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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 387 - agosto 1994

O Impacto sobre as Crianças:

 

VIOLÊNCIA NA TELEVISÃO

 

Em síntese: Mais uma vez os estudiosos trazem ao conhecimento do grande público a poderosa influência exercida pelos espetáculos de violência na televisão. Especialmente as crianças são vulneráveis, como registram experiências diversas. Verifica-se outrossim que, nos países industrializados, a televisão é o segundo eletrodoméstico mais adquirido pelas famílias, ficando apenas atrás da geladeira. Observa-se igualmente que, quanto mais certos países são dotados de televisores, mais aí cresce a onda de homicídios; tal é o caso averiguado nos Estados Unidos, no Canadá, na África do Sul. Recomenda-se aos pais o acompanhamento dos filhos; saibam vigiar sobre o que vêem, e comentem com eles o que deixa margem para mal-entendidos,... ou o que pode fascinar pela retórica da informação, da imagem e pela pujança das técnicas aplicadas. Assim despertarão nos mais Jovens um senso crítico sadio, que os preparará para os embates da vida.

 

Freqüentemente lêem-se reportagens e estudos que comentam a influência da televisão sobre os seus espectadores. A televisão torna-se uma escola de costumes poderosa, ... tanto mais poderosa quanto menos declarada ou quanto mais espontaneamente procurada. Já temos abordado o assunto em PR; ver 383/1994, pp. 176-192. Retomamo-lo, levando em conta especialmente a influência da televisão sobre as crianças, na base de um artigo publicado em Science et Vie, n? 917, fevereiro 1994, pp. 34-43.

 

 

1. O PROBLEMA

 

Nos últimos anos têm-se registrado bárbaros crimes cometidos por crianças e adolescentes em escala totalmente inédita e imprevista. Assim, por exemplo, em Liverpool (Inglaterra), fevereiro 1993, dois meninos, de dez e onze anos respectivamente, seqüestraram e mataram uma criança de dois anos de idade. Em Vitoy-sur-Seine (França), outubro 1993, três estudantes, da faixa de nove-dez anos de idade, são apontados como participantes do linchamento mortal de um homem que não tinha domicílio fixo. Em Newcastle, dezembro 1993, na Inglaterra dois pequenos de seis e onze anos respectivamente foram responsabilizados por torturas infligidas a uma criança de seis anos de idade. Na mesma época, em Saarbrück (Alemanha), três estudantes alemães tentaram enforcar um colega de estudos dentro do recinto da sua escola.

 

O horror que esses delitos juvenis suscita, tem levado os estudiosos a procurar as causas respectivas: chegaram à conclusão de que a televisão, exibindo cenas violentas, é, em grande parte, responsável pelo surto de criminalidade infantil. Nos Estados Unidos, cuja televisão é tida como uma das mais agressivas do mundo, a Academia Americana de Pediatria e a Associação dos Psicólogos Americanos declararam publicamente que a violência na televisão gera a agressividade das crianças. Com efeito; entre 1981 e 1990 o aumento de detenções de menores chegou a 60%, ao passo que foi de 5% entre os que tinham mais de dezoito anos. Na Califórnia 10% dos homicídios eram cometidos por adolescentes; em 1992 esta quota aumentou para 19%. Isto foi tão significativo que os legisladores da Califórnia e de nove outros Estados estão pensando em baixar de dezesseis para quatorze anos a idade mínima após a qual o delinqüente é julgado não por um tribunal para menores, mas por um tribunal comum destinado a adultos.

 

Na França os delitos cometidos por menores abaixo dos treze anos passaram de 36.000 em 1980 para 48.000 em 1987; são, aliás, delitos mais agressivos, violentos e complexos do que os de épocas anteriores.

 

Diante de tais resultados os responsáveis pelos espetáculos televisivos apelam para a liberdade de expressão; observa-se que os movem interesses financeiros.

 

Entremos mais a fundo no problema.

 

 

2. A PSICOLOGIA DA CRIANÇA E A DO ADULTO

 

As crianças têm prazer em contemplar a tela. As estatísticas mostram que, em certos países ou regiões, passam tanto tempo diante do televisor quanto na escola. O sucesso da televisão se explica pela índole atraente da imagem; esta exerce um fascínio muito mais poderoso que a palavra lida ou ouvida. O telespectador encontra-se geralmente num estado de receptividade muito especial, da qual ele não tem consciência. Principalmente os mais jovens telespectadores são impressionáveis. Vários estudiosos se têm dedicado à atitude das crianças e dos adolescentes frente à televisão, destacando-se, entre outros, Wright e Huston com a sua obra Children and Formal Features (Meyer M. Ed., 1983): verificaram que um desenho animado ou uma imagem comercial de caráter tranqüilo, mas de colorido e som bem nítidos, estimulam comportamentos agressivos em crianças de escola maternal.

 

É claro, porém, que o conteúdo das imagens como tal provoca reações específicas não só das crianças, mas também dos adultos, como se comprovou em laboratório; os telespectadores participam emocionalmente das ações dos heróis apresentadas na tela. Sim; no eletroencefalograma de um espectador que vê um ator efetuar um movimento simples, as ondas alfa da região anterior do gráfico seguem o ritmo do movimento realizado pelo ator. Este incita o espectador a executar o mesmo movimento. Experiências de laboratório permitiram avaliar outras reações do telespectador: o eletroencefalograma e o oculograma de uma pessoa bruscamente impressionada pela luz forte de uma lâmpada assumem um traçado que revela desagrado. Se a uma pessoa se mostra uma cena de semblante sofredor violentado, os traçados respectivos mostram que o telespectador experimenta um desagrado semelhante àquele que o ator apresenta.

 

Desde tenra idade, a criança é capaz de perceber o sentido das imagens e de ser influenciada por elas. É o que averiguou o Prof. Andrew Mett-zoff, da Universidade de Washington em 1988; queria saber se os bebês eram capazes de compreender o conteúdo de uma seqüência televisada de modo a assimilá-lo no seu comportamento. Para tanto, colocou quarenta crianças de um ano diante de uma tela na qual um adulto manipulava um brinquedo, realizando alguns gestos muito precisos. Depois, dividiu o grupo em dois, de vinte crianças cada qual; entregou o brinquedo em foco a um dos grupos logo depois da exibição da imagem na televisão; a outra metade das crianças recebeu o brinquedo 24 horas mais tarde, sem ter visto de novo as imagens nesse intervalo. Ora verificou que os dois grupos reproduziram os gestos do modelo televisivo em proporção muito mais elevada do que outras crianças que não haviam assistido à exibição da imagem na televisão.

 

Colocada diante dessa caixa de imagens, que poderia ser comparada a uma ama-seca e que as influencia desde a mais tenra idade, as crianças — pequenas ou grandes — não têm escolha. Elas se adaptam à escolha de seus pais ou absorvem os programas destinados a estes. Com razão descreve o sociólogo Dominique Wolton: "Se há um público que não tem autonomia e não pode tomar distância, é o das crianças, que, mais do que outros espectadores, olham para tudo o que lhes é proposto". A sua fragilidade emocional torna-os telespectadores muito vulneráveis.

 

Facilmente entram em estado de dependência do televisor. A própria família parece contribuir para isto, pois é de notar que, nos países industrializados, o televisor é o segundo eletrodoméstico mais adquirido pelos casais, ficando apenas atrás da geladeira ou do frigorífico. Assim a televisão vai sendo integrada no ritmo de vida da família e suscita hábitos tenazes, especialmente entre adolescentes e jovens. E com a televisão é inevitavelmente introduzida a exibição da violência, que ocorre através de todos os canais, da manhã à noite, mesmo nos programas montados para crianças.

 

Eis ainda outro teste efetuado por psicólogos para avaliar o impacto da televisão: resolveram medir a transpiração cutânea ou da pele das crianças. Para tanto, apresentaram a crianças de quatro ou cinco anos de idade vários segmentos de filmes e desenhos animados neutros ou violentos. As crianças experimentaram reações mais fortes diante dos trechos de violência que envolviam pessoas; mostraram-se também mais sensíveis aos acontecimentos violentos apresentados como fatos reais históricos do que a cenas tidas como fictícias e imaginadas. A violência real impressionou mais do que a fantasiosa.

 

Ora o que os produtores de programas procuram, é precisamente o impacto, a sensação de um público impressionável. A propósito cita-se o caso, que causou enorme impacto, de um acidente de aviação ocorrido no cabo Skirring (Senegal, África) em fevereiro de 1992: o enviado do telejornal da noite de France 2 (canal de televisão) tentou insistentemente entrevistar as vítimas gravemente feridas.

 

A exibição, quase complacente, da violência pode provocar a banalização desta. Os telespectadores de qualquer idade tendem a insensibilizar-se ao espetáculo como se a agressividade fosse uma componente normal da vida cotidiana, componente que acaba sendo legitimada. Em conseqüência, verifica-se estranho fenômeno: quanto mais um país é dotado de televisores, tanto maior é o número de homicídios aí ocorrentes; com efeito, nos Estados Unidos e no Canadá, o número de morticínios aumentou 93% entre 1950 (ano em que a tevê aí foi introduzida) e 1970. Na África do sul, a televisão foi autorizada em 1975; doze anos mais tarde, a quota de homicídios aumentou 130% (dados resultantes de um pesquisa do Prof. Brandon Centerwall), da Universidade de Washington.

 

Mais: a psicóloga Liliane Lurçat chegou à conclusão de que a televisão perturba o, desenvolvimento da imaginação da criança. Com efeito; uma criança que" brinca, recorre às suas próprias imagens mentais; mas, quando as suas brincadeiras e jogos são orientados por programas de televisão, a criança já não é autora das suas idéias; ela interpreta ou reproduz o pensamento alheio. Além disto, há programas ditos reality shows, que mesclam fatos históricos e tentativa de reconstituir a história completa; neles tornam-se muito vagos os limites entre o imaginário e o real; a criança corre então o risco de evoluir para um mundo irracional; a televisão gera a confusão entre ficção e realidade, precisamente na idade em que se faria a distinção entre uma e outra. Muitas crianças, em conseqüência, vivem num mundo fictício, inventando estórias, nas quais a morte pode ser mero incidente como qualquer outro.

 

 

3. CONCLUSÃO

 

É certo que a televisão não é única responsável pela onda crescente de crimes na sociedade contemporânea. Levem-se em conta outros fatores: o álcool, a droga, problemas de família, doenças psíquicas...

 

Também é certo que os efeitos da televisão não são os mesmos em todos os telespectadores: a sensibilidade, o desenvolvimento afetivo, o grau de amadurecimento, o acompanhamento da família têm seu peso na avaliação dos resultados da tevê.

 

Como quer que seja, toca aos genitores exercer vigilância sobre os programas a que assistem seus filhos, e comentar o respectivo conteúdo com as crianças. A conversa sobre o que foi apresentado, se é bem dirigida, pode desmitizar as imagens nocivas da telinha; eduquem os pais, em seus filhos, a capacidade de análise dos documentários, o senso crítico, que questiona a retórica da imagem e as técnicas utilizadas... Esta solicitude dos pais, quando devidamente praticada, tem sido benéfica; quando, porém, falta, deixa séria lacuna, que favorece perturbações emocionais das crianças.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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