Hinduísmo-Cristianismo:

 

"O MOMENTO DE CRISTO, A TRILHA DA MEDITAÇÃO"

 

por John Main

 

Em síntese: O livro de John Main propõe aos cristãos um método de meditação que mais se assemelha às técnicas de oração hinduístas do que aos métodos cristãos de oração mental. Supõe, de certo modo, o panteísmo: Deus seria atingível fisicamente mediante a concentração mental; o orante, meditando, se poria na onda de Deus, e entraria em contato com o centro do mundo que é também o centro do homem. O autor recomenda a repetição do mantra Maranathá; proferidas lentamente, estas sílabas desprendem energia, que propicia o estreito contato com a Divindade. Toda a explanação de John Main é acompanhada de textos bíblicos (entendidos dentro do contexto próprio do autor) — o que dá ao leitor a impressão de ter em mãos um livro genuinamente cristão; ora isto é falso. No corpo deste artigo, após publicar breve comentário do livro de J. Main, transmitiremos algumas declarações da Congregação para a Doutrina da Fé relativas à autêntica oração cristã.

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John Main é um monge beneditino que fundou o Priorado Beneditino de Montreal (Canadá). A sua comunidade de monges e leigos cultiva a meditação em pleno centro urbano, procurando irradiar espiritualidade. John Main escreveu um guia simples e prático de meditação intitulado "Moment of Christ. The path of meditation" (Nova Iorque 1986); foi traduzido para o português ([1]) e tem deixado interrogações em seus leitores. Daí a oportunidade do comentário que se segue.

 

 

1. O CONTEÚDO DO LIVRO

 

Pode-se dizer que John Main ensina a prática da meditação baseada na repetição de um mantra, que deve ocorrerem circunstâncias topográficas e corpóreas adequadas. Eis o roteiro proposto:

"Antes de vocês meditarem, às vezes é bom escutar um pouco de música. A música nos ajuda a esquecer as palavras, as idéias e as imagens que antes ocupavam a nossa mente. Quando a música terminar, tentem ficar o mais quietos possível. Sentem-se em posição bem ereta, fechem os olhos suavemente e em seguida, comecem a dizer a sua palavra, o seu mantra, Maranatha, quatro sílabas igualmente acentuadas. Eis tudo o que devemos fazer durante os vinte e cinco ou trinta minutos de nossa meditação.

Não pensem em Deus, nem tentem imaginar Deus, mas simplesmente sejam e estejam na sua presença... Este é o caminho da meditação: ficarmos quietos, concentrados num só ponto, enraizados em Deus" (p.74).

 

A palavra-mantra Maranatha é assim explicada:

"Aconselho que vocês fechem os olhos cuidadosamente e, em seguida, comecem a dizer a sua palavra. A palavra que sugeri que vocês digam, é a palavra Maranatha. É uma palavra aramaica e sua importância reside no fato de que ela é uma das mais antigas orações cristãs que existem, e possui o som correto para introduzir-nos no silêncio e na quietude necessários para a meditação. Aí está tudo. Sentem-se em posição ereta e permaneçam assim sentados. Depois, em meio a uma quietude crescente do corpo e do espírito, digam sua palavra: Ma-ra-na-tha" (p. 20).

Levem-se em conta ainda as seguintes instruções:

 

"A essência da meditação e a arte da meditação consistem simplesmente em aprender a dizer essa palavra, recitá-la, repeti-la desde o começo até o fim da meditação. É muito simples dizê-la assim: Ma-ra-na-tha. Quatro sílabas igualmente acentuadas. A maioria das pessoas dizem a palavra em combinação com sua respiração; isto, porém, não é essencial. A. essência requer que você diga a palavra do princípio ao fim e continue a dizê-la direto ao longo de seu tempo de meditação. A pronúncia deveria ser convenientemente lenta, convenientemente rítmica: Ma-ra-na-tha. E isto é tudo o que é preciso saber para meditar. Você tem uma palavra, você diz a sua palavra e permanece quieto" (pp. 15s).

 

O efeito da repetição do mantra é pôr o indivíduo em harmonia consigo mesmo, com o mundo exterior e com o próprio Deus. Veremos adiante que tal concepção é derivada do panteísmo hinduísta.

O mantra tem um efeito físico semelhante ao do quartzo, que é capaz de captar os sinais de uma emissora de rádio; ele nos põe "na freqüência de Deus". Veja-se a explanação desta concepção às pp. 159s do livro:

 

"Em uma 'encarnação' anterior — isto é, antes de eu me tornar monge — trabalhei no Serviço Regional da Inteligência; e uma das tarefas que tive de desempenhar, foi a de localizar estações de rádio mantidas pelo inimigo. E nós queríamos sintonizar nossos receptores com eles, mas o inimigo era muito esperto e, se eles estivessem operando com uma freqüência de noventa metros, aos oitenta e nove metros emitiam uma onda, um sinal; aos noventa e um enviavam outro. Assim sendo, para sintonizar exatamente com a estação deles, vocês teriam que ter uma capacidade de captação extremamente aguda no seu rádio. Mas nós gostávamos de pensar que éramos tão espertos quanto o inimigo e, quando descobríamos as freqüências em que eles estavam operando, apanhávamos cristais de quartzo e introduzíamos o cristal em nosso receptor. Nosso receptor iria então captar o sinal deles no momento exato e nenhum dos artifícios por eles usados nele poderia interferir.

Eu estava justamente pensando nisto no outro dia, quando me veio a idéia de que o mantra é muito parecido com o cristal de quartzo. O inimigo que todos nós temos que enfrentar, nosso ego, está enviando todos os tipos de sinais contrários sobre a amplitude da onda de Deus e o que nós temos que fazer é captar exatamente a 'freqüência de Deus', ou, pelo menos, o mais exatamente possível.

Como todos vocês sabem por experiência própria, o mantra não é mágico. Não é um truque nem um passe de mágica; e aprender a dizer o seu mantra significa aprender a seguir uma maneira de vida em que tudo em sua vida fica sintonizado com Deus. E por isso, em certo sentido, tudo em sua vida fica sintonizado com o mantra".

 

Quem sintoniza com Deus, pode. chegar à unidade com o Absoluto ou à divinização; cf. p.69.

 

O autor usa freqüentes expressões que sugerem o panteísmo, ou seja, a doutrina de que a Divindade, o mundo e o homem são uma só realidade:

 

"Trata-se da realidade da presença de Jesus dentro de nós. É a realidade da presença do seu Espírito, que habita em nós. A maravilha real da vida cristã é que cada um de nós é chamado a viver desta realidade, a viver da parte eterna do nosso ser. As duas grandes palavras cristãs que se referem a este viver do eterno, são meditação e contemplação...

Temos que tentar proclamar ao mundo que nosso destino é o de sermos assim divinizados, tornando-nos um só com o Espírito de Deus. A divinização é algo que supera totalmente a nossa imaginação e todas as nossas potências de inteligência para compreender" (pp. 68s).

"Na meditação encontramos nosso ponto, nossa posição no cosmo. E, na tradição e na visão cristã da meditação, cada um de nós tem seu lugar único. Podemos descrever este lugar de várias maneiras. Agora quero apenas sugerir que este lugar é encontrado quando um de nós está enraizado em Deus, enraizado no centro de toda a criação, de toda a energia e de todo o poder" (p. 73).

"... percepção que sugere em vocês pelo fato de se acharem em harmonia com vocês mesmos e, gradualmente, em harmonia com toda a criação. A experiência da meditação coloca-os em ressonância com a vida" (p. 137).

"O homem ou a mulher verdadeiramente espiritual é a pessoa que se acha enraizada em si mesma de modo tal que se acha apta a entrar em sintonia com tudo e com todos. A fina/idade plena da peregrinação espiritual consiste em entrar em profunda sintonia consigo mesmo, com o próximo, com o universo e com Deus" (p. 138).

A meditação efetuada de maneira perseverante e sistemática desencadeia no indivíduo uma "energia divina", que o autor caracteriza com ambigüidade:

"As conseqüências ou resultados da meditação são exatamente esta plenitude de vida: harmonia, unidade e energia, uma energia divina que encontramos em nosso coração, em nosso espírito. Esta energia é a energia de toda a criação. Como Jesus nos diz, trata-se da energia que é amor" (p.28).

O livro inteiro de John Main discorre sobre tal temática, repetindo com sinônimos e frases equivalentes as mesmas idéias. Vejamos o que pensar a propósito.

 

 

2. QUE DIZER?

 

2.1. Mantra

 

1. Mantra é vocábulo sânscrito usual na filosofia religiosa e no tantra (uso, trama) do hinduísmo. Etimologicamente, mantra é "instrumento para pensar". Vem a ser uma palavra ou uma fórmula sagrada que provoca uma vibração interna do indivíduo e o põe em contato com a energia esparsa pelo cosmo; produz efeitos de sintonia com o universo. Diz-se que tem poder mágico; é divino como a Divindade que o mantra exprime. A concepção subjacente é que o homem, o mundo e a Divindade constituem uma grande rede de energia; a pessoa deve procurar sintonizar ou colocar-se na onda de Deus para se encontrar com Deus e atingir o seu grande centro: Deus (a Divindade), o centro do universo e o centro da pessoa humana. Já que o mantra confere benefícios e poderes a quem o profere, o mestre sopra no ouvido do discípulo que se inicia, o mantra secreto; assim ele desperta as energias latentes ou shakti do discípulo. O mantra era tido como todo-poderoso em certos grupos hinduístas, como se deduz dos dizeres abaixo:

 

"O universo está sob o poder dos deuses; os deuses estão sob o poder dos mantras; os mantras estão sob o poder dos Brâhmanes; por isto os Brâhmanes são nossos deuses" (Dubois, Hindu Manners and Customs, Oxford 1906, p. 139).

 

Os mantras acompanham todos os ritos religiosos hinduístas; são parte integrante de toda cerimônia doméstica. Assumem variadas formas: às vezes são fórmulas para conjurar a Divindade em que a pessoa acredita ou que é tida como competente para resolver o problema do orante; às vezes têm valor profilático frente a ameaças de males e apotropaico (afugentam calamidades).

 

Como se vê, o mantra está relacionado com energia física, energia cósmica e com concepções panteístas (verdade é que também há resquícios de politeísmo nos livros sagrados do hinduísmo).

O mantra mais famoso são as sílabas om ou aum. Este som é o sim bolo, por excelência, da realidade indiferenciada que está subjacente aos fenômenos ou às aparências deste mundo. Dizem os Upanishad ou livros sagrados do hinduísmo: "Esta sílaba é a coisa suprema" (Katha Upanishad 2,16) ou ainda: "Como as folhas se enfileiram ao longo de um caule, que as perpassa todas, assim também toda palavra se funde no som OM. O som OM é todo este universo" (Chandogya Upanishad 6,23,4).

 

2. Ora quem lê o livro de John Main reconhece, sem dificuldade, que adota as técnicas de meditação hinduístas, centradas sobre o mantra, revestindo-as de vocabulário cristão. Assim o mantra recomendado é Maranatha ("Senhor, vem"; cf. 1Cor 16,22; Ap 22,20), pronunciado distinta e lentamente, estando o corpo na postura exata para que os efeitos físicos correlativos se possam desencadear. O autor cita com certa freqüência a

Bíblia, numa tentativa de mostrar a harmonia da sua teoria com o texto sagrado.

 

Assim no prefácio do livro o monge Laurence Freeman O.S.B. observa: "Há sempre uma citação do Novo Testamento ora no começo ora no fim da palestra" (p. 6). De fato, no começo ou no fim de quase cada capítulo do livro encontra-se uma citação do Novo Testamento: assim à p.24, 2Cor 5,14s; à p.29, Fl 3,8.10s.21-4,1; à p.35, Jo 8,31s; à p.42, Ef 2,17s... Isto dá um colorido cristão às explanações do autor. O prefácio do livro descreve o roteiro de uma sessão de meditação orientada por John Main; a afluência de pessoas interessadas é grande e os resultados são satisfatórios, como dizem os participantes. Todavia a filosofia subjacente a essas técnicas de oração não é cristã, mas panteísta; ela pode produzir paz e bem-estar, porque utiliza recursos (posturas corporais, esvaziamento da mente, repetição de sílabas...) que favorecem o ritmo harmonioso do organismo; também é importante aí o papel da sugestão, que leva o orante a crer que ele "mergulha na infinitude de Deus" (p.140), "sintonizado com o mantra, sintonizado com Deus" (p. 160), "captando exatamente a amplitude da onda de Deus ou a freqüência de Deus" (p.159).

 

Na verdade, a fé cristã ensina que Deus não tem onda, nem precisa de ser captado mediante recursos físicos, pois Deus é incorpóreo ou imaterial. Toda a montagem da meditação de J. Main supõe o conceito panteísta ou hinduísta-budista da Divindade. Falta, no livro deste autor, o embasamento sacramental (Batismo, Eucaristia) para a vida de oração; falta a referência à Páscoa de Cristo como fonte de toda a espiritualidade; falta também a referência ao Espírito Santo, que, como Mestre interior, vai ensinando ao cristão as vias da oração; falta a referência à Igreja como sacramento através do qual Jesus Cristo continua sua obra redentora... Em suma, quem lê o escrito de Main e uma obra clássica de meditação cristã (seja de São João da Cruz, seja de S. Inácio de Loiola, seja de Bérulle, seja de S. Afonso...), não pode deixar de perceber imediatamente a grande diferença de fundo ou de base existente entre aquele e estas. Todavia acontecerá talvez que o leitor, impressionado pelas citações bíblicas e pelo tom religioso das instruções de John Main, não perceba a distância destas frente ao genuíno pensamento cristão. Muito a propósito escreve André Dodin na enciclopédia "Dictionnaire des Religions", coordenada por Paul Poupard, Paris 1984, p. 1081:

 

"A oração interior exige sempre a pobreza e a humildade de espírito e de coração. Sem essas disposições, o Espírito de Deus, o Mestre misterioso que age quando quer e como quer, jamais poderá orientar nossa oração, que é também a sua oração (cf. Rm 8,26s). Somente Ele pode permitir que ouçamos o misterioso apelo que sobe do fundo da alma regenerada: 'Vamos para o PaiV ".

Para melhor se perceber a diferença entre a meditação proposta por John Main e a clássica meditação cristã, digamos em que esta consiste propriamente.

 

2.2. A Meditação Cristã (Católica)

 

A meditação cristã é a reflexão sobre algum ponto do patrimônio da fé, reflexão que mobiliza em certo grau a inteligência (e pode valer-se da memória e da imaginação); tem por objetivo avaliar mais profundamente o significado precioso das verdades reveladas, a fim de que o fiel chegue à oração e à mais íntima união com Deus. Para obter este resultado, o cristão conta com a graça do Senhor, que lhe é concedida sem especiais artifícios de ordem física; compreende-se, porém, que o silêncio exterior e o silêncio interior (no íntimo do orante) sejam condições oportunas para que possa haver reflexão ou meditação e oração. Não há postura física recomendada em particular no roteiro da meditação.

O exercício assim concebido é dito no Antigo Testamento "ruminar"; cf. SI 1,2. Entre os cristãos, este "ruminar" é praticado de preferência sobre o Evangelho e os feitos da Redenção. S. Agostinho (t430) o expõe nos seguintes termos:

 

"Quando tu ouves ou lês, tu comes; quando meditas o que acabas de ouvir ou ler, tu ruminas a fim de ser um animal puro e não um impuro" (Enarratio in Psalmum 36, sermo 3).

 

Este texto supõe que Jesus Cristo seja o alimento da alma, alimento oferecido não só pela Eucaristia, mas também pela palavra bíblica. A reflexão assídua sobre essa Palavra é tida como "ruminação", ruminação que caracteriza os animais puros conforme Lv 11,3 e Dt 14,6. 0 cristão, tendo lido ou ouvido a Palavra de Deus, quer saboreá-la e assimilá-la interiormente para que frutifique em sua vida.

 

A tradição dos monges desenvolveu esta prática, assinalando quatro etapas para a oração cristã:

1)   a leitura do texto sagrado, leitura pausada, feita na presença de Deus, até que o leitor encontre uma frase ou um versículo que o impressione por sua densidade; pare então e passe para

2)   a meditação, procurando aprofundar o que o texto quer dizer; pode usar todas as faculdades da mente (intelecto, imaginação, memória...) para ir ao âmago do que o texto quer dizer; considere quem é Deus que fala e age..., quem é a criatura, objeto da ação de Deus, ... quais as circunstâncias em que tal ou tal ação ocorre segundo o texto sagrado... Estas reflexões devem suscitar o desejo de

3)   oração ou colóquio com Deus... a fim de adorá-Lo, agradecer-Lhe, pedir-Lhe perdão e suplicar-Lhe as graças necessárias para corresponder exatamente à mensagem do Senhor. Por último, o orante se entrega à

4)   contemplação: deixa-se ficar tranqüilo, em silêncio interior, na presença de Deus, saboreando espiritualmente as verdades recordadas e procurando ouvir o que o Senhor tenha a lhe dizer...

 

Estas quatro etapas de oração constituem o que também se chama lectio divina; foram e são muito usuais em ambientes monásticos católicos. Do século XVI em diante, novos métodos de oração, inspirados por escolas de espiritualidade modernas, têm-se propagado entre os fiéis católicos; guardam todos a mesma atitude de pobreza interior, humildade, confiança na graça de Deus, expansão da vida sacramental... São, entre outras,

 

— a escola inaciana, de S. Inácio de Loiola (+1556); os "Exercícios Espirituais" propõem o método das três faculdades da alma, a aplicação dos sentidos, a contemplação dos mistérios (ou da vida terrestre) de Cristo;

— a escola carmelitana e sua prática de meditação;

— a escola dominicana e seus exercícios de oração;

— a escola de S. Francisco de Sales e seu estilo de meditação adaptada à vida do cristão no mundo;

— a escola oratoriana, com seus mestres J.J. Olier e São João Eudes;

— a escola de São João Batista de La Salle, voltada para Religiosos não sacerdotes.

 

Tal é a riqueza da meditação cristã católica, fiel aos grandes princípios da fé e isenta de concepções panteístas.

 

 

3. UMA DECLARAÇÃO OFICIAL DA IGREJA

 

Em vista da tendência de alguns mestres cristãos a adotar métodos e concepções hinduístas de oração, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Carta sobre a Meditação Cristã datada de 15/10/1989; analisa a oração cristã em confronto com a oração hinduísta, mostrando as diferenças existentes entre uma e outra. A fim de mais esclarecer o assunto abordado por John Main, vão, a seguir, transmitidos alguns dos traços mais significativos de tal Carta.

 

Após a Introdução (nos 1-3), tem-se o título

 

II. A Oração Cristã à Luz da Revelação (nos 4-7), onde se lêem as seguintes considerações:

 

No Novo Testamento, a oração é apresentada como obra do Espírito Santo, que ensina aos discípulos toda a verdade, completando a missão de Jesus (cf. 1Cor 2,10; Jo 16,13s). Especialmente o Evangelho segundo São João se presta a alimentar a contemplação do mistério do Verbo Encarnado ou de Deus que se dá ao homem; tal mistério, São Paulo deseja que os fiéis o possam compreender em suas várias dimensões (cf. Ef 3, 18s).

 

Vê-se assim que a oração cristã não é mero esforço da mente e das faculdades do homem para contemplar o Transcendental, mas é dom de Deus. Ela se fundamenta e abastece na revelação que Deus faz de si ao homem,... revelação que tem em Cristo seu ponto culminante. Eis porque a Igreja recomenda a leitura assídua e o aprofundamento da Palavra de Deus. Guiado por este manancial, o cristão não esquecerá que a sua oração decorre sempre dentro da comunhão dos Santos e segundo o espírito da Igreja. O cristão nunca ora isoladamente, mesmo quando está na solidão, mas ora sempre em união com Cristo, no Espírito e em comunhão com todos os Santos, para o bem da Igreja.

 

Segue-se o título III. Maneiras errôneas de rezar (nos 8-12), que observa:

Os erros do passado continuam a tentar o homem contemporâneo. Este por vezes reduz a oração a um estado psíquico ou a uma conquista da mente, que se treina para ampliar as suas faculdades meramente naturais. Há também, em nossos dias, aqueles cristãos que se servem de métodos orientais a fim de se preparar para a contemplação: identificam o Absoluto, concebido pelo budismo, com a Majestade de Deus, que ultrapassa toda realidade finita; assim tendem a um conceito de Deus totalmente desligado das manifestações históricas ou das teofanias do Antigo e do Novo Testamento; negligenciam o mistério da SS. Trindade para "mergulhar no abismo indefinido da divindade" ou no nirvana, em que as noções de eu, tu e ele desaparecem. — Desta maneira tem origem pernicioso sincretismo, pois os seus arautos tendem a fundir o monoteísmo histórico da revelação judeo-cristã com o panteísmo da filosofia hinduísta.

 

O título IV. A Via Cristã para a união com Deus (nos 13-15) afirma que a profunda união com Deus prometida ao cristão leva a um estado que os antigos mestres gregos chamavam "divinização". Esta, porém, nunca extingue a diferença radical existente entre Criador e criatura; o eu humano jamais poderá ser absorvido pelo eu divino, nem mesmo nos estados místicos mais elevados. O "ser outro" não é um mal, pois que ele ocorre entre as três Pessoas Divinas: o Pai não é o Filho, nem o Espírito Santo é o Pai ou o Filho, embora haja uma só Divindade ou uma só natureza divina. Assim entre Deus e nós existe diferença, que não impossibilita uma íntima união. Também pela Eucaristia e os demais sacramentos Cristo nos faz participar da sua vida divina,([2]) sem extinguir a nossa natureza criada.

 

Quem considera estas verdades, descobre com profunda surpresa que, na concepção cristã, se cumprem todas as aspirações existentes nas outras correntes religiosas, sem que o eu pessoal e a sua índole de criatura sejam aniquilados e desapareçam no oceano do Absoluto. A profissão de que Deus é Amor (1Jo 4,8) explica a íntima união ou o intercâmbio e o diálogo entre Deus que ama, e a criatura que é amada. o cristão que recebe o Espírito Santo (o amor existente entre o Pai e o Filho) é feito "filho no Filho" e exclama "Abá, Pai!", participando realmente da vida da SS. Trindade; cf. Rm 8,15-17; Gl 4,6.

 

O título V. Questões de Método (nos 16-25) refere o seguinte:

A maioria das grandes religiões propõe métodos ou caminhos para que o homem chegue a Deus. A Igreja Católica nada rejeita do que haja de verdadeiro e santo nessas normas. Apenas ensina que esses elementos positivos devem ser enquadrados dentro das linhas doutrinárias da fé católica, que é monoteísta, e não panteísta.([3]) De modo especial, a procura de um mestre espiritual (guru, dizem os hinduístas) é algo de comum a todas as correntes religiosas; o Catolicismo muito preza essa figura, desde que ela ensine ao discípulo o "sentir com a Igreja" e a descoberta dos dons do Espírito Santo no seio da S. Mãe Igreja...

 

Por conseguinte, o grande perigo que ameaça o orante concentrado em si segundo as normas do hinduísmo, é precisamente o de "permanecer em si", como se o homem fosse uma centelha da Divindade encerrada na corporeidade. O grande mestre S. Agostinho diz a propósito: Se queres encontrar a Deus, abandona o mundo exterior, e entra em ti. Mas não permaneças em ti; ultrapassa-te, pois tu não és Deus; Ele é maior do que tu; "Deus intimior intimo meo, et superior summo meo (Deus me é mais íntimo do que o que tenho de mais íntimo e está acima do que tenho de mais elevado", Confissões 3,6,11). Deus está conosco e em nós, mas Ele nos transcende em seu mistério. Ademais ninguém se purifica das paixões nem se aproxima de Deus a não ser por dom do próprio Deus. Este dom se concretiza, por excelência, em Jesus Cristo, cujo Espírito Santo nos move interiormente para participar da vida trinitária...

 

Os mestres apresentam a vida unitiva ou a experiência de Deus decorrente da íntima união com Ele. É chamada experiência mística, pois está associada aos santos mistérios ou aos sacramentos como fruto destes no cristão fiel. Trata-se de um conhecimento de Deus derivado não da aplicação dos sentidos nem do raciocínio, mas da afinidade ou conaturalidade do cristão com o Senhor Deus. Quem muito ama a Deus, tem o olhar da mente aguçado para intuir a Deus de maneira mais clara e profunda.

 

O progresso na vida espiritual requer recolhimento e silêncio, sem dúvida; exige aplicação das faculdades (inteligência, vontade, memória, imaginação...), mas não se pode dizer que seja fruto de alguma técnica ou da arte humana de conquistar o mistério de Deus; é um dom de Deus, concedido gratuitamente, cujo beneficiário se sentirá sempre indigno.

 

A benignidade de Deus pode conceder graças especiais de oração e união a certos fiéis como, por exemplo, os fundadores de Ordens e Congregações Religiosas dentro da Igreja; São Francisco de Assis foi certamente um desses grandes favorecidos, que deixaram um testemunho eloqüente de vida mística. Ê de notar, porém, que as graças de Deus são algo de muito pessoal; não há necessidade de que as gerações de fiéis subseqüentes as reproduzam e imitem estritamente. 0 Espírito Santo age em cada cristão como bem lhe apraz ou com suma liberdade.

 

O título VI. Métodos Psicofísicos e Corporais (nos 26-28) assim pode ser sintetizado:

 

A experiência ensina que a posição e as atitudes do corpo têm influência no recolhimento e no funcionamento do espírito. Isto levou autores cristãos tanto do Ocidente como do Oriente a aconselhar determinadas posturas corporais que visam a facilitar a meditação: sentar-se ou prostrar-se no chão, ritmar a respiração, olhar um ponto fixo, acompanhar as pulsações do coração... Tais recursos podem ser válidos, mas sempre terão utilidade relativa; seria errôneo identificar a união com Deus com uma possível euforia resultante de exercícios físicos. A perfeição espiritual é, antes do mais, graça de Deus, que o homem pede e deve pedir, mas que ele jamais conseguirá produzir ou atingir por sua habilidade ou seu atletismo espiritual; o empenho fiel e generoso da criatura é indispensável, sim, mas apenas para criar um clima no qual o Espírito Santo possa agir livremente.([4])

 

Em particular, a oração de Jesus ("Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim"), repetida segundo o ritmo natural da respiração, pode ser um espécime de combinação profícua da mente e do corpo. Tal prática é muito cara aos orientais. É preciso lembrar, porém, que cada indivíduo tem sua personalidade própria: uns precisam mais, outros menos... do apoio do corpo, dos sentidos e dos símbolos..., de modo que não se devem absolutizar esses subsídios corporais para a vida de oração.

 

Merece especial atenção a advertência contida no § 28 da Carta em pauta:

"Certos exercícios produzem automaticamente sensações de paz e de distensão, sentimentos gratificantes ou até fenômenos de luz e calor semelhantes ao bem-estar espiritual. Considerá-las como autênticas consolações do Espírito Santo seria uma forma totalmente errônea de conceber o progresso espiritual. Não devem ser identificadas com a experiência mística se a vida moral da pessoa interessada não está à altura devida; tal identificação viria a ser uma espécie de esquizofrenia mental, que poderia levar até a perturbações psíquicas e, por vezes, a aberrações morais".

 

O texto chama a atenção para o risco de auto-ilusão ocorrente quando o orante dá excessivo valor a sentimentos, estados psicológicos, imagens mentais na sua vida de oração; pode chegar a confundir sintomas doentios ou psicopatológicos com experiência mística, revelações divinas, aparições...; desta maneira entra por um caminho tortuoso em que as doenças mentais são alimentadas por falsas concepções religiosas.

 

Entre as práticas corporais classicamente recomendadas pelos mestres espirituais, está o jejum. Este liberta o cristão de suas paixões, tornando-o mais disponível para Deus e para o serviço do próximo.

 

Sob o título VII. "Eu sou o Caminho" (nos 29-31) está dito a guisa de fecho:

 

Na rica variedade de maneiras de rezar que a Igreja reconhece, cada cristão poderá e deverá descobrir o seu modo próprio de caminhar para Deus. É certo, porém, que todas as vias particulares convergem para esse grande caminho de acesso ao Pai que é Jesus Cristo. Daí a necessidade de que cada orante subordine suas preferências pessoais de oração ao Modelo e à Escola de Jesus Cristo, Escola da qual o Espírito Santo é o Mestre interior.

 

Eis as palavras finais, literalmente transcritas:

 

"O amor de Deus, único objeto da contemplação cristã, é uma realidade de que ninguém se pode apoderar por algum método ou técnica; ao contrário, devemos ter sempre o olhar fixo sobre Jesus Cristo, através de quem o amor de Deus chegou até nós... Por conseguinte, havemos de deixar que Deus decida a maneira pela qual Ele nos fará participar do seu amor. Mas nunca poderemos procurar colocar-nos no mesmo nível do objeto contemplado ou do livre amor de Deus, nem mesmo quando nos é dado gratuitamente em Cristo um reflexo sensível desse amor divino e nos sentimos como que atraídos pela verdade, a bondade e a beleza do Senhor.

 

Quanto mais é dado a uma criatura aproximar-se de Deus, tanto mais cresce nela a reverência frente ao Deus três vezes Santo. Compreendemos assim a palavra de S. Agostinho: 'Tu podes chamar-me amigo, mas eu me reconheço servidor' (Enarr. in Psalmum 142,6)."

 

 

4. CONCLUSÃO

 

A fé cristã é estritamente monoteísta (existe um só Deus, que é distinto do homem e do mundo, pois é o Seu Criador). Todavia as novas correntes têm em comum a concepção de que orar é uma questão de métodos e técnicas: bem aplicados, permitem ao orante obter o que ele quer.

Pois bem. Tal concepção é incompatível com a mensagem cristã. Esta diz que a oração é dom de Deus; ninguém ora unicamente por suas próprias forças ou habilidade. É claro, porém, que Deus requer a mobilização das faculdades do homem, o silêncio, o recolhimento, a leitura de livros sagrados...; mas todo este esforço humano é sustentado pela graça e a sua eficácia depende tão somente da benignidade de Deus, que nunca pode ser forçada pelas artes humanas. 0 cristão ora como filho na presença do Pai, e não como arteiro, que se pode gloriar de conseguir maravilhas.

 

A mística oriental seduz por suas belas fórmulas, por seu ritual e seu simbolismo; ela aviva no homem a consciência do Absoluto... A Psicologia moderna desvenda ao homem possibilidades de se condicionar, que o habilitam a efeitos inesperados. Mas nada disso se pode confundir com a mensagem cristã, que é de humildade e confiança filiais diante de Deus. Nenhuma prece é inútil ou perdida se feita por Cristo ou em nome de Jesus (cf. Jo 15,16; 16,23s), não, porém, para fazer Deus obedecer ao homem e, sim, para fazer que o homem colabore com Deus na realização do plano do Senhor sobre a história e a humanidade.

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Sirácida ou Eclesiástico, por Ney Brasil Pereira. Série "Comentário Bíblico do Antigo Testamento". Ed. Vozes (Petrópolis), Editora Sinodal (São Leopoldo), Imprensa Metodista (São Bernardo do Campo) 1992, 135x210 mm, 252 pp.

 

O Pe. Ney B. Pereira é conceituado mestre de S. Escritura. Apresenta Introdução e Comentário ao Eclesiástico ou ao Livro da Sabedoria de Jesus, filho de Sirac, pondo em relevo "a cosmovisão de um sábio judeu no final do Antigo Testamento e sua relevância hoje". Procede com muita clareza, de modo a tornar interessante e significativa essa obra pré-cristã. O autor do comentário mostra que o Sirácida soube ser fiel à Lei de Moisés e às tradições de Israel, mas também reconheceu valores humanos fora do povo eleito. Em grande parte por causa deste equilíbrio, a Igreja desde cedo muito estimou tal obra, entregando-a aos catecúmenos como primeiro manual de introdução à mensagem revelada; daí o nome de Eclesiástico (= Livro da Igreja) que tal obra mereceu. — Muito se recomenda a leitura deste trabalho exegético.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt



[1] John Main, O Momento de Cristo. A Trilha da Meditação. Tradução de I.F.L. Ferreira. - Ed. Paulinas, São Paulo 1992, 120 x 200 mm, 162 pp. -Prefácio de Laurence Freeman O.S.B., monge beneditino de Montreal (Canadá).

[2] É o Apóstolo quem diz: "Vivo eu, não eu; é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20).

[3] Praticamente isto quer dizer, entre outras coisas, o seguinte: é oportuno fazer o silêncio interior e praticar a ascese corporal. O budista o pratica para libertar a centelha divina que ele diz trazer dentro de si, diminuída ou apoucada pela matéria do corpo. O cristão, ao contrário, o fará para purificar os afetos sensíveis e harmonizá-los com os anseios superiores ou espirituais que ele traz em si.

O budismo professa uma antítese entre matéria e espírito; o Cristianismo, ao invés, embora reconheça tendências diversas da carne e do espírito, sabe que ambos são criaturas do mesmo Deus bom e que devem ser harmonizadas entre si pela renúncia às paixões desregradas.

Algo de semelhante se dá com a Yoga: pode ser praticada em perspectiva panteísta (para libertar a centelha divina ou a alma humana encarcerada no corpo) ou em atitude cristã (para tender à harmonia de corpo e alma entre si).

[4] Falando a rigor, a produção desse clima para que o Espírito Santo possa agir não deixa de ser também ela uma graça do Espírito.


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