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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 491 – maio 2003

Discute-se:

 

QUEM ESCREVEU A 2a CARTA AOS TESSALONICENSES?

 

Em síntese: No século XIX foi freqüente a recusa da autoria paulina de 2Ts. As razões para tal são fracas. Eis por que em nossos dias há quase unanimidade em prol da origem paulina dessa carta.

 

A Redação de PR recebeu a seguinte mensagem:

 

"Adquiri recentemente uma coleção intitulada 'COMENTÁRIO BÍBLICO', em três volumes, de Dianne Bergant, CSA e Robert J. Karris, OFM, originalmente 'The Collegeville Bible Commentary', edição brasileira Loyola.

No trabalho em referência, os autores dizem que a Segunda Carta aos Tessalonicenses foi escrita por outro autor que não São Paulo, o que me deixou desorientado, pois costumo fazer leitura dos textos sagrados consultando vários livros. Gostaria de que em número próximo da revista Pergunte e Responderemos fosse incluída a resposta".

 

Eis a resposta:

 

1. Autoria e Canonicidade

 

A atribuição de determinado livro sagrado a tal ou tal autor não é de fé, de modo que pode ser discutida com argumentos racionais, contanto que não se negue a canonicidade do livro; este continua sendo Palavra de Deus e, como tal, merecedor de toda estima. Foi o que se deu com a epístola aos Hebreus, outrora tida como paulina, mas hoje não mais considerada tal.

 

Deve-se ponderar, em cada caso, a força dos argumentos da tradição como também a do estilo e vocabulário do respectivo livro.

 

2. E a 2a aos Tessalonicenses?

 

A 2a aos Tessalonicenses, bem como a primeira, trata da segunda vinda de Cristo, que os fiéis em Tessalônica julgavam iminente. Daí resultavam dois males:

 

1)  muitos se afligiam porque já haviam falecido familiares seus: ficariam excluídos do Reino de Cristo quando este voltasse? Só seriam levados pelo Senhor Jesus os que estivessem vivos na última hora?

 

2)  Na expectativa da iminente vinda de Cristo, muitos não trabalhavam, em conseqüência não ganhavam dinheiro e, como nada tivessem, roubavam nas horas de comer. Outros, em sua ociosidade, caíam no pecado da luxúria.

 

A tal comunidade São Paulo escreveu a primeira carta. Conseguiu elucidar a primeira questão, afirmando igualdade de condições para vivos e mortos no Reino de Cristo. Mas não conseguiu convencer os fiéis de que era incerta a data da segunda vinda do Senhor; não poucos insistiam em dizer que não tardaria, com as nefastas conseqüências que daí resultavam. Foi precisamente esta atitude renitente de fiéis tessalonicenses que provocou a segunda carta. Esta propõe sinais precursores da segunda vinda; enquanto não ocorressem, todos os cristãos poderiam ficar tranqüilos.

 

Ora esta segunda carta sempre foi tida como paulina, pois é um nítido complemento de 1Ts; o mesmo autor parece ter tratado da mesma temática. Todavia em 1798 Chr. Schmidt deu origem à crítica negativa que contesta a autoridade paulina; tal posição foi amplamente aceita no século XIX, mas atualmente está em declínio, vista a inconsistência de seus argumentos. Vejamos quais são.

 

3. O debate

 

São três as razões aduzidas contra a autora paulina.

 

1) As semelhanças literárias da segunda carta com a primeira levam o suspeitar de plágio ou de falsificação.

 

Em resposta, afirma-se: as semelhanças literárias são suscitadas pela identidade da temática, nem poderiam deixar de ocorrer. Aliás a carta reflete bem o estilo paulino, com suas secções nem sempre concatenadas conforme a lógica; tenha-se em vista 2Ts 2, 3-10 semelhante a Rm 5, 12-17, por seu estilo pesado.

 

2) Invoca-se a diferença de tom existente entre a primeira e a segunda cartas. Na primeira Paulo usa de linguagem muito paternal, lembrando à comunidade como se comportou ao fundar a comunidade de Tessalônica, hostilizado pelos judeus. Ao contrário, o autor da segunda carta é mais sóbrio. Ora a diversidade de tom exige diversidade de autor.

 

Em resposta observa-se que o mesmo Paulo pode ter-se expressado em tons diferentes: na primeira carta era-lhe necessário defender-se contra calúnias dos adversários e fortalecer seu bom relacionamento com a comunidade tessalonicense; esta tarefa marca os três primeiros capítulos de 1Ts. Não havia por que a repetir em 2Ts. Esta carta é um complemento do capítulo 4 de 1Ts visando a acalmar os cristãos angustiados pelas falsas profecias que corriam pela comunidade. Mesmo ao realizar tal tarefa, o autor não deixa de se referir a seu convívio amigo com os tessalonicenses por ocasião da fundação da comunidade; cf. 2Ts 2, 5 e 1Ts 2, 1-12. Aliás toda a secção de 2Ts 2, 1-12 só pode ser entendida a luz da pregação oral ocorrida anteriormente em Tessalônica.

 

3) O argumento tido como mais forte fundamenta-se em 2Ts 2, 1-12, secção em que o autor propõe sinais precursores da segunda vinda de Cristo. Ora dizem, este procedimento não é paulino.

 

Em resposta considere-se que o argumento está construído sobre uma petição de princípio segundo a qual S. Paulo não poderia ou não quereria indicar sinais precursores. Pergunta-se: por que não? Ele só não o fez em outras cartas porque a temática não vinha ao caso tão premente como em 1/2Ts. O próprio Jesus indicou sinais precursores em Mt 24.

 

Em conclusão verifica-se que os argumentos contrários a autoria paulina de 2Ts não têm grande valor demonstrativo. Como quer que seja, se alguém deseja reconhecê-los como persuasivos, não está lesando alguma verdade de fé.

 

Eis como se resolve, sem dificuldade, a questão levantada por nosso missivista.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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