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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 528 – junho 2006

Na história da Igreja:

 

O SÉCULO OBSCURO

 

Em síntese: O século X é tido como o século obscuro na história do Papado, pois este foi então muito influenciado por monarcas estranhos e por famílias dos arredores de Roma. É preciso reconhecer a realidade dos fatos, mas deve-se notar que a principal fonte de informações é Luitprando de Cremona, infenso às famílias de Roma. que ele terá procurado denegrir. Além do mais, veja-se nos episódios do século X o testemunho de que a Igreja não é governada apenas por homens, mas também pela Providência Divina, que a sustenta especialmente nos momentos difíceis.

 

É freqüente, em debates e em aulas, citar o século X como "o século obscuro" ou "de ferro" da história do Papado. Este se achava sob a mira dos interesses dos Imperadores germânicos, dos bizantinos como também das famílias de Roma e arredores; cada qual dessas partes desejava influir no curso da administração papal. Na Itália destacaram-se duas mulheres: a senadora Teodora, casada com Teofilacto, e sua filha Marósia, desempenharam um papel poderoso, esforçando-se por colocar na sé de Pedro seus filhos ou familiares. Além dessas duas principais figuras, procurava intervir na vida dos Papas a família dos Crescentii. Desse jogo de múltiplos interesses resultaram graves escândalos e humilhações para a sé de Pedro, que o historiador sincero deve reconhecer. Todavia três observações se impõem a bem da verdade:

 

1. A fonte de informações

 

A principal e quase única fonte de informações sobre o Papado do século X é Luitprando, bispo de Cremona. Este era partidário dos germânicos e infenso aos romanos e bizantinos, para com os quais nutria confessada antipatia; é o que se depreende já do título da sua obra cronística: Antapódosis (Revanche, em grego). Em suas críticas o autor parece ter em vista a degradação da nobreza romana.

 

A obra de Luitprando de Cremona foi contraditada, em parte ao menos, por outro historiador, Mateus Fedele, da Universidade de Turim, que tem Luitprando na conta de caluniador de mulheres; não há dúvida de que estas se envolveram partidariamente em eleições papais, visando ao prestígio de suas famílias, mas não se pode, conforme Fedele, dar crédito a tudo mais que Luitprando refere. Ver o estudo Ricerche per la storia di Roma e Del Papato nel secolo X, publicado em Archivio delia Società Romana di Storia Patria, tomo XXXIII, 1907.

 

Estudos recentes comprovaram ser falsa a notícia de que o Papa João XI (+935) era filho ilegítimo de Marósia com o Papa Sérgio III (904-911).

 

É de lamentar que as acusações feitas por Luitprando tenham encontrado fácil aceitação até mesmo da parte de famosos escritores católicos como Baronius e Joseph de Maistre. No caso requer-se sadio senso crítico não para negar a verdade, mas para não exagerar o vulto dos erros cometidos.

 

2. Uma lição de fé

 

Os fatos dolorosos atrás assinalados não são somente sombras... sombras que deram ocasião ao apelativo "século X século obscuro" ou "século de ferro". Eles são portadores de uma lição. Com efeito; lembram que a Igreja não é governada apenas pelos homens, mas é sustentada e guiada também pelo próprio Deus; já dizia o Papa S. Leão Magno (+461): "Dignitas Petri etiam in indigno herede non déficit" (Não desfalece a dignidade de Pedro nem mesmo num indigno sucessor). O sarcástico pensador Voltaire, ao referir-se ao século X, escrevia: "É surpreendente o fato de que, sob tantos Papas escandalosos e tão pouco poderosos, a Igreja Romana não tenha perdido suas prerrogativas nem suas aspirações" (Essai sur lês moeurs, t. I, cap. XXXV). Ao que Joseph de Maistre acrescentava: "É muito adequada a expressão é surpreendente, pois o fenômeno é humanamente inexplicável" (Du Pape, I. II, Cap. VII, crat. 2).

 

3. Liberdade frente aos poderes deste mundo

 

Os fatos considerados evidenciam mais uma vez a importância de estar o Papado isento de influências estranhas de ordem política ou social. O poder religioso, que é o dos Papas; é de tal alcance que suscitou a cobiça dos senhores políticos deste mundo. Em nossos dias a ingerência de forças estranhas está muito diminuída. O Papa ainda conserva um mínimo de soberania temporal, pois esta é necessária para que não seja interceptado o Pontífice na sua ação pastoral, mas não se equipara ao poder material dos grandes chefes de Estado, que têm suas tropas e seu aparato correspondente. O Estado Pontifício é como o corpo franzino de São Francisco de Assis, exíguo, mas indispensável para sustentar o espírito férvido e irradiante do Poverello de Assis.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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