PERGUNTE E RESPONDEREMOS 400 - setembro 1995

Não pode comungar?

 

"DECEPÇÃO"

 

Em síntese: A imprensa publicou uma carta de leitora decepcionada porque, no dia das Mães, a sua prima quisera confessar-se e comungar, mas lhe fora recusada a absolvição sacramental por estar separada do marido. A missivista apresenta longa queixa ao público - o que exige esclarecimentos.

 

Uma pessoa que se casou validamente na Igreja Católica e consumou carnalmente o seu casamento, mas teve que se separar do(a) consorte, pode receber os sacramentos desde que não contraia nova união. É, aliás, muito edificante o caso de pessoas que, infelizes em sua vida conjugal, tiveram que se separar do(a) consorte, mais vivem castamente.

 

Pode acontecer, porém, que o sacerdote se engane em algum caso do seu ministério pastoral (o cansaço pode explicá-lo). Pode igualmente acontecer que histórias inadequadamente contadas a respeito do que o confessor diz e faz, causem decepção e alarde indevidos. É oportuno não julgar o sacerdote que não tem como se defender, se, para se justificar, teria que violar o sigilo da confissão sacramental (o que é pecado gravíssimo, ao qual está anexa a excomunhão). Ulteriores esclarecimentos serão propostos no decorrer do artigo que se segue.

 

O JORNAL DO BRASIL, edição de 17/5/1995, p. 8, publicou impressionante carta de leitora, que vai abaixo transcrita para poder ser devidamente comentada.

 

 

1. A CARTA

 

"Decepção

 

Qual não foi minha surpresa no domingo, Dia das Mães, ao ver minha prima voltar, junto com a filha, da Igreja Santa Cecília em Brás de Pina, com a decepção estampada em seu rosto e se sentindo a mais desprezível de todos os seres humanos.
Tudo começou quando ela decidiu se confessar, pois sua intenção era poder comungar nesse dia tão especial. Só que no confessionário ela ficou sabendo pelo padre que mulheres separadas não podem comungar.

 

Começo aqui meus questionamentos:

 

Este é o Cristo que a Igreja prega, cheio de amor e misericórdia?

 

Será que Cristo negaria a esta mulher o direito à comunhão, pelo fato dela ter sido abandonada pelo marido e, conseqüentemente, ser hoje uma mulher separada?

 

Será que a um presidiário que já assassinou várias pessoas, também seria negado o direito da comunhão?...

 

Me pergunto também como pode existir na Bíblia uma passagem onde Cristo defende uma mulher adúltera e, na vida real, a comunhão é negada a uma mulher pelo fato dela ser separada?

 

Gostaria de saber também se ao morrer minha prima terá o direito à extrema-unção, ou isto também lhe será negado?

 

Será que para a Igreja Católica o que vale são as falsas aparências, e não o que as pessoas possuem realmente em valores humanos? Uma mulher que batalha sozinha para sustentar a mãe (que tem como pensão um mísero salário mínimo) e uma filha adolescente, será que à mulher só resta se sentir indigna o suficiente para não ser bem vista no meio religioso?

 

Fica registrada minha profunda revolta contra essas normas religiosas que não contribuem em nada para que um ser humano se sinta realmente filho de Deus

 Marilene Moreira Macedo - Rio de Janeiro".

 

 

2. COMENTANDO...

 

Na verdade, não se pode dizer que uma pessoa separada do marido e levando vida a sós com sua filha está excluída dos sacramentos, se tal pessoa não contrai nova união e está guardando fidelidade ao vínculo conjugal. A Lei de Deus não exige que os esposos continuem a levar vida sob o mesmo teto, se não se entendem entre si ou se sentem martirizados pela convivência a dois. É mesmo muito edificante ver que pessoas infelizes em seu matrimônio e, por isto, impossibilitadas de vivenciá-lo, se mantêm fiéis ao seu compromisso conjugal; a sua presença na igreja, com frequentação dos sacramentos, é testemunho eloqüente e muito edificante, de mais a mais que não são muitos tais casos.

 

Na base destas premissas, ousamos levantar duas hipóteses para explicar o caso apontado por Da. Marilene Moreira Macedo:

 

1) o sacerdote em foco se terá equivocado; terá confundido o caso da penitente com o caso de quem contraiu nova união após o divórcio civil. Em tal hipótese, o padre, tendo-se enganado, só podia fazer o que fez, mostrando a incompatibilidade de tal gênero de vida com a frequentação dos sacramentos. Eis outra hipótese:

 

2) a penitente relatou que vivia a sós com sua filha após ter-se separado do marido (com o qual se supõe que estivesse legitimamente casada na Igreja). Mas - quem sabe? - terá acrescentado sinceramente que, fora do lar, tinha algum caso ou "romance" (esporádico ou habitual?). O padre lhe terá dito que, para receber os sacramentos, ela devia pôr fim a tal romance, mas a penitente terá julgado que não o podia fazer ou ter-se-á recusado a acabar com a situação ilegítima. Nesse caso, o padre estava realmente obrigado a não concedera absolvição sacramental; é de crer que tenha estimulado a penitente a repensar a sua vida e pôr termo ao desvio.

 

Ao voltará casa, a penitente terá contado à sua prima, Da. Marilene, que o padre lhe tinha recusado a absolvição, mas terá omitido dizer que isto se devia não propriamente ao fato de ser separada e viver a sós com sua filha,mas ao fato de ter um romance fora de casa.

 

Note-se ainda: se esta segunda hipótese se verificou, o sacerdote, mal visto pela penitente, pela missivista e pelo público leitor do JORNAL DO BRASIL, não pode fornecer os esclarecimentos cabíveis, por não lhe ser lícito fazer uso do segredo que lhe é confiado em confissão. O sacerdote tem que tolerar corajosamente a interpretação errônea do seu comportamento sem poder dar explicação alguma que o justifique. Tal é o rigor do sigilo sacramental.

 

A propósito existem normas preciosas da Igreja que abordam o caso de pessoas separadas do(a) respectivo(a) consorte. São normas de cunho pastoral, que procuram ajudar e reconfortar os que sofrem, sem, porém, trair a Moral do Evangelho. Eis as que concernem ao caso abordado:

 

 

3. A PALAVRA DO PAPA

 

Na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, datada de 22/11/1981, o Santo Padre João Paulo II considera duas situações que a carta em foco propõe à memória.

 

"1) Separados e Divorciados sem segunda união

 

Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas, incapacidade de abertura a relações interpessoais etc. podem conduzir dolorosamente o matrimônio válido a uma fratura, muitas vezes irreparável. Obviamente a separação deve ser considerada remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis.

 

A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca; demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade mesmo na situação difícil em que se encontra; ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão próprio do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente à vida conjugal anterior.

 

Análogo é o caso do cônjuge que foi vítima de divórcio, mas que - conhecendo bem a indissolubilidade do vínculo matrimonial válido - não se deixa arrastar para uma nova união, empenhando-se, ao contrário, unicamente no cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade da vida cristã. Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade e de coerência cristã assume um valor particular de testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais necessária ainda, da parte desta, uma ação contínua de amor e de ajuda, sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos" (n° 83).

 

Merece relevo a observação final:"... sem algum obstáculo à admissão aos sacramentos". - Continua o texto da Familiaris Consortio:

 

"2) Divorciados que contraem nova união

 

... A Igreja instituída para conduzir à salvação todos os homens e sobretudo os batizados, não pode abandonar aqueles que -unidos já pelo vínculo matrimonial sacramental- procuraram passar a novas núpcias. Por isso, esforçar-se-á infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação...

 

Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvira Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança.

 

A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente àquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e realizada na Eucaristia. Há, além disto, outro peculiar motivo pastoral: caso se admitissem essas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio" (n° 84).

 

Neste citado texto chamam-nos a atenção dois pontos importantes:

 

1) A Igreja deseja que os cônjuges divorciados que contraíram nova união eduquem seus filhos na fé católica. Isto implica que procurem apresentar seus filhos ao Batismo; as crianças têm direito ao sacramento independentemente do tipo de vida levada pelos pais. O que interessa à Igreja, é a perspectiva de que o Batismo seja posteriormente desenvolvido e tornado consciente mediante a catequese ministrada à criança.

 

2) A Igreja, ao mesmo tempo que é Mãe e Mestra, procura ser fiel ao Evangelho, não aceitando situações que contrariem a indissolubilidade do matrimônio confirmada por Cristo no Evangelho (cf. Mt 5,32;19,9; Mc 10,11 s; Lc 16,18; 1 Cor 7,1 Os). A benevolência e a misericórdia não consistem em dizer Sim a todas as situações, mas em distinguir do errado o certo e procurar levar os homens a afastar-se do erro e abraçar o que é reto. Desde que conceba arrependimento e propósito sinceros (como há de ter sido o caso da pecadora adúltera em Jo 8,1-11), qualquer delinqüente pode receber a absolvição sacramental da parte de Deus mediante o sacramento da Reconciliação.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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