cf. Ef 5, 25-26), uniu-a a Si como Seu [próprio] Corpo e a enriqueceu com o dom do Espírito Santo, para a glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia, quer sejam por ela apascentados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação (1Ts 4, 3; cf. Ef 1, 4)...

 

40. Todos os fiéis cristãos são, pois, convidados e obrigados a tender à santidade e à perfeição do próprio estado [de vida]. Cuidem, por isso, todos, de dirigir retamente os seus afetos; não vá o uso das coisas deste mundo e o apego às riquezas - contrário ao espírito de pobreza evangélica - impedi-los de alcançar a Caridade perfeita; já advertia o Apóstolo: 'Os que usam deste mundo façam como se não usassem [in eo ne sistant], porque passa a figura deste mundo' (1 Cor 7, 31)".

 

Realizando o desígnio de Deus, o Imperador Carlos I da Áustria, o rei S. Eduardo da Inglaterra, o rei São Luís IX (1214-1270) da França, se santificaram como monarcas; a bem-aventurada Gianna Beretta Molla se santificou como mãe; o casal Luigi e Maria Quattrocchi, os pais de Santa Teresinha se santificaram como casal, além dos clérigos, Religiosos e Religiosas que se santificaram no serviço imediato a Deus. Ver p. 113 deste fascículo.

 

Sobre a vocação básica e universal à santidade sobrepõem-se vocações particulares, que podem variar de pessoa a pessoa e das quais a mais frequente é a

 

3. Vocação ao matrimônio

 

O casamento não decorre apenas de um impulso natural do homem e da mulher, mas é devido também a um chamado divino.

 

Chamado para quê?

 

... Não só para procurar realizar o bem-estar temporal do(a) consorte, mas para colaborar na santificação dele(a). O matrimônio é um sacramento permanente, que dura enquanto vivem os dois cônjuges. Os ministros desse sacramento são os próprios esposos não só na igreja-templo, mas também na igreja doméstica ou no lar: no intercâmbio mesmo da vida conjugal, ao calcularem receitas e despesas, ao pensarem em arrumação funcional da casa, ao se preocuparem com a educação dos filhos, esposo e esposa estão exercendo sua missão santificadora ou seu sacerdócio. Aliás ele no lar representa Cristo, ela a Igreja, conforme São Paulo em Ef 5, 31 s:

 

"Deixará o homem o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua esposa e serão os dois uma só carne. É grande este mistério; refiro-me à relação entre Cristo e a Igreja".

 

Eis como a respeito se manifesta o Concílio do Vaticano II:

 

"Como outrora Deus tomou a iniciativa do pacto de amor e fidelidade com seu povo, assim agora o Salvador e o Esposo da Igreja vem ao encontro dos cônjuges cristãos pelo sacramento do matrimônio. Permanece daí por diante com eles a fim de que, dando-se mutuamente, se amem com fidelidade perpétua, da mesma forma como Ele amou a sua Igreja e por ela se entregou. O autêntico amor conjugal é assumido no amor divino, e é guiado e enriquecido pelo poder redentor de Cristo e pela ação salvífica da Igreja para que os esposos sejam conduzidos eficazmente a Deus e ajudados e confortados na sublime missão de pai e mãe. Por isso os esposos cristãos são robustecidos e como que consagrados para os deveres e dignidades de seu encargo por um sacramento especial. Exercendo seu dever conjugal e familiar em virtude desse sacramento, imbuídos do Espírito de Cristo que lhes impregna toda a vida com a fé, a esperança e a caridade, aproximam-se cada vez mais de sua própria perfeição e mútua santificação e assim unidos contribuem para a glorificação de Deus" (Gaudium et Spes n° 48).

 

A vida conjugal requer a capacidade de compartilhar, o que implica saber renunciar quando necessário.

 

Há também vocações para a vida una ou indivisa; cf. 1Cor 7, 25-:: :ã: e=s a vocação sacerdotal (na Igreja latina, que pede o celibato aos seus clérigos) e a vocação à Vida Religiosa consagrada por votos. Há sacerdotes sem os clássicos votos religiosos de pobreza, obediência a uma Regra, como existem também Religioso(a)s não ordenados pelo sacramento da Ordem. – Vejamos

 

4. Vocação ao sacerdócio

 

Avocação sacerdotal é o chamado dirigido a um homem para que se torne a mão estendida de Cristo em prol da santificação dos irmãos. O presbítero age in persona Christi (na pessoa de Cristo) quando diz: "Isto é o meu corpo, Isto é o meu sangue, Eu te absolvo dos teus pecados...". A respeito exprime-se o Concílio do Vaticano II no seu decreto Presbyterorum Ordinis:

 

"12. Pelo sacramento da Ordem os Presbíteros se configuram com Cristo Sacerdote, na qualidade de ministros da Cabeça, para construir e edificar todo o Seu Corpo que é a Igreja, como cooperadores da Ordem episcopal. De fato, já na consagração do batismo receberam, como todos os cristãos, o sinal e o dom de tamanha vocação e graça que, mesmo na fraqueza humana, pudessem e devessem lutar pela perfeição, segundo a divisa do Senhor: 'Vós pois sereis perfeitos, como também vosso Pai celeste é perfeito' (Mt 5, 48). Os sacerdotes porém se veem obrigados por um título especial a atingir tal perfeição, pelo fato de eles, consagrados a Deus de modo novo pela recepção da Ordem, se transformarem em instrumentos vivos de Cristo Eterno Sacerdote, a fim de poderem ao longo dos tempos completara obra admirável d'Ele, que reintegrou com a eficiência do alto toda a sociedade dos homens. Como pois cada sacerdote, a seu modo, faz as vezes da pessoa do próprio Cristo, é também enriquecido por uma graça peculiar, para que, no serviço dos homens a ele confiados e do Povo de Deus todo, possa tender mais adequadamente à perfeição d'Aquele a quem representa, e para que a santidade d'Aquele que se fez por nós Pontífice 'santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores' (Hb 7, 26), possa remediará fraqueza do homem carnal".

 

5. Vocação à Vida Religiosa

 

Já nos primeiros decênios da era cristã havia fiéis que renunciavam a qualquer carreira no mundo para se consagrarem inteiramente a Deus na castidade perfeita. A consciência de que o Reino de Deus já chegou embrionariamente levava-os a se consagrar totalmente aos interesses do Reino. Tenha-se em vista o que São Paulo escreve em 1Cor7, 29-31 no ano de 56.

 

"Eis o que vos digo, irmãos: o tempo se fez breve. Resta, pois, que aqueles que têm esposa, sejam como se não a tivessem, aqueles que choram, como se não chorassem, aqueles que se regozijam como se não se regozijassem; aqueles que possuem como se não possuíssem, aqueles que usam deste mundo, como se não usassem plenamente. Pois passa a figura deste mundo".

 

As ponderações do Apóstolo assim formuladas deram pleno fruto a partir do século III, quando Santo Antão, como pioneiro, se retirou para o deserto a fim de mais livremente se dedicar à oração e ao trabalho manual. Originou-se assim o eremitismo ou a procura de Deus na solidão. No século IV, com S. Pacômio, o primeiro autor de uma Regra de vida comunitária, originou-se o cenobitismo ou a vida em comunidade dirigida por uma Regra e um Abade.

 

A vida monacal assim oriunda tomou novas modalidades na Idade Média; tais foram as Ordens ditas Mendicantes (porque cultivavam a pobreza à semelhança dos mendigos). Eram Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas e Agostinianos. Tanto os monges antigos quanto os frades (assim se chamam os mendicantes, interpelados pelo apelativo Frei) prescindiam do sacramento da Ordem; eram monges ou frades, mas não eram padres. A necessidade de ter mais sacerdotes é que aos poucos levou a Igreja a conferir-lhes o sacramento da Ordem, de modo que atualmente são Religiosos e clérigos. Entende-se assim que nem São Bento (f 543), nem São Francisco (f 1226), tenham sido presbíteros. Ao lado dos Religiosos ordenados, conservou-se nos mosteiros dos monges e nos conventos dos frades, a categoria dos Religiosos leigos ou conversos (geralmente são pessoas que se querem consagrar a Deus, mas não têm o estudo necessário para a ordenação). Frei Betto é Religioso dominicano não ordenado, embora possua bom cabedal cultural.

 

No século XVI, à guisa de resposta aos novos tempos surgiram Ordens e Congregações clericais, isto é, compostas por clérigos que fazem votos religiosos, mas não vivem em clausura porque se dedicam ao ministério sacerdotal. Grande é o número de Congregações (não se diga Ordens) de clérigos regulares fundadas nos séculos XVI e seguintes até nossos dias.

 

No século XX os novos tempos sugeriram a formação de Institutos Seculares; constam de homens ou de mulheres que proferem votos religiosos, mas geralmente vivem em sua residência no mundo, exercem profissões ou tarefas leigas, mas na atitude de pessoas consagradas a Deus e obrigadas a dar contas de sua vida a um(a) coordenador(a).

Ainda se devem mencionar as Sociedades de Vida Apostólica, que são formas de viver a consagração a Deus nos moldes da sociedade contemporânea, assim delineadas pelo Santo Padre João Paulo II:

 

"11. Merecem, depois, uma especial menção as Sociedades de Vida Apostólica ou de vida comum, masculinas e femininas, que perseguem, com seu estilo próprio, um específico fim apostólico e missionário. Em muitas delas, assumem-se expressamente os conselhos evangélicos, com vínculos sagrados reconhecidos oficialmente pela Igreja. Mesmo neste caso, todavia, a peculiaridade da sua consagração distingue-as dos Institutos religiosos e dos Institutos seculares. Há que salvaguardar e promover a especificidade desta forma de vida, que, ao longo dos últimos séculos, produziu tantos frutos de santidade e de apostolado, especialmente no campo da caridade e na difusão missionária do Evangelho.

 

Novas expressões de Vida Consagrada

 

12. A perene juventude da Igreja continua a manifestar-se também hoje: nos últimos decênios, depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, apareceram formas novas ou renovadas de Vida Consagrada. Em muitos casos, trata-se de Institutos semelhantes aos que já existem, mas nascidos de novos estímulos espirituais e apostólicos. A sua vitalidade deve ser ponderada pela autoridade da Igreja, a quem compete proceder aos devidos exames, quer para comprovar a autenticidade da sua finalidade inspiradora, quer para evitar a excessiva multiplicação de instituições análogas entre si, com o consequente risco de uma nociva fragmentação em grupos demasiadamente pequenos. Noutros casos, trata-se de experiências originais, que estão à procura da sua própria identidade na Igreja e esperam ser reconhecidas oficialmente pela Sé Apostólica, a única a quem compete o juízo definitivo.

 

Estas novas formas de Vida Consagrada, que se vêm juntar às antigas, testemunham a constante atração que a doação total ao Senhor, o ideal da comunidade apostólica, os carismas de fundação continuam a exercer mesmo sobre a geração atual, e são sinal também da complementaridade dos dons do Espírito Santo.

 

Mas o Espírito não Se contradiz na inovação. Prova-o o fato de que as novas formas de Vida Consagrada não substituíram as antigas. Numa variedade tão grande de formas, pôde-se conservar a unidade de fundo graças ao chamamento sempre idêntico a seguir, na busca da perfeita caridade, Jesus virgem, pobre e obediente. Este chamamento, tal como se encontra em todas as formas já existentes, assim é requerido naquelas que se propõem como novas" (Exortação Apostólica Vita Consecrata).

 

6. Vocação para viver simplesmente a vida cristã

 

Existem pessoas que Deus chama para a santidade sem lhes apontar alguma das modalidades atrás apresentadas. Solteiros ou solteiras, vivem simplesmente a sua vida cristã, cumprindo seus deveres religiosos e civis. Procurem colaborar com a Igreja em alguma tarefa de paróquia ou de diocese, não se deixem tentar pelo ócio vazio e propenso ao pecado. Podem-se juntar a esta categoria os viúvos e as viúvas. É oportuno que tais pessoas façam para si mesmas um regulamento próprio à luz do Evangelho para evitar o egocentrismo; tenham nítida consciência de viver para Cristo, que requer desapego do mundo. Está dito em Lamentações 3, 27: "É bom para o homem trazer o jugo desde a juventude". O jugo é a escola do Senhor, que liberta do velho homem a nova criatura que se vai formando no cristão desde o Batismo.

 

Em suma, para qualquer vocacionado valem as palavras do Apóstolo:

 

"Ninguém de nós vive para si e ninguém de nós morre para si mesmo, porque, se vivemos, é para o Senhor que vivemos, e, se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Com efeito, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos" (Rm 14, 7-9).

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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