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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 528 – junho 2006

Crítica radical:

 

"SERÁ POSSÍVEL OUTRO MODELO DE IGREJA?"

(revista ALTERNATIVAS)

 

Em síntese: A revista ALTERNATIVAS, da Nicarágua, propõe um modelo de Igreja "povo de Deus", constituída por leigos ao serviço dos quais estaria o clero. A coordenação deveria ser exercida não por ministros ordenados, mas por representantes da comunidade sob forma de rodízio. - É evidente que esta concepção se opõe a doutrina do Concílio (que ela evoca em seu favor!); que considera a Igreja como sacramento continuador do sacramento da santíssima humanidade de Cristo.

 

É acentuadamente crítica a revista ALTERNATIVAS, da Editora Lascasiana de Manágua (Nicarágua). O número semestral de 2005.2 tem por tema "Será possível outro modo de ser Igreja?"; nessa temática interessar-nos-á o artigo de Stefan Silber intitulado "Los Laicos somos la Iglesia" (Nós, os leigos, somos a Igreja), pp. 121-145. A seguir, será exposto o pensamento do autor acompanhado de comentários.

 

1. "Nós, os leigos, somos a Igreja"

 

O autor pretende seguir a doutrina do Concílio do Vaticano II, que ele vai citando ao longo do seu raciocínio. Este pode ser assim reconstituído:

 

1) O Concílio do Vaticano conceituou a Igreja como "povo de Deus". Considerou este aspecto antes mesmo de falar da hierarquia da Igreja.

2) Ora o povo de Deus são os leigos, ou é qualquer pessoa batizada.

3) No povo de Deus "ocorre uma verdadeira igualdade entre todos" (Lúmen Gentium 32). Ainda que seja necessário o ministério dos pastores, este não apaga a igualdade fundamental. Os leigos podem e devem ter consciência de que eles são a Igreja, sendo válida a recíproca: "A igreja é leiga ou a Igreja são os leigos". Por conseguinte "Igreja dos leigos" não é apenas uma idéia vaga, mas é uma realidade apregoada pelo Concílio.

4) A experiência das comunidades eclesiais de base ilustra este conceito. São grupos de leigos que se reúnem periodicamente para meditar as verdades da fé, ler a Bíblia, trocar experiências, estudar as possibilidades de reformar a sociedade em vista de um mundo melhor.

5)  Aos pastores do povo de Deus cabe o papel de servir a esse povo, ajudando o homem a descobrir o sentido da sua existência (Gaudium et Spes 41) e colaborando para a vinda do Reino de Deus e a salvação de toda a humanidade" (Gaudium et Spes 45).

6)  O Concílio vai mais adiante, afirmando que não somente as pessoas batizadas - leigos e clérigos - formam a Igreja, mas "todos os homens e todas as mulheres são chamados a tomar parte no povo de Deus" (Lúmen Gentium 13): mesmo que não tenham acolhido o Evangelho, estão ordenados ao povo de Deus" (Lúmen Gentium 16). "Se todas as pessoas são chamadas por Deus e mesmo aqueles que não foram batizados estão orientados para o Povo de Deus, a Igreja não pode limitar-se a ser uma associação de pessoas registradas, mas é uma comunidade viva de limites abertos, que acolhe até mesmo os que não lhe querem pertencer" (artigo citado p. 127).

7)  Uma das conseqüências destas idéias é que as mencionadas pequenas comunidades cancelaram seu título de cristãs; são chamadas "comunidades de base" ou "Basic Human Communities" (Comunidades Humanas de Base). Reúnem pessoas provenientes das correntes de pensamento da Ásia, da África, da América, até mesmo pessoas não religiosas, cujo propósito não é apregoar Jesus Cristo e o Evangelho, mas transformar a sociedade, tornando-a mais justa e fraterna.

8)  Modifica-se o conceito de evangelização. Esta já não tem como objetivo o aumento numérico de fiéis nem a permanência das massas na Igreja, mas renovar os sistemas que governam os povos neste mundo, o que equivale (como dizem) a trazer o Reino de Deus para o nosso tempo. Escreve Stefan Silber:

 

"A tarefa do leigo inserido no mundo não consiste em visitas missionárias que tenham por objetivo ganhar mais adeptos para a sua religião. Ao contrário, é tarefa dos leigos, como é de toda a Igreja, reconstruir o mundo em colaboração com todas as pessoas de boa vontade. A Igreja não existe para que todos os seres humanos recebam o Batismo, mas para que a humanidade se salve... Nosso objetivo não é o crescimento da clientela, mas do Reino de Deus... é lutar pela justiça e a libertação" (art. cit, p. 135).

 

9) Outra conseqüência assim se delineia:

"Existe a Igreja na grande maioria de leigos que são pobres. Disto se segue que a religiosidade popular (mesmo a não cristã) deve ser reconhecida como eclesial ou como autêntica expressão da Igreja.

 

10) Por fim, Nós, leigos, somos chamados a guiar e liderar na Igreja... os leigos não existem apenas para as tarefas de dentro da Igreja.

 

Não é nossa missão ajudar os párocos a organizar a catequese, ornamentar o templo e embelezar a liturgia. Deus nos chama para servir à humanidade, antes do mais... aos pobres" (p. 143).

 

2. Refletindo...

 

Proporemos três pontos para reflexão.

 

2.1. O conceito de Igreja

2.1.1. O novo modelo

 

Em síntese, o novo modelo assim se configura:

 

a) A Igreja é uma sociedade sem limites; acolhe qualquer indivíduo de boa vontade como membro seu.

b) O objetivo da Igreja é salvar da injustiça a humanidade pobre e injustiçada. Este termo é chamado "o Reino de Deus".

c) A dimensão religiosa é secundária, qualquer crença religiosa é válida como também é válido o ateísmo.

 

Ora é claro que um tal conceito de Igreja extingue o Cristianismo; é o Cristianismo secularizado sem Deus e sem religião. Designa uma corrente sócio-política neste mundo de lutas entre os homens.

 

2.1.2. O Evangelho

 

O conceito de Igreja que o Evangelho propõe, é expresso pelas palavras de Jesus em Mt 28, 18-20: "Ide e fazei discípulos todos os homens, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...". A dimensão religiosa é primordial, ao passo que a sócio-política é derivada da anterior. A Moral Católica apregoa, sem dúvida, a justiça, mas não limita seu olhar às realidades terrestres; o Reino de Deus e a salvação dos homens passam pelos valores deste mundo, mas transcendem-nos.

 

Para São Paulo, a Igreja é o Corpo de Cristo (cf. Cl 1, 24), é a continuadora da humanidade de Cristo - o que quer dizer que é sacramento, invólucro sensível pelo qual passa a graça divina. São João cita a imagem da videira (Jo 15,1-5) para significar a mesma realidade mística: ser cristão é viver em comunhão com Cristo e dar fruto por efeito da seiva divina que o vivifica.

 

2.2. O Povo de Deus

 

É difícil definir a Igreja, visto que é um sacramento ou uma realidade divino-humana; faz parte do "mistério da fé". O Concílio do Vaticano II quis ilustrá-la com a imagem de "povo de Deus".

 

Este apelativo significa que a historia do Povo de Deus do Antigo Testamento continua na historia da Igreja; esta é a consumação da Aliança de Deus com o povo de Israel.

 

Além de indicar comunhão, o título "Povo de Deus" põe em relevo a característica de peregrinação ou de dinamismo da historia que caminha para a sua plenitude.

 

No século XVI os reformadores protestantes acentuaram a noção de Povo de Deus num sentido anti-hierárquico e democratizante. A Teologia da Libertação contemporânea toma a mesma atitude: Cristo não terá fundado a Igreja; esta seria criação dos Apóstolos; por Isto poderia ser re-criada ou re-fundada. A Igreja estaria nascendo do povo numa eclesiogênese.

 

Ora deve-se dizer que a gênese ou a origem da Igreja, ao menos em seus elementos essenciais, procede do alto ou do Senhor Deus; a estrutura da Igreja, seus ministérios, seus sacramentos, seu Credo não são um fruto da genialidade e operosidade dos homens, mas são dons de Deus. Por conseguinte, a nenhum homem ou grupo de homens é lícito inventar alguma igreja ou re-inventar a Igreja fundada por Cristo e entregue ao pastoreio de Pedro e seus sucessores. Somente quem não tem clara noção do que é a Igreja, pode pensar em re-inventá-la, pois, na verdade, a Igreja é a realização progressiva do desígnio, de Deus, de unir a Si a humanidade e torná-la participante da bem-aventurança divina. A Igreja não nasce por autogênese, mas sim por teogênese.

 

Verdade é que a face humana da Igreja está sujeita à caducidade e, conseqüentemente, à necessidade de revisão e renovação periódicas. Tudo o que é humano, precisa de ser periodicamente reconsiderado e reformado.

 

2.3. Os Leigos e a igreja

 

A palavra leigo vem do grego laikós, vocábulo que se deriva de laós povo. Donde laikós (leigo) é o membro do laós ou do povo... do povo santo de Deus, pois, para significar o povo no sentido profano, a Escritura emprega as palavras tà éthne (as nações). Ver 2Cor 6, 16; 1 Pd 2, 9s; Hb 9, 19; 13, 12; Ap 21, 3... (laós = povo de Deus) e Mt 6, 32; 12, 21; 25, 32; Ef 4, 17; 1Ts 4, 5 (tà éthne = as nações).

 

O sentido exato de "povo de Deus" e, conseqüentemente, de "leigo" (membro do laós, povo) deve ser depreendido de outros apelativos com que a Escritura designa a Igreja, entre os quais está o de Corpo de Cristo (Cl 1, 24). Exploremos este título.

 

1) O Senhor Jesus instituiu a sua Igreja como um Corpo, no qual há diversos membros e diversas funções ou ministérios:

 

"Vós sois o Corpo de Cristo e sois seus membros, cada um por sua parte"(1 Cor 12, 27).

"Ele concedeu a uns ser apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores e mestres, para aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo" (Ef 4, 11 s).

 

Donde se vê que, dentro da diversidade de funções existente na Igreja, o ministério do presbítero e o do Bispo têm significado próprio, que não pode ser reduzido ao do serviço de outros fiéis.

 

2) É de notar que a Igreja não deve ser concebida como uma "sociedade democrática", na qual o poder compete ao povo e é por este delegado aos seus representantes. Tal foi, sem dúvida, a tendência dos reformadores protestantes do século XVI. - A fé católica ensina que a Igreja é sacramento... "sacramento da unidade dos homens entre si e com Deus" (cf. Lúmen Gentium n° 1). Ora sacramento é um sinal sensível que significa e comunica a graça de Deus.

 

Neste sentido a Teologia professa que a santíssima humanidade de Cristo é o sacramento primordial, pois em Cristo-homem estava depositada a vida do próprio Deus, que transparecia e se comunicava através das palavras e dos gestos do Senhor Jesus.

 

Em segunda instância, a Igreja é Sacramento, ou seja, uma realidade sensível, de face humana, que é portadora e comunicadora da graça divina. Por ela passa a vida que vem do Pai, se derrama na humanidade de Cristo e se destina finalmente a cada um dos homens mediante ulteriores sacramentos que são o Batismo, a Crisma, a Eucaristia, a Reconciliação, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio.

 

É tal fluxo da vida divina procedente do Pai para atingir cada cristão que o esquema ilustra a seguir (p. 252 da revista). Nele se vê a ordem sacramental, ou seja, a grande realidade sacramental que compreende a humanidade de Cristo, o Corpo de Cristo prolongado que é a Igreja, e os sete ritos ditos "sacramentos" em sentido mais estrito.

 

Pai, Vida Divina -> Jesus Cristo -> (ordem sacramental) -> Igreja Orante -> Batismo + Crisma + Reconciliação + EUCARISTIA + União dos enfermos + Matrimônio

 

Se, pois, a Igreja é um sacramento, verifica-se que as funções e os ministérios não têm sua fonte nos homens ou no "povo de Deus", mas no próprio Deus. As três pessoas da SS. Trindade, querendo doar-se aos homens, seguem a lei da "encarnação", isto é, vão utilizando elementos sensíveis e humanos para chegar a todos os homens. É por isto que não se pode equiparar a Igreja a uma democracia; nem é lícito tender a transformar a Igreja em tal forma de convívio humano, pois isto equivaleria a destruir a Igreja ou a fazer dela um aglomerado de pessoas bem intencionadas... e mais nada.

 

3. Conclusão

 

O novo modelo de Igreja atrás apregoado equivale à destruição da Igreja, reduzindo-a a um aglomerado de pessoas que lutam pela justiça; fica na penumbra o aspecto religioso, que o Novo Testamento coloca em primeiro lugar.

 

Leigos e clérigos são iguais entre si, mas são chamados a funções diversas. O que engrandece alguém perante Deus, não é a função que essa pessoa desempenha, mas a santidade ou o amor a Deus e ao próximo. Um leigo pode ser mais benemérito do que um clérigo, caso cultive mais zelosamente os valores espirituais.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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