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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 380 – janeiro 1994

A experiência de dois jornalistas:

 

"BEBÊS PARA QUEIMAR"

 

por M. Litchfield e S. Kentish

 

Em síntese: Este artigo reproduz o conteúdo do livro "Bebês para Queimar" (Babies for Burning) dos jornalistas ingleses Michael Litchfield e Susan Kentish. Estes, munidos de gravador e dissimulando-se como se fossem casados ou namorados entre si, foram ter a diversas Clínicas e vários médicos, a fim de pedir aconselhamento, pois "suspeitavam estar Susan grávida". Puderam então perceber a trama existente a fim de orientar os clientes de tais casas para a prática do aborto: embora Susan não estivesse grávida, o laudo resultante do exame de urina era geralmente "Grávida"... Mais: puderam os jornalistas averiguar que mais de um médico vendia as crianças extraídas do seio materno a fábricas de sabonetes e cosméticos, visto que a gordura natural é a mais recomendada para a confecção de tais artigos'.

Certas Clínicas da Inglaterra tinham então agentes no estrangeiro, que faziam a publicidade comercial de suas "vantagens": aborto em fim de semana com todas as garantias e comodidades desejáveis'.

 

Aliás, também nos Estados Unidos da América e na Holanda Michael e Susan averiguaram procedimentos semelhantes aos da Inglaterra.

 

O livro é de grande valor, pois desperta o público para uma realidade que a imaginação e o bom senso dificilmente poderiam conceber. E ajuda a refletir sobre os inconvenientes da legalização do aborto no Brasil.

 

A prática do aborto, autorizada pelos governantes das nações a título de atendimento aos interesses das mulheres grávidas, pode-se tornar uma fonte de exploração da mulher e do seu filho. É o que atestam dois jornalistas ingleses, que relatam os resultados de suas pesquisas no livro "Bebês para Queimar. A Indústria do Aborto na Inglaterra" ([1]) (Edições Paulinas, 1977); verificaram que na Inglaterra existe "a indústria do aborto" como existe a da fabricação de sabonetes e cosméticos com a gordura das criancinhas abortadas.

 

Já em PR 213/1977, pp. 377-390 foi exposto o conteúdo de tal livro. Reproduzimos este artigo, visto que oferece oportunos dados de reflexão neste momento em que se propugna a legalização do aborto no Brasil.

 

 

1. A LEI DO ABORTO NA INGLATERRA

 

Em 1967 o Parlamento inglês aprovou a lei do aborto, que permite interromper a gravidez nos quatro casos abaixo:

1)  A continuação da gravidez comportaria risco de vida para a mulher grávida, risco maior do que se se interrompesse a gravidez.

2)  A continuação da gravidez comportaria risco de prejudicar a saúde física ou mental da mulher grávida, risco maior do que se se interrompesse a gravidez.

3)  A continuação da gravidez comportaria risco de prejudicar a saúde física ou mental dos filhos já existentes, risco maior do que se se interrompesse a gravidez.

4)  Existe um risco substancial de que a criança nasça com anomalias físicas ou mentais que a tornariam um excepcional.

 

Dois médicos devem decidir, de boa fé, se o aborto entra num dos casos previstos. Dois médicos devem assinar o formulário de consentimento do aborto, formulário oficial, de cor verde, subscrevendo que chegaram à decisão em boa fé e indicando as razões escolhidas para darem o seu consentimento.

 

A lei não limita o prazo dentro do qual seja legítimo o aborto, de modo que este pode ser legalmente praticado até mesmo no sétimo mês de gestação (e ainda depois deste, como têm mostrado os fatos recenseados pelo livro em foco).

 

Na primavera de 1974, uma comissão nomeada pelo Governo publicou os resultados de pesquisa realizada sobre a aplicação da lei do aborto, ... pesquisa que durou três anos. Esses resultados, registrados no relatório Lane (assim chamado porque a comissão era presidida pela juíza Dra. Lane), simplesmente coonestaram a prática vigente, apesar dos abusos que, aberta ou clandestinamente, se têm verificado no tocante à prática do aborto.

 

Ora, sequiosos de investigar a realidade oculta (como, aliás, é da boa praxe jornalística), Michael Litchfield e Susan Kentish se dispuseram a averiguar os fatos concernentes ao abortamento tanto em seu país natal como em outras regiões. Foi dessa "curiosidade" jornalística que resultou o livro em foco, o qual apareceu na Inglaterra no fim de 1974.

 

 

2. OS AUTORES DO LIVRO

 

Michael Litchfield nasceu em 1940; é casado e tem um filho. Como jornalista, trabalhou inicialmente no Daily Herald; depois, passou para a direção do Daily Mail e, mais tarde, como free lancer (jornalista autônomo), escreveu artigos para o Life Magazine dos Estados Unidos, para o Daily Telegraph e para o News of the World.

 

Susan Kentish nasceu em 1947; é divorciada e não tem filhos. Depois de trabalhar em vários jornais de província, passou a colaborar no Sun e no News of the World.

 

Ambos, há alguns anos, trabalham como jornalistas free lancers, jornalistas autônomos — o que significa que não estão subordinados à orientação de algum periódico ou de empresa. Ambos professam a fé cristã anglicana.

 

Começaram a abordar o problema do aborto por ocasião de uma pesquisa a respeito da adoção de filhos... Então certas afirmações de um médico lhes pareceram estranhas... Puseram-se a investigar também a prática do aborto. Munidos de gravador oculto dentro da pasta ou da bolsa respectiva, Michael e Susan foram ter a Clínicas e outras fontes de informações, dialogando com médicos, enfermeiras e outros profissionais... a respeito do aborto. Os resultados desse trabalho foram publicados primeiramente sob forma de artigos no semanário News of the World... Apesar da pressão exercida contra os autores, esses artigos foram reunidos no livro "Babies for burning". Este provocou contestação ou a acusação de falso testemunho... Na verdade, o procedimento dos jornalistas pode ser considerado desonesto; todavia ninguém conseguiu demonstrar que transmitiram inverdades; nem mesmo a pesquisa pormenorizada empreendida pelo Sunday Times contra o trabalho de Michael e Susan pôde desfazer a credibilidade essencial e intrínseca do livro em questão.

 

É de notar que a jornalista Susan, antes de iniciar a sua pesquisa, quis submeter-se a um teste de gravidez... Então um ginecologista famoso declarou, após minucioso exame, que "não estava, nem alguma vez estivera, grávida". Apesar disso, sempre que Susan se apresentou aos médicos que trabalhavam no mercado do aborto, submetendo-se, por exemplo, a exames de urina, teve o laudo "Grávida". "Todos os ginecologistas que consultamos em nossa pesquisa, estavam preparados para fazer um aborto em Susan, que nem sequer estava grávida: Bastava pagar em dinheiro, e adiantado" (p. 12).

 

Passamos agora ao conteúdo dos principais capítulos do livro.

 

 

3. TESTE DE GRAVIDEZ

 

No primeiro capítulo, Michael e Susan reproduzem os colóquios que tiveram com as atendentes ou enfermeiras de casas especializadas para o exame de gravidez em Londres.

 

Apresentavam-se como namorados, noivos ou como cônjuges que suspeitavam gravidez em Susan e pediam um aconselhamento. Os exames então realizados davam sempre o resultado "Grávida", de modo que o aborto era insinuado pelas enfermeiras como algo a ser praticado sem demora: bastava que os pretensos "pais" da criança mostrassem o desejo de não ter filhos (por razões de comodismo, viagem de passeio ou outras) para que os profissionais consultados lhes assegurassem a legalidade do aborto; o caso era enquadrado dentro de uma das quatro situações em que a lei permite o aborto...

 

Em certa ocasião, Michael e Susan foram ter ao consultório do Dr. Mook-Sang, médico que se interessava por praticar o aborto, porque vendia a pais adotivos as crianças que ele extraía do seio materno. Eis o depoimento dos repórteres:

 

"A legalização do aborto produziu na Inglaterra uma queda na oferta de recém-nascidos para adoção. Médicos inescrupulosos, agindo como intermediários em leilões de crianças, chegam até a ganhar mil libras ou mais por criança no mercado de adoção.

Médicos como Mook-Sang estão convencidos de que hoje em dia podem ganhar mais dinheiro vendendo crianças do que abortando-as. É uma questão de oferta e procura. Mas o Dr. Mook-Sang não é tão exigente, contanto que os seus negócios vão bem. A filosofia deste médico, suas ideologias, sua visão da vida, são capazes de deixar estupefatos os membros mais progressistas e liberais da sociedade.

... Mook-Sang fala com entusiasmo e paixão do 'pensamento progressista de Hitler'. Fala da nova moralidade, que é simplesmente pôr a sociedade de cabeça para baixo, chamando o moral de imoral e o imoral de moral...

Há na Inglaterra uma corrente de médicos aborteiros — uma pequena Máfia médica — que compartilham a ideologia superavançada e fascista de Mook-Sang.

 

Sabe-se que muitos deles têm em suas folhas de pagamento alguns funcionários do Governo. A sua finalidade, o seu empenho é não deixar escapar ninguém de suas garras. As jovens grávidas, amedrontadas, desesperadas, são a matéria-prima para a conquista da riqueza.

O aborto não trouxe a libertação para as mulheres. Possibilitou, isto sim, serem mais exploradas por homens como Mook-Sang. Para onde vai o dinheiro conseguido com os abortos? Diretamente para os bolsos dos homens. Quase todos os médicos que praticam o aborto são homens. Todos os intermediários são homens. Todos os que se enriquecem com o aborto, são homens. Devemos tirar uma lição desta 'coincidência'...

 

Chegamos à clínica do Dr. Mook-Sang e lhe dissemos claramente que queríamos estudar a possibilidade de comprar uma criança por seu intermédio... 'Que tipo de criança têm vocês em mente?', perguntou. 'Exigem que seja inglês? Pode ser de qualquer país da Europa? Tenho atualmente uma jovem que pode querer dar seu filho para ser adotado. É bonita, francesa, e está separada do marido. Veio aqui para interromper a gravidez, mas já está muito adiantada e acho que não vai conseguir. Conversamos ontem sobre o assunto e lhe disse que seria melhor que ela tivesse a criança e a desse para ser adotada. Trato também destes casos. Não é muito freqüente. Tenho uns três ou quatro por ano'.

 

O Dr. Mook-Sang disse que a criança nos custaria mil libras. Os seus honorários seriam duzentas libras e a mãe faria uma operação cesariana. Este foi um dos aspectos mais grosseiros da sua proposta. A moça teria de submeter-se a uma operação cesariana, mesmo que não fosse necessária, para que não sentisse a emoção do parto e possivelmente não se apegasse à criança. Seria uma espécie de garantia para que nada saísse errado na operação financeira" (pp. 40-42).

 

Realmente tais dizeres são de uma significação inacreditável; revelam que a manipulação do ser humano é tranqüilamente negociada e praticada em vista de lucro financeiro; em última análise, o dinheiro e, conseqüentemente, o prestígio que este possa conferir, são colocados muito acima da pessoa humana na escala dos valores dos profissionais em pauta.

 

Aparece no mesmo capítulo a figura da mãe de aluguel ou da mãe incubadora. Esta recebe o feto fecundado no seio da mãe verdadeira e o traz em seu seio durante nove meses, após os quais o gera e devolve a quem lho confiou:

 

"O Dr. Mook-Sang não estava satisfeito de nos impingir somente uma criança. Naturalmente ele viu que poderíamos ser fregueses de mais de uma operação financeira, possivelmente de uma operação por ano. Começou a delinear um plano para uma espécie de 'família comprada' — realmente o planejamento familiar mais extravagante que já vi.

Disse-nos entusiasticamente: 'Depois de conseguirem esta primeira adoção, devem pensar noutra daqui a um ano. Devem ter pelo menos dois filhos. O segundo poderíamos já providenciar, encontrando a moça apropriada para conceber o filho do Sr. Litchfield. Leva tempo encontrar a pessoa certa que queira carregar uma criança durante nove meses, mas pode-se encontrar. É uma idéia digna de ser explorada, porque acho que é melhor do que uma simples adoção.

Se quisermos conseguir uma moça respeitável, que trabalhe em escritório, em Londres, ela irá pedir mais ou menos dez mil libras, muito mais do que uma call-girl. Qualquer uma se submete, dependendo do preço.

Penso que uma call-girl se interessaria por cinco ou seis mil libras, mas uma moça de respeito... teríamos de comprar também a sua moralidade. Por outro lado, se usamos a mulher como incubadora, pouco importa se é call-girl ou moça de bem' " (pp. 45s).

 

Muitos outros dados curiosos e importantes se poderiam colher do primeiro capítulo da obra de Litchfield e Kentish. Passemos, porém, ao capítulo 2.

 

 

4. OS MÉDICOS

 

Os tópicos registrados neste capítulo apresentam a figura corrupta de médicos que vivem da prática do aborto. Esta observação não depõe, em absoluto, contra a dignidade e o valor moral dos médicos em geral, mas põe em evidência — em vista do bem do público — a desonestidade inominável de certos profissionais da medicina; aliás, é preciso reconhecer que em toda e qualquer categoria de seres humanos, por mais idealistas que sejam, há sempre os dignos e honestos (talvez a grande maioria) e os indignos (que, embora menos numerosos, podem contribuir para marcar negativamente a classe, no conceito dos observadores).

 

Eis, por exemplo, a carta que o Dr. Bloom escreveu a seu colega, o Dr. Ashken, a fim de justificar aborto a ser praticado na paciente Susan Kentish (que não estava grávida e que se revelara tranqüila em entrevista anterior, como atesta a gravação da entrevista transcrita no livro):

 

"A paciente, a mais nova de dois filhos, foi mimada e superprotegida quando criança. Seus pais trabalhavam num negócio de que eram proprietários e penso que, talvez em virtude disso, ela sentiu falta de carinho na infância.

 

Há sintomas de alguns distúrbios precoces. Molhava a cama, e na adolescência era tímida, insegura e solitária. Controla as suas emoções, mas sente uma certa tensão íntima.

 

É também obsessiva, o que se revela no fato de ela fumar cinqüenta cigarros por dia e ter mania de perfeição em tudo o que faz. De fato, tem sentimento de culpa, se não consegue a perfeição que deseja. Não tem sentimentos maternais, é uma pessoa emocionalmente imatura e poderia reagir de maneira neurótica a uma gravidez que lhe fosse forçada.

 

Seu marido era filho único, é uma personalidade passiva e neuroticamente dominada por ela. Demonstra um estado de ansiedade reativa e penso que, em tais circunstâncias, estaria de acordo em interromper a gravidez" (pp. 90s).

 

Tal seria o retrato de Susan Kentish, feito a fim de persuadir o Dr. Ashken de que deveria praticar nela o aborto. Comentam os repórteres:

 

"Esta carta é o comentário mais eloqüente que se poderia fazer a tudo isto. Basta ler a transcrição da entrevista com o Dr. Bloom e estudar a sua carta, para se dar conta imediatamente da farsa.

A importância da transcrição da entrevista com o Dr. Bloom está no fato, que não deixa lugar à menor dúvida de que existe um negócio organizado de aborto sob encomenda. Ninguém poderia negar o fato de que as respostas de Susan revelavam uma pessoa adulta, completamente normal e equilibrada. Se ela tinha motivos justos para fazer um aborto em conseqüência dessa entrevista, então não existe nenhuma mulher apta a ter um filho. O Dr. Bloom simplesmente perguntou se queríamos ou não um filho. Dizer que não queremos um filho e fazer um aborto baseado neste motivo é um aborto sob encomenda. Os médicos devem estabelecer, independentemente da vontade da mãe, se é prejudicial ou não para ela ter um filho...

Pedimos, não com muita insistência, quase tacitamente, um aborto para Susan, e este aborto foi assinado e selado sem a menor dificuldade. Bastou uma pequena quantidade de notas sujas de libras. Nada mais..." (p. 91).

 

Este texto pode deixar o leitor perplexo e interrogativo. Todavia o livro prossegue...

Um dos capítulos mais impressionantes da obra em foco é o de n. 4, que passamos a examinar.

 

 

5. BEBÊS PARA FÁBRICAS DE SABÃO

 

Em suas investigações a respeito do aborto na Inglaterra, os dois jornalistas Litchfield e Kentish vieram a saber algo que jamais haviam imaginado: existiam (e existem?) médicos que vendiam (vendem?) fetos para fábricas de produtos químicos, a fim de servirem à confecção de sabão e cosméticos, visto que a gordura natural é a mais recomendável para tais fins.

Eis o depoimento de um médico da Harley Street:

 

"Há um ginecologista aqui em Harley Street, bem pertinho, que... o Sr. vai achar difícil de acreditar porque é revoltante..., que vende fetos para uma fábrica de produtos químicos, e eles fazem sabão e cosméticos... e pagam-lhe muito bem pelos bebês, porque a gordura animal vale ouro no ramo deles..." (p. 150).

 

A este depoimento os repórteres fazem o seguinte comentário:

 

"Tínhamos chegado a um ponto em que acreditávamos que nada mais nos poderia chocar na indústria do aborto na Inglaterra. Estávamos enganados. Todas as vezes que pensávamos que já estávamos insensíveis à náusea, por saturação, acontecia-nos uma nova experiência, mais repelente, que revirava novamente o nosso estômago e reacendia a vergonha que nos acabrunhava de pertencer a uma sociedade que dera largas a tal degradação, a tal corrupção.

O médico consentiu em dar-nos a identidade do ginecologista envolvido na venda de bebês para os fabricantes de sabão. É evidente que o tal ginecologista nunca teria admitido abertamente suas atividades truculentas, sub-humanas e subanimais. Então combinamos conversar com ele como uma firma concorrente e fazer uma contra-proposta para os fetos. E o fizemos" (p. 150).

 

A fim de se assegurar da veracidade da noticia, Litchfield fez-se realmente de representante de uma firma concorrente com aquela a quem o Dr. N.N. fornecia os fetos extraídos e dispôs-se a fazer a este uma proposta comercial mais vantajosa. Eis tópicos do diálogo que se travou entre Litchfield e o médico em questão:

 

"O Dr. N.N., tendo mostrado uma carta a Litchfield, disse-lhe: 'Esta carta é do Ministério da Saúde', e fez uma expressão de aborrecimento. 'Aqui dizem eles que devemos incinerar os fetos,... que não devemos vendê-los para coisa alguma... nem mesmo para pesquisa científica. Este é o problema. Está vendo?'

'Mas o Sr. já vende os seus fetos para uma fábrica de cosméticos... ', disse Litchfield.

'O Sr. é que está dizendo... Não estou dizendo que sim, nem estou dizendo que não... Veja, desejo colaborar, mas é difícil. Temos que observar a lei.

As pessoas que moram nas vizinhanças da minha clínica, têm-se queixado do cheiro de carne humana queimada. O cheiro sai do incinerador. Não é propriamente um cheiro agradável. Dizem que cheira como um campo de extermínio nazista durante a última guerra. Não sei como eles podem saber o cheiro de um campo de extermínio nazista, mas não quero discutir o fato. Portanto, estou sempre procurando maneira de me livrar dos fetos sem precisar de queimá-los.

Veja, encaminhá-los para a pesquisa científica não é rendoso. Trata-se de ver se vale a pena... e desfazer-me deles sem violar a lei'.

 

'Então como é que o Sr. faz com a firma do East End de Londres?'

 

'Bem, agora... o Sr. entende... gostaria de não saber oficialmente do que se passa... com os fetos. Quanto eu saiba, eles são preparados para o incinerador, e depois desaparecem. Não sei o que lhes acontece. Desaparecem. O Sr. tem de arranjar um furgão ([2]), ou uma caminhonete, ou coisa semelhante, que deve carregar pela porta dos fundos. Quanto à hora e outros pormenores, fixaremos depois. Tudo depende naturalmente de entrarmos em acordo. Existe naturalmente o lado financeiro... não é verdade? Qual é a sua oferta?'

 

'Por quanto o Sr. está vendendo?'

 

'Veja, tenho alguns bebês muito grandes. É uma pena jogá-los no incinerador, quando se podia fazer um uso muito melhor deles. Fazemos muitos abortos tardios. Somos especialistas nisto. Faço aborto que os outros médicos nunca fariam. Faço-os com sete meses, sem hesitar. A lei diz vinte e oito semanas. É o limite legal. Porém, é impossível determinar a fase em que foi feito o aborto quando a criança é incinerada. Por isso não importa o período em que se faz o aborto. Se a mãe está pronta para correr o risco, eu estou pronto para fazer o aborto.

Muitos dos bebês que tiro, já estão totalmente formados e vivem ainda um pouco, antes de serem eliminados. Uma manhã havia quatro deles, um ao lado do outro, chorando como desesperados. Não tive tempo de matá-los ali na hora, porque tinha muito que fazer. Era uma pena jogá-los no incinerador, porque eles tinham muita gordura animal que podia ser comercializada.

 

Naquele ponto, se tivessem sido colocados numa incubadora, poderiam sobreviver, mas na minha clínica eu não possuo essa espécie de facilidades. O nosso negócio é pôr fim a vidas e não ajudá-las a começar.

 

Não sou uma pessoa cruel. Sou realista. Se sou pago para fazer um trabalho e se o trabalho é livrar uma mulher de um bebê, então não estaria desempenhando o meu papel se deixasse que o bebê vivesse, embora o mantenha vivo cerca de meia-hora. Tenho alguns problemas com as enfermeiras. Muitas delas desmaiam no primeiro dia. Temos sempre muita rotatividade em nosso pessoal. As alemãs, muitas vezes, são boas. Não são uma raça de gente sentimental. As inglesas têm tendência — mas nem sempre — a serem sentimentais.

 

Hitler pode ter sido inimigo deste país, mas nem tudo a respeito de sua política era mau. Ele tinha algumas idéias e filosofia muito progressistas. A seletividade da vida sempre teve grande fascínio para certos elementos do mundo médico. Sempre considerei a possibilidade da reprodução seletiva e da eliminação seletiva. Mas isto é outro assunto... Desculpe aborrecê-lo com as minhas teorias. Acho que o Sr. me julga meio doido, não é? Se o sou, não sou único. Muitos ginecologistas, muitos mesmo, que fazem aborto em Londres e em outras partes da Inglaterra, pensam da mesma maneira que eu. Mas devemos ser homens de ciência e não homens de emoção. Devemos ver através do nevoeiro do sentimentalismo. A vida humana é uma coisa que pode ser controlada, condicionada e destruída como qualquer máquina. O Sr. não é químico, é?'

'Não', respondeu Litchfield.

'É uma pena. Gostaria de falar com o seu químico. O Sr. diz que quer os fetos para fazer sabonetes, cosméticos, mas eles podem ser empregados de maneira muito mais útil'.

'Qual seria a outra utilidade?'

'Acho que não vale a pena falar do assunto com alguém que não é químico. Mas há uma maneira muito especial..., muito proveitosa, muito rendosa... e poderia beneficiar-nos, a nós dois'.

Litchfield prometeu: 'Direi a meu químico que venha falar com o Sr.'

'Sim, por favor. Então poderemos fazer uma espécie de contrato. Será provavelmente uma espécie de contrato entre cavalheiros. Eu fiz assim com a outra firma. Agora, nem uma palavra com ninguém, por favor. Temos que ser muito, muito discretos. Depois falaremos de dinheiro, e os lucros serão mútuos. Seremos amigos? Espero que sim'.

A única resposta apropriada ao que acabáramos de ouvir, era irmos embora o mais depressa possível. Não voltamos lá com o químico. Tínhamos informações suficientes sobre os subterfúgios e a corrupção desse 'homem' " (pp. 150-154).

 

Estas palavras dispensam comentários. Lembram a persistência da filosofia de Adolf Hitler e dos arautos do racismo e do genocídio até nossos dias. Mesmo sem campos de concentração, em sociedade dita "liberal" como a inglesa, se pratica o extermínio do ser humano para satisfazer à ambição de alguns poucos... ambição que não é propriamente política, mas, sim, econômica e lucrativa; o dinheiro é colocado acima da pessoa humana, na escala dos valores! É necessário que o público conheça essa realidade tanto mais nociva quanto mais sorrateira ela é!

 

Passemos ainda a outros capítulos do livro em foco.

 

6. A AGONIA DIÁRIA NA EUROPA E NA AMÉRICA DO NORTE

 

Nos capítulos 5 e 6 do seu livro, Litchfield e Kentish apontam as conseqüências do aborto no psiquismo da mulher que o aceita, e mostram como a triste realidade existente na Inglaterra é também a de outros países da Europa e da América do Norte.

 

Uma jovem inglesa, por exemplo, depois de ter sido submetida a cirurgia abortiva, quis chamar a atenção dos jornalistas para a imprevidência e a falta de preparo das moças e senhoras que pedem o aborto. Deixam-se levar pelo exemplo de outras ou pela propaganda feita pelos interessados, e ignoram por completo as conseqüências traumatizantes que o aborto causa nas respectivas pacientes. São estas as palavras textuais de tal jovem, chamada Yvonne, funcionária de escritório, com vinte e três anos de idade, a qual aos dezoito anos praticou aborto durante um namoro infeliz:

 

"As moças não sabem realmente o que fazem. É tudo tão fácil No meu trabalho, duas moças começaram a falar de ter crianças. Ambas são recém-casadas, têm muitas contas a pagar, usam a pílula, e nenhuma delas planeja ter filhos durante muitos anos. Perguntei a uma delas o que faria se por acaso ficasse grávida e ela respondeu-me simplesmente que não ficaria. Então a outra disse-lhe: ' Mas suponhamos que aconteça; o que é que você fará?' Ela respondeu: 'Faria aborto. Sei onde se faz'.

 

Perguntei-lhe se ela sabia mesmo o que estava fazendo e se sabia das reações emocionais que se seguem a um aborto. Ela respondeu: 'Bobagem, todas fazem abortos. Eu nem duvido!' Então eu lhe disse que o aborto era uma coisa má, que era um assassinato, e ela respondeu: 'Os jornais estão cheios de casos. Naturalmente não é assassinato'.

 

O Sr. está vendo! Nenhuma mulher que não fez aborto, realmente entende o que ele significa. A jovem que sai de um daqueles lugares, pode pensar que não é nada. Pode nada sentir imediatamente ou nos dias que se seguem; mas os efeitos aparecerão, mesmo anos mais tarde. É certo. Os efeitos aparecerão: Não se pode escapar do remorso e da convicção de que o aborto é um assassinato.

 

No meu caso, os efeitos e as conseqüências do aborto se fizeram sentir em ondas: algumas vezes me batiam levemente na consciência, outras vezes quase me afogavam. É algo que não dá para esquecer. O peso da culpa na consciência não desaparece jamais" (p. 163s).

 

Nos Estados Unidos da América, a praxe também é dolorosa e hedionda, à semelhança do que ocorre na Inglaterra. Tal é, por exemplo, o depoimento do Dr. Malcolm Ridley, de Boston (Massachusetts), que os repórteres Litchfield e Kentish contataram na Inglaterra.

 

O Dr. Ridley tinha intermediários que visitavam as senhoras nas Clínicas das Maternidades. Faziam contrato com as gestantes, mediante o qual estas se vendiam para sofrer aborto, em vez de terem o filho em vista do qual haviam sido levadas para a Maternidade:

 

"Às vezes os meus homens tinham de embriagar as mulheres. Eles levavam uma garrafa de uísque consigo. Dávamos dinheiro à maior parte do pessoal da Maternidade, para que os meus homens não tivesse nenhum problema com as enfermeiras.

A única coisa que procuravam obter, era uma assinatura no contrato. Não importava a maneira de conseguir esta assinatura. Assim que eles a conseguiam, avisavam-me. E eu fazia a operação na mesma hora. Não me incomodava se nos pagavam na hora ou depois. Se não recebíamos o dinheiro adiantado, cobrávamos juros, dependendo do tempo que tínhamos de esperar pelo dinheiro. Na América não nos preocupamos muito com os nossos devedores, sobretudo são pessoas casadas que possuem imóveis. Temos cobradores muito eficientes. As pessoas nunca discutem com eles...

Fiz aborto em mulheres que já estavam realmente em trabalho de parto. As contrações já tinham começado e faltavam apenas alguns minutos para a criança nascer naturalmente. O Sr. sabe que a lei americana estatui que o aborto pode ser feito até a hora do parto. Entrei em salas de parto e tirei crianças de mães enquanto seus maridos andavam de um lado para outro, do lado de fora, nos corredores, preocupados em saber se a criança seria menino ou menina. Enquanto seguravam nervosamente um ramalhete de flores e enxugavam o suor da testa, cansados pelo estado de excitação emocional, nós estávamos jogando o seu filho no incinerador. Isto é o resultado da mentalidade abortista. Não se vê a criança de outro modo: ela não passa de uma matéria-prima. Fica-se de tal modo condicionado que a criança se torna um objeto inanimado, um artigo que deve ser negociado, como uma pedra preciosa. Quer-se e faz-se tudo para que não escape.

Naturalmente, tínhamos muitas enfermeiras a nosso serviço, e, assim que uma mulher entrava na Maternidade, começava a propaganda. 'Você sabe, querida, dá muita dor de cabeça educar uma criança, é um trabalho terrível. É muito cansativo e não é bom nem mesmo para a criança...' A mulher fica exposta a este tipo de assalto desde o momento em que entra, e naturalmente este é o momento em que ela é mais vulnerável" (p. 176s).

 

 

Não é necessário extrairmos mais textos do livro de Litchfield e Kentish para se ter uma idéia do que seja a comercialização do aborto na Inglaterra e fora desta; os repórteres que investigaram o fato, atestam ter esta pesquisa implicado uma série de surpresas que estavam longe de imaginar. É para desejar que a experiência de outros países contribua para esclarecer aqueles que propugnam a liberalização do aborto no Brasil. Esta praxe se aproxima dos costumes do nacional-socialismo; vem a ser um tipo de homicídio totalmente injustificado, que é para desejar saibam os homens reconhecer e reprimir oportunamente. É precisamente a reflexão sobre tão doloroso tema que o livro de Michael e Susan contribui para despertar e alimentar!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 



[1] Babies for Burning. The abortion business in Britain. Serpentine Press Ltd., 21 Conduit Street, London 1974, by Michael Litchfield and Susan Kentish.

[2] Carro coberto, para transporte de bagagens ou pequena carga.


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