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Artigo
Pergunte e Responderemos - Bíblia Online Católica

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 347 – abril 1991

Questão sutil:

 

Inteligência e Instinto: Diferenças

 

Em síntese: Os instintos dos animais muito se parecem com as expressões da inteligência, e levam alguns estudiosos a crer que nos viventes inferiores há inteligência, tal é a precisão e o acerto com que se comportam esses animais. Respondemos que os instintos, por mais requintados que sejam, são sempre cegos; o princípio que os concebeu, está fora do animal e não dentro dele, pois este é incapaz de corrigir ou melhorar seus instintos, quando necessário. O animal age certeiramente sem poder dar conta a si mesmo do acerto da sua conduta. No homem existem também instintos;a faculdade-sede dos instintos é chamada a estimativa; esta é incapaz de resolver problemas abstratos, mas visa unicamente a casos concretos e singulares. Se o animal inferior pudesse raciocinar e considerar questões abstratas, poderia melhorar sempre as suas condições de vida, como tem feito o homem através dos tempos.

 

Os estudiosos da evolução dos viventes costumam basear suas teorias sobre diferenças existentes entre fósseis: comparam entre si ossadas, detritos e outros vestígios para fazer a escala ascensional dos seres vivos. Quem assim procede, coloca não raro na mesma categoria de antropóides seres vivos que, embora próximos ao homem (homo sapiens) pelas ossadas, se distinguem essencialmente deste pelas suas manifestações psíquicas. Por conseguinte, não apenas o físico dos viventes há de ser considerado pelos estudiosos da evolução, mas também as suas expressões psíquicas.

 

As tendências, os instintos, a capacidade de conhecimento de certos antropóides serão estudados nas páginas subseqüentes e comparados com a inteligência, para se poder chegar a um reto escalonamento ascensional dos primatas.

 

 

1. Instinto no homem e no animal infra-humano

 

Por "instinto" entendemos a tendência inata, impulsiva e hereditária de um vivente a atingir determinada meta. Sem aprendizagem, os animais se voltam para certos objetivos em termos certeiros e corretos, de modo que, desde os seus primeiros dias de existência, sabem encaminhar-se para o exercício de suas funções vitais e para,a sua autodefesa frente aos empecilhos ou adversários. Assim as aves possuem naturalmente a habilidade para fazer seus ninhos, ... de acordo com o tipo de cada ave: a andorinha segundo um estilo, o pintarroxo segundo outro...

 

Ora o homem é relativamente pobre em instintos. Ele, sem dúvida, possui tendências inatas à autoconservação e à autodefesa, mas a prática dessas tendências não lhe é ensinada pela natureza. Ela a deve aprender. E aprende de duas maneiras: pela imitação dos mais velhos (é o caso das crianças) e pelo raciocínio. Uma criança que cresça com seus pais na sociedade humana, aprenderá o comportamento humano. Acontece, porém, que a criança colocada entre animais infra-humanos aprende a conduta destes. É o que têm verificado os antropólogos.

 

L. Maison, por exemplo, colecionou 52 casos deste último tipo.([1]) De modo especial, é famosa a história (acompanhada por outros pesquisadores)([2]) de duas meninas que cresceram entre lobos na índia (Midnapore) e que em 1920 foram descobertas pelo pastor protestante J.A. Singh. Com efeito; Singh encontrou num covil de lobos duas meninas, da aparente idade de dois e oito anos respectivamente. Retiradas do covil, as duas crianças se comportavam como lobos: cabeça voltada para a frente, língua pendente através dos lábios, respiração semelhante à dos lobos, abrindo os maxilares; fugiam da luz e saíam à noite, lançando urlos repetidos; bebiam lambendo a água; comiam como os lobos e davam saltos com os seus quatro membros. Eram agressivas com os seres humanos e amigas dos cachorrinhos.

 

As duas meninas, às quais foram dados os nomes de Amala e Kamala, foram submetidas a um processo de humanização num Orfanato e acompanhadas pessoalmente pela esposa do pastor Singh. Os seus comportamentos foram sendo observados dia a dia. Amala, após dois meses de permanência no instituto, aprendera a dizer "água"; após o terceiro mês, acostumara-se ao estilo de vida humana; mas sobreviveu apenas um ano, morrendo de nefrite. Mais difícil foi a adaptação de Kamala, que tinha mais idade e, por isto, era menos flexível. Morreu de nefrite também, com dezesseis anos; adquirira um vocabulário de cinqüenta palavras, que lhe permitia exprimir-se à vontade na vida cotidiana; também conseguira humanizar-se corretamente.

 

Outro caso significativo é o do filho Bin da Dra. Biruté Galdikas. Foi educado a sós por sua mãe até os nove meses de idade, tendo as expressões normais de toda criança. A seguir, foi colocado ao lado de uma fêmea de orangotango recém-nascida. Esta, em breve, deu os sinais típicos da sua espécie; então o menino pôs-se a imitá-la nas expressões de sua fisionomia, nos sons que emitia, nas posições corporais que assumia. . . Tentava subir nas árvores, andar de quatro e entendia-se com o animal mediante os gestos espontâneos da espécie orango. Bin viveu assim até os três anos de idade, quando foi colocado em contato com outros meninos; deixou então de imitar a amiga orangotango e assimilou o comportamento de seus novos companheiros.([3])

 

Pergunta-se: por que o homem é tão pobre em condutas espontâneas? Seria isto um sinal de inferioridade em relação aos macacos? — A resposta afirma que se trata, antes, de um sinal de superioridade; essa indeterminação comportamental é condição indispensável para o exercício da liberdade de arbítrio, que faz a grandeza e a dignidade do homem. Se o homem estivesse naturalmente programado para assumir certos comportamentos, não poderia escolher; procederia talvez bem do ponto de vista da habilidade e da técnica, mas não teria criatividade nem teria o mérito do bem moral, que supõe necessariamente a liberdade de arbítrio e a possibilidade de escolher entre o certo e o errado.

 

 

Examinemos agora mais de perto

2. Os instintos dos antropóides

 

Os antropóides, no caso, são os macacos superiores semelhantes ao homem (como diz a denominação). São dotados de instintos bem característicos:

 

1) Linguajar. Já os animais inferiores têm seus sinais para comunicar-se entre si: sons, gestos, secreção de substâncias químicas...

Os antropóides emitem sons aprimorados segundo as diversas circunstâncias. Ao se aproximar uma águia, lançam um grito que provoca a fuga precipitada do bando para debaixo das árvores; quando vai chegando um leopardo, outro som faz que os macacos se refugiem nas cumieiras das árvores; uma serpente que se avizinhe, dá ocasião a outro tipo de grito, que põe os macacos de sobreaviso.

 

Quando um chimpanzé encontra boa presa, emite um brado sonoro. Quando é atacado, berra fortemente. Diante de um perigo, emite um típico sinal de alarme. . . Por conseguinte, os sinais vocálicos são diversos, mas congênitos e fixos uma vez por todas; não há criatividade, que corresponda a situações novas e imprevistas.

 

2) Construção de ninho. Observou-se que o filhote de gorila, nascido e criado em cativeiro, com onze meses de idade, recolhia ramos e folhagens ao anoitecer, para construir o seu ninho, como fazem os animais congêneres em liberdade; isto bem mostra que o aproximar-se da noite suscitava no animal a necessidade de fabricar para si um refúgio segundo uma técnica inata.

 

Há mesmo animais que realizam toda a arte de construir seu ninho, mesmo que não disponham do material devido. Dietrich Heinemann observou no Jardim Zoológico de Munique um orangotango médio, adulto, que executou todos os movimentos de construção de um ninho, recolhendo e arrumando galhos que não existiam senão na sua imaginação.

 

3) Outras técnicas. Os antropóides que vivem em grupos, possuem os instintos próprios de territorialidade e de dominação.

 

Territorialidade. . . Delimitam seus territórios ou seu habitat com sinais particulares. Quando dois bandos diversos se encontram nas proximidades desses limites, geralmente fazem manifestações rumorosas, sem caráter agressivo, e, depois, afastam-se um do outro.

 

O domínio é adquirido mediante exibições espetaculares de habilidade e força: saltos acrobáticos, quebra de ramos, rápida ascensão em árvores, lances de pedra. ..

 

Os deslocamentos de grupo também se desenvolvem segundo regras bem precisas. Caminham sobre os quatro membros, apoiando os pés sobre o seu lado externo e as mãos sobre as juntas dos dedos. Esse tipo de marcha é sempre o mesmo, ainda que os chimpanzés tenham sido criados junto com seres humanos, que caminham eretos.

 

Estes dados evidenciam que os animais mais próximos do homem quanto ao físico, distam deste por suas manifestações psíquicas. O que fazem de certeiro, é realmente admirável, mas a sede da inteligência não está neles, pois não sabem corrigir-se, melhorar e progredir. Procedem cegamente, mesmo quando não há propósito para assim proceder. A inteligência é sempre capaz de rever seu comportamento e compará-lo com os objetivos visados e aperfeiçoá-lo indefinidamente. Ora isto não ocorre entre os irracionais, que hoje se comportam "certeiramente" como há dois mil anos atrás.

 

Existe, porém, quem fale da "inteligência" dos animais. É o que vai merecer nossa consideração.

3. A "inteligência" dos animais

 

O vocábulo "inteligência" é empregado em duplo sentido nos tempos atuais:

 

1) Segundo a filosofia aristotélico-tomista, "inteligência" é a faculdade de:

— abstrair dos objetos concretos, individuais, para formar idéias ou conceitos (a idéia de humanidade, de beleza, de justiça...);

— proferir juízos ("o homem é racional, a pedra é irracional. . .");

— construir silogismos ou raciocínios: "Todo homem é racional. Ora Sócrates é homem. Portanto Sócrates é racional".

 

Assim entendida, a inteligência é uma faculdade espiritual e exclusiva do homem.

 

2) Nos últimos tempos, porém, a palavra "inteligência" tem designado uma faculdade que não tem as propriedades atrás mencionadas, mas resolve alguns problemas simples de índole concreta, recorrendo à intuição (e não ao raciocínio): assim o problema de adaptar-se a novas circunstâncias em emergência, o de repetir experiências úteis, o de preparar instrumentos simples. .. Tal faculdade é chamada pela filosofia escolástica "a estimativa"; na linguagem moderna, é também dita "discernimento", "inteligência análoga", "inteligência espaço-temporal"...

 

Ora existe, sem dúvida, nos animais essa estimativa ou esse discernimento, que não é inteligência propriamente dita, porque não abstrai do concreto ou não formula conceitos universais. Eis alguns exemplos dos mais significativos:

 

— os chimpanzés sabem produzir instrumentos simples. A pesquisadora Profa Jane van Lawick-Goodall passou diversos anos na floresta estudando o comportamento dos chimpanzés; (1) observou, por exemplo, que utilizam caniços adaptados para penetrar nas galerias dos formigueiros e assim sorver as formigas; sabem fabricar uma espécie de esponja, mastigando certas folhas a fim de prender mais quantidade de água nas cavidades das árvores. Verificou-se que um chimpanzé fez uma esponja desse tipo para absorver os últimos resquícios de cérebro que se achavam no crânio de um animal morto. Também os chimpanzés são capazes de usar folhas para limpar a sujeira do seu corpo ou para pensar as suas feridas; podem servir-se de um tronco de árvore oco à guisa de tambor. Também já se observou uma fêmea de chimpanzé que utilizava palitos (raminhos sem folhas) para limpar os dentes de outros animais.

 

(1) J. van Lawick-Goodall, Tool-using and aimed throwing in a Community of freeliving Chimpanzees, in Nature 201 (1964).

 

Os estudiosos têm indagado se os chimpanzés são capazes de produzir um instrumento para poder fabricar outro instrumento. A primeira resposta foi negativa; o pesquisador russo G. Krustov (1970) tentou ensinar a um chimpanzé a fabricação de um simples escudo de madeira mediante uma pedra lascada, e disse nada ter conseguido. Todavia dez anos mais tarde, em 1980, o Prof. J. Kitahara-Frisch julgou poder afirmar a capacidade, dos orangotangos, de fabricar instrumentos simples mediante outros instrumentos.

 

Os chimpanzés se alimentam de animais apreendidos em caça: macacos, antílopes e outros, que geralmente não pesam mais do que dez quilos. O grupo dos caçadores é pouco numeroso; procede por etapas: encalço, captura, ocisão, repartição da presa; esta pode durar algumas horas; cada animal recebe pouco, mas não há agressões mútuas; pedem a sua porção estendendo a mão. São ávidos do cérebro; para recolhê-lo, roem com seus dentes poderosos a ossatura do crânio da presa justamente no ponto em que a coluna vertebral se prende ao cérebro; uma vez feita a abertura suficiente, metem no furo o dedo indicador ou uma folha para retirar a massa cefálica.

 

Hoje em dia os estudiosos reconhecem à estimativa e ao instinto outras manifestações que parecem inteligentes, mas não o são no sentido estrito da palavra: assim a fabricação de cabanas e abrigos, ninhos, teias, galerias, colméias. . . A produção do fogo exige mais do que a estimativa ou o instinto? — Discute-se. Muitos reconhecem ser difícil dizer até que ponto se estendem as capacidades da estimativa. Há certeza, porém, a respeito daquilo que ela não é capaz de produzir: formação de idéias, formulação de juízos, raciocínios ou silogismos, reflexões. . . Estas são manifestações que transcendem a matéria, como dito, e exigem a presença da inteligência no sentido estrito (faculdade imaterial ou espiritual). Tal inteligência, pelo fato de transcender a matéria, não é produto da evolução da matéria preexistente, mas tem sua origem num ato criador de Deus.

 

Estas considerações, às quais outras muitas se poderiam acrescentar, corroboram a afirmação de que entre o homem e os macacos não há apenas uma diferença de "mais" ou de "menos" inteligente, mas há uma distinção essencial, como, aliás, é a distinção entre matéria e espírito. O raciocínio filosófico bem conduzido percebe a diferença entre matéria e espírito, que os sentidos, à primeira vista, nem sempre são capazes de intuir.

 

Na confecção deste artigo muito nos valemos do de Vittorio Marcozzi S.J., L'evoluzione delia Psiche.em La Civiltà Cattolica, no 3370,17/11/1990, pp. 328-336.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] Cf. L. Malson, I ragazzi selvaggi, Milano 1971.

[2] A Singh-R.M. Zing, Wolf Children and Feral Men. New York 1942.

[3] Ver B. Galdikas, Living with the Great Orange Apes, em National Geographic W7 (1980) p. 869.

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