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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 532 – outubro 2006

Quem és tu?

 

ALMA HUMANA = MATÉRIA QUE TOMOU CONSCIÊNCIA DE SI?

 

Em síntese: A antropologia de autores modernos nega a distinção de corpo e alma humana, de modo que, quando alguém morre, morre todo e, para que não haja hiato na existência desse alguém, professa a ressurreição logo após a morte. - Ora tal teoria é contraditada tanto pela filosofia quanto pela fé; esta afirma a ressurreição no fim dos tempos (1Cor 15, 23; 1Ts 4, 17; 2Cor 5, 1-5). A morte não é a extinção do ser humano, mas é a separação de corpo e alma; a alma, imortal por sua natureza, aguarda no além a re-união à matéria.

 

Está sempre em foco a questão antropológica: quantos elementos constituem o ser humano? - A resposta clássica propõe corpo material e alma espiritual como componentes de um todo unitário. Outra corrente admite corpo, alma e espírito, enquanto mais recentemente se diz que não há distinção entre corpo e alma. É a esta última sentença que dedicaremos as páginas subseqüentes.

 

1. O problema

 

Na "Revista de Espiritualidade Inaciana", junho de 2006, pp. 13s, o Pe. João Batista Libanio expõe a nova antropologia nos seguintes termos:

 

"Quadro da unidade radical indissociável entre corpo e alma

A mudança veio por influência das ciências naturais e da filosofia moderna. A concepção evolucionista e o avanço da microbiologia diminuíram o limiar entre matéria e espírito, entre corpo e alma, tanto no processo evolutivo quanto na realidade de cada ser. A unidade é pensada de tal modo que não se entende como se podem separar corpo e alma na morte, já que a alma é a matéria que tomou consciência de si e a matéria é a alma 'congelada'. Morre-se todo ou se volta ao nada ou Deus ressuscita imediatamente o todo".

 

Interessa-nos analisar mais atentamente tais noções de corpo e alma.

 

2. Alma humana: nova noção

 

A alma humana seria matéria que tomou consciência de si...

 

Imaginemos a matéria "rocha". Pode ela chegar a ter consciência de si pelo processo evolutivo? Está nas potencialidades da rocha "obter consciência de si mesma"? - Para responder, digamos o que é "ter consciência de si mesmo": é emergir acima de si mesmo e considerar-se como objeto do conhecimento; assim "escrevo e tomo consciência de que estou escrevendo". Essa tomada de consciência leva a refletir, raciocinar, progredir no saber... coisas que ultrapassam as potencialidades da matéria. Esta é sempre confinada ao "aqui e agora", incapaz de conceber noções universais, incapaz de falar algum idioma, incapaz de evoluir na sua "civilização". Na verdade, o pensar não é produto de reações físicas e químicas; caso o fosse, poder-se-ia um dia produzir matéria pensante em laboratório. As citadas operações supõem haver dentro da matéria um princípio vital capaz de transcender as dimensões do concreto "aqui e agora", ou seja, um princípio vital imaterial ou espiritual.

 

Destas ponderações se segue que o corpo humano só pode ser sujeito que reflete sobre si mesmo, se ele é penetrado por um princípio vital (alma intelectiva) que transcende o singular e concreto objeto dos sentidos (visão, audição, tato...).

 

3. Corpo humano = alma "congelada"

 

"Alma congelada" é expressão metafórica. Que significa essa locução? Parece ser um conjunto de palavras que não se podem concretizar.

 

As ciências empíricas têm evoluído mostrando que a matéria, densa como é, consta, em última análise, de partículas atômicas e subatômicas, que guardam certa distância (mínima) entre si. Tal estrutura não deixa de ser material. A ciência, por mais avançada que seja, não atinge a noção de espírito, de modo que não se pode dizer que a ciência moderna aproximou entre si matéria e espírito ou diminui a distância entre um e outro desses elementos. A distinção entre matéria e espírito é tema de filosofia e não pode ser anulada pelo progresso das ciências empíricas, que não chegam à noção de espírito.

 

4. Dualismo, dualidade e monismo

 

Os autores modernos repudiam o dualismo de corpo e alma como se a matéria corpórea fosse um ente mau e o espírito uma criatura boa por si mesma. Tais pensadores têm razão; não há ser algum que seja mau por sua própria índole; tal teoria seria o maniqueísmo. Todavia, para fugir do dualismo, não é necessário professar o monismo, que identifica entre si corpo e alma, matéria e espírito. Entre dualismo e monismo, existe a dualidade, que admite dois princípios distintos um do outro, não porém antagônicos (como no dualismo) e sim complementares. Assim, por exemplo, entre homem e mulher não existe dualismo (oposição) nem monismo (o homem não é idêntico à mulher), mas dualidade (complementaridade). Desta maneira corpo e alma estão em dualidade, não em dualismo nem em monismo.

 

Até aqui falou a filosofia. Vejamos o que propõe a Teologia.

 

5. A Teologia que diz?

 

5.1. A mensagem bíblica

 

A Escritura é muito enfática ao afirmar a distinção de corpo e alma e a ressurreição no fim dos tempos:

Mt 10, 28: "Não temais aqueles que podem matar o corpo, mas não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode acabar com corpo e alma no fogo".

Jo 6, 39: "Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que Ele me confiou, mas os ressuscite no último dia".

Jo 6, 44: "Ninguém pode vir a mim se o Pai... não o atrair, e eu o ressuscitarei no último dia". Ver Jo 6, 54.

1Cor 15, 22s: "Visto que todos morrem em Adão, todos recuperarão a vida por Cristo. Cada qual por sua vez: o primeiro é Cristo; depois, quando Ele voltar, aqueles que pertencem a Cristo".

1Ts 4, 16: "Quando o Senhor... descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão".

 

5.2. Aprofundamento teológico

 

A Teologia é a fé que procura compreender. Por conseguinte o teólogo é um homem de fé. A fé é a adesão à Palavra de Deus comunicada por seus órgãos oficiais, ou seja, pela Escritura e a Tradição oral que a Igreja exprime de maneira autêntica por seu magistério assistido pelo Espírito Santo. Ora o magistério da Igreja formulou os dados da Revelação Divina referente à Escatologia nos seguintes termos:

 

1. A Igreja crê na ressurreição dos mortos.

2. A Igreja entende que esta ressurreição se refere ao homem todo; para os eleitos, ela não é senão a extensão aos homens da própria Ressurreição de Cristo.

3. A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência [continuationem et subsistentíam], depois da morte, do elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que subsista [subsistaf] o "eu humano", ainda que temporariamente privado do complemento do próprio corpo. Para designar este elemento, a Igreja usa o termo "alma" [anima], consagrado pela Sagrada Escritura e pela Tradição. Embora não ignore que na Sagrada Escritura este termo tome significados diversos, julga, no entanto, que não há motivos válidos para rejeitá-lo, e o considera, além disso, um instrumento verbal absolutamente necessário para sustentar a Fé dos cristãos.

4. A Igreja exclui toda forma de pensamento ou de expressão que torne absurda, ou incompreensível à inteligência, sua oração, os ritos fúnebres, o culto dos mortos: todas estas coisas que, quanto à sua substância, constituem lugares teológicos.

5. A Igreja, segundo as Sagradas Escrituras, espera a manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6, 14; Tt 2, 13), que no entanto crê distinta e futura [dilatam] com relação à condição dos homens logo após a morte.

6. A Igreja, em seu ensinamento [in sua doctrína proponenda] sobre o destino do homem depois da morte, exclui toda explicação que esvazie o sentido da Assunção da Virgem Maria no que ela tem de singular; isto é, no sentido de que a glorificação corporal da Virgem antecipa aquela glorificação que é destinada a todos os outros eleitos.

7. A Igreja, aderindo fielmente ao Novo Testamento e à Tradição, crê na bem-aventurança dos justos, que um dia estarão com Cristo. Ela crê também que o pecador será punido com o castigo eterno [poena aeterna], ficando privado da visão de Deus, e ainda numa repercussão desta pena em todo o ser do próprio pecador. Quanto aos eleitos, a Igreja crê, além disso, que pode haver uma purificação prévia à visão de Deus, que no entanto é completamente distinta da pena dos condenados. É isto o que entende a Igreja quando fala do inferno e do purgatório.

(Carta Recentiores episcoporum da Congregação para a Doutrina da Fé 27.5.1979)

 

Como se vê, o texto afirma a existência da alma separada do corpo até o fim dos tempos, quando se dará a ressurreição da carne. A glorificação de Maria em corpo e alma antes do fim dos tempos é um caso singular: não se repete. Tal concepção não é objeto de uma definição ex cathedra, mas emana do magistério ordinário da Igreja, que merece o respeito dos fiéis e, de modo especial, dos teólogos. Não se lhe devem opor objeções em nome da razão, pois nenhum absurdo ou nada de irracional aí se encontra.

 

A propósito ainda se deve observar: a dualidade de corpo e alma exclui a trilogia "corpo, alma e espírito", pois a alma humana é espírito. Não há no ser humano outro espírito (criado) além da sua alma espiritual.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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