Diversos: Reflexões - Meu Deus, Meu Deus, por que Me Abandonaste ? - por Tradição Católica

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"Meu Deus, por que me abandonastes?"

Por que NSJC disse isso na cruz?
Dá a impressão de fraqueza, de alguém que se desiludiu e perdeu a própria esperança que, em Jesus, devia ser certeza.
A seguir, respostas de diversos católicos:

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Pax!

É um salmo. Ele estava rezando.

Abraços,
Jorge

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O salmo 21 é messiânico, era uma profecia do que aconteceria com o Messias, com o Cristo.

Juliana

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Bom, aproveitando então para falar um pouco mais...

Trazendo a oração para a Cruz, Nosso Senhor nos ensina o seu valor: devemos rezar também na dor, também quando é difícil, também nos momentos de abandono, na hora da morte. Se Deus rezou na Cruz, por que eu não deveria rezar nas cruzes do dia a dia?

A expressão é, portanto, antes de mais nada oração confiante, e não súplica desesperada. Bento XVI, na missa de Quarta-Feira de Cinzas de 2008 à qual tive a incomensurável graça de estar presente, falou algo neste sentido:
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Homilia do Papa Bento XVI

O salmo, como foi dito, é um salmo messiânico, que tem tudo a ver com a Crucificação (p.ex., no v. 9: "Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama". É quase uma paráfrase de "se és Filho de Deus, então desce da Cruz". Sem contar o v. 19, "repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica", cumprido literalmente, et cetera). Nosso Senhor o traz para a Cruz para revelar o cumprimento da profecia.

Ainda, como foi também falado, é possível entender este "abandono" de várias maneiras. Nunca com relação à Pessoa do Verbo, que é a própria Segunda Pessoa da Trindade e, portanto, não é possível (lógico) existir uma separação verdadeira entre uma pessoa e Ela mesma (e nem mesmo entre as Três Pessoas da Trindade, que são todas um único Deus Uno e indivisível). Mas há o aspecto deste sofrimento do pecador (que se afasta de Deus), o qual também Nosso Senhor assumiu; de uma maneira análoga àquela que ele próprio, em certo sentido, "experimentou" o pecado, Ele que é Deus Santíssimo que não pode pecar. "Experimentou", também, o afastamento do pecador de Deus, mesmo sendo Deus.

Isto é Mistério (aliás, junto com a Unidade e Trindade de Deus, a Encarnação, Paixão e Morte do Verbo é o maior Mistério da nossa Fé). No Terceiro Catecismo existe uma pergunta sobre se Nosso Senhor padeceu e morreu como homem ou como Deus, e a resposta é que Ele padeceu e morreu como homem porque, como Deus, não podia padecer nem morrer. Talvez este abandono tenha também a ver com o Mistério da morte de Cristo, uma vez que as duas naturezas - a humana e a divina - coexistem na Pessoa de Cristo e, quando "a natureza humana morre", quem morre é a pessoa inteira... enfim, aqui já divago, mas penso que este singularíssimo evento, de morrer o Filho de Deus, pode ter sido expresso humanamente por Cristo Crucificado através deste "Eli, Eli". Como se a natureza divina tivesse que "se curvar" à humana e, por amor a nós, por despojamento, seguisse-a até à morte que Deus não poderia experimentar (e aqui o abandono).

A propósito, recomendo também a leitura da catena aurea sobre a passagem:
Catena Aurea

Desta última, aliás, retiro particularmente o seguinte trecho de São João Crisóstomo que lança luz sobre um outro aspecto destas palavras de Cristo na Cruz: "[p]or lo tanto habló con las palabras del profeta, dando así testimonio del Antiguo Testamento hasta la última hora".

Enfim, acho que de passagens das Escrituras Sagradas é sempre possível tirar sentidos distintos (embora, obviamente, nunca contraditórios), e neste sentido a citada Catena Aurea é excelente porque lança diversas luzes sobre cada passagem dos Evangelhos analisada sob diversos aspectos. Aliás, só recentemente (na Semana Santa deste ano) eu descobri que a passagem em que Nosso Senhor por três vezes pergunta a São Pedro se este O ama tem um belíssimo e intradutível jogo de palavras entre "agape" e "filios" (absolutamente ausente em todas as traduções para o português que eu conheço, e presente na Vulgata apenas com a diferença entre "diligis me" e "amo te", que eu sinceramente sempre tinha lido "passando por cima")...

Abraços,
Jorge

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Não estou com a referência aqui, mas S. João da Cruz tem uma passagem belíssima explicando esse abandono de Cristo na Cruz.

[]s
J.

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A propósito, Jorge, nesta mesma passagem (Jo 21,15-17), algumas traduções para o português trazem "apascenta minhas ovelhas" na tripla confirmação de Nosso Senhor a S. Pedro. Uma outra alterna "cuida dos meus cordeiros" com "toma conta das minhas ovelhas". Entretanto, a versão Septuaginta (v. versão grega de traz, em grego transliterado, "boske ta arnia mou", "poimaine ta probata mou" e "boske ta probata mou", nos versículos 15, 16 e 17, respectivamente. Esses verbos "boske" e "poimaine" tem um sentido mais amplo que "apascenta" - seria algo como proteger/cuidar e reger/conduzir/governar, respectivamente - verbos que denotam mais claramente a missão petrina.

Abs,
Roberto Jardim.

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Lavio,

Vou responder com a Beata Teresa de Calcutá, que é a autora espiritual que estava estudando recentemente, e que trata muito do abandono da alma.

Primeiro, é preciso ver que o abandono sentido na Cruz já vinha sendo sentido desde o Jardim das Oliveiras; o sofrimento de Cristo foi primeiro espiritual e só então tem manifestação física, ainda no Jardim (no suor de sangue) e em toda a Paixão. Com isso mostra a hierarquia do homem: primeiro a alma, depois o corpo. Cristo sacrifica inicialmente sua Alma Santíssima à Vontade de Deus, para depois sacrificar o Corpo. Aquele que busca seguir a Cristo, deve sacrificar sua alma a Deus pelo desapego e a aceitação de Sua Vontade, e aí estará completamente livre para entregar tudo o mais, inclusive a vida terrena. É por isso que Ele diz: "Temei antes aquele que pode matar a alma, que aquele que pode matar o corpo". Pode-se afirmar com certeza que em toda a Paixão Nosso Senhor esteve em estado de desolação espiritual. Mostra novamente a desolação de sua alma no Calvário, ao afirmar sua Sede. "Tenho sede", explica a Madre Teresa, não é só a sede física, mas a sede de almas; Deus tem sede de almas e sua sede no Calvário é, especialmente, a sensação de abandono a que foi deixado pelos seus filhos, por quem se sacrifica. O Salmo rezado logo após é a afirmação cabal de sua desolação: assumindo os pecados de todos sobre Si mesmo, sente a suprema angústia daqueles que, em pecado, perdem a Graça de Deus; Deus não pode se aproximar do pecado e é um mistério maravilhoso que o Filho, assumindo sobre Si o pecado, sinta-se distante do Pai; assumiu, assim, o pior dos sofrimentos humanos, que não é sofrimento físico, mas a distância de Deus, que no inferno é absoluta. Ademais, explica a Madre Teresa que um copo cheio não pode encher-se novamente; da mesma forma o homem, se está cheio de si, não pode deixar que Deus lhe encha com sua Graça; é preciso ser Nada, aniquilar-se aos pés de Deus, para que Ele sja Tudo em nós; Cristo nos dá o exemplo, aniquilando-se aos pés do Pai, e o abandono é o sentimento que sua Alma Humana interpreta nesta aniquilação.

É um mistério grandioso como Aquele que possui a Divindade unida à Alma e Corpo Humanos possa ter sentido em Sua Alma e Corpo Humanos o abandono da mesma Divindade. Sua contemplação é muito frutuosa para a alma, especialmente para amar o sofrimento e as desolações. A Beata Teresa de Calcutá, que passou quase 50 anos em desolação, sabia muito bem disso e o carisma das suas Missionárias da Caridade é justamente sanar esta Sede de Cristo. Sugiro que leia o livro "Madre Teresa - Venha, Seja Minha Luz", do Pe. Brian Kolodiejchuk.

abçs!
Taiguara Fernandes de Sousa.

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Prezado Jorge,

A hipotese de Jesus se sentir abandonado "como homem" nao convém ser defendida.
Jesus jamais fraquejou, nem como Deus nem como homem. Sentir-se abandonado por Deus ou nao crer na Providencia pode configurar-se em pecado e Jesus jamais pecou, nem quando pendurado no atroz madeiro.

O salmo 22 (corrigindo, 21) por ele evocado e prova de confianca no Pai e nao confissao de duvida diante de situacao aflitiva. A mensagem correta ai sera: ainda que padecendo dor fisica e psicologica no limite da capacidade humana, ainda que diante da incompreensao e crueldade geral, ainda que sofrendo o abandono mesmo daqueles cria estar do Seu lado, Ele permaneceu confiante Naquele que O enviou.

Por isso a Sua vitória é tão contundente.

Victor

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Victor,

Se eu não fui claro peço desculpas, mas penso que há uma diferença muito grande entre "não crer na Providência" e "experimentar o abandono". Não defendo - Deus me livre de semelhante blasfêmia! - a primeira, mas considero a segunda razoável. Note que não estou falando de "desespero" nem de nada do tipo, e sim de sofrimento espiritual. Na esteira do que disse Santo Hilário (apud Catena Aurea já citada):

<<[E]sta queja de quedar abandonado, no es otra cosa que la debilidad propia del que agoniza; y la promesa del paraíso, es el reino de Dios vivo. El que se queja de haber sido abandonado a la hora de la muerte, habla así porque es hombre; pero a la vez tenemos a este mismo que muere ofreciendo que reinará en el paraíso, porque es Dios. No te admire, pues, la humildad de las palabras y las quejas del que es abandonado, y cuando lo vez en la forma de siervo, cree en el escándalo de la cruz.>>

Abraços,
Jorge

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Posso até seber isso , mas eu não conseguiria explicar para você.

Rodrigo Herefeld

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Não. Apesar de não podermos afirmar o que levou Jesus a dizer isso, essas palavras podem indicar que ele reconhecia que Deus havia removido Sua proteção para que a integridade de Seu Filho pudesse ser plenamente testada.

Pode ser também que Jesus disse isso porque queria cumprir o que o Salmo 22,1 (corrigindo, é 21) havia predito a seu respeito. — Mat. 27,46.

Aqui vemos a última agonia dessa situação humana. Vemos Jesus descer às últimas profundezas da situação humana para que não houvesse lugar que tenhamos que ir ao qual Jesus não tenha estado antes.

É evidente que aqueles que escutavam não entendiam. Alguns pensavam que chamava Elias; devem ter sido os judeus. Um dos grandes deuses dos pagãos era o Sol: Hélio. Uma oração ao deus Sol teria começado com "Heli!" e se sugeriu que os soldados podem ter pensado que Jesus clamava ao maior dos deuses pagãos. Seja como for, para os guardas essa exclamação era um mistério.

Mas a questão é a seguinte. Teria sido terrível que Jesus morresse com um grito assim nos lábios; mas não o fez. A narração nos diz que depois de ter dado um grande clamor, entregou o espírito. Esse clamor deixou uma marca nas mentes dos homens. Aparece em cada um dos evangelhos (Mateus 27,50; Marcos 15,37; Lucas 23,46). Mas um deles vai mais longe. João nos diz que Jesus morreu com um grito: “Está consumado!” (João 19,30). Em grego, essa frase se diz em uma só palavra – *Tetelestai *– e o mesmo acontece no aramaico. E essa mesma palavra é a exclamação do vencedor; a do homem que completou sua tarefa; a de quem venceu na luta; a de quem saiu da escuridão à glória da luz e tomou posse da coroa. De maneira que Jesus morreu vitorioso e conquistador, com um grito de triunfo nos lábios.

Emerson de Oliveira

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Prezado Lávio, Salve Maria!

O Jorge lembrou bem, trata-se de um Salmo. Mas creio que se possa tirar outras conclusões. Nosso Senhor, após nos dar tudo, inclusive sua própria vida, desejou sofrer um outro tipo de dor, que é a dor do abandono, da perplexidade. É até paradoxal, já que Ele é Deus.

Muitos homens sofrem "dores" tremendas em provações que não são físicas, mais inteiramente espirituais. Isso faz parte do amadurecimento espiritual. E Nosso Senhor nos mostra que até esse tipo de sofrimento ele aceitou passar para redimir esses homens como nós.

Um cordial abraço.
In Jesu et Maria

Frederico Viotti

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É bem possível que Jesus usasse ocasionalmente o aramaico, como quando falou com a mulher siro-fenícia. (Mr 7,24-30) Certas expressões registradas como usadas por ele são geralmente consideradas de origem aramaica. No entanto, mesmo neste caso é preciso usar de cautela, visto que a classificação dessas expressões como aramaicas não deixa de ser questionável. Por exemplo, as palavras faladas por Jesus enquanto estava pregado na estaca: “Eli, Eli, lama sabactâni?” (Mt 27,46; Mr 15,34), costumam ser consideradas aramaicas, talvez num dialeto galileu. No entanto, *The Interpreter’s Dictionary of the Bible* (O Dicionário Bíblico do Intérprete) diz: “As opiniões estão divididas quanto ao idioma original da declaração e quanto a se o próprio Jesus teria usado de modo mais natural o hebraico ou o aramaico. . . . Há documentos que indicam que uma forma de hebraico, um pouco influenciado pelo aramaico, talvez tenha sido usado na Palestina no primeiro século A.D.” (Editado por G. A. Buttrick, 1962, Vol. 2, p. 86) Na realidade, a transliteração grega dessas palavras, conforme registradas por Mateus e por Marcos, não permite uma identificação positiva do idioma original usado.

Aqui está, pois, o elemento valioso. Jesus passou pelo mais profundo dos abismos e depois irrompeu a luz. Se nós também nos aferramos a Deus, inclusive quando parece que Deus não existe, se reunirmos em forma desesperada e invencível os restos de nossa fé, não há dúvida de que aparecerá a aurora e venceremos. O triunfador é o homem que recusa crer que Deus o esqueceu, mesmo que cada fibra de seu ser sinta que Deus o abandonou. É o homem que jamais deixará que sua fé desapareça, mesmo que sinta que seus últimos apoios desapareceram. É o homem que foi derrotado ao máximo, mas continua aferrando-se a Deus, porque isso foi o que Jesus fez.

Emerson de Oliveira

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Nosso Senhor experimentou o abandono de seu Pai porque naquele momento carregava sobre si os pecados de toda a humanidade (e a conseqüência do pecado é o afastamento da Graça).

Ou estou muito enganado, ou o Papa João Paulo II explicou isso na Salvifici Doloris.

Paz e Bem!
Fabrício Lombardi

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Exatamente. Cristo passou pelo maximo que um ser humano em toda sua constituicao pode passar ao ser privado da Graca neste momento. Ele sentiu o maximo imaginado pela solidao de Deus e, diga-se de passagem, a solidão de Deus é a maior dor que um ser pode sentir (creio que o Inferno tambem e isso, a falta de Deus).

Ensaiemos uma explicação.
Jesus tinha tomado sobre si esta nossa vida. Tinha feito nossa obra e enfrentado nossas tentações e suportado nossas provas. Tinha sofrido tudo o que essa vida podia lhe trazer. Tinha conhecido o fracasso dos amigos, o ódio dos adversários, a malícia dos inimigos. Tinha conhecido a dor mais dilaceradora que a vida pode oferecer. Até este momento tinha passado por todas as experiências da vida, menos uma: não tinha conhecido as conseqüências do pecado. Agora, se algo o pecado faz, é nos separar de Deus. Põe entre nós e Deus uma barreira como uma muralha impossível de escalar. Essa era a única experiência humana pela qual Jesus nunca tinha passado porque era sem pecado. Pode ser que neste momento se abatesse sobre Ele essa experiência. Não porque Ele tivesse pecado, mas sim porque antes que pudesse identificar-se completamente com nossa humanidade tinha que passar por ela. Nesse momento terrível, horrendo, Jesus se identificou real e verdadeiramente com o pecado do homem. Aqui temos o paradoxo divino: Jesus soube o que era ser pecador. Ninguém pode entender uma experiência a não ser que passe por ela. E esta experiência deve ter sido duplamente agônica para Jesus, porque Ele não sabia o que era estar separado de Deus por essa barreira. Por isso é que nos entende tão bem. Por isso é que não temos que ter medo de ir a Ele quando o pecado nos separa de Deus. Porque Ele passou por isso pode ajudar a outros que estejam passando pelo mesmo. Não há profundidade da experiência humana que Cristo não tenha compartilhado e sondado.

(1) Lançou "uma grande voz". Tanto Mateus (27,50) como Lucas (23,46) falam desta grande voz. João não a menciona, mas diz que Jesus morreu depois de dizer “Está consumado”. (João 19,30). Agora, no original isto seria uma só palavra. E essa única palavra foi a grande voz. "Terminado!" Jesus morreu com um grito de triunfo em seus lábios, cumprida sua tarefa, terminada sua obra, obtida sua vitória. Depois da terrível escuridão voltou a luz, e voltou para seu lar, a Deus, vitorioso.

(2) Ali estava o espectador que quis ver se viria Elias. Tinha uma sorte de curiosidade mórbida em face da cruz. A terrível cena não o movia ao assombro ou à reverência, nem sequer à piedade. Queria experimentar enquanto Jesus morria.

(3) Ali estava o centurião. O centurião era um duro soldado romano. Era o equivalente de um sargento maior de nossos dias. Tinha lutado em muitas campanhas e tinha visto morrer a muitos homens, mas nunca tinha visto morrer a ninguém como este homem, e estava seguro de que Jesus era o Filho de Deus. Se Jesus só tivesse vivido e ensinado e curado poderia ter atraído a muitos, mas é a cruz a que fala diretamente ao coração dos homens.

(4) Ali estavam as mulheres à distância. Estavam confundidas, afligidas, sumidas em sua dor, mas estavam ali. Amavam-no tanto que não podiam abandoná-lo. O amor se agarra a Cristo mesmo que o intelecto não possa entender. Só o amor pode nos dar uma união com Cristo que nem mesmo as mais tremendas experiências podem romper.

Há outra coisa para notar. “O véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo”. Trata-se da cortina que encerrava o Lugar Santíssimo, no qual ninguém podia entrar. Simbolicamente isto nos diz duas coisas.

(a) O caminho de volta a Deus ficava agora aberto completamente. No Lugar Santíssimo só podia entrar o sumo sacerdote, e somente uma vez ao ano, no Dia da Expiação. Mas agora o véu estava rasgado, e o caminho para Deus ficava aberto a todos.

(b) No Santíssimo morava a própria essência de Deus. Mas agora, com a morte de Jesus, o véu que ocultava a Deus se rompeu e os homens poderiam ver Deus face a face. Deus já não estava oculto. Os homens já não precisariam conjeturar e tatear.

Emerson de Oliveira

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Prezado Lavio,
Minha contribuicao a sua primeira pergunta:

O salmo 22 (corrigindo, é 21) tem que ser bem interpretado. Ele inicia com uma sentenca (Eli, Eli, lama sabactani) que ao longo do texto vai sendo contraditada. O seu autor, o salmista, utilizou-se simplesmente de uma ferramenta literaria nao pouco usual para quem escreve para imprimir mais vivacidade ao que queria transmitir. Inicia o texto com uma afirmacao para desmancha-la ao longo da peca literaria. Funciona sempre.

Naturalmente que o salmo ja existia na epoca de Jesus, nao e ele o seu autor, ele apenas utiliza-se dele para expressar, principalmente para a posteridade, aquilo que ele sentia naquele momento de extrema agonia. Alias, Jesus utilizou das Escrituras ao longo de seu ministerio para confirmar sua condicao divina e a conformadidade de sua pregacao com os textos sagrados existentes. Foi esta a ultima vez que Ele empregou este recurso de citar textos sagrados para afirmar sua conducao divina.

Agora, vamos entender a situacao fisica de Jesus na cruz: um crucificado sofre um processo de desidratacao intenso e pela sua posicao, ele, crucificado vai perdendo todo o liquido existente no corpo. Parte desse liquido e drenado para o pulmao e por incrivel que pareca, por essa razao, o crucificado morre por afogamento.

Um dos primeiros orgaos a perder liquido e a boca, por isso a lingua se prega ao ceu da boca, como esta descrito no salmo. Isso da uma dificuldade quase intransponivel de falar. Entao, do citado salmo, muito provavelmente, Jesus mal conseguiu pronunciar audivelmente a primeira frase. O resto do salmo sera deducao do evangelhista inspirado pelo Santo Espirito. Tanto e assim que a ultima locucao Dele foi um brado. O brado e gutural, nao e mais fala. Ele, naquela altura, nao conseguia mais articular qualquer palavra. Sobre a causa mortis por afogamento, veja que quando o soldado lanceou-lhe o lado o que saiu? sangue e agua. Muita agua, provavelmente. O livro a ler e: Em Defesa de Cristo, de Lee Strobel.

A mencao do salmo por Jesus, longe de ser uma expressao de descrenca e um vivo testemunho de quem creu no Pai ate o fim. Leia o salmo com atencao e vc percebera. Este salmo e um hino de confianca na Providencia Divina. Foi essa mensagem de Fe que Jesus tentou passar para nos naquela hora extrema.

Victor

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Bom, minha vez...

Ele clama POR NÓS, não por si, e como Ele era perfeito e sem pecado, seria injusto sofrer aquele abandono de Deus que Ele EXPERIMENTAVA ao "tomar sobre si todos os pecados da humanidade" (palavras talvez de JP2, segundo outro participante).
Foi ali, naquele momento, que a redenção se consumou; considero esse o momento crucial em que NSJC apela à justiça divina e obtém a redenção da humanidade. Afinal, seria um paradoxo Deus morrer.
Ele não podia dizer "por que nos abandonaste?" pois nós não teríamos mérito nenhum a somar. Só Ele sim.
A sequência pode ser entendida juntando-se Marcos (ou Mateus) e João.
Após o "meu deus, por que me abandonaste?" (S. Marcos) ocorre o lance do vinagre (Marcos e João) e em seguida " * tudo está consumado *, em Tuas mãos entrego meu espírito" (S. João) e morre.

Ou seja, após o apelo por nós "por que me abandonaste?", ele diz "tudo está consumado" e entrega o espírito tendo cumprido a missão de redentor da humanidade.

Qto ao salmo 21, foi usado para que Ele conseguisse dizer tudo em poucas palavras, citando (com dificuldade) só o seu início mais dramático. Lendo o salmo todo, percebe-se como combina bem com aquele momento, salienta o abandono da humanidade e finaliza prometendo a solução.

:-)
Lávio

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Sobre as palavras de Jesus na cruz (não sou exatamente um especialista, um exegeta). Em geral os comentários dizem ser um grito de angústia, não porém de desespero. Trata-se de uma citação do Salmo 21, 2. Alguns pensam que Jesus deve ter recitado todo o salmo, o qual termina com uma prece confiante, uma certeza jubilosa do triunfo final. É uma queixa, uma oração a Deus. O espírito do salmista é o de uma incondicionada confiança em Deus, ainda que atingido pela maldade humana. Nota-se também que o sentido destas palavras é semelhante a dor no Gethsemani (“Sinto uma tristeza mortal... Prostrado com o rosto no chão, orou assim: - Pai, se é possível, que se afaste de mim esta taça. Mas não se faça a minha vontade, e sim a tua [a versão de S. Lucas é a mais dramática: Apareceu-lhe um anjo do céu que lhe deu forças. E, entrando em agonia, orava m ais intensamente. O suor que corria como gotas de sangue caindo no chão]). Na Bíblia Comentada pelos Dominicanos de Salamanca (BAC) se diz que era a natureza humana de Cristo que deixava expressar a terrível angústia que sentia. Leio também o comentário que faz Wolfgang Trilling, na Coleção “Novo Testamento – Comentário e Mensagem” (volume sobre S. Mateus). São quase duas páginas de comentário. Diz substancialmente o que escrevi acima. “As trevas que por três longas horas cobriram a terra envolveram também a alma de Jesus”. Nas palavras do salmista que Jesus diz podemos vislumbrar a que solidão descamba um homem a quem de repetente se subtrai o próprio Deus. Se Deus resvala, fica o puro nada. E Jesus também foi atingido por essa mais dolorosa experiência da situação humana. Contudo é esta uma oração de confiança, e não de desespero. Em sua maior angústia o orante do salmo 21 brada seu único conso lo e amparo (e cita os versícjulos 7-9 e 12 do salmo). Eis a angústia a desabafar na plangente queixa. Mas queixa suplicante que sabe a quem se dirige, pois só junto dele poderá esperar ajuda (cf. versículos 3-6 do salmo). E termina lembrando que no Evangelho de S. Lucas ao grito, se acrescenta a prece: “´Pai, em suas mãos entrego o meu espírito”. E S. João: “Está consumado”. E Trilling conclui, penso que com razão: “Nada mais sabemos além dos fatos. E convém que aquela morte continue envolta no mistério. Tampouco a compreenderá o homem, como não compreende a ressurreição de Jesus para a vida. Ambos os acontecimentos estão mergulhados no mistério de Deus e só podem ser aceitos em silenciosa obediência”. (Foi bom para mim pensar nisso tudo hoje, uma sexta-feira, em que lembramos, mesmo no Tempo Pascal a Paixão do Senhor).

Dom José (OSB)

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Fonte: grupo Tradição Católica do Yahoo.
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