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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 504 - junho 2004

Em sala de aula:

 

CONHECEMOS REALMENTE A VERDADE?

 

Em síntese: O ceticismo alega que não conhecemos a verdade. Cai, porém, em contradição, pois afirma ser verdade que não conhecemos a verdade. A rigor, o cético não pode afirmar nem mesmo o seu ceticismo. - O intelecto humano só tem razão de ser se é capaz de apreender a verdade; corrigindo seus erros, chega progressivamente ao conhecimento da verdade.

 

Via internet PR recebeu a seguinte mensagem, que transcrevemos e brevemente comentaremos:

 

PROFESSOR X ALUNO ATENTO

 

Em uma das inúmeras salas de aula do CEUB, entrou, apressadamente e com ar de quem traz uma grande novidade, o professor (chamemo-lo de) Silvério.

 

Sentou-se em sua prestigiosa cadeira (não muito diferente das nossas) e começou sua aula. No meio das leis e normas, dos princípios e lacunas (que permeiam a carreira jurídica), lançou a criativa e inovadora frase que durante muito tempo ele esperava a ocasião propícia de expor: "A verdade não existe, ela é relativa".

 

Seus olhos refletiam aquela sabedoria própria aos grandes mestres. Nem Aristóteles, no auge de seus conhecimentos filosóficos, teria pronunciado sentença mais justa e erudita! Era verdadeiramente um homem que se fazia respeitar por sua capacidade intelectual...

 

Entretanto, um de seus alunos se levanta e toma a palavra:

 

- Permita-me discordar, professor! Seu pensamento é contraditório!

 

O professor, surpreso de que alguém duvidasse de seus talentos filosóficos, retrucou:

 

- Errado? Ora, você não percebe que tudo é relativo? O que é verdadeiro para mim não precisa de ser verdadeiro para você. Cada um tem a sua verdade! Por exemplo: houve épocas em que se pensava que o Sol girava em torno da Terra. Para aqueles homens, a verdade era essa! Se a verdade não mudasse, até hoje nós estaríamos com o mesmo pensamento. O que prova que não existe uma verdade absoluta, imutável, fixa e estagnada. Ela varia de acordo com a História e a Geografia!

 

Enquanto falava, seus modos demonstravam o gosto da discussão que imaginava vencida. Afinal, os argumentos pareciam bem difíceis de ser respondidos.

 

- Mas, professor, o Sol girava em torno da Terra naquela época? O fato de alguém pensar diferente da realidade não altera a realidade! A verdade não mudou, apenas foi descoberta posteriormente. E, depois, sua frase é contraditória em si mesma!

 

O aluno, então, foi até o quadro e escreveu: "A Verdade é Relativa" e perguntou com tranqüilidade:

 

- Professor, essa frase: "A Verdade é Relativa" é verdadeira ou falsa?

 

O professor não teve saída. Se respondesse que era verdadeira, reconheceria ele que a verdade existe. Se respondesse que era falsa, reconheceria que é falso seu argumento e que, portanto, a verdade existe.

 

Não se deixando dobrar, retomou a sua aula e continuou falando das lacunas do Direito. Ao que parece, esse tema, ele não o achava relativo...

 

COMENTANDO...

 

1. O Ceticismo

 

O ceticismo é contraditório e praticamente impossível. Com efeito, ao afirmar que nada podemos conhecer, o cético conhece e afirma a sua posição; ele sabe com certeza que ela é verídica. Ao dizer que nada conhecemos, ele admite o princípio de contradição (distingue entre conhecer e não conhecer, entre certo e incerto) e cai em contradição consigo mesmo ([1]).

 

Toca ao cético provar a sua tese: nada podemos conhecer; se ele a afirma gratuitamente, podemos também negá-la gratuitamente. Mas, para provar a tese, o cético deve partir de princípios seguros - o que não lhe é possível, pois implicaria contradição.

 

Praticamente falando, o cético não deveria falar, pois falar supõe sempre a distinção nítida e certa entre o Sim e o Não. Aristóteles diz acertadamente que o ceticismo reduz o homem à categoria de vegetal (hómolos phytool).

 

É de notar ainda que com um cético não se pode discutir, nem mesmo para evidenciar-lhe o seu erro, pois todo debate parte de algum princípio aceito pelos dois contendentes. O que se pode fazer, é mostrar ao "cético" que de fato ele não é cético e que se engana, ao dizer que de nada tem certeza.

 

Na verdade, parece que o número de céticos (no sentido pleno da palavra) é assaz reduzido em nossos dias. A existência e o êxito da ciência e da tecnologia contemporânea parecem constituir a mais eloqüente refutação do ceticismo.

 

2. O Intelecto Humano

 

Podemos afirmar que a inteligência é capaz de conhecer a verdade. Isto não se pode propriamente demonstrar, porque seria petição de princípio. Com efeito; demonstrar é partir de conhecimentos tidos como certos para chegar a novo conhecimento ainda ignorado; ora o possuir conhecimentos certos supõe que a inteligência seja apta a isso; por conseguinte, uma demonstração da aptidão da inteligência já suporia esta aptidão - o que é petição de princípio.

 

Mas nem é necessário demonstrar a aptidão da nossa inteligência, porque ela é imediatamente conhecida com certeza legítima, embora só implicitamente, como condição necessária para qualquer conhecimento.

 

Portanto, basta tornar explícito o conhecimento de tal aptidão, já contido em qualquer certeza legítima.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Santo Agostinho acrescenta: negar a veracidade do intelecto é, ao mesmo tempo, afirmar a existência do sujeito que nega:

"Que aconteceria, se eu me enganasse? Se eu me engano, existo. Pois quem não existe, é claro que nem se pode enganar; donde, se me engano, por isto mesmo existo. Porque existo se me engano, como é possível enganar-me acerca da minha existência, uma vez que é certo que existo, mesmo se me engano? Logo, uma vez que eu existiria mesmo se me enganasse, sem dúvida nenhuma, no afirmar a minha existência, não me engano" (Da Cidade de Deus XI26).


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