REVISTA PeR (9210)'
     ||  Início  ->  
Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 513 – março 2005

Religião e Prosperidade:

 

PAÍSES PROTESTANTES MAIS PRÓSPEROS DO QUE PAÍSES CATÓLICOS?

 

Em síntese: Ouve-se dizer que a vivência protestante é penhor de riqueza e prosperidade, ao passo que a fé católica, sendo mesclada de elementos pagãos, não atrai as bênçãos de Deus no plano material. Esta alegação é refutada mediante várias ponderações; entre estas encontra-se a afirmação de que o desenvolvimento tecnológico não é da alçada da religião; o Senhor Jesus pediu aos seus discípulos que o sigam carregando sua cruz (cf. Mt 16, 24s); diz ainda o Apóstolo "Os que se querem enriquecer caem em tentação e cilada" (1Tm 6, 8). A posse de riquezas e poder materiais pode levar um país ao desvario de se julgar paradigma e policial guarda da ordem mundial.

 

A FOLHA UNIVERSAL", edição de 14/11/04, repete uma velha objeção dos protestantes ao Catolicismo: os países protestantes são materialmente ricos porque Deus os abençoa, ao passo que os países católicos, aderindo a concepções e práticas pagãs, não merecem essa bênção de Deus. O jornal desenvolve a tese em termos que pedem explicações a bem da verdade. Atenderemos a esta exigência depois de reproduzir os principais tópicos da acusação.

 

1. A acusação

 

A "FOLHA UNIVERSAL", semanário da IURD, edição de 14/11/04, p. 3A, traz a seguinte notícia:

 

"Os passos do poder: como alcançá-lo?

 

O paganismo não estabelece limites rígidos nem requer sacrifícios éticos dos cidadãos.

 

Ao contrário deste sistema, pode-se identificar o capitalismo protestante, utilizado principalmente pelos países chamados do Primeiro Mundo, como, por exemplo, Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Este modelo nasceu logo após a Reforma Cristã Protestante.

 

Segundo o cientista econômico Max Weber, autor do livro 'A ética protestante e o espírito do capitalismo', o capitalismo protestante estaria vinculado à doutrina calvinista, que acredita que a prosperidade é uma dádiva divina e deve ser aperfeiçoada pelo trabalho do homem.

 

De acordo com Weber, os países mais prósperos do mundo são os que seguem o capitalismo protestante. Os salários são invejáveis, a taxa de desemprego é baixa, a economia é estável e a organização da produção visa ao lucro, além de emprego assalariado.

 

Outros países desenvolvidos como Suécia, Dinamarca, Escócia, Finlândia, Noruega, Islândia e Suíça, com exceção do Japão, utilizam o capitalismo protestante, totalmente contrário ao do trabalho escravo (pagão) ou de completa submissão ao Estado, como acontece no comunismo...

 

Especialistas analisaram a conduta das nações e chegaram à conclusão de que aquelas que seguem a doutrina protestante, isto é, dos cristãos seguidores da Bíblia, poderiam ajudar o resto da população mundial a entender a fórmula do sucesso para prosperarem. A Igreja Católica usou vários recursos para convencer que os protestantes eram inimigos".

 

Na mesma página escreve o Sr. Valvim M. Dutra:

 

"Jesus Cristo disse que se conhece uma árvore pelos frutos: se o fruto é bom, a árvore é boa, e, se o fruto é mau, a árvore também é má. Portanto, se quisermos fazer uma comparação realista entre o protestantismo e o catolicismo, teremos que analisar seus frutos nos diversos países que os adotaram.

 

Quando comparamos países católicos com nações protestantes, notamos claramente uma melhor qualidade de vida nos países que possuem a maioria da população protestante. Logo, podemos concluir com toda segurança que o modelo protestante é mais eficiente que o modelo católico. Na verdade, o que produz bons resultados é a parte genuinamente cristã que está contida em grandes proporções na ética protestante. Na ética católica, a parte genuinamente cristã também existe, mas é em pouca proporção ou não é seguida. A maior parte do catolicismo é constituída de antigas tradições do Império Romano. Essas tradições meio pagãs acabam sufocando a parte realmente cristã".

 

2. Que dizer?

 

A temática não é nova. Já foi considerada pelo Pe. Leonel Franca S.J. em seu diálogo com o Sr. Ernesto Luis de Oliveira, protestante. Vera propósito os livros "A Igreja, a Reforma e a Civilização" de Leonel Franca, 2a edição, Rio 1928, e "Catolicismo e Protestantismo" do mesmo, 2a edição, Rio 1952. Destas obras sejam destacados alguns tópicos.

 

"A suposta superioridade das nações protestantes sobre as católicas tem sido amplamente explorada nos meios de cultura intelectual inferior, como argumento popular contra a Igreja" (Catolicismo e Protestantismo, p. 214).

 

Para elucidar a afirmação dos autores protestantes, procuremos, antes do mais, desfazer algumas ambiguidades:

 

2.1. Os equívocos da questão

 

1. A civilização de um povo é algo de muito complexo, pois vem a ser função de múltiplas e variadas causas. Reduzir a grandeza de um povo a algumas cifras de comércio e explicá-las pelo fator religioso é simplificação pueril.

 

Com efeito. Perguntamo-nos se existem propriamente nações católicas e nações protestantes. Qual o povo que desde a Reforma esteve sujeito unicamente à influência católica ou à protestante? O intercâmbio de ideias e livros, cada vez mais acentuado, não permite que um povo seja plasmado por um só sistema filosófico ou religioso. A própria constituição demográfica dos povos ditos protestantes mostra que constam, em proporção respeitável, de cidadãos católicos: assim a Holanda, a Alemanha, a Suíça, a Inglaterra, os Estados Unidos... De modo especial, notemos que tais países protestantes têm sido governados também por dirigentes católicos; tal foi o caso da Alemanha, que se reergueu das ruínas da segunda guerra mundial sob a administração de Konrad Adenauer; tal foi o caso de John Kennedy nos Estados Unidos e o de Robert Schuman na França.

 

Da mesma forma os países ditos católicos contam com certo contingente de não católicos e de livres pensadores, que exercem sua Influência sobre a vida pública.

 

2. Que se entende por "civilização" de um povo?

Não raro designa-se assim o bem-estar material; prosperidade econômica, desenvolvimento industrial, poderio militar, influência política... Menos se pensa na retidão dos costumes, na dignidade moral da vida.

 

Ora acontece que nem sempre os povos desenvolvidos no plano material são os mais elevados no plano moral; a riqueza e o bem-estar são frequentemente fatores de embotamento da consciência ética. Pois bem; a religião é responsável primeiramente pelos valores morais de um povo; quanto aos valores materiais, ela só indiretamente os atinge; dependem, em grande parte, não da religião, mas das riquezas naturais, da posição geográfica, das condições climáticas, das facilidades de comunicação, da perspicácia política dos estadistas... O historiador deve examinar a influência desses fatores para explicar a civilização de determinado povo. Isolar uma nação próspera, esquecendo os fatos históricos e geográficos que condicionaram o seu desenvolvimento, e dizer que tal prosperidade se deve aos fatores religiosos, é um procedimento que nem a sã razão nem a ciência histórica apoiam. Quem assim proceda, poderá dizer que o politeísmo pagão dos gregos e dos romanos era preferível ao monoteísmo dos judeus e da Bíblia, porque os greco-romanos tiveram civilização e poderio militar superiores aos dos judeus:... dirá também que o islamismo de Maomé é preferível ao Cristianismo, porque os maometanos dos séculos X e XI construíram uma civilização que em certos pontos ultrapassou a dos cristãos da mesma época; estes só mais tarde se recuperaram. Donde se vê que não se deve fazer da prosperidade material de um povo o critério para avaliar suas crenças religiosas.

 

A superioridade do protestantismo só poderia ser comprovada se ficasse evidente a superioridade, no plano moral, dos povos protestantes desde que e porque abraçaram a Reforma; seria preciso também provar que os povos católicos nunca atingiram igual elevação moral precisamente porque se conservaram fiéis ao Catolicismo. Ora nunca se fizeram nem poderão fazer semelhantes demonstrações.

 

Analisemos agora o caso da evolução de um ou outro país em particular.

 

2.2. Casos particulares

 

1) Espanha. Este país sofreu notável decadência política nos séculos XVIII e XIX. Será que isto se deve à sua formação religiosa? -Francamente não. A Espanha foi vítima de grandes desastres navais,... das desvantagens da sua situação geográfica, que a obrigava a combater às vezes simultaneamente nos Países Baixos, na Itália e no Ultramar,... dos erros de política econômica e financeira cometidos por Filipe II (1580-98) e seus sucessores,... de guerra injusta com os Estados Unidos. Quando esses fatores ainda não atuavam e o Catolicismo na Espanha era profundo, a Espanha era uma das maiores potências do mundo, dotada de uma história que dificilmente será igualada. É dos países que mais contribuíram para formar outros povos.

 

2) Portugal. Sofreu evolução semelhante à da Espanha. Em ambos os casos houve o mesmo fenômeno: cabeça ou metrópole na Europa e corpo esparso por quatro continentes - o que não se poderia sustentar indefinidamente.

 

3) Inglaterra. A Inglaterra, nos seus tempos de católica, ou seja, antes de 1534, era um país em que a liberdade imperava; tenham-se em vista a Magna Charta Libertatum (a Magna Carta das Liberdades), fundamento da Constituição liberal inglesa de junho de 1315. O Parlamento britânico, instituição democrática, data de 1258! - A Reforma protestante, porém, provocou um retrocesso notável no setor da liberdade do povo inglês: desencadeou-se no país um regime de opressões e tiranias que duraram três séculos com grande intensidade e até hoje conservam seus resquícios no Norte da Irlanda. Eis algumas das medidas repressoras adotadas pelos monarcas ingleses contra a população católica: 1581, pena de morte para o sacerdote que ouvisse confissão; 1585, pena de morte ou confiscação de bens contra todo sacerdote ou seminarista que ousasse permanecer ou entrar em território inglês; mesma pena para quem ousasse hospedá-lo ou protegê-lo; 1677, os católicos foram privados do direito de voto; 1688, expulsão de todos os católicos do território inglês; 1700, prêmio de mil libras esterlinas a quem prendesse sacerdote ou bispo católico ou provasse que havia celebrado Missa...

 

A Irlanda foi e ainda é (no território de Ulster, setentrional) vítima de leis repressivas dirigidas contra os católicos: um católico não podia possuir um cavalo cujo valor passasse de cinco libras esterlinas e, se um protestante pudesse afirmar que excedia esta quantia, era autorizado a apoderar-se do animal pagando cinco libras (1696); nenhum católico podia comprar bens fundiários nem arrendar terrenos por mais de trinta anos (1703); morrendo um católico, se na descendência havia algum protestante, este era declarado único herdeiro dos bens, com exclusão de todos os parentes católicos ainda mais próximos; havia proibição aos protestantes de instruir católicos e a estes proibição de abrir escolas ou enviar os filhos ao continente europeu em busca de instrução e ciência; havia autorização aos magistrados de enviar os filhos das famílias católicas à Inglaterra para se instruírem nos princípios da Reforma; nas famílias católicas, se a mãe se declarava protestante, o pai perdia o direito de educar os filhos na religião católica; os sacerdotes fiéis eram condenados ao exílio, ao passo que os apóstatas eram amparados oficialmente com honorários anuais de 20, 30, 40 libras esterlinas (1704-1705).

 

Estas atitudes são surpreendentes e inexplicáveis principalmente num país que professa o "livre exame da Bíblia".

 

E não só na Inglaterra vigoraram tais medidas; tiveram seus paralelos em outros países protestantes, como registra o Pe. Leonel Franca, em "Catolicismo e Protestantismo", pp. 259s:

 

4) "Na Escócia presbiteriana, em princípios do século XVII era severamente proibido alugar casa a quem fosse suspeito de católico; três cidadãos de Edimburgo, por haverem hospedado a um sacerdote, foram condenados à morte, mas a sentença não foi executada; João Logan pagou com 5.000 esterlinas o 'delito' de ouvir Missa; quem houvesse cometido o mesmo crime no estrangeiro, perdia para si e para os seus herdeiros todos os bens, que passavam para a Coroa. Em 1615, João Ogilvie, por ser sacerdote e jesuíta, foi executado em Glasgow.

 

Na Dinamarca, Colen, sacerdote católico, foi em 1624 expulso do país, e um negociante que o havia acolhido em sua casa, justiçado. Um decreto real de 18 de fevereiro do mesmo ano proibia a todos os sacerdotes e Religiosos a estada no país, sob pena de morte. Assim se implantou e se defendeu na Dinamarca a religião do livre exame...

 

Na Holanda renovaram-se periodicamente as disposições legais contra os católicos. A luteranos e calvinistas, anglicanos e anabatistas reconhecia-se o direito a exercício público do próprio culto; aos holandeses fiéis à religião dos seus pais, não. Em 1612 os Estados Gerais expediram decretos contra as atividades dos eclesiásticos e a frequência de escolas católicas; aos ofícios públicos era em quase toda a parte vedado o acesso aos católicos. Quando os calvinistas que triunfaram no sínodo de Dordrecht subiram ao poder, os antigos editos penais contra os católicos foram renovados e agravados. A 26 de fevereiro de 1622 fechava-se a entrada na Holanda a qualquer eclesiástico estrangeiro e proibia-se, sob as mais severas multas, o culto católico, ainda que de caráter privado. Este edito foi renovado em 1624, em 1629 e ainda em 1641. Em Utrecht proibia-se sob pena de 50 florins o antigo costume de pôr-se um rosário nas mãos dos defuntos; em 1644 foi vedado às senhoras católicas que não tinham filhos, fazer testamento. Que regime liberal para propagar e defender uma religião cujo princípio era o direito individual ao livre exame!"

 

5) Brasil e Estados Unidos. Tem-se dito que o Brasil é naturalmente mais rico e mais inteligente do que os Estados Unidos; se não se desenvolveu tanto quanto este país, deve-se ao fato de sermos católicos e os norte-americanos, protestantes.

 

A propósito transcrevemos interessantes ponderações do mesmo Pe. Franca em "Catolicismo e Protestantismo", páginas 267-269:

 

"Tome uma carta geográfica, preclaro professor; esqueça o seu protestantismo e observemos.

A primeira diferença, capital para a civilização de um povo, é que o território norte-americano se estende de oceano a oceano; o trabalho de colonização e utilização do solo pôde ser atacado simultaneamente dos dois extremos, estimulado pelo comércio aqui com a Europa, ali com a Ásia. No Brasil, o mar só nos banha a fronteira oriental; a grande serra que para logo se eleva dificultou extraordinariamente a penetração para o interior. As nossas cidades rendilharam a costa; a população distribuiu-se por uma estreita faixa marítima; e quase todo o imenso território pátrio, por falta de comércio possível, ficou e ficará, ainda por largo tempo, quase despovoado e inexplorado.

 

Mais. Toda a gente conhece a relação entre a extensão das linhas da costa de um país e o seu desenvolvimento econômico. África, o mais atrasado dos continentes, conta apenas um quilômetro de costa para 1.420 quilômetros quadrados de terra. Lapparent oferece-nos a seguinte tabela comparativa. Por um quilômetro da costa:

 

Quilômetros de território

África................................................ ,........................................... 1.420

Ásia.................................................................................................. 763

América do Sul.................................................. ,.............................. 689

Austrália........................................................................................... 534

América do Norte.............................................................................. 407

Europa.............................................................................................. 289

 

Enquanto os Estados Unidos vêm imediatamente após a Europa, a América do Sul só leva vantagem à África e à Ásia. Se no continente sul-americano distinguirmos o Brasil (7.920 km de costa, 8.307.218 km2 de área), encontraremos para cada km de costa uma superfície de 1.048 km2, o que nos coloca no penúltimo lugar, superior apenas ao do continente negro, e incomparavelmente abaixo da posição norte-americana.

 

Passe agora, professor, a observar as coordenadas geográficas. O imenso território da República do Norte está na zona temperada; a quase totalidade do brasileiro, na zona tórrida. O que representa o clima na beleza e saúde da raça, na capacidade de trabalho, na resistência à fadiga, no espírito de iniciativa, sabem-no todos os higienistas e sociólogos, exceto o Sr. Ernesto Luís.

 

Outro passo. A civilização americana não é autóctone; é uma civilização de empréstimo, importada do Velho Mundo. Ora a distância que separa os Estados Unidos da Europa é, pelo menos, duas vezes menor que a que medeia entre o Brasil e os grandes focos da cultura antiga. Rapidez e economia nas comunicações muito mais favoráveis aos do Norte. Por essa circunstância e, mais, pela semelhança do clima, as grandes correntes imigratórias dirigiram-se de preferência para a pátria do dólar. De 1840 a 1914 mais de 30 milhões de europeus desembarcaram nos portos norte-americanos. Era o braço do homem indispensável para valorizar as riquezas brutas da natureza. Entre estas riquezas, muito superiores às nossas, salientamos as jazidas de carvão de pedra e de petróleo, cuja influência preponderante no desenvolvimento econômico acabamos há pouco de assinalar".

 

3. Ulteriores ponderações

 

Mais quatro observações podem ocorrer a quem reflita sobre o assunto.

 

3.1. Cristianismo e Prosperidade

 

A tese protestante equivale a fazer do Cristianismo um sistema de enriquecimento material, à semelhança do que pensavam os antigos judeus: Deus recompensaria nesta vida mesma a quem lhe fosse fiel. Ora Jesus não prometeu bem-estar material a quem o queira seguir, mas, ao contrário, pediu que O acompanhassem carregando a cruz:

"Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me... Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perdera sua alma?!"(Mt 16, 24s).

 

O Apóstolo explicita o pensamento do Mestre:

 

"Se temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Os que se querem enriquecer, caem em tentação e ciladas e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que mergulham os homens na ruína e na perdição" (1 Tm 6, 8s).

 

Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6, 20) não por causa da pobreza como tal, mas porque a pobreza foi para eles ocasião de guardar a fé e a disponibilidade para o Senhor, ao passo que a riqueza embotou o coração dos ricos e os impediu de atender ao apelo de Deus, quando o rei Ciro permitiu aos judeus exilados que voltassem a sua pátria para reconstruir Jerusalém no século VI a.C; quem voltou, foram os pobres, que tinham o coração livre.

 

O Catolicismo não é contrário à riqueza honesta, mas apregoa o desapego ou a superioridade em relação aos bens materiais, pois "passa a figura deste mundo". É o Apóstolo quem o diz:

 

"O tempo se fez breve. Resta, pois, que aqueles que usam deste mundo sejam como se não usassem, pois passa a figura deste mundo" (1Cor 7, 25s).

 

3.2. O país mais poderoso

 

O país mais poderoso deste mundo, de população majoritariamente protestante, tem assumido um desempenho discutido no âmbito internacional:

 

a)  parece ter a pretensão de ser padrão e policial frente aos outros povos. O poder, pretensamente justificado pela religião, incute a vários de seus cidadãos a consciência de pertencerem a um povo messiânico -ideia esta muito sujeita a contestação.

b)  No plano mesmo da fé tal país tem sido o berço de correntes que, derivadas do Cristianismo, já não são cristãs (Testemunhas de Jeová, Mórmons, Ciência Cristã...). O subjetivismo aí vai destruindo a mensagem cristã, causando o divórcio entre riqueza e Evangelho em vez de conúbio. - Nem se pode dizer que tal país tecnologicamente desenvolvido é dos mais morigerados da superfície do globo... Em suma, todos são pecadores e precisam da graça de Deus, como afirma o Apóstolo (Rm 3, 23).

 

3.3. A observação de Max Weber

 

Quando Max Weber afirma que o calvinismo incentivou o zelo conquistador de certos povos, deve-se entender que esse incentivo foi proporcionado não pela mensagem evangélica como tal, mas pela interpretação que Calvino deu a essa mensagem. A mesma pode ser entendida em sentido diverso, como dito atrás. O calvinismo apregoava um zelo religioso na procura dos bens deste mundo. Isto se entende até certo ponto, pois o cristão é chamado a glorificar a Deus através de todos os seus trabalhos, mas não deve esquecer que somos todos peregrinos do Absoluto, em demanda de uma pátria melhor, isto é, "da pátria celestial" (Hb 11, 16).

 

3.4.Mescla de paganismo?

 

Acusar o Cristianismo antigo de mesclar-se com o paganismo significa ignorar a literatura cristã dos primeiros séculos. Com efeito, as Atas do Martírio de uma multidão de heróis atestam que eles preferiam morrer a adotar crenças ou práticas pagãs. Os sermões e as cartas de vários Bispos dos primeiros séculos alertam os fiéis para o perigo do sincretismo religioso.

 

Não há dúvida, o Cristianismo tem expressões comuns com outras crenças religiosas; são expressões ou símbolos que brotam espontaneamente da religiosidade inata em cada homem e anterior a qualquer Credo: não são nem pagãs nem cristãs, mas humanas; assim o levantar as mãos ao céu, o prostrar-se por terra, o ajoelhar-se... em tais casos não se pode falar de empréstimo ou dependência de uma corrente religiosa em relação a outra.

 

Em suma, a quem repensa a problemática abordada nestas páginas, ocorre a necessidade de frisar que não se deve fazer da religião um serviço ao homem no plano material.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Pergunte e Responderemos - Bíblia Católica - Catecismo
Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
7 1
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)